“O Evangelho é força
de Deus para a salvação de todo aquele que crê” (Rm 1,16).
Em nossa série de postagens sobre a leitura litúrgica dos livros da Sagrada Escritura já contemplamos cinco escritos de São Paulo: as
duas Cartas aos Tessalonicenses e
três das “grandes Cartas Paulinas” - a Carta
aos Gálatas e as duas Cartas aos
Coríntios.
Dando continuidade a esta proposta, concluiremos o bloco das
“grandes Cartas” com a Carta aos Romanos (Rm) - Πρὸς
Ρωμαίους.
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| São Paulo escrevendo (Valentin de Boulogne) |
1. Breve introdução à
Carta aos Romanos
Na Bíblia cristã as Cartas Paulinas estão organizadas em
ordem decrescente de tamanho, razão pela qual a Carta aos Romanos, com 16 capítulos, ocupa o primeiro lugar.
Alguns estudiosos a consideram a máxima expressão da
teologia paulina (embora nem todos os temas importantes para o Apóstolo estejam
presentes). Está diretamente relacionada com a Carta aos Gálatas, refletindo sobre o tema da
justificação pela fé, embora de maneira mais serena e aprofundada.
Paulo, com efeito, ainda não havia estado em Roma quando escreveu
a Carta, cuja redação teria ocorrido provavelmente entre 57 e 58,
durante sua terceira visita a Corinto. Não obstante, é possível que Apóstolo conhecesse
alguns membros da comunidade cristã de Roma, saudados no capítulo 16 (embora
alguns estudiosos considerem esse texto um acréscimo posterior).
A Carta pode ser dividida em duas grandes seções, uma
doutrinal ou teológica (Rm 1–11), subdividida em três partes, e outra parenética
ou exortativa (Rm 12–15), “emolduradas” por uma introdução e uma
conclusão:
Introdução: Rm 1,1-15: Saudação (vv. 1-7), ação
de graças (8-10) e proêmio (11-15);
Seção doutrinal:
a) Rm 1,16–4,25: A justiça de Deus revelada no
Evangelho;
b) Rm 5–8: A salvação de Deus para os justificados
pela fé;
c) Rm 9–11: As promessas de Deus a Israel;
Seção parenética: Rm 12–15,13: Conselhos para
a vida cristã;
Conclusão: Rm 15,14–16,27: Projeto de viagem a
Roma, saudações e doxologia.
Já no início da parte doutrinal há um resumo do argumento
central da Carta: o Evangelho “é força de Deus para a salvação de todo aquele
que crê”, seja este judeu ou grego (cf. Rm
1,16-17).
O Apóstolo afirma que tanto gentios quanto judeus
pecaram; portanto, defende a gratuidade da justificação: “em virtude da redenção realizada em Cristo
Jesus” (Rm 3,24). Propondo o exemplo de Abraão, demonstra que a
justificação não se dá pelas obras da Lei, mas sim pela fé.
Paulo aprofunda as consequências desta justificação pela graça na
segunda parte da seção doutrinal, recorrendo à imagem de Cristo como “novo
Adão”: pela desobediência de Adão o homem se tornou pecador, mas pela
obediência de Cristo foi justificado (cf.
Rm 5,19).
No capítulo 6 se demonstra que essa transformação ocorre pelo
Batismo, no qual morremos para o pecado e ressuscitamos para uma vida nova em
Cristo (cf. Rm 6,11).
Na terceira parte da seção doutrinal, ao refletir sobre a
eleição de Israel, Paulo faz uma recapitulação, relativizando a distinção entre
judeus e gregos: Cristo é o Senhor de todos. Os gentios foram
“enxertados” junto ao “resto de Israel” e todos se tornaram destinatários da
misericórdia de Deus.
Por fim, na seção exortativa, o Apóstolo oferece uma série
de conselhos para a vida cristã, exortando à caridade (retomando a imagem do
corpo de 1Cor), ao respeito pelas
autoridades, ao amor pelos “mais fracos”.
Para saber mais, confira a bibliografia indicada no final da
postagem. Para a aparente oposição entre Paulo e Tiago sobre a relação entre fé
e obras, confira nossas postagens sobre a Carta de Tiago e a Carta aos Gálatas.
2. Leitura litúrgica
da Carta aos Romanos: Composição
harmônica
Como fizemos com as outras Cartas, analisaremos a leitura litúrgica de Romanos a partir dos dois critérios de seleção dos textos indicados
no n. 66 do Elenco das Leituras da Missa (ELM): a composição harmônica e a
leitura semicontínua [1].
Iniciamos nosso percurso com o critério da composição
harmônica: a escolha do texto por sua sintonia com o tempo ou a festa
litúrgica.
a) Celebração Eucarística
Seguindo o ciclo do Ano Litúrgico, começamos
nossa análise pelos domingos do Tempo do
Advento, nos quais “as leituras do Apóstolo contêm exortações e
ensinamentos relativos às diversas características deste tempo” (ELM, n. 93) [2].
Assim, no I Domingo
do Advento do ano A lemos Rm 13,11-14 [3], um trecho da seção
exortativa, de caráter escatológico, expresso pela imagem do “dia que vem
chegando”: “Agora a salvação está mais
perto de nós... despojemo-nos das ações das trevas e
vistamos as armas da luz”.
























