sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

Documento sobre a peregrinação

Além da carta do Papa João Paulo II sobre a peregrinação aos lugares da história da salvação, no contexto da preparação para o Grande Jubileu do ano 2000, o Pontifício Conselho para os Migrantes e Itinerantes publicou um documento sobre a peregrinação em sentido mais amplo, refletindo sobre seus fundamentos teológicos (cap. 1-2), eclesiológicos (cap. 3-4) e antropológicos (cap. 5), além de apresentar algumas indicações pastorais (cap. 6).

Segue o documento na íntegra:

Pontifício Conselho para a Pastoral dos Migrantes e Itinerantes
A Peregrinação no Grande Jubileu do ano 2000

Introdução
1. “Diante de Vós, não passamos de estrangeiros e peregrinos, como todos os nossos pais” [1]. As palavras do rei Davi na presença do Senhor traçam o perfil humano não só do homem bíblico, mas também de toda a criatura humana. O “caminho”, de fato, é um símbolo da existência que se expressa numa multíplice gama de ações como a partida e o regresso, a entrada e a saída, a subida e a descida, o caminho e a paragem. Apenas faz o seu ingresso no cenário do mundo, o homem caminha buscando sempre novas metas, observando o horizonte terreno e tendendo para o infinito: navega por rios e mares, sobe às montanhas sagradas, em cujo ápice a terra atinge idealmente o céu, percorre inclusive o tempo assinalando-o com datas santas, sente o nascimento como um ingresso no mundo e a morte como uma saída para entrar no seio da terra ou para ser levado às regiões divinas.
2. A peregrinação, que se faz sinal da condição dos discípulos de Cristo neste mundo [2], sempre ocupou um lugar importante na vida do cristão.
Ao longo da história, o cristão pôs-se em caminho para celebrar a sua fé nos lugares que indicam a memória do Senhor ou daqueles que representam momentos importantes da história da Igreja. Aproximou-se dos santuários que honram a Mãe de Deus e daqueles que mantêm vivo o exemplo dos Santos. A sua peregrinação foi processo de conversão, anseio de intimidade com Deus e súplica confiante pelas suas necessidades materiais. Em todos e cada um dos seus múltiplos aspectos, a peregrinação foi para a Igreja sempre um maravilhoso dom de graça.
Na sociedade contemporânea, caracterizada por uma intensa mobilidade, a peregrinação está a experimentar um novo impulso. Para propor uma resposta adequada a esta realidade, a pastoral da peregrinação deve dispor de uma clara fundamentação teológica, que a justifique, desenvolvendo uma prática convincente e contínua no contexto da pastoral geral. É preciso ter presente, antes de tudo, que a evangelização é a razão última por que a Igreja propõe e encoraja a peregrinação, a fim de torná-la uma profunda e amadurecida experiência de fé [3]. 
3. Com as reflexões deste documento deseja-se oferecer uma ajuda a todos os peregrinos e aos responsáveis pastorais das peregrinações, para que, à luz da Palavra de Deus e da tradição secular da Igreja, todos possam participar de maneira mais plena das graças espirituais do exercício da peregrinação.

I. A peregrinação de Israel
4. Desde o início, segundo o ensinamento da Sagrada Escritura, e depois ao longo dos milênios, pode-se reconhecer uma peregrinação adâmica: as suas etapas são a saída das mãos do Criador, o ingresso no mundo criado e o vaguear sucessivo sem meta, longe do jardim do Éden [4]. A peregrinação de Adão desde a chamada a caminhar com Deus até à desobediência e à esperança de salvação revela a plena liberdade de que ele foi dotado pelo Criador. Ao mesmo tempo, dá a conhecer o compromisso divino de caminhar ao lado dele e de velar sobre os seus passos.
À primeira vista, a peregrinação de Adão parece um desvio da meta do lugar santo, o jardim do Éden. Mas também este percurso se pode transformar em caminho de conversão e de retorno. Sobre Caim errante vela a presença amorosa de Deus, que o segue e o protege [5]. “Vós conheceis os caminhos do meu exílio - canta o Salmo 56,9 -, recolhestes as minhas lágrimas no vosso odre; não está tudo escrito no vosso livro?”. A seguir a estrada do abandono do filho pródigo no pecado está o pai pródigo no amor. Por esta atração divina todo o caminho equivocado pode transformar-se, para cada homem, no itinerário do regresso e do abraço [6]. Assim, pois, existe uma história universal de peregrinação, que abarca uma etapa obscura, “o caminho das trevas” [7], a via tortuosa [8]. Mas também o retorno-conversão no caminho da vida [9], da justiça e da paz [10], da verdade e da fidelidade [11], da perfeição e da integridade [12].
5. A peregrinação abraâmica, pelo contrário, é o paradigma da própria história da salvação, à qual o crente adere. Na linguagem com que é descrita (“sai da tua terra”), nas etapas do seu itinerário e nas relações vividas, é já êxodo de salvação, antecipação ideal do êxodo do povo inteiro. Abraão, ao deixar a sua terra, a sua pátria e a casa paterna [13], põe-se em caminho, com fé e esperança, rumo ao horizonte que o Senhor lhe indicou, como nos recorda a Carta aos Hebreus: “Pela fé, Abraão, ao ser chamado, obedeceu e partiu para uma terra, que havia de receber por herança e partiu sem saber para onde ia. Foi pela fé que se estabeleceu na terra prometida, como numa terra estrangeira, habitando em tendas, assim como Isaac e Jacó, os co-herdeiros da mesma promessa, pois esperavam a cidade assentada sobre sólidos fundamentos, cujo arquiteto e construtor é Deus (...) Foi na fé que todos morreram, sem terem obtido as coisas prometidas. Somente as viram e as saudaram de longe, confessando que eram estrangeiros e peregrinos sobre a terra” [14]. Não sem razão o mesmo patriarca se definirá “um estrangeiro e um hóspede” [15], inclusive na terra prometida, como o serão depois os seus filhos Ismael [16] e Jacó, estrangeiro em Padan-Aram [17] e no Egito [18].



6. É da terra dos faraós que se desenvolverá a grande peregrinação do êxodo. As suas etapas, como a saída, o caminho pelo deserto, a prova, as tentações, o pecado, a entrada na terra prometida, tornam-se o modelo exemplar da própria história da salvação [19], que não só inclui os dons da liberdade, da Revelação no Sinai e da comunhão divina, expressos na Páscoa (“passagem”) e na oferta do maná, da água, das codornizes, mas também a infidelidade, a idolatria e a tentação de retornar à escravidão.
O êxodo adquire um valor permanente, é um “memorial” sempre vivo, que se repropõe também no retorno do exílio da Babilônia, cantado pelo Segundo Isaías como um novo êxodo [20], que Israel celebra em cada Páscoa e que no livro da Sabedoria se transforma em representação escatológica [21]. A meta última é, na realidade, a terra prometida da plena comunhão com Deus numa criação renovada [22].
O Senhor mesmo Se faz peregrino com o Seu povo: “O Senhor, teu Deus, te abençoou em todas as tuas empresas e vigiou a tua marcha através deste imenso deserto. Há quarenta anos que o Senhor, teu Deus, está contigo, e nada te faltou” [23], “Ele nos guardou ao longo do caminho que percorremos” [24]. Ele, de fato, recorda-se com saudade “da fidelidade no tempo da tua mocidade, do amor dos teus esponsais, quando Me seguias no deserto, naquela terra que se não semeia” [25]. Por ser radical qualidade de peregrino, ao povo bíblico é ordenado: “Não maltratarás o estrangeiro e não o oprimirás, porque também foste estrangeiro no Egito” [26]; ou melhor: “Vós, que fostes estrangeiros no país do Egito, amai o estrangeiro” [27].
7. Aquele que faz oração apresenta-se, então, diante de Deus como hóspede e forasteiro [28]. Os salmos, redigidos ao longo do arco milenário da história de Israel, atestam, precisamente na oração, a consciência histórica e teológica do peregrinar da comunidade e de cada indivíduo. E é precisamente através da peregrinação cultual a Sião, que o fato de ser estrangeiro na própria pátria [29] se transforma num sinal de esperança. A “ascensão”, que nas três grandes solenidades da Páscoa, das Semanas e das Tendas [30] conduz Israel até ao monte Sinai entre hinos de alegria (os “cânticos das ascensões”) [31], converte-se em experiência de estabilidade, de confiança e de renovado empenho de viver no temor de Deus [32] e na justiça. Fundadas sobre a pedra do templo de Jerusalém, símbolo do Senhor, “rocha” que não vacila [33], as tribos de Israel celebram o nome do Senhor [34], no culto entram em comunhão com Ele, hospedando-se na tenda do Seu santuário e morando no Seu santo monte, encontrando uma salvação indestrutível [35] e uma plenitude de vida e de paz [36]. Por isso, “felizes os que habitam em Vossa casa, sempre Vos hão de louvar. Felizes os que em Vós têm a sua força, que têm a peito as peregrinações” [37]. “Levantai-vos! subamos a Sião, ao Senhor, nosso Deus” [38].
8. Ao povo de Deus vítima da desilusão, entorpecido pela infidelidade, os profetas indicam de igual modo uma peregrinação messiânica de redenção, aberta também ao horizonte escatológico em que todos os povos da terra confluirão para Sião, lugar da Palavra divina, da paz e da esperança [39]. Ao reviver a experiência do êxodo, o povo de Deus deve deixar que o Espírito lhe remova o coração de pedra e lhe dê um de carne [40], deve fazer com que se tornem realidade no caminho da sua vida a justiça [41] e a fidelidade amorosa [42], e erguer-se como luz para todos os povos [43], até ao dia em que o Senhor Deus oferecerá na montanha santa “um festim para todos os povos” [44]. A caminho do cumprimento da promessa messiânica, já agora todos são chamados à comunhão na gratuidade [45] e na misericórdia de Deus [46].

