“Aproximai-vos do
Senhor, pedra viva, rejeitada pelos homens, mas escolhida e honrosa aos olhos
de Deus” (1Pd 2,4).
Nesta postagem daremos continuidade a esta proposta com um
percurso pela leitura da Primeira
Carta de Pedro (1Pd)
na Liturgia do Rito Romano.
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| São Pedro (Matthias Stom) |
1. Breve introdução à Primeira Carta de Pedro
No primeiro versículo da Carta
o autor se apresenta como: “Pedro,
apóstolo de Jesus Cristo” (1Pd 1,1). A maioria dos estudiosos defende
que esta autoria é simbólica. Pedro morreu entre 64 e 68; contudo, diversos
elementos presentes na Carta situam sua redação nos anos 80. Portanto, seu
autor provavelmente era um discípulo do Apóstolo, que buscava para manter vivos
seus ensinamentos.
Embora associada a Roma (1Pd 5,13), chamada de “Babilônia”, a obra está dirigida “aos estrangeiros da Diáspora” (1Pd
1,1), provavelmente pequenas comunidades formadas tanto por cristãos de origem
pagã quanto de origem judaica, “espalhados” pela Ásia Menor após a destruição
de Jerusalém no ano 70 e que se consideravam “dispersos” em um mundo onde os
cristãos eram minoria.
A Carta pode ser
dividida em três partes dentro de uma “moldura epistolar”:
Introdução: 1Pd 1,1-12: Saudação (vv. 1-2) e
“ação de graças” (vv. 3-12);
1ª parte: 1Pd 1,13–2,10: Afirmação da
dignidade do cristão;
2ª parte: 1Pd 2,11–4,11: Exortação a um bom
testemunho diante dos pagãos;
3ª parte: 1Pd 4,12–5,11: Exortações para o
momento presente;
Conclusão: 1Pd 5,12-14: Conclusão e saudações
finais.
Já na primeira parte a Carta toma a forma de uma
“homilia batismal” dirigida aos neófitos, isto é, aos recém-batizados,
exortando-os a assumir a vida nova que receberam pelo sacramento.
Na segunda parte temos um dos “códigos domésticos” do NT (1Pd
2,13–3,12), no qual o autor exorta vários grupos sobre o comportamento do cristão,
chamado a dar um bom testemunho diante dos pagãos: os cidadãos diante dos
governantes, os servos com seus senhores, os esposos (sobretudo em casamentos
mistos, entre cristãos e pagãos), enfim, todos os cristãos, que devem tratar-se
como irmãos.
Ainda nesta parte se reflete sobre a atitude cristã diante
da “perseguição”. A exortação ao respeito pelas autoridades parece indicar que
não se trata de uma perseguição “até a efusão do sangue”, mas sim uma “rejeição”
dos pagãos aos valores cristãos.
O autor recorda o exemplo de Cristo: Ele sujeitou-se ao
rebaixamento da Morte, sendo glorificado em sua Ressurreição (1Pd
3,18-22). Seguindo seu exemplo, os cristãos não devem adotar o comportamento
dos pagãos (4,1-6), mas, antes, viver em atitude de vigilância, à espera da
vinda definitiva de Cristo (4,7-11).
Por fim, a terceira parte da Carta traz novas exortações sobre a provação (1Pd 4,12-19) e
sobre a vida na comunidade, sendo referidos os presbíteros (5,1-4) e os “jovens”
(5,5-11), provavelmente “iniciados” na fé.
Como podemos ver, a Primeira
Carta de Pedro é um escrito eminentemente parenético, isto é, exortativo.
Não obstante, sua teologia também é bem desenvolvida, refletindo sobre a
Trindade, o Mistério Pascal de Cristo - incluindo sua descida ao Hades (1Pd
3,18-20; 4,6) -, a Igreja, os sacramentos (sobretudo o Batismo) e a
escatologia.
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| A Santíssima Trindade, evocada na saudação da Carta |
Destaca-se ainda o amplo uso de referências do Antigo Testamento, além dos vários pontos de contato com outros escritos do NT (por exemplo, com as Cartas Paulinas).
Para saber mais, confira a bibliografia indicada no final da postagem.
2. Leitura litúrgica
da Primeira Carta de Pedro:
Composição harmônica
Como temos feito com todos os livros da Sagrada Escritura
estudados nesta série, analisaremos a leitura da Primeira Carta de Pedro nas celebrações litúrgicas seguindo os
dois critérios de seleção dos textos indicados no n. 66 do Elenco das Leituras da Missa
(ELM): a composição harmônica e a leitura semicontínua [1].
Iniciaremos nosso percurso pelas leituras em composição
harmônica, isto é, em sintonia com o tempo ou a festa litúrgica,
considerando também alguns textos da Carta proferidos como antífonas na
Missa.