quarta-feira, 14 de outubro de 2026

Homilia do Papa: Missa em Metz (2026)

Viagem Apostólica à França
Santa Missa em Metz
Homilia do Papa Leão XIV
Catedral de Santo Estêvão (Metz)
Segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Foi celebrada a Missa “pela conservação da paz e da justiça” com as seguintes leituras: Is 32,15-18; Sl 84; Mt 5,38-48.

Queridos irmãos e irmãs,
É com grande alegria que presido esta Eucaristia, durante a qual confiamos ao Senhor o caminho da Comunidade diocesana de Metz e de toda a Europa. Nesta terra histórica do Mosela [1], que nunca deixou de ser um ponto de encontro de povos e que foi uma fronteira dolorosa na Europa, a promessa de Deus ressoa hoje com uma força singular.

Na 1ª Leitura (Is 32,15-18), o profeta Isaías fala da vinda do Reino de Deus em termos de direito, justiça e paz. Recorre a três imagens: o deserto, o jardim e a casa.

No deserto, lugar de sobriedade e silêncio, instaura-se o direito, ou seja, a lei que ajuda o homem a avançar no caminho do bem. Esta imagem austera nos recorda a importância do essencial e da simplicidade, que nos permitem atribuir o justo valor às coisas, formando-nos, ao mesmo tempo, para a renúncia e o sacrifício.


A segunda imagem é a do jardim, onde reina a justiça. Se o deserto é o lugar do essencial, o jardim é o lugar da beleza. Ali há água, as sementes brotam, os rebentos despontam e as flores desabrocham, cada uma com a sua graça particular. Este é o efeito de uma vida reta, que permite à pessoa realizar-se plenamente, aderindo em liberdade aos desígnios do Senhor.

A terceira imagem é a da casa, lugar de paz. Note-se que, se o deserto e o jardim são ambientes nos quais prevalece a ação de Deus, que faz germinar e crescer, a construção de uma casa, por outro lado, requer uma contribuição mais direta e importante por parte do homem, com o uso de forças e competências, através de um esforço comum: um autêntico trabalho de “canteiro de obras”. A paz, que é um dom de Deus, exige assim uma resposta por parte dos homens, em um esforço partilhado. Mais do que uma simples construção de pedras, a casa é um lugar de presença humana e de amor. Neste sentido, a palavra profética nos recorda que, em um mundo marcado pelos limites, a concórdia só se constrói na caridade, que sabe partilhar alegrias e dores, encorajar e perdoar, sem cálculos nem limites, como em uma família.

Também o Evangelho que acabamos de ouvir nos fala disso (Mt 5,38-48). Enquanto hoje, a vários níveis, assistimos no mundo a tanta violência, manipulação e arrogância, Jesus nos ensina como transformar o deserto em um oásis, como plantar jardins e construir casas. Ele nos indica o caminho que passa pelo perdão, pela misericórdia e pela magnanimidade. «Se alguém te dá um tapa na face direita, oferece-lhe também a esquerda. Se alguém quiser abrir um processo para tomar a tua túnica, dá-lhe também o manto. Se alguém te forçar a andar uma milha, caminha duas com ele» (vv. 39-41).

Para alguns, estas palavras podem parecer um sinal de fraqueza, ou talvez uma rendição diante do mal; mas, na verdade, não é assim. Olhemos profundamente para dentro de nós mesmos e olhemos à nossa volta: o que produzem, no mundo e em nós mesmos, atitudes como a vingança, a retaliação e a rejeição? E as relações e os sistemas permeados pelas lógicas impiedosas que derivam dessas atitudes, qual futuro deixam entrever para a humanidade? Vós, que sois os filhos desta terra, dilacerada no passado por conflitos fratricidas, sabeis bem que não é verdade que quem se vinga é mais forte do que quem perdoa. Não é verdade que quem não cede é mais forte do que quem procura a reconciliação. Não é verdade que quem vai embora batendo a porta é mais forte do que quem se esforça por caminhar em conjunto.

Metz e o Mosela mostram ao mundo inteiro que a reconciliação só é possível quando se tem a coragem de quebrar a corrente do ressentimento. É preciso força e grande equilíbrio para não se deixar oprimir pelo mal, sobretudo quando as feridas sofridas são profundas. Mas, perante a injustiça, o único caminho de salvação para o homem é o amor que cuida do outro e que procura dar confiança independentemente das circunstâncias, mesmo perante os comportamentos mais difíceis de aceitar (cf. v. 42). Assim, a lei, a justiça e a paz são etapas de um caminho de conversão que, de pessoal, se torna cada vez mais comunitário, em prol de uma civilização capaz de respeitar o homem e o seu Criador.