II. A peregrinação de Cristo
9. Jesus Cristo entra em cena na história como “o Caminho, a Verdade e a Vida” [47] e desde o início insere-Se no caminho da humanidade e do Seu povo, “unindo-Se de certo modo a cada homem” [48]. Ele, de fato, desce de “junto de Deus” para Se fazer “homem” [49] e para Se pôr nas estradas do homem. Na Encarnação “é Deus que vem em pessoa falar de Si ao homem e mostrar-lhe o caminho, por onde é possível atingi-lo” [50]. Ainda pequenino, Jesus é peregrino ao templo de Sião para ser oferecido ao Senhor [51]; quando Se tornou jovem, com Maria e José dirige-Se à “casa do Seu Pai” [52]. O Seu ministério público, que se desenvolve pelos caminhos da Sua pátria, lentamente configura-se como uma peregrinação rumo a Jerusalém, que sobretudo Lucas delineia no coração do seu Evangelho como uma grande viagem, que tem por meta não só a cruz mas também a glória da Páscoa e da Ascensão [53]. A sua Transfiguração revela a Moisés, a Elias e aos Apóstolos o Seu iminente “êxodo” pascal: “eles falavam da Sua morte, que ia dar-se em Jerusalém” [54]. Também os outros evangelistas conhecem este itinerário exemplar, em cujo seguimento deve pôr-se o discípulo: “Se alguém quiser vir após Mim, renegue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-Me”, e Lucas esclarece “todos os dias” [55]. Para Marcos o percurso rumo à cruz do Gólgota é constantemente marcado por verbos e palavras de movimento e pelo símbolo do “caminho” [56].
10. Mas a estrada de Jesus não termina na colina chamada Gólgota. A peregrinação terrena de Cristo abre-se para o infinito e o mistério de Deus, para além da morte. No monte da Ascensão representa-se a etapa definitiva da Sua peregrinação. O Senhor ressuscitado e elevado ao Céu, enquanto promete retornar [57], caminha em direção da casa do Pai para nos preparar um lugar, para que onde Ele estiver também nós estejamos com Ele [58]. Com efeito, Ele resume a Sua missão assim: “Saí do Pai e vim ao mundo; de novo deixo o mundo e vou para o Pai... Pai, quero que aqueles que Me deste, onde Eu estiver, também eles estejam Comigo, para que vejam a Minha glória” [59].
A comunidade cristã, animada pelo Espírito do Pentecostes, sai pelas estradas do mundo, imergindo-se nas várias nações da terra [60], procedendo de Jerusalém até Roma, através das estradas do império percorridas pelos Apóstolos e pelos anunciadores do Evangelho. Ao lado deles caminha Cristo que, tal como com os discípulos de Emaús, lhes explica as Escrituras e parte o pão eucarístico [61]. No seguimento deles põem-se em marcha os povos da terra que, repercorrendo espiritualmente o itinerário dos Magos [62], realizam as palavras de Cristo: “Do Oriente e do Ocidente muitos virão sentar-se à mesa com Abraão, Isaac e Jacó no reino dos céus” [63].
11. A meta última desta peregrinação pelas vias do mundo não está, porém, escrita no mapa da terra. Ela encontra-se além do nosso horizonte, como fora para Cristo que caminhara com os homens, para levá-los à plenitude da comunhão com Deus. É significativo observar que o “caminho” do Senhor é a estrada que Ele já percorreu e agora percorre conosco. Os Atos dos Apóstolos qualificam, com efeito, a vida cristã como “o caminho” [64] por excelência. Desta forma, o cristão, depois de ter ido ensinar todas as nações acompanhado pela presença de Cristo que está conosco até ao fim do mundo [65], depois de ter “caminhado segundo o Espírito” [66] na justiça e no amor, propõe-se chegar à Jerusalém celeste cantada pelo Apocalipse. Este caminho-vida é percorrido na expectativa da vinda do Senhor [67]. A nossa peregrinação tem, por isso, um termo transcendente, consciente como estamos de ser aqui sobre a terra “hóspedes e peregrinos” [68], mas destinados a ser no céu “concidadãos dos santos e membros da família de Deus” [69].
Como Jesus que foi morto fora da porta da cidade de Jerusalém, também nós “saiamos do campo para ir ter com Ele fora do acampamento, levando o Seu opróbrio, porque não temos aqui cidade permanente, mas vamos em busca da futura” [70]. Lá Deus habitará conosco, lá “não haverá mais morte, nem pranto, nem dor, porque as primeiras coisas passaram” [71].

III. A peregrinação da Igreja
12. Em comunhão com o seu Senhor, também a Igreja, povo messiânico, está em caminho rumo à cidade futura e permanente [72], transcende os tempos e as fronteiras, e está inteiramente orientada para aquele Reino, cuja presença é já operante em todas as terras do mundo. Estas terras receberam a semente da palavra de Cristo [73] e foram regadas também pelo sangue dos mártires, testemunhas do Evangelho. Assim como fizeram Paulo e os Apóstolos, as estradas consulares e imperiais, as pistas das caravanas, as rotas marítimas, as cidades e os portos do Mediterrâneo foram percorridos pelos missionários de Cristo que, no Oriente e no Ocidente, tiveram imediatamente de se confrontar com as várias culturas e tradições religiosas, exprimindo-se já não apenas em hebraico e aramaico, mas também em grego e latim e, mais tarde, na multiplicidade das línguas, algumas já prenunciadas na cena de Pentecostes [74]: árabe, siríaco, etiópico, persa, armênio, gótico, eslavo, hindi, chinês.
As etapas desta peregrinação dos mensageiros da palavra divina ramificaram-se da Ásia Menor à Itália, da África à Espanha e às Gálias e, depois, da Germânia à Bretanha, dos países eslavos à Índia e à China. Continuaram nos tempos modernos em direção de novos países e novos povos na América, África, Oceania, tecendo assim “o caminho de Cristo nos séculos” [75].
13. Nos séculos IV e V, depois, têm início na Igreja várias experiências de vida monástica. A “migração ascética” e o “êxodo espiritual” representam dois dos seus fundamentais motivos inspiradores. A propósito disso, algumas figuras bíblicas assumem na literatura patrística e monástica um papel paradigmático. A referência a Abraão liga-se ao tema da xeniteia (a experiência do estrangeiro: a consciência de quem é hóspede, migrante), que entre outras coisas constitui o terceiro degrau da Escada espiritual de João Clímaco. A figura de Moisés, que guia o êxodo da escravidão do Egito à Terra prometida, torna-se um tema característico da literatura cristã antiga, sobretudo graças à Vida de Moisés, de Gregório de Nissa. Por fim, Elias, que sobe ao Carmelo e ao monte Horeb, encarna os temas da fuga para o deserto e do encontro com Deus. Ambrósio, por exemplo, sente-se fascinado pelo profeta Elias e considera realizado nele o ideal ascético da fuga saeculi.
A concepção da vida cristã como peregrinação, a busca da intimidade divina também através do afastamento do tumulto das coisas e dos eventos, a veneração dos lugares santos impelem São Jerônimo e as discípulas Paula e Eustóquia a deixarem Roma e a dirigirem-se para a terra de Cristo: junto da gruta da Natividade em Belém constitui-se assim um mosteiro. Ele insere-se no interior da série dos múltiplos eremitérios, lavras, cenóbios da Terra Santa, mas difundidos também noutras regiões, sobretudo na Tebaida egípcia, na Síria, na Capadócia. Nesta linha a peregrinação no deserto ou para o lugar santo torna-se símbolo de outra peregrinação, a interior, como recordava Santo Agostinho: “Reentra em ti mesmo: a verdade habita no coração do homem”. Contudo, não permanece em ti mesmo, mas “ultrapassa também a ti mesmo” [76], porque tu não és Deus: Ele é mais profundo e maior do que tu. A peregrinação da alma, já evocada pela tradição platônica, adquire agora uma nova dimensão que o mesmo Padre da Igreja assim define e representa na sua tensão para o infinito de Deus: “Busca-se a Deus para O encontrar com maior suavidade, encontra-se-O para O buscar com maior ardor” [77].
O conceito de que “o lugar santo é a alma pura” [78] tornar-se-á também um apelo constante, a fim de que a prática da peregrinação aos lugares santos seja sinal do progresso na santidade pessoal. Os Padres da Igreja chegam assim a relativizar a peregrinação “física”, procurando superar todo o excesso e mal-entendido. Gregório de Nissa, em particular, fornece o princípio fundamental de uma correta avaliação da peregrinação. Embora tenha visitado com devoção a Terra Santa, ele afirma que o verdadeiro caminho a empreender é o que conduz o fiel, da realidade física à espiritual, da vida no corpo à vida no Senhor, e não a passagem da Capadócia à Palestina [79]. Também São Jerônimo reafirma o mesmo princípio. Na Carta 58 ele observa que Antônio e os monges não visitaram Jerusalém, entretanto as portas do Paraíso se lhes abriram de par em par; e afirma que motivo de louvor para os cristãos não é o fato de terem estado na cidade santa, mas de terem vivido santamente [80].
Neste itinerário interior de luz em luz [81], na esteira do apelo de Cristo a sermos “perfeitos, como é perfeito vosso Pai celeste” [82], configura-se um perfil da peregrinação, particularmente caro à tradição espiritual bizantina: é o aspecto “estático” que será desenvolvido, tendo como base a doutrina mística de Dionísio o Areopagita, de Máximo o Confessor e de João Damasceno.
A divinização do homem é a grande meta de uma longa viagem do espírito, que põe o crente no coração mesmo de Deus, realizando assim as palavras do Apóstolo: “Estou crucificado com Cristo! Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim” [83], razão por que “o viver é Cristo” [84].
14. No século IV, cessadas as perseguições do império romano, os lugares do martírio são abertos à veneração pública e inicia a densa rede das peregrinações, testemunhadas também por memórias documentárias, como os diários de viagem dos próprios peregrinos, sobretudo à Terra Santa, entre os quais sobressai o testemunho de Etéria no início do século V.
Mas a peregrinação concreta, que percorre as estradas do mundo, estende-se em novas ramificações. Se a conquista árabe de Jerusalém no ano 638 torna mais árduo o encontro com as memórias cristãs da Terra Santa, abrem-se novos itinerários no Ocidente. Uma meta fundamental torna-se Roma, lugar do martírio de Pedro e Paulo e sede da comunhão eclesial em torno do Sucessor de Pedro. Nascem, assim, as múltiplas “vias que levam a Roma”, ad Petri sedem, entre as quais sobressai a Via Francigena que atravessa a Europa inteira rumo à nova cidade santa. Mas há também a meta do túmulo de São Tiago em Compostela. Existem os santuários marianos da Santa Casa de Loreto, de Jasna Góra em Czestochowa, as paragens junto dos grandes mosteiros medievais, fortalezas do espírito e da cultura, os lugares que encarnam a memória de grandes santos, como Tours, Cantuária ou Pádua. Por meio deles formou-se na Europa uma rede que “promoveu o entendimento recíproco entre povos e nações tão diversos” [85].
Embora com algum excesso, este grande fenômeno que envolve massas populares, animadas por convicções simples e profundas, alimenta a espiritualidade, faz aumentar a fé, estimula a caridade, anima a missão da Igreja. Os “palmeirins”, os “romeiros”, os “peregrinos” com os seus hábitos específicos constituem como que uma “ordem” bem definida, que recorda ao mundo a natureza peregrinante da comunidade cristã, orientada para o encontro com Deus e a comunhão com Ele.
Uma particular configuração é atribuída à peregrinação com o aparecimento, nos séculos XI-XIII, do movimento das Cruzadas. Nele o antigo ideal religioso do peregrinar para os lugares santos das Sagradas Escrituras entrelaça-se com as novas instâncias e ideias daquela época histórica, isto é, a formação da classe cavalheiresca, com as tensões sociais e políticas, com o despertar de impulsos comerciais e culturais orientados para o Oriente, com a presença do Islã na Terra Santa.
Os conflitos de poder e de interesse prevaleceram com frequência sobre o ideal espiritual e missionário e atribuíram perfis diversos às várias Cruzadas, enquanto entre as Igrejas do Oriente e do Ocidente se erguia o muro da divisão. Disto ressentiu também a praxe da peregrinação, que revelou algumas ambiguidades bem representadas por São Bernardo de Claraval. Ele tinha sido o ardoroso pregador da segunda Cruzada, mas não hesitava também em celebrar a Jerusalém espiritual, presente no mosteiro cristão como meta ideal do peregrino: “É Claraval esta Jerusalém unida à Jerusalém celeste pela sua profunda e radical piedade, pela conformidade de vida, por uma certa afinidade espiritual” [86]. Um hino medieval, ainda hoje presente na Liturgia, exaltava claramente a Jerusalém celeste que se edificava na terra através da consagração de uma igreja: “Jerusalém gloriosa, / visão bendita de paz, / de pedras vivas erguida / por entre os astros brilhais” [87].
15. Já no horizonte se erguia São Francisco que, com os seus frades, terá na Terra Santa uma presença secular na custódia dos lugares sagrados à cristandade numa convivência nem sempre fácil com outras comunidades eclesiais do Oriente no acolhimento dos peregrinos. Por volta do ano 1300 constituía-se uma Societas Peregrinantium pro Christo, que considerava a peregrinação como uma obra também missionária. Mais precisamente então, em 1300, em Roma se proclamava o Jubileu que tornaria a cidade eterna uma Jerusalém, para a qual se dirigiriam plêiades de peregrinos, como acontecerá na longa série sucessiva dos Anos Santos. A unidade cultural e religiosa do Ocidente europeu medieval foi alimentada também por estas experiências espirituais. Lentamente, porém, encaminhava-se para novos modelos mais complexos, que envolveram também a natureza da peregrinação.
16. A revolução copernicana fez evoluir a condição do homem peregrino dentro de um mundo imóvel, tornando-o partícipe dum universo em caminho perene. A descoberta do Novo Mundo pôs as premissas para a superação da visão eurocêntrica, com o surgimento de culturas diferentes e com extraordinários movimentos de pessoas e de grupos. A Cristandade do Ocidente perdeu a sua unidade, centrada em Roma, e as divisões confessionais tornaram mais árduas as peregrinações, por vezes também contestadas “como ocasião de pecado e de desprezo dos mandamentos de Deus... Acontece, de fato, que alguém faça a peregrinação a Roma e gaste cinquenta e cem florins e até mais, e deixe a esposa e os filhos e talvez um seu próximo em casa, à mercê da miséria” [88]. O peregrino, na fragmentação da imagem clássica do universo, sentia-se sempre menos viandante na casa comum do mundo, agora subdividida em Estados e Igrejas nacionais. Delineavam-se, assim, metas mais reduzidas e alternativas, como as dos montes sagrados e dos santuários marianos locais.
17. Todavia, não obstante certa visão estática que impregnou a comunidade cristã dos séculos XVIII e XIX, a peregrinação continuou na vida da comunidade cristã. Nalguns lugares, como na América Latina e nas Filipinas, ela sustém a fé do povo crente durante gerações; noutros, ela abriu-se a uma espiritualidade nova, com novos centros de fé surgidos na raiz de aparições marianas e devoções populares. De Guadalupe a Lourdes, de Aparecida a Fátima, do Santo Menino de Cebu a São José de Montreal, multiplicou-se o testemunho da vitalidade da peregrinação e do movimento de conversão que ela suscita. A renovada consciência de ser o povo de Deus em caminho estava, entretanto, para se tornar a imagem mais expressiva da Igreja reunida pelo Concílio Vaticano II.

IV. A peregrinação rumo ao Terceiro Milênio
18. O Concílio Vaticano II foi “um acontecimento providencial, através do qual a Igreja iniciou a preparação próxima para o Jubileu do segundo milênio” [89]. Essa assembleia eclesial foi celebrada desde a sua convocação, com o afluxo a Roma dos pastores das Igrejas locais, até à sua conclusão com um Jubileu extraordinário a ser celebrado em cada uma das dioceses na moldura simbólica de uma grande e coral peregrinação da inteira comunidade eclesial. Este aspecto tornou-se explícito por alguns gestos emblemáticos, como os dos dois Papas peregrinos, João XXIII a Loreto no início do Concílio (1962) e Paulo VI à Terra Santa, durante as sessões conciliares (1964). A estes dois sinais de densa espiritualidade uniram-se depois as sucessivas peregrinações papais pelas vias do mundo para anunciar o Evangelho, a sua verdade e a sua justiça, a partir daquelas de Paulo VI às Nações Unidas e a Bombaim.
19. A mesma linguagem conciliar apresentava a Igreja na sua experiência de caminho espiritual e missionário, companheira de viagem ao lado da humanidade inteira. Tratava-se, com efeito, de procurar “os caminhos mais eficazes para nos renovarmos a nós mesmos, para nos tornarmos testemunhas cada vez mais fiéis ao Evangelho de Cristo” [90]. A Igreja de Deus “peregrinante” torna-se, deste modo, um aspecto dominante desde os exórdios da celebração conciliar [91]. A Igreja era “um sinal elevado no meio dos povos (Is 5,26), para oferecer a todos a orientação no seu próprio caminho em demanda da verdade e da vida” [92]. O encontro com os povos, que com Paulo VI na ONU teve a sua manifestação simbólica, foi definido como o “epílogo de uma fadigosa peregrinação” [93]. O próprio Concílio apareceu como uma ascensão espiritual, enquanto os Padres conciliares saudavam os homens de pensamento como “peregrinos em marcha para a luz” [94].
20. A mencionada peregrinação de Paulo VI na Terra Santa é apresentada pelo próprio Pontífice à luz da espiritualidade da peregrinatio nas suas componentes fundamentais. Com a visita aos lugares santos, ela queria ressaltar os mistérios centrais da salvação, a Encarnação e a Redenção; queria ser sinal de oração, penitência e renovação; procurava pôr em prática a tríplice finalidade de oferecer a Cristo a sua Igreja, de promover a unidade dos cristãos e de implorar a misericórdia divina em favor da paz entre os homens [95].
Foi o próprio Concílio que nas suas constituições apresentou a Igreja inteira como “presente no mundo e entretanto peregrina” [96]. A sua natureza peregrinante, reafirmada em várias ocasiões [97], revela um aspecto trinitário: tem a sua fonte na missão de Cristo “enviado pelo Pai” [98]; por isso, também nós “d’Ele procedemos, por Ele vivemos e para Ele nos dirigimos” [99] e o Espírito Santo é o guia do nosso caminho que segue as pegadas de Cristo [100]. A Eucaristia e a Páscoa, que constituem o coração da Liturgia [101], remetem por sua natureza ao êxodo de Israel e ao banquete de peregrinação e de aliança que o inaugura [102] e conclui [103].
21. A Igreja peregrina torna-se espontaneamente missionária [104]. O mandato de Cristo ressuscitado: “Ide e ensinai” [105] põe precisamente a ênfase no “ir”, modalidade imprescindível da evangelização aberta ao mundo. Viático e tesouro neste itinerário são a Palavra de Deus [106] e a Eucaristia [107].
Ao traçar uma apaixonada síntese do caminho da humanidade com as suas conquistas e os seus desvios [108], o Concílio apresenta a Igreja como companheira de viagem da família humana, indicando uma meta transcendente para além da história terrena [109]. Resulta, assim, um fecundo contraponto entre peregrinação e empenho na história [110] e também o mundo é chamado a oferecer o seu contributo à própria Igreja num diálogo vivo e intenso [111].
22. Do evento conciliar em diante a Igreja viveu a sua experiência peregrinante não só na renovação, no anúncio missionário, no empenho pela paz mas também através de múltiplos testemunhos do Magistério eclesial, em particular por ocasião dos anos jubilares de 1975, 1983 e 2000 [112]. O Santo Padre João Paulo II fez-se peregrino no mundo: é o primeiro evangelizador destas duas últimas décadas. Com o seu périplo apostólico e o seu magistério tem orientado e solicitado a Igreja inteira a preparar-se para o terceiro milênio, já às portas. As viagens pastorais papais são “etapas de uma peregrinação nas Igrejas locais... peregrinação de paz e de solidariedade” [113].
23. Uma meta fundamental do presente peregrinar histórico da Igreja é o Jubileu do ano 2000, para o qual o fiel se encaminha sob o céu da Trindade. Este itinerário não deve ser tanto espacial quanto interior e vital, na reconquista dos grandes valores do ano jubilar bíblico [114]. Quando ressoava a trombeta que indicava em Israel esta data, os escravos retornavam à liberdade, as dívidas eram perdoadas de maneira que todos pudessem reencontrar dignidade pessoal e solidariedade social, a terra oferecia espontaneamente os seus dons a todos, recordando que na sua origem está o Criador, que “com o fruto das Suas obras sacia a terra” [115]. Deve, assim, nascer uma comunidade mais fraterna, semelhante àquela de Jerusalém: “Todos os crentes viviam unidos e possuíam tudo em comum. Vendiam terra e outros bens e distribuíam o dinheiro por todos, de acordo com as necessidades de cada um” [116]. “Não devem existir indigentes no meio de vós... Se houver junto de ti um indigente entre os teus irmãos... não endurecerás o teu coração e não fecharás a tua mão ao irmão necessitado” [117].

