sábado, 4 de dezembro de 2021

Homilia do Papa: Missa no Chipre

Viagem Apostólica do Papa Francisco ao Chipre e à Grécia
Santa Missa
Homilia do Papa Francisco
“GSP Stadium”, Nicósia (Chipre)
Sexta-feira, 03 de dezembro de 2021

Observação: Foram proclamadas as leituras do dia, sexta-feira da I semana do Advento: Is 29,17-24; Sl 26 (27); Mt 9,27-31.

Quando Jesus passava, dois cegos clamam por Ele referindo a sua miséria e esperança: «Filho de Davi, tem misericórdia de nós» (Mt 9,27). «Filho de Davi» era um título atribuído ao Messias, que as profecias anunciavam ser da linhagem de Davi. Assim, os dois protagonistas do Evangelho de hoje são cegos e, contudo, veem o que mais conta: reconhecem Jesus como o Messias que veio ao mundo. Detenhamo-nos nos três passos deste encontro, que nos podem ajudar, neste caminho de Advento, a acolher por nossa vez o Senhor que vem, o Senhor que passa.

O primeiro passo: ir ter com Jesus para ser curado. O texto afirma que os dois cegos clamavam pelo Senhor, enquanto O seguiam (cf. Mt 9,27). Não O veem, mas ouvem a sua voz e seguem os seus passos. Procuram em Cristo aquilo que predisseram os profetas, ou seja, os sinais de cura e compaixão de Deus no meio do seu povo. A este respeito, escrevera Isaías: «Abrir-se-ão os olhos do cego» (Is 35,5). E noutra profecia, contida aliás na 1ª Leitura de hoje: «Livres da escuridão e das trevas, os olhos dos cegos verão» (Is 29,18). Os dois do Evangelho confiam em Jesus e seguem-No à procura de luz para os seus olhos.
E por que motivo, irmãos e irmãs, confiam em Jesus estas duas pessoas? Porque percebem que Ele, na escuridão da história, é a luz que ilumina as noites do coração e do mundo, derrota as trevas e vence toda a cegueira. Como sabemos, também nós trazemos a cegueira no coração. Também nós, como os dois cegos, somos caminhantes muitas vezes imersos nas trevas da vida. A primeira coisa a fazer é ir ter com Jesus, como Ele próprio nos pede: «Vinde a Mim, todos os que estais cansados e oprimidos, que Eu hei de aliviar-vos» (Mt 11,28). E quem dentre nós não está de alguma forma cansado e oprimido? Todos. Todavia sentimos relutância a encaminhar-nos para Jesus; muitas vezes preferimos ficar fechados em nós mesmos, ficar sozinhos com as nossas trevas, lamentar-nos um pouco da nossa sorte, aceitando a má companhia da tristeza. Jesus é o médico: só Ele - a luz verdadeira que a todo o homem ilumina (cf. Jo 1,9) - nos dá em abundância luz, calor, amor. Só Ele liberta o coração do mal. Podemos interrogar-nos: fecho-me na escuridão da melancolia, que seca as fontes da alegria, ou vou ter com Jesus apresentando-Lhe a minha vida? Sigo Jesus, vou atrás d’Ele, clamo para Ele as minhas necessidades, entrego-Lhe as minhas amarguras? Façamo-lo; demos a Jesus a possibilidade de nos curar o coração. Este é o primeiro passo; a cura interior requer mais dois.

O segundo é suportar, juntos, as feridas. Nesta narração evangélica, não temos a cura só de um cego, como por exemplo nos casos de Bartimeu (cf. Mc 10,46-52) ou do cego de nascença (cf. Jo 9,1-41). Aqui, os cegos são dois. Vão juntos pela estrada. Juntos, partilham a pena da sua condição, juntos desejam uma luz que possa acender um clarão no coração das suas noites. O texto que ouvimos está sempre no plural, porque os dois fazem tudo juntos: ambos seguem Jesus, ambos clamam para Ele e pedem a cura; não cada um para si mesmo, mas juntos. É significativo ouvi-los dizer a Cristo: Tem misericórdia de nós. Usam «nós»; não dizem «de mim». Não pensa cada qual na própria cegueira, mas pedem ajuda juntos. Eis o sinal eloquente da vida cristã, eis o traço distintivo do espírito eclesial: pensar, falar, agir como um «nós», saindo do individualismo e da pretensão de autossuficiência que fazem adoecer o coração.
Os dois cegos ensinam-nos tanto com a partilha das suas tribulações e a sua amizade fraterna. Cada um de nós está de algum modo cego por causa do pecado, que nos impede de «ver» Deus como Pai e os outros como irmãos. O que faz o pecado é desvirtuar a realidade: faz-nos ver Deus como patrão e os outros como problemas. É a obra do tentador, que falsifica as coisas e tende a mostrá-las a nós sob uma luz negativa, para nos lançar no desconforto e na amargura. E a má tristeza, que é perigosa e não vem de Deus, aninha-se bem na solidão. Por isso não se pode enfrentar a escuridão sozinho. Se levarmos sozinhos as nossas cegueiras interiores, somos sufocados. Precisamos colocar-nos um ao lado do outro, partilhar as feridas, enfrentar juntos a estrada.
Queridos irmãos e irmãs, perante toda a escuridão pessoal e os desafios que enfrentamos na Igreja e na sociedade, somos chamados a renovar a fraternidade. Se permanecermos divididos entre nós, se cada um pensar apenas em si mesmo ou no seu grupo, se não nos relacionarmos, não dialogarmos, não caminharmos unidos, não poderemos curar-nos plenamente da cegueira. A cura verifica-se quando carregamos juntos as feridas, quando enfrentamos juntos os problemas, quando nos ouvimos e conversamos. E esta é a graça de viver em comunidade, de compreender o valor de estar juntos, de estar em comunidade. Peço, para vós, que possais estar sempre juntos, viver sempre unidos e prosseguir jubilosamente assim: irmãos cristãos, filhos do único Pai. E peço-o também para mim.

E eis o terceiro passo: anunciar o Evangelho com alegria. Depois de terem sido curados juntos por Jesus, os dois anônimos protagonistas do Evangelho, em quem nos podemos espelhar, começam a propagar a notícia por toda a região, a falar disso por todo o lado. Há um pouco de ironia no caso: Jesus recomendara-lhes que não dissessem nada a ninguém, mas eles fazem exatamente o contrário (cf. Mt 9,30-31). No entanto, compreende-se da narração que não é intenção deles desobedecer ao Senhor; simplesmente não conseguem conter o entusiasmo de terem sido curados, a alegria pelo que viveram no encontro com Ele. E aqui está outro sinal distintivo do cristão: a alegria do Evangelho, que é irreprimível, «enche o coração e a vida inteira daqueles que se encontram com Jesus» (Exortação Apostólica Evangelii gaudium, n. 1); a alegria do Evangelho livra do risco de uma fé intimista, sisuda e lamurienta, e introduz no dinamismo do testemunho.
Caríssimos, é bom ver-vos e verificar que viveis com alegria o anúncio libertador do Evangelho. Agradeço-vos por isso. Não se trata de proselitismo (por favor, nunca façamos proselitismo), mas de testemunho; nem de um moralismo que condena (não, não façamos isto), mas de misericórdia que abraça; nem de culto exterior, mas de amor vivido. Encorajo-vos a prosseguir por este caminho: como os dois cegos do Evangelho, renovemos também nós o encontro com Jesus e saiamos de nós mesmos sem medo para O testemunhar a quantos encontramos. Saiamos levando a luz que recebemos, saiamos iluminando a noite que frequentemente nos rodeia. Irmãos e irmãs, há necessidade de cristãos iluminados, mas sobretudo luminosos, que toquem com ternura a cegueira dos irmãos; que acendam, com gestos e palavras de consolação, luzes de esperança na escuridão. Cristãos que plantem rebentos de Evangelho nos campos áridos da vida quotidiana, levem carícias às solidões do sofrimento e da pobreza.

Irmãos, irmãs, o Senhor Jesus passa... passa também pelas nossas estradas de Chipre, escuta o clamor das nossas cegueiras, quer tocar os nossos olhos, quer tocar o nosso coração, fazer-nos abrir à luz, renascer, levantar-nos interiormente: isto é o que Jesus quer fazer. E dirige também a nós a pergunta que fez àqueles cegos: «Credes que tenho poder para fazer isso?» (Mt 9,28). Cremos que Jesus possa fazer isso? Renovemos a nossa confiança n’Ele. Digamos-Lhe: Jesus, acreditamos que a vossa luz é maior do que qualquer uma das nossas trevas; cremos que Vós podeis curar-nos, que Vós podeis renovar a nossa fraternidade, que podeis multiplicar a nossa alegria; e, com toda a Igreja, Vos invocamos todos juntos: Vinde, Senhor Jesus! [Todos repetem: «Vinde, Senhor Jesus!»] Vinde, Senhor Jesus! [Todos: «Vinde, Senhor Jesus!»] Vinde, Senhor Jesus!


Fonte: Santa Sé.

Spiritus et Sponsa: Carta do Papa João Paulo II sobre a Liturgia

No dia 04 de dezembro de 2003 o Papa São João Paulo II (†2005) publicou a Carta Apostólica Spiritus et Sponsa (O Espírito e a Esposa; cf. Ap 22,17) por ocasião dos 40 anos da Constituição Sacrosanctum Concilium (SC) do Concílio Vaticano II sobre a Sagrada Liturgia, promulgada por São Paulo VI (†1978) em 04 de dezembro de 1963.

Segue o texto dessa breve Carta Apostólica (com apenas 16 parágrafos), enquanto nos encaminhamos para a celebração dos 60 anos da Constituição litúrgica:

João Paulo II
Carta Apostólica Spiritus et Sponsa
No 40º aniversário da Constituição Sacrosanctum Concilium sobre a Sagrada Liturgia

1. “O Espírito e a Esposa dizem: ‘Vem!’. E quem escuta, repete: ‘Vem!’. Quem tem sede, que venha; quem quiser, beba gratuitamente da água da vida” (Ap 22,17). Estas palavras do Apocalipse ressoam na minha alma, enquanto recordo que, há quarenta anos, exatamente no dia 04 de dezembro de 1963, o meu venerado Predecessor o Papa Paulo VI, promulgava a Constituição Sacrosanctum Concilium sobre a Sagrada Liturgia. Com efeito, o que é a Liturgia, senão a voz uníssona do Espírito Santo e da Esposa, a santa Igreja, que bradam ao Senhor Jesus: “Vem”? O que é a Liturgia, senão aquela fonte pura e perene de “água viva”, da qual cada pessoa sedenta pode haurir gratuitamente o dom de Deus (cf. Jo 4,10)? Verdadeiramente, na Constituição sobre a Sagrada Liturgia, primícias daquela “grande graça de que a Igreja beneficiou no século XX” [1], o Concílio Vaticano II, o Espírito Santo falou à Igreja, orientando incessantemente os discípulos do Senhor “para a verdade integral” (Jo 16,13). Recordar o 40º aniversário daquele acontecimento constitui uma feliz ocasião para redescobrir as temáticas de base da renovação litúrgica desejada pelos Padres do Concílio, verificar de certa forma a sua recepção e lançar o olhar para o futuro.

Vitral do Espírito Santo na Basílica de São Pedro

Uma consideração sobre a Constituição conciliar

2. Com o passar do tempo, à luz dos frutos que ela produziu, vê-se cada vez mais claramente a importância da Sacrosanctum Concilium. Nela são delineados de maneira luminosa os princípios que fundamentam a práxis litúrgica da Igreja e inspiram a sua sadia renovação ao longo do tempo (SC, n. 3). A Liturgia é inserida pelos Padres conciliares no horizonte da história da salvação, cuja finalidade é a redenção humana e a perfeita glorificação de Deus. A redenção encontra o seu prelúdio nas gestas admiráveis do Antigo Testamento e foi cumprida por Cristo Senhor, de modo especial por intermédio do Mistério Pascal da sua sagrada Paixão, Ressurreição da morte e gloriosa Ascensão (SC, n. 5). Todavia, ela tem necessidade de ser não apenas anunciada, mas também atuada, e é isto que acontece “por meio do Sacrifício e dos Sacramentos, em redor dos quais gravita toda a vida litúrgica” (SC, n. 6). Cristo torna-se especialmente presente nas ações litúrgicas, associando a Igreja a si mesmo. Por conseguinte, cada celebração é obra de Cristo Sacerdote e do seu Corpo Místico, “culto público integral” (SC, n. 7), em que se participa antegozando-a na Liturgia da Jerusalém celestial (cf. SC, n. 8). Por este motivo, “a Liturgia é o ápice para o qual tende a ação da Igreja e, ao mesmo tempo, a fonte de onde promana toda a sua virtude” (SC, n. 10).

sexta-feira, 3 de dezembro de 2021

A árvore de Natal

“Pelos seus frutos os conhecereis” (Mt 7,20).

A piedade popular é particularmente sensível ao ciclo da Encarnação e da Manifestação do Senhor, isto é, aos Tempos do Advento e do Natal.

Aqui em nosso blog já realizamos postagens sobre diversas expressõe de piedade popular em harmonia com esse ciclo do Ano Litúrgico (algumas das quais foram recentemente revistas e ampliadas): a coroa do Advento; as Missas Rorate; a novena de Natal; as Antífonas do Ó; o presépio; o hino Adeste fideles (Cristãos, vinde todos).

Faltava-nos, porém, refletir sobre o rico simbolismo da árvore de Natal, que exploraremos a seguir.

Árvore de Natal e presépio napolitano do séc. XVIII
(Metropolitan Museum of Art, New York)

O simbolismo da árvore

A árvore é um símbolo natural presente nas mais diversas culturas e tradições religiosas. Evoca espontaneamente a vida (em suas folhas e frutos), a proteção (com sua sombra e seus ramos), a renovação (sendo “transformada” pelo ciclo das estações).

É um símbolo situado entre “três mundos”: suas raízes estão sob a terra; seu tronco é visível sobre a terra; e seus ramos apontam para o céu. Portanto, é também um símbolo da ascensão espiritual do homem.

O Livro dos Salmos começa justamente comparando o homem justo a uma árvore plantada junto à água corrente: “ela sempre dá seus frutos a seu tempo, e jamais as suas folhas vão murchar” (Sl 1,3).

O simbolismo da árvore, com efeito, percorre toda a Sagrada Escritura: desde a “árvore do juízo do bem e do mal” no Gênesis (Gn 2–3) até a “árvore da vida” no Apocalipse (Ap 22).

No centro, está a “árvore da cruz”, na qual Cristo redime o pecado dos primeiros pais: se junto da árvore do paraíso o homem quis se fazer deus (Gn 3,5), tomando para si o fruto, na árvore da cruz Deus que se fez homem estende seus braços para tudo doar (cf. Fl 2,6-11; Rm 5,12-21). A árvore da cruz se torna, pois, axis mundi (o centro do mundo): sua dupla direção, vertical e horizontal, comunica o amor de Deus em todo tempo e lugar [1].

Cristo crucificado em uma árvore junto a Adão e Eva
(Edward Burne Jones - séc. XIX)

Ao longo da Sagrada Escritura também são mencionadas árvores específicas, com suas respectivas características: palmeira, cedro, figueira, oliveira, videira...

A origem da árvore de Natal

A “pré-história” da árvore de Natal encontra-se na obra de evangelização dos povos germânicos realizada por São Bonifácio de Mogúncia (†754).

quinta-feira, 2 de dezembro de 2021

Catequeses sobre os Salmos (45): Vésperas da sexta-feira da II semana

Os textos das Vésperas da sexta-feira da II semana constituem um marco na série de Catequeses sobre os salmos e cânticos da Liturgia das Horas: no dia 26 de janeiro de 2005 o Papa João Paulo II proferiria sua última Catequese desta série (Sl 114).

Após sua morte, no dia 02 de abril de 2005, o Papa Bento XVI retomaria o ciclo de Catequeses a partir dos dias 04 de maio (Sl 120) e 11 de maio de 2005 (Ap 15,3-4).

131. Ação de graças: Sl 114(116A),1-9
26 de janeiro de 2005

1. No Salmo 114, que acaba de ser proclamado, a voz do salmista expressa amor reconhecido pelo Senhor, porque escutou sua intensa súplica: “Eu amo o Senhor, porque ouve o grito da minha oração. Inclinou para mim seu ouvido, no dia em que eu o invoquei.” (vv. 1-2). Imediatamente após esta declaração de amor, tem-se uma profunda descrição do pesadelo mortal que atormentou a vida do orante (vv. 3-6).
O drama é representado com os símbolos habituais presentes nos Salmos. Os laços que prendem a existência são os da morte, as cordas que a angustiam são as espirais dos sepulcros, que querem atrair a si os vivos sem jamais se aplacar (cf. Pr 30,15-16).

2. A imagem é a de uma presa que caiu na armadilha de um caçador inexorável. A morte é como uma mordaça que aperta (v. 3). Portanto, por detrás do orante encontra-se um perigo de morte, acompanhado de uma experiência psíquica dolorosa: “Invadiam-me angústia e tristeza” (v. 3). Contudo, desse abismo trágico foi lançado um grito ao Único que pode estender a mão e tirar o orante angustiado daquele enredo inextricável: “Salvai, ó Senhor, minha vida!” (v. 4).
É uma oração breve, mas intensa, do homem que, encontrando-se numa situação desesperada, se agarra à única tábua de salvação. Assim, no Evangelho, bradaram os discípulos na tempestade (cf. Mt 8,25), assim implorou Pedro quando, caminhando sobre as águas do mar, começava a afundar (cf. Mt 14,30).

O então Cardeal Ratzinger (futuro Bento XVI) apresenta a cruz ao Papa João Paulo II

3. Tendo sido salvo, o orante proclama que o Senhor “é justiça e bondade”, aliás, “é amor-compaixão” (v. 5). No horizonte hebraico, este último adjetivo remete para a ternura da mãe, de quem ele evoca as “entranhas”.
A confiança autêntica sente sempre Deus como amor, embora em certos momentos seja difícil intuir o percurso da sua ação. De qualquer forma, permanece certo que “o Senhor defende os humildes” (v. 6). Portanto, na miséria e no abandono pode-se contar sempre com ele, “pai dos órfãos e protetor das viúvas” (Sl 67,6).

3ª Catequese do Papa Francisco sobre São José

Na quarta-feira, 01 de dezembro de 2021, o Papa Francisco proferiu a 3ª reflexão do seu ciclo de Catequeses sobre São José:

Papa Francisco
Audiência Geral
Quarta-feira 01 de dezembro de 2021
São José (3): José, homem justo e esposo de Maria

Estimados irmãos e irmãs, bom dia!
Continuemos o nosso caminho de reflexão sobre a figura de São José. Hoje gostaria de explorar o seu ser “justo” e “noivo de Maria”, e assim dar uma mensagem a todos os noivos, incluindo os recém-casados. Muitos acontecimentos ligados a José são contados nos Evangelhos apócrifos, ou seja, Evangelhos não canônicos, que também influenciaram a arte e vários lugares de culto. Estes escritos, que não estão na Bíblia - são histórias que a piedade cristã narrava naquele tempo - respondem ao desejo de preencher as lacunas narrativas dos Evangelhos canônicos, aqueles que estão na Bíblia, os quais nos dão tudo o que é essencial para a fé e a vida cristã.
O evangelista Mateus. Isto é importante: o que diz o Evangelho sobre José? Não o que dizem os Evangelhos apócrifos, que não são negativos nem maus; são bonitos, mas não são a Palavra de Deus. Ao contrário, os Evangelhos, que estão na Bíblia, são a Palavra de Deus. Entre eles está o evangelista Mateus que define José um homem “justo”. Ouçamos a sua narração: «Eis como nasceu Jesus Cristo: Maria, sua mãe, estava desposada com José. Antes de coabitarem, aconteceu que ela concebeu por virtude do Espírito Santo. José, seu esposo, que era homem de bem, não querendo difamá-la, resolveu rejeitá-la secretamente» (Mt 1,18-19). Pois os noivos, quando a noiva não era fiel ou engravidava, deviam denunciá-la! E as mulheres naquele tempo eram apedrejadas. Mas José era justo. E disse: “Não, eu não farei isto. Ficarei calado”.
Para compreender o comportamento de José em relação a Maria, é útil recordar os costumes matrimoniais do antigo Israel. O matrimônio compreendia duas fases bem definidas. A primeira era como um noivado oficial, que já implicava uma nova situação: em particular, a mulher, embora continuasse a viver na casa do seu pai por mais um ano, era de fato considerada a “esposa” do noivo. Ainda não viviam juntos, mas era como se ela fosse sua esposa. O segundo ato era a transferência da noiva da casa do seu pai para a casa do noivo. Isto acontecia com uma procissão festiva, que completava o matrimônio. E as amigas da noiva acompanhavam-na até lá. De acordo com estes costumes, o fato que «antes que fossem viver juntos, Maria estava grávida», expunha a Virgem à acusação de adultério. E esta culpa, segundo a Lei antiga, devia ser punida com a lapidação (cf. Dt 22,20-21). No entanto, na prática judaica posterior, uma interpretação mais moderada tinha-se tornado realidade e apenas impunha o ato de repúdio, com consequências civis e criminais para a mulher, mas não o apedrejamento.
O Evangelho diz que José era “homem de bem” precisamente porque estava sujeito à lei como qualquer israelita piedoso. Mas dentro dele, o amor por Maria e a confiança nela sugeriam um modo de salvar a observância da lei e a honra da sua esposa: ele decidiu dar-lhe o ato de repúdio em segredo, sem clamor, sem a sujeitar à humilhação pública. Escolheu o caminho do segredo, sem julgamento nem vingança. Mas quanta santidade em José! Nós, que assim que temos um pouco de notícias folclóricas ou negativas sobre alguém, vamos imediatamente à tagarelice! José, ao contrário, fica calado.
Mas o evangelista Mateus acrescenta: «Enquanto José pensava nisso, eis que o anjo do Senhor apareceu-lhe, em sonho, e lhe disse: “José, filho de Davi, não temas receber Maria por esposa, pois o que nela foi concebido vem do Espírito Santo. Ela dará à luz um filho, a quem porás o nome de Jesus, porque ele salvará o seu povo de seus pecados”» (Mt 1,20-21). A voz de Deus intervém no discernimento de José e, através de um sonho, revela-lhe um significado maior do que a sua própria justiça. E como é importante para cada um de nós cultivar uma vida justa e, ao mesmo tempo, sentir que sempre precisamos da ajuda de Deus! Para poder alargar os nossos horizontes e considerar as circunstâncias da vida sob um ponto de vista diferente e mais amplo. Muitas vezes sentimo-nos prisioneiros pelo que nos aconteceu - “Mas vejam o que me aconteceu!” - e continuamos prisioneiros daquela situação má que nos aconteceu; mas precisamente perante algumas circunstâncias da vida, que inicialmente parecem dramáticas, existe uma Providência que com o tempo toma forma e ilumina com significado até a dor que nos atingiu. A tentação é fecharmo-nos nessa dor, nesse pensamento das coisas desagradáveis que nos aconteceu. E isto não é bom. Leva à tristeza e à amargura. O coração amargo é tão triste.
Gostaria que fizéssemos uma pausa e refletíssemos sobre um pormenor desta história narrada no Evangelho que muitas vezes ignoramos. Maria e José são dois noivos que provavelmente tinham sonhos e expectativas sobre as suas vidas e o seu futuro. Deus parece intervir como um acontecimento inesperado na sua vicissitude; embora com alguma dificuldade inicial, ambos abrem o coração para a realidade que lhes é apresentada.
Estimados irmãos e irmãs, muitas vezes as nossas vidas não são como as imaginamos. Especialmente nas relações de amor, de afeto, temos dificuldade em passar da lógica do “apaixonar-se” para a lógica do amor maduro. E temos de passar da paixão para o amor maduro. Vós, recém-casados, pensai bem nisto. A primeira fase é sempre marcada por um certo encantamento, que nos faz viver imersos num mundo imaginário que muitas vezes não corresponde à realidade dos fatos. Mas precisamente quando a paixão, com as suas expectativas, parece chegar ao fim, neste momento o verdadeiro amor pode começar. Com efeito, amar não é pretender que o outro ou a vida corresponda à nossa imaginação; pelo contrário, significa escolher com total liberdade assumir a responsabilidade pela vida que nos é oferecida. É por isso que José nos dá uma lição importante, ele escolheu Maria “com olhos abertos”. E podemos dizer que com todos os riscos. Pensai, no Evangelho de João, uma reprimenda que fazem os doutores da lei a Jesus é esta: “Não somos filhos que provêm de lá”, referindo-se à prostituição. Porque sabiam como Maria tinha engravidado e queriam difamar a mãe de Jesus. Para mim este é o trecho mais sujo e demoníaco do Evangelho. E o risco de José dá-nos esta lição: assumir a vida como vem. Deus interveio nela? Assumo-a. E José comportou-se como o anjo do Senhor lhe ordenara: de fato, o Evangelho diz: «Despertando, José fez como o anjo do Senhor lhe havia mandado e recebeu em sua casa a sua esposa. E, sem que ele a tivesse conhecido, ela deu à luz o seu filho, que recebeu o nome de Jesus» (Mt 1,24-25). Os noivos cristãos são chamados a dar testemunho deste amor, que tem a coragem de passar da lógica do “apaixonar-se” à lógica do amor maduro. E esta é uma escolha exigente que, em vez de aprisionar a vida, pode fortalecer o amor para que seja duradouro face às provações do tempo. O amor de um casal continua na vida e amadurece todos os dias. O amor do noivado é um pouco - permiti-me que o diga - um pouco romântico. Vós o vivestes, mas depois começa o amor maduro, quotidiano, o trabalho, as crianças que chegam. E, por vezes, aquele romantismo desaparece um pouco. Mas não há amor? Sim, mas amor maduro. “Mas sabe, padre, por vezes discutimos...”. Isto acontece desde o tempo de Adão e Eva até aos dias de hoje: que os esposos brigam é o pão nosso de cada dia. “Mas não deveríamos discutir?”. Sim, é possível. “E padre, mas por vezes erguemos a voz” -  “Acontece”. “E também por vezes os pratos voam” - “Acontece”. Mas como assegurar que isso não prejudique a vida do matrimônio? Escutai bem: nunca terminai o dia sem fazer as pazes. “Tivemos uma discussão, disse-te coisas más, meu Deus, disse-te palavras más. Mas agora o dia acaba: tenho de fazer a paz”. Sabei por quê? Porque a guerra fria do dia seguinte é muito perigosa. Não deixeis que no dia seguinte comece uma guerra. Por isso que se deve fazer as pazes antes de ir para a cama. Lembrai-vos sempre: nunca terminar o dia sem fazer a paz. E isto irá ajudar-vos na vida de casado. Este percurso doa paixão para o amor maduro é uma escolha exigente, mas devemos seguir por esse caminho.
E também desta vez concluímos com uma oração a São José:

São José, vós que amastes Maria com