Não é por acaso que Santo Agostinho define a paz da cidade celeste como uma comunhão harmoniosa, na qual os homens se regozijam em Deus e, n’Ele, uns nos outros (cf. De civitate Dei, XIX, 13.1). Ele fala também da paz entre os homens como do fruto de uma “tranquillitas ordinis”, na qual cada um reconhece e respeita no outro uma dignidade e um papel únicos e sagrados.

Convém recordar, aqui em Metz, que são precisamente estes os valores sobre os quais se construiu, ao longo dos séculos, a Europa que conhecemos, com o seu patrimônio espiritual e moral, antes ainda do econômico e político. Com emoção, São João Paulo II gostava de recordar que ela tem as suas raízes na vida e na obra de homens e mulheres que viveram, pregaram e partilharam os ensinamentos do Evangelho (cf. Ato Europeísta em Santiago de Compostela, 09 de novembro de 1982). São testemunho disso a grande contribuição espiritual, cultural e até agrícola e artesanal que o monaquismo deu à história do continente, bem como a obra de Santos como o grande Crodegango, Pastor incansável desta comunidade, que precisamente aqui, na Regra dos cônegos, deu uma forma visível à comunhão eclesial.

Daí nos foram transmitidos os fundamentos morais do mundo em que vivemos: princípios como o primado da pessoa e o caráter sagrado e inviolável da vida humana, em todas as suas fases e em todas as circunstâncias; a defesa da liberdade dos indivíduos; a importância primordial da família como fundamento da sociedade; a atenção aos pobres e mais necessitados; a acolhida do estrangeiro e o respeito pelos idosos.

A vossa Igreja local, que preserva a herança única de um diálogo fecundo entre a sociedade civil e a fé, em virtude do seu status particular, tem a responsabilidade de ser um laboratório vivo desta fidelidade. Manter-se fiel a estes pilares não foi fácil, nem sequer para aqueles que nos precederam. No entanto, com coerência e perseverança, os nossos antepassados os deixaram a nós como um tesouro, para o transmitirmos, por nossa vez, às gerações futuras, enriquecido pela nossa experiência, pelo valor dos nossos esforços e das nossas histórias.

A magnífica Catedral desta cidade, onde nos encontramos, ilustra muito bem tudo isso: é conhecida como Lanterne du Bon Dieu devido aos seus 6.500 metros quadrados de vitrais com representações históricas. Parece que os construtores quiseram reduzir ao mínimo as paredes, que, no entanto, permanecem sólidas, para que a luz pudesse chegar em abundância aos fiéis. Quem entra nela vê-se assim imerso em uma riquíssima “Biblia pauperum”, fonte de oração e meditação, através dos reflexos de mil cores. E neste lugar de luz, o esplendor dos vitrais foi recentemente enriquecido pela genialidade de Marc Chagall. As obras deste grande pintor judeu, incorporadas nas paredes da Catedral, transformam a Lanterne du Bon Dieu em um extraordinário símbolo ecumênico e de diálogo inter-religioso. Esta Catedral nos diz que a luz do Senhor não apaga as especificidades, mas une histórias e culturas diversas em um único e maravilhoso mosaico de paz, necessário à nossa época, dilacerada por novas divisões e novos conflitos. Ao contemplarmos estes vitrais, aprendemos que o futuro da Europa não reside na uniformidade, mas na harmonia das diferenças, onde a ferida do passado se torna uma fresta por onde a luz pode entrar.

Isto é um símbolo da nossa identidade como Igreja. Também nós utilizamos estruturas que só fazem sentido na medida em que nos ajudam a levar ao mundo a luz do Evangelho. Sem estes vitrais, as janelas da Catedral de Santo Estêvão não passariam de espaços inundados por uma luz ofuscante. Com os vitrais, tornam-se livros que nos reúnem para recordar histórias maravilhosas, cheias de heroísmo, bondade, misericórdia, amor e beleza moral, das quais, também nós, devemos ser testemunhas generosas e corajosas.

Com gratidão e confiança, no final da minha viagem à França, partilho convosco este desejo para a vossa comunidade de Metz, chamada hoje, mais do que nunca, a ser um farol de esperança para este país, para a Europa e para o mundo, confiando-a às orações da Virgem Maria e dos vossos Santos padroeiros.


Fonte: Santa Sé.

Nota:
[1] O Mosela (Moselle) é um departamento no nordeste da França, na região da Lorena (Lorraine), historicamente disputada com a Alemanha. Seu nome deriva do rio Mosela e sua capital é a cidade de Metz.

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