V. A peregrinação da humanidade
24. A peregrinação, que de Abraão se estende nos séculos, é o sinal de um mais vasto e universal mover-se da humanidade. Com efeito, o homem aparece na sua história secular como homo viator, um viandante que tem sede de novos horizontes e fome de paz e de justiça, investigador da verdade, desejoso de amor, aberto ao absoluto e ao infinito. A investigação científica, os desenvolvimentos econômicos e sociais, o ressurgimento contínuo de tensões, as migrações que percorrem o nosso planeta, o próprio mistério do mal e os outros enigmas que constelam o ser, interpelam constantemente a humanidade, encaminhando-a para percursos traçados pelas religiões e as culturas.
Também nos nossos dias a humanidade parece, por um lado, encaminhada para metas positivas de várias naturezas: a integração mundial em sistemas globais, mas também na sensibilidade pelo pluralismo e no respeito das diferentes identidades históricas e nacionais, o progresso científico e técnico, o diálogo inter-religioso, as comunicações que se difundem no areópago do mundo inteiro através de instrumentos sempre mais eficazes e imediatos. Por outro lado, porém, em cada um destes caminhos surgem à frente, em formas e modalidades novas, obstáculos antigos e constantes: os ídolos da exploração econômica, da prevaricação política, da arrogância científica, do fanatismo religioso.
A luz do Evangelho guia os cristãos para descobrirem nestas manifestações da civilização contemporânea os novos “areópagos”, nos quais anunciar a salvação e descobrir os sinais do anseio que conduz os corações à casa do Pai.
Não resulta estranho que, no turbilhão desta contínua mudança, a humanidade experimente também o cansaço e nutra o desejo de um lugar, que poderia ser um santuário onde repousar, um espaço de liberdade que torne possível o diálogo consigo mesmo, com os outros e com Deus. A peregrinação do cristão acompanha esta busca da humanidade e oferece-lhe a segurança da meta, a presença do Senhor “porque visitou e remiu o Seu povo” [118].
25. Algumas “peregrinações universais” revestem um significado particular. Pensamos, antes de tudo, nos grandes movimentos de grupos, de massas, por vezes de povos inteiros, que enfrentam enormes sacrifícios e perigos para fugir à fome, guerras, catástrofes ambientais, e buscar para si e para os seus entes queridos maior segurança e bem-estar. Ninguém deve permanecer só espectador inerte diante destes fluxos imensos, que atravessam a humanidade como correntes e se estendem sobre a face da terra. Ninguém deve sentir-se estranho às injustiças que muitas vezes estão na sua raiz, aos dramas pessoais e coletivos e também às esperanças que aí brotam para um futuro diferente e uma perspectiva de diálogo e de coexistência pacífica multirracial. O cristão, de modo particular, deve tornar-se o Bom Samaritano na estrada de Jerusalém a Jericó, pronto a socorrer e a acompanhar o irmão à hospedaria da caridade fraterna e da convivência solidária. A esta “espiritualidade do caminho” podem conduzir-nos o conhecimento, a escuta e a partilha da experiência daquele particular “povo da estrada”, que são os nômades, os ciganos, “filhos do vento”.
26. Peregrinos do mundo são também aqueles que se encaminham para metas diferentes por turismo, por exploração científica e por comércio. Trata-se de fenômenos complexos que, devidos às suas enormes dimensões, em muitas ocasiões são fonte de consequências nocivas. Ninguém pode ignorar que frequentemente são causa de injustiça, de exploração das pessoas, de erosão das culturas ou de devastação da natureza. Apesar disto, conservam na sua natureza valores de pesquisa, de progresso e de promoção da mútua compreensão entre os povos, que merecem ser fomentados.
É indispensável fazer com que aqueles que participam nestes âmbitos possam conservar uma sua espiritualidade e uma tensão interior. É necessário também que os agentes turísticos e comerciais não sejam dominados apenas por interesses econômicos, mas estejam conscientes da sua função humana e social.
27. Conexa com a anterior e característica dos nossos dias é também uma forma particular de peregrinação da mente humana, a informática ou virtual que se estende pelas vias da telecomunicação. Estes percursos, embora com todos os riscos e as deformações ou desvios que comportam, podem ser intermediários de anúncio de fé e de amor, de mensagens positivas, de contatos fecundos e eficazes. Por isso, é importante enveredar por estas estradas impedindo a dispersão e a dissolução da verdadeira comunicação no “ruído de fundo” de uma miríade babélica de informações.
28. Grandes “peregrinos leigos” são também os que empreendem percursos culturais e desportivos. As grandes manifestações artísticas, sobretudo musicais, que veem o convergir em particular de jovens, o fluxo de visitantes nos museus que muitas vezes se podem transformar em oásis de contemplação, as Olimpíadas e as outras formas de agregação esportiva são fenômenos, que não podem ser ignorados também por causa dos valores espirituais que abrangem e devem ser tutelados, para além das tensões das massificações e dos condicionamentos extrínsecos de natureza comercial.
29. Há experiências de peregrinações mais acentuadamente cristãs. Não só sacerdotes, mas também famílias inteiras, muitos jovens se deslocam ou aceitam ser enviados para terras distantes da sua, a fim de colaborarem com missionários e missionárias, quer com o seu trabalho profissional, quer com o testemunho, e com o anúncio explícito do Evangelho. É uma forma de ser peregrino que está a crescer sempre mais, como dom do Espírito. Empenham-se os períodos de férias ou de descanso; ou dedicam-se anos inteiros da própria vida.
Imagens emblemáticas destes movimentos espaciais, mas sobretudo espirituais do nosso tempo, são também as grandes assembleias ecumênicas, nas quais a oração pelo dom da unidade reúne os cristãos num caminho comum. De igual modo são relevantes os encontros inter-religiosos que veem o convergir peregrinante de homens e mulheres de todas as crenças para uma meta comum de esperança e de amor, como ocorreu na oração mundial das religiões pela paz, convocada em Assis em 1986.
30. Uma verdadeira e própria rede de percursos, portanto, estende-se no nosso planeta. Alguns são religiosos, no sentido mais direto do termo, e têm como meta cidades e santuários, mosteiros e sedes históricas; noutros casos, a busca dos valores espirituais manifesta-se no movimento rumo aos lugares naturais de rara beleza, ilhas ou desertos, cumes ou profundidades dos abismos marinhos. Esta complexa geografia do mover-se da humanidade contém em si o germe de um anseio radical por um horizonte transcendente de verdade, de justiça e de paz, e testemunha uma inquietude que tem no infinito de Deus o porto onde o homem se pode refazer das suas angústias [119].
O caminho da humanidade, embora nas suas tensões e contradições, participa então da peregrinação iniludível para o Reino de Deus, que a Igreja está empenhada em anunciar e realizar com coragem, lealdade e perseverança, chamada pelo seu Senhor a ser sal, fermento, luz e cidade colocada no monte. Só assim se abrirão veredas em que “amor e fidelidade se encontrarão, justiça e paz se beijarão” [120].
Neste itinerário a Igreja faz-se peregrina com todos os homens e mulheres que procuram com coração sincero a verdade, a justiça, a paz, e inclusive com aqueles que vagueiam por outras direções, pois como recorda São Paulo, citando Isaías, Deus afirma: “Fui encontrado pelos que não Me procuravam; manifestei-Me àqueles que não perguntavam por Mim” [121].
31. Para esta meta do Reino podem, então, orientar-se todos os povos e todos os homens, exprimindo a sua adesão também através do gesto explícito e emblemático da peregrinação às diversas “cidades santas” da terra, isto é, aos lugares do espírito onde ressoa mais forte a mensagem da transcendência e da fraternidade. Entre estas cidades não devem faltar também os lugares profanados pelo pecado do homem e sucessivamente, quase por instinto de reparação, consagrados pela peregrinação: pensamos, por exemplo, em Auschwitz, lugar símbolo do suplício do povo judeu na Europa, a Shoah, ou em Hiroshima e Nagasaki, terras devastadas pelo horror da guerra atómica.
Mas, como se disse, não só para os cristãos mas também para todos, duas cidades adquirem um valor de sinal: Roma, símbolo da missão universal da Igreja, e Jerusalém, lugar sagrado e venerado por todos aqueles que seguem a via das religiões abraâmicas, cidade da qual “sairá uma Lei e a Palavra do Senhor” [122]. Ela indica-nos o ponto final da peregrinação da humanidade inteira, isto é, “a cidade santa que desce do céu, de Deus” [123]. Para ela avançamos com esperança, cantando: “Somos um povo que caminha e, / caminhando juntos, queremos alcançar uma cidade que não se acaba, / sem sofrimento nem tristeza, / uma cidade eterna” [124].
Precisamente enquanto aprecia a pobreza do monge peregrino budista, a via contemplativa do Tao, o itinerário sagrado do hinduísmo a Benares, o “pilar” da peregrinação do muçulmano às fontes da sua fé e qualquer outro itinerário rumo ao Absoluto e aos irmãos, a Igreja une-se a todos aqueles que, de modo apaixonado e sincero, se dedicam ao serviço dos débeis, dos prófugos, dos exilados, dos oprimidos, empreendendo com eles uma “peregrinação de fraternidade”.
É este o sentido do Jubileu de misericórdia que se delineia no horizonte do terceiro milênio, meta para a criação de uma sociedade humana mais justa, na qual as dívidas públicas das nações em vias de desenvolvimento sejam perdoadas e se realize uma mais justa distribuição dos bens da terra, no espírito da prescrição bíblica [125].

VI. A peregrinação do cristão hoje
32. No interior da grande peregrinação que Cristo, a Igreja e a humanidade realizaram e devem continuar a realizar na história, todo o cristão é chamado a inserir-se e a participar. O santuário para o qual ele se dirige deve tornar-se por excelência “a tenda do encontro”, como a Bíblia chama ao tabernáculo da aliança [126]. Lá, de fato, acontece um encontro fundamental que revela várias dimensões e se apresenta sob múltiplas feições. É nesta série de aspectos que podemos delinear uma pastoral da peregrinação.
Vivida como celebração da própria fé, para o cristão a peregrinação é uma manifestação cultural a ser realizada com fidelidade à tradição, com sentimento religioso intenso e como atuação da sua existência pascal [127]. A dinâmica própria da peregrinação revela com clareza algumas etapas que o peregrino alcança, e que se tornam um paradigma de toda a sua vida de fé: a partida torna manifesta a sua decisão de avançar até à meta e de conseguir os objetivos espirituais da sua vocação batismal; o caminho o conduz à solidariedade com os irmãos e à preparação necessária para o encontro com o seu Senhor; a visita ao Santuário convida-o à escuta da Palavra de Deus e à celebração sacramental; o retorno, por fim, recorda-lhe a sua missão no mundo, como testemunha da salvação e construtor da paz. É importante que estas etapas da peregrinação, vividas em grupo ou individualmente, sejam caracterizadas por atos cultuais que revelem a sua dimensão autêntica, utilizando para isto os textos sugeridos pelos livros litúrgicos.
Os aspectos, que necessariamente toda a peregrinação há de incluir, devem ser compostos de maneira harmónica com o justo respeito pelas tradições de cada povo e adequadamente com as condições dos peregrinos. Caberá à Conferência Episcopal de cada país traçar as linhas pastorais mais adequadas às várias situações e instituir as estruturas pastorais necessárias para as realizar. Na pastoral diocesana da peregrinação reconhecer-se-á um papel distinto aos Santuários. Contudo, também as paróquias e outros grupos eclesiais deverão ser representados nestas estruturas pastorais, a partir do momento que são protagonistas e pontos de partida do maior número de peregrinações.
A ação pastoral deve fazer com que, através das características próprias de cada peregrinação, o crente realize um itinerário essencial da fé [128]. Por meio de uma oportuna catequese e de um atento acompanhamento por parte dos agentes pastorais, a apresentação dos aspectos fundamentais do peregrinar cristão abrirá novas perspectivas à prática da peregrinação na vida da Igreja.
33. A meta para a qual tende o itinerário que o peregrino percorre é, antes de tudo, a tenda do encontro com Deus. Já Isaías referia estas palavras de Deus: “A Minha casa será chamada casa de oração para todos os povos” [129]. “No final do caminho, no qual o seu coração ardente aspira a ver o rosto de Deus” [130], no santuário que realiza a promessa divina “os Meus olhos e o Meu coração estarão aí fixados perpetuamente [131], o peregrino encontra o mistério de Deus, descobrindo o Seu rosto de amor e de misericórdia. De modo particular, esta experiência é realizada na Celebração Eucarística do mistério pascal, na qual Cristo é “o ápice da revelação do inescrutável mistério de Deus” [132]; lá contempla-se Deus sempre disposto à graça em Maria, a Mãe de Deus [133], e Ele é glorificado admirável nos Seus santos [134].
Na peregrinação o homem reconhece que “desde o seu nascimento é chamado ao diálogo com Deus” [135], e então, através dele, é ajudado a descobrir que, para “permanecer em intimidade com Deus”, o caminho que lhe é oferecido é Cristo, o Verbo feito carne. O itinerário do peregrino cristão deve revelar este “ponto essencial pelo qual o cristianismo se diferencia das outras religiões” [136]. Na sua totalidade a peregrinação deve manifestar “que para o homem o Criador não é um poder anônimo e remoto: é o Pai” [137], e todos somos Seus filhos, irmãos em Cristo Senhor. É necessário orientar o empenho pastoral, a fim de que essa verdade fundamental da fé cristã [138] não sofra obscurecimentos por parte das culturas e dos costumes tradicionais, nem por parte das novas modas e movimentos espirituais. A ação pastoral, porém, terá em vista também uma constante inculturação da mensagem evangélica em cada cultura junto de cada povo.
Por fim, a eficácia dos santuários será medida sempre mais segundo a capacidade que eles tiverem de responder à necessidade crescente que o homem experimenta, no ritmo frenético da vida moderna, de um “contato silencioso e recolhido com Deus e consigo mesmo” [139]. O percurso e o fim da peregrinação conduzirão ao florescer da fé e à intensidade da comunhão com Deus na oração, pela qual idealmente se realiza aquilo que o profeta Malaquias anunciava: “Do nascente ao poente o Meu nome é grande entre as nações e em todos os lugares é oferecido ao Meu nome um sacrifício de incenso e uma oferenda pura. Porque é grande entre as nações o Meu nome, diz o Senhor dos exércitos” [140].
34. A peregrinação conduz à tenda do encontro com a Palavra de Deus. A experiência fundamental da peregrinação deve ser a da escuta, porque “de Jerusalém sairá a Palavra do Senhor” [141]. Empenho primário da viagem santa é, por isso, o da evangelização que, com frequência, é conatural aos próprios lugares sagrados [142]. O anúncio, a leitura e a meditação do Evangelho devem acompanhar os passos do peregrino e a própria paragem no santuário, para que se atue quanto o salmista afirma: “A Vossa palavra é qual farol para os meus passos, e uma luz para os meus caminhos” [143].
Os momentos de peregrinação, por causa das circunstâncias que os suscitam, das metas a que se dirigem, da sua proximidade às necessidades e alegrias quotidianas, são um campo já favorável ao acolhimento da Palavra de Deus nos corações [144]; assim a Palavra torna-se fortaleza da fé, alimento espiritual, fonte pura e perene de vida espiritual [145].
Toda a ação pastoral ao serviço da peregrinação deve concentrar os seus esforços nesta aproximação do peregrino à Palavra de Deus. Em primeiro lugar, deve ser predisposto um processo catequético adaptado às circunstâncias da sua vida de fé, expressivo da sua realidade cultural, através dos meios de comunicação realmente acessíveis e de provada eficácia. Esta apresentação catequética, por outro lado, enquanto terá em consideração os eventos que se celebram nos lugares visitados e a sua índole peculiar, não deverá esquecer a necessária hierarquia na exposição das verdades da fé [146], nem uma colocação no interior do itinerário litúrgico, no qual toda a Igreja participa [147].
35. A peregrinação conduz, depois, à tenda do encontro com a Igreja, “assembleia daqueles que são convocados pela Palavra de Deus para formar o povo de Deus. Nutrindo-se do Corpo de Cristo, formam eles mesmos o Corpo de Cristo” [148]. A experiência da vida comum com os irmãos peregrinos torna-se também a ocasião para redescobrir o povo de Deus em marcha para a Jerusalém da paz, no louvor e no cântico, na única fé e na unidade do amor de um só Corpo, o de Cristo. O peregrino deve sentir-se membro da única família de Deus, circundado de tantos irmãos na fé, com a guia do “Supremo Pastor das ovelhas” [149] que nos conduz “pelo justo caminho por amor do Seu nome” [150], sob a guia visível dos pastores que Ele investiu na missão de conduzir o Seu povo.
Quando é empreendida por uma comunidade paroquial, por um grupo eclesial, por uma assembleia diocesana ou por agrupamentos mais amplos, a peregrinação torna-se um sinal da vida eclesial [151]. Nestes casos é possível tomar melhor consciência de que cada um dos participantes faz parte da Igreja, segundo a própria vocação e o próprio ministério.
A presença de um animador espiritual tem um relevo particular. A sua missão entra plenamente no ministério sacerdotal, pelo qual os presbíteros “reúnem a família de Deus como fraternidade animada na unidade e a conduzem ao Pai, por meio de Cristo, no Espírito Santo” [152]. Para o exercício do seu ministério, ele deve possuir uma específica preparação catequética, para transmitir com fidelidade e clareza a Palavra de Deus, e uma preparação psicológica adequada, para poder acolher e compreender as diversidades de todos os peregrinos. De grande utilidade ser-lhe-á também o conhecimento da história e da arte, para poder introduzir o peregrino na riqueza catequética que brota das obras artísticas, que constituem testemunhos contínuos de fé eclesial nos Santuários [153].
Neste ministério, por outro lado, os presbíteros não podem esquecer de modo algum a função específica que compete aos leigos no contexto vivo da Igreja-comunhão [154]. A sua participação ativa na vida litúrgica [155] e catequética, a sua responsabilidade específica na formação de comunidades eclesiais [156] e a sua capacidade de representar a Igreja nas mais variadas necessidades humanas [157] habilitam-nos para colaborar depois de adequada preparação específica na animação religiosa da peregrinação assistindo os irmãos durante o seu caminho comum.
O cuidado pastoral das peregrinações requer um análogo acompanhamento espiritual, também para quantos fazem uma peregrinação em pequenos grupos ou individualmente. Em todo o caso, os responsáveis pelo acolhimento no Santuário predisporão os meios necessários, a fim de que o peregrino se dê conta de que o seu caminho faz parte da peregrinação de fé da Igreja inteira.
O encontro do peregrino com a Igreja e a sua experiência de ser parte do Corpo de Cristo, deverão passar através de uma renovação do seu empenho batismal. A peregrinação reproduz de certo modo o caminho de fé que um dia o conduziu à fonte batismal [158], e que agora se exprime de modo renovado na participação sacramental.
36. O santuário, porém, é também a tenda do encontro na reconciliação. Com efeito, lá a consciência do peregrino é sacudida; lá ele confessa os seus pecados, é perdoado e perdoa, torna-se criatura nova através do sacramento da reconciliação, experimenta a graça e a misericórdia divina. A peregrinação, por isso, faz reviver a experiência do filho pródigo no pecado, que reconhece a dureza da prova e da penitência, empenhando-se também nos sacrifícios da viagem, no jejum, no sacrifício. Mas, de igual modo, conhece a alegria do abraço com o Pai pródigo de misericórdia, que o reconduz da morte à vida: “Este meu filho estava morto e reviveu, estava perdido e encontrou-se” [159]. Os santuários deverão, então, ser o lugar em que o sacramento da Reconciliação é celebrado com intensidade, com participação, com uma Liturgia bem celebrada, com disponibilidade de ministros e de tempo, com orações e cânticos para que a conversão pessoal tenha o sigilo divino e seja vivida de modo eclesial.
A peregrinação, que conduz ao Santuário, deve ser um caminho de conversão sustentado pela firme esperança da infinita profundidade e força do perdão oferecido por Deus; caminho de conversão que “constitui a característica mais profunda da peregrinação de todo o homem sobre a terra em estado de peregrino” [160].
37. A meta da peregrinação deve ser a tenda do encontro eucarístico com Cristo. Se a Bíblia é por excelência o livro do peregrino, a Eucaristia é o pão que o sustenta no caminho, como foi para Elias na subida ao Horeb [161]. A reconciliação com Deus e com os irmãos leva à Celebração Eucarística. Esta acompanha já as várias etapas da peregrinação, que deve refletir o acontecimento pascal do êxodo, mas sobretudo o evento de Cristo que celebra a sua Páscoa em Jerusalém, no final da Sua longa viagem rumo à cruz e à glória. Por isso, segundo as indicações litúrgicas gerais e as de cada uma das Conferências Episcopais, “nos santuários, ofereçam-se aos fiéis meios de salvação mais abundantes, anunciando com diligência a Palavra de Deus, incentivando adequadamente a vida litúrgica, principalmente com a Eucaristia e a celebração da Penitência, e cultivando as formas aprovadas de piedade popular” [162].
Particular atenção pastoral seja reservada àqueles peregrinos que, pelas suas condições ordinárias de vida, se dirigem ao Santuário para celebrar especiais ocasiões de escuta da Palavra de Deus e de Celebração Eucarística. Possam eles descobrir na alegria desse evento a chamada a comportarem-se na vida quotidiana como mensageiros e construtores do reino de Deus, da Sua justiça e da Sua paz.
38. Compreende-se, então, como a peregrinação é também a tenda do encontro com a caridade. Uma caridade que é, antes de tudo, a de Deus que foi o primeiro a amar-nos, enviando o Seu Filho ao mundo. Este amor não se manifesta apenas no dom de Cristo como vítima de expiação pelos nossos pecados [163], mas também nos sinais milagrosos que curam e consolam, como o próprio Cristo fez durante a Sua peregrinação terrena e como ainda se repete na história dos santuários.
“Se Deus nos amou assim, também nós nos devemos amar uns aos outros” [164]. A caridade deve ser posta em prática já durante o caminho do peregrino, com o socorro aos mais necessitados, com a partilha da comida, do tempo e das esperanças, na consciência de que desse modo se criam novos companheiros de caminho. Uma expressão louvável de semelhante caridade é a tradição, introduzida em muitos lugares, segundo a qual as ofertas, que os fiéis apresentam como expressão da sua devoção, consistem em bens que podem ser distribuídos entre os mais pobres. A ação pastoral deve animar esses gestos, servindo-se duma catequese sempre respeitosa do sentir dos peregrinos e com iniciativas que exprimam a finalidade das ofertas. Neste sentido, convém sublinhar a obra, empreendida junto de alguns santuários, em apoio às instituições caritativas ou aos projetos de assistência em favor de comunidades de países em vias de desenvolvimento.
Uma particular, a caridade deve ser reservada aos doentes em peregrinação, recordando-se das palavras do Senhor: “Sempre que fizestes isto a um destes Meus irmãos mais pequeninos, a Mim mesmo o fizestes” [165]. A assistência aos peregrinos doentes é a expressão mais significativa do amor que deve alimentar o coração do cristão em caminho rumo ao santuário. Sobretudo os peregrinos doentes devem ser acolhidos com a mais calorosa hospitalidade. Será, pois, necessário que as estruturas de acolhimento, os serviços oferecidos, as comunicações e os transportes sejam dispostos, equipados e dirigidos com dignidade, atenção e amor.
Por sua parte, os doentes devem deixar-se impregnar pelo amor de Cristo, de maneira que vivam a enfermidade como um caminho de graça e de dom de si. A sua peregrinação aos lugares em que a graça de Deus se manifesta através de particulares “sinais”, ajuda-os a ser evangelizadores junto dos outros companheiros de sofrimento. E assim, de “objeto de compaixão”, eles tornam-se sujeitos de empenho e de ação, verdadeiros “peregrinos do Senhor” ao longo de todos os caminhos do mundo.
39. A peregrinação, porém, conduz também à tenda do encontro com a humanidade. Todas as religiões do mundo, como se disse, têm também elas os seus itinerários sagrados e as suas cidades santas. Em cada lugar da terra Deus mesmo Se encontra com o homem peregrino e proclama uma convocação universal a participar plenamente na alegria de Abraão [166]. Em particular, as três grandes religiões monoteístas são chamadas a reencontrar “a tenda do encontro” na fé, para testemunhar e construir a paz e a justiça messiânica diante dos povos para a redenção da história.
Merece atenção especial, por parte da pastoral, o fato que não poucos santuários cristãos são meta de peregrinação de crentes de outras religiões, quer por tradição secular, quer por causa da recente imigração. Isto solicita a ação pastoral da Igreja a responder a este dado com iniciativas de acolhimento, diálogo, socorro e genuína fraternidade [167]. O acolhimento reservado aos peregrinos ajudá-los-á, sem dúvida, a descobrir o sentido profundo da peregrinação. O santuário deve ser para eles lugar daquele respeito que, antes de tudo, devemos manifestar com a pureza da nossa fé em Cristo, único Salvador do homem [168].
Deve-se também observar que, além das grandes assembleias ecumênicas e dos encontros inter-religiosos, o cristão dever estar ao lado de todos aqueles que procuram a Deus com coração sincero percorrendo as vias do espírito, também “mesmo tateando, embora não Se encontre longe de cada um de nós” [169]. A sua própria peregrinação, feita muitas vezes em terras estrangeiras, conduz ao conhecimento de usos, costumes, culturas diferentes. Deve, então, transformar-se numa ocasião de comunhão solidária com os valores de outros povos, irmãos na humanidade, que a todos irmana, e na origem do único Criador de todos.
O peregrinar é também o momento da convivência com indivíduos de idade e formação diferentes. É preciso que juntos procedam na viagem, a fim de poderem depois caminhar juntos na vida eclesial e social. Os jovens com as suas marchas e as Jornadas Mundiais da Juventude; os adultos e os doentes às vezes juntamente com os jovens rumo aos santuários mais tradicionais. Os peregrinos, na sua multíplice diversidade, juntos atuam aquilo que o salmista almejava: “Os reis da terra e todos os povos, os príncipes e todos os juízes da terra; os jovens como as donzelas, os velhos juntamente com as crianças. Bendigam o nome do Senhor, porque só o Seu nome é excelso, a Sua majestade está acima do céu e da terra” [170].
40. A peregrinação tem como meta também a tenda do encontro pessoal com Deus e consigo mesmo. Disperso na multiplicidade das preocupações e da realidade quotidiana, o homem tem necessidade de se redescobrir a si mesmo através da reflexão, da meditação, da oração, do exame de consciência, do silêncio. Na tenda santa do santuário deve interrogar-se sobre “que tempo é da noite” do seu espírito, como diz Isaías no seu cântico de sentinela: “A manhã chega e a noite também. Perguntai, se quereis, voltai a perguntar!” [171]. As grandes perguntas sobre o sentido da existência, sobre a vida, a morte e o destino último do homem devem ressoar no coração do peregrino, de maneira que a viagem não seja só um movimento do corpo, mas também um itinerário da alma. No silêncio interior, Deus revela-Se precisamente como uma “voz de silêncio sutil” [172] que transforma o coração e o existir. Só assim, quando se retornar a casa, não se cairá de novo na distração e na superficialidade, mas se conservará uma centelha da luz recebida na alma e se sentirá a necessidade de repetir no futuro esta experiência de plenitude pessoal, “tendo a peito as peregrinações” [173].
O peregrino repercorrerá, então, o itinerário acompanhando-o com a oração litúrgica da Igreja e com os exercícios de devoção mais simples, com a oração pessoal e com os momentos de silêncio, com a contemplação que brota do coração dos mais pobres, os quais “dirigem o olhar para as mãos do seu Senhor” [174].
41. Enquanto se está em peregrinação, tem-se também a ocasião de entrar na tenda do encontro cósmico com Deus. Com frequência os Santuários estão colocados em panoramas extraordinários, exprimem formas artísticas de grande fascínio, condensam em si antigas memórias históricas, são expressões de culturas elevadas e populares. É necessário, então, fazer com que a peregrinação não exclua também esta dimensão do espírito. Sobretudo, compreenda-se que na maior disponibilidade a apreciar a natureza se revela uma preciosa dimensão espiritual do homem moderno. Torne-se esta contemplação tema de momentos de reflexão e de oração, de maneira que o peregrino dê louvor ao Senhor pelos céus que narram a Sua glória [175], e se sinta chamado a ser ministro do mundo na piedade e na justiça [176].
Deve-se também notar que, por certos aspectos, cada peregrinação revela um aspecto de turismo religioso, que deve ser cuidado não só para o enriquecimento cultural da pessoa, mas também para a plenitude do espírito. A contemplação da beleza é fonte de espiritualidade. Por isso, “os documentos votivos da arte popular e da piedade sejam conservados em lugar visível nos santuários ou em locais adjacentes, e sejam guardados com segurança” [177]. Ao peregrino devem ser mostrados, por meio de guias ou subsídios, estes tesouros para que, através da beleza artística e da espontaneidade dos testemunhos seculares de fé, ele possa cantar a Deus a sua glória e a sua esperança “com arte” [178], possa encontrar na contemplação das coisas admiráveis a serenidade e “pela grandeza e beleza das criaturas por analogia se conheça o autor” [179].
A ação pastoral deverá ter em consideração igualmente todos aqueles que percorrem as vias das peregrinações por outros motivos, tais como a cultura ou o tempo livre. O modo de apresentar os diversos lugares e monumentos manifeste a sua relação explícita com o caminho dos peregrinos, com a meta espiritual a que conduzem e com a experiência de fé que os originou e ainda hoje os anima. Ofereçam-se estas informações aos organizadores dessas viagens, de maneira que sejam empreendidas no máximo respeito e contribuam verdadeiramente para o enriquecimento cultural dos viajantes e para o seu progresso espiritual.
42. A peregrinação, por fim, é com muita frequência a via para entrar na tenda do encontro com Maria, a Mãe do Senhor. Maria, na qual se une a peregrinação do Verbo até à humanidade com a peregrinação de fé da humanidade [180], é “aquela que avança na peregrinação da fé” [181], tornando-se “estrela da evangelização” [182] para o caminho da Igreja inteira. Os grandes santuários marianos (como Lourdes, Fátima ou Loreto; Czestochowa, Altötting ou Mariazell; Guadalupe, Aparecida ou Luján), e os pequenos santuários, que a devoção popular erigiu em número infinito em milhares de localidades, podem ser lugares privilegiados para o encontro com o seu Filho que ela nos dá. O seu seio foi o primeiro santuário, a tenda do encontro entre divindade e humanidade, sobre a qual desceu o Espírito Santo e estendeu “a sua sombra o poder do Altíssimo” [183].
O cristão põe-se em viagem com Maria pelas estradas do amor, chegando a Isabel que encarna as irmãs e os irmãos do mundo, com os quais estabelecer um vínculo de fé e de louvor [184]. O Magnificat torna-se, então, o cântico por excelência não só da peregrinatio Mariae, mas também da nossa peregrinação na esperança [185]. O cristão põe-se em viagem com Maria pelas estradas do mundo, para subir até ao Calvário e estar ao lado dela como o discípulo predileto, para que Cristo lhe entregue como sua Mãe [186]. O cristão põe-se em viagem com Maria pelas estradas da fé, a fim de, no final, chegar ao Cenáculo onde, com ela, recebe do seu Filho Ressuscitado o dom do Espírito Santo [187].
A Liturgia e a piedade cristã oferecem ao peregrino numerosos exemplos do modo como pode recorrer a Maria, como a sua companheira de peregrinação. Faça-se referência a eles, tendo-se em consideração, antes de tudo, que os exercícios de piedade relativos à Virgem Maria devem exprimir com clareza, de modo intrínseco e essencial, a dimensão trinitária e cristológica [188]. Nutrindo uma genuína devoção mariana [189], os peregrinos enriquecerão a sua profunda devoção à Mãe de Deus com novas formas e manifestações dos seus íntimos sentimentos.

Conclusão
43. A peregrinação simboliza a experiência do homo viator que, apenas saído do seio materno, empreende o caminho do tempo e do espaço da sua existência; a experiência fundamental de Israel, que está em marcha rumo à terra prometida da salvação e da liberdade plena; a experiência de Cristo, que da terra de Jerusalém sobe até ao céu, abrindo o percurso em direção do Pai; a experiência da Igreja, que procede na história rumo à Jerusalém celeste; a experiência de toda a humanidade, que se protende para a esperança e a plenitude. Cada peregrino deveria confessar: “Por graça de Deus sou homem e cristão, pelas minhas ações, grande pecador, por condição, um peregrino desabrigado humilíssimo, que vai errando de lugar em lugar. Os meus haveres são um saco às costas, com um pouco de pão seco e uma Bíblia Sagrada que levo debaixo da camisa. Outra coisa não tenho” [190].
A Palavra de Deus e a Eucaristia acompanham-nos nesta peregrinação rumo à Jerusalém celeste, da qual os santuários são sinal vivo e visível. Quando a alcançarmos, abrir-se-ão as portas do Reino, abandonaremos o hábito de viagem e o bastão do peregrino e entraremos na nossa casa definitiva, “para estarmos para sempre com o Senhor” [191]. Lá Ele estará no meio de nós “como Aquele que serve” [192] e ceará conosco e nós com Ele [193].

O Sumo Pontífice João Paulo II, no dia 11 de abril de 1998, aprovou a publicação do presente documento. Cidade do Vaticano, 25 de abril de 1998. 

Cardeal Giovanni Cheli, Presidente

D. Francesco Gioia, Secretário

Cristo "peregrino" com os discípulos de Emaús

Notas
[1] 1Cr 29,15.
[2] cf. Concílio Ecumênico Vaticano II, Constituição Dogmática Lumen gentium, 49.
[3] cf. Departamento Nacional da Conferência Episcopal Italiana para a pastoral do tempo livre, turismo e esporte, Pastorale del Pellegrinaggio, 1996, p. 44.
[4] cf. Gn 3,23-24.
[5] cf. ibid., 4,15.
[6] cf. Lc 15,11-32.
[7] Pr 2,13; 4,19.
[8] cf. ibid., 2,15; 10,9; 21,8.
[9] cf. ibid., 2,19; 5,6; 6,23; 15,24.
[10] cf. ibid., 8,20; 12,28; Br 3,13; Is 59,8.
[11] cf. Sl 119,30; Tb 1,3.
[12] cf. Sl 101,2.
[13] cf. Gn 12,1-4.
[14] Hb 11,8-9.13.
[15] Gn 23,4.
[16] cf. ibid., 21,9-21; 26,12-18.
[17] cf. ibid., 28,2.
[18] cf. ibid., 47.50.
[19] cf. 1Cr 10,1-13.
[20] cf. Is 43,16-21.
[21] cf. Sb 11–19.
[22] cf. ibid., 19.
[23] Dt 2,7.
[24] Js 24,17.
[25] Jr 2,2.
[26] Ex 22,20.
[27] Dt 24,17; cf. 10,18.
[28] Sl 39,13; 119,19.
[29] cf. Lv 25,23.
[30] cf. Ex 34,24.
[31] cf. Sl 120–134.
[32] cf. Sl 128,1.
[33] cf. Dt 32,18; Sl 18,3; 46,2-8.
[34] cf. Sl 122,4.
[35] cf. Sl 15,1.5.
[36] cf. Sl 43,3-4.
[37] Sl 84,5-6.
[38] Jr 31,6; cf. Is 2,5.
[39] cf. Is 2,3-4; 56,6-8; 66,18-23; Mq 4,14; Zc 8,20-23.
[40] cf. Jr 31,31-34.
[41] cf. Is 1,17.
[42] cf. Os 2,16-18.
[43] cf. Is 60,3-4.
[44] ibid., 25,6.
[45] cf. ibid., 55,1-2.
[46] cf. Ez 34,11-16.
[47] Jo 14,6.
[48] João Paulo II, Carta Apostólica Tertio millennio adveniente, 18.
[49] Jo 1,2.14.
[50] João Paulo II, Carta Apostólica Tertio millennio adveniente, 6.
[51] cf. Lc 2,22-24.
[52] ibid., 2,49.
[53] cf. Lc 9,51; 24,51.
[54] ibid., 9,31.
[55] Mt 16,24; cf. Mt 10,38 e Lc 9,23.
[56] cf. Mc 8,27.34; 9,33-34; 10,17.21.28.32-33.46.52.
[57] cf. At 1,11.
[58] cf. Jo 14,2-3.
[59] Jo 16,28; 17,24.
[60] At 2,9-11.
[61] cf. Lc 24,13-35.
[62] cf. Mt 2,1-12.
[63] Mt 8,11.
[64] cf. At 2,28; 9,2; 16,17; 18,25-26; 19,9.23; 22,4; 24,14.32.
[65] cf. Mt 28,19-20.
[66] Gl 5,16.
[67] cf. Ap 22,17.20.
[68] Ef 2,19; 1Pd 2,11.
[69] cf. Ef 2,19.
[70] Hb 13,13-14.
[71] Ap 21,4
[72] cf. Concílio Ecumênico Vaticano II, Constituição Dogmática Lumen gentium, 9.
[73] cf. At 8,4.
[74] cf. At 2,7-11.
[75] João Paulo II, Carta Apostólica Tertio millennio adveniente, 25.
[76] cf. Santo Agostinho, De vera religione 39, 72: CCL 32, 234; PL 34, 154.
[77] idemDe Trinitate 15, 2, 2: CCL 50, 461; PL 42, 1058.
[78] Orígenes, In Leviticum XIII, 5; SCh 287, 220; PG 12, 551.
[79] cf. São Gregório de Nissa, Carta 2, 18: SCh 363, 122; PG 46, 1013.
[80] cf. São Jerônimo, Carta 58, 2-3: CSEL 54, 528-532: PL 22, 580-581.
[81] cf. Sl 36,10.
[82] Mt 5,48.
[83] Gl 2,20.
[84] Fl 1,21.
[85] João Paulo II, Discurso durante a visita a Viena (10 de setembro de 1983): AAS 76 (1984), p. 140.
[86] São Bernardo, Carta ao Bispo de Lincoln, 64, 2: PL 182, 169s.
[87] “Urbs Ierusalem beata, / dicta pacis visio, / quae construitur in coelis, / vivis ex lapidibus”. Brev. Rom., Comm. de Dedic.Eccl.,Himnus ad Vesp.
[88] M. Lutero, À nobreza cristã de nação alemã (1520), WA 6, 437.
[89] João Paulo II, Carta Apostólica Tertio millennio adveniente, 18.
[90] Concílio Ecumênico Vaticano II, Mensagem ao mundo (20.X.1962): AAS 54 (1962), p. 822.
[91] cf. João XXIII, Discurso na Abertura do Concílio Ecumênico Vaticano II (10.X.1962): AAS 54 (1962), p. 790; Paulo VI, Discurso na Abertura da II sessão do Concílio Ecuméênico Vaticano II (29.IX.1963): AAS 55 (1963), p. 842.
[92] Paulo VI, Discurso na Abertura da III sessão do Concílio Ecumênico Vaticano II (21.XI.1964): AAS 56 (1964), p. 1013.
[93] Paulo VI, Discurso à Assembleia das Nações Unidas (04 de novembro de 1965): AAS 57 (1965), p. 878.
[94] Concílio Ecumênico Vaticano II, Mensagem ao mundo (08 de dezembro de 1965): AAS 58 (1966), p. 11.
[95] cf. Paulo VI, Discurso no Encerramento da II sessão do Concílio Vaticano II (4.XII.1963): AAS 56 (1964), p. 39.
[96] Concílio Ecumênico Vaticano II, Constituição Dogmática Sacrosanctum concilium, 2.
[97] cf. Concílio Ecumênico Vaticano II, Constituição Dogmática Lumen gentium, 7-9.
[98] ibid., n. 3; cf. n. 13.
[99] ibid., n. 3.
[100] cf. Concílio Ecumênico Vaticano II, Decreto Ad gentes, 5.
[101] cf. Concílio Ecumênico Vaticano II, Constituição Dogmática Sacrosanctum concilium, 7.10.
[102] cf. Ex 12, 1-14.
[103] cf. Js 5, 10-12.
[104] Concílio Ecumênico Vaticano II, Decreto Ad gentes, 2; Constituição Dogmática Lumen gentium, 17.
[105] Mt 28,19.
[106] cf. Concílio Ecumênico Vaticano II, Constituição Dogmática Dei Verbum, 7.
[107] cf. Concílio Ecuméênico Vaticano II, Constituição Pastoral Gaudium et spes, 38.
[108] cf. ibid., 1-7.
[109] cf. ibid., 3.11.
[110] cf. ibid., 43.
[111) cf. ibid., 44.
[112] Paulo VI, Exortação Apostólica Nobis in animum (25 de março de 1974), sobre as maiores necessidades da Igreja na Terra Santa; Carta Apostólica Apostolorum limina (25 de maio de 1974), para a indicção do Ano Santo de 1975; Exortação Apostólica Gaudete in Domino (09 de maio de 1975), sobre a alegria cristã do Ano Santo; João Paulo II, Carta Apostólica Aperite portas Redemptori (06 de janeiro de 1983), para a indicção do Jubileu de 1983; Carta Apostólica Redemptionis anno (20 de abril de 1984), sobre Jerusalém, patrimônio sagrado de todos os fiéis, na conclusão do Jubileu de 1983; Carta Apostólica Tertio millennio adveniente (10 de novembro de 1994).
[113] João Paulo II, Audiência Geral (09 de abril de 1997), sobre a visita pastoral a Sarajevo.
[114] cf. Lv 25.
[115] Sl 104,13.
[116] At 2,44-45.
[117] Dt 15,4.7.
[118] Lc 1,68.
[119] cf. Santo Agostinho, Confissões I, 1: CCL 27, 1; PL 32, 661; XIII, 38, 53: CCL 27, 272s.; PL 32, 868.
[120] Sl 85,11.
[121] Rm 10,20; cf. Is 65,1.
[122] Is 2,3.
[123] Ap 21,2.
[124] Cântico latino-americano.
[125] cf. Lv 25.
[126] cf. Ex 27,21; 29,4.10-11.30.32.42.44.
[127] cf. Congregação para o Culto Divino, Orientações e propostas para a celebração do Ano Mariano (03 de abril de 1987): Notitiae 23 (1987), pp. 342-396.
[128] cf. João Paulo II, Discurso a um grupo de Bispos da América do Norte, em visita “ad Limina” (21 de setembro de 1993): AAS 86 (1994), p. 495.
[129] Is 56,7.
[130] João Paulo II, Discurso aos participantes no I Congresso Mundial de Pastoral dos Santuários e das Peregrinações (28 de fevereiro de 1992): Insegnamenti di Giovanni Paolo II, XV, 1 (1992), p. 420.
[131] 1Rs 9,3.
[132] João Paulo II, Carta Encíclica Dives in misericordia, 8.
[133] cf. ibid., n. 9.
[134] cf. Concílio Ecumênico Vaticano II, Constituição Dogmática Lumen gentium, 50.
[135] Concílio Ecumênico Vaticano II, Constituição Pastoral Gaudium et spes, 19.
[136] João Paulo II, Carta Apostólica Tertio millennio adveniente, 6.
[137] Paulo VI, Exortação Apostólica Evangelii nuntiandi, 26.
[138] cf. Catecismo da Igreja Católica, n. 240.
[139] João Paulo II, Carta por ocasião do VII Centenário do Santuário da Casa Santa de Loreto (15 de agosto de 1993): Insegnamenti di Giovanni Paolo II, XVI, 2 (1993), p. 533.
[140] Ml 1,11.
[141] Is 2,3.
[142] cf. João Paulo II, Exortação Apostólica Catequesi tradendae, 47.
[143] Sl 119,105.
[144] cf. João Paulo II, Discurso aos Diretores diocesanos franceses de peregrinações (17 de outubro de 1980): Insegnamenti di Giovanni Paolo II, III, 2 (1980), pp. 894-897.
[145] cf. Concílio Ecumênico Vaticano II, Constituição Dogmática Dei Verbum, 21.
[146] cf. Paulo VI, Exortação Apostólica Evangelii nuntiandi, 25.
[147] cf. Concílio Ecumênico Vaticano II, Constituição Sacrosanctum concilium, 102; Collectio Missarum de Beata Maria Virgine, Introductio, n. 6.
[148] Catecismo da Igreja Católica, n. 777.
[149] Hb 13,20.
[150] Sl 23,3.
[151] cf. João Paulo II, Discurso a um grupo de Bispos franceses por ocasião da Visita “ad Limina” (04 de abril de 1992): AAS 85 (1993), p. 368.
[152] Concílio Ecumênico Vaticano II, Decreto Presbyterorum ordinis, 6.
[153] cf. João Paulo II, Exortação Apostólica pós-sinodal Pastores dabo vobis (04 de abril de 1992), 71-72: AAS 84 (1992), pp. 782-787.
[154] cf. João Paulo II, Exortação Apostólica Christifideles laici, 18.
[155] cf. ibid., n. 23.
[156] cf. ibid., n. 34.
[157] cf. ibid., n. 7.
[158] cf. João Paulo II, Homilia na Basílica de Aparecida, no Brasil (04 de julho de 1980): Insegnamenti di Giovanni Paolo II, III, 2 (1980), p. 99.
[159] Lc 15,24.
[160] João Paulo II, Carta Encíclica Dives in misericordia, 13.
[161] cf. 1Rs 19,4-8.
[162] Código de Direito Canônico, cân. 1234 §1.
[163] cf. 1Jo 4,10.
[164] ibid., 4,11.
[165] Mt 25,40.
[166] cf. Paulo VI, Exortação Apostólica Gaudete in Domino, c. V.
[167] cf. João Paulo II, Carta Encíclica Redemptoris missio, 37.
[168] cf. 1Tm 2,5.
[169] At 17,27.
[170] Sl 148,11-13.
[171] Is 21,11-12.
[172] 1Rs 19,12.
[173] Sl 84,6.
[174] cf. Sl 123,2.
[175] cf. Sl 19,2.
[176] cf. Sb 9,3.
[177] Código de Direito Canónico, cân. 1234 §2.
[178] Sl 47,8.
[179] Sb 13,5; cf. Rm 1,19-20.
[180] cf. Paulo VI, Exortação Apostólica Marialis cultus, 37.
[181] João Paulo II, Carta Encíclica Redemptoris mater, 25.
[182] Paulo VI, Exortação Apostólica Evangelii nuntiandi, 82.
[183] Lc 1,35.
[184] cf. ibid., 1,39-56.
[185] cf. João Paulo II, Carta Encíclica Redemptoris mater, 37.
[186] cf. Jo 19,26-27.
[187] cf. At 1,14; 2,1-4.
[188] cf. Paulo VI, Exortação Apostólica Marialis cultus, 25.
[189] cf. Concílio Ecumênico Vaticano II, Constituição Dogmática Lumen gentium, 67.
[190] Anônimo, Relatos de um peregrino russo, c. I.
[191] 1Ts 4,17.
[192] Lc 22,27.
[193] cf. Ap 3,20.

Fonte: Santa Sé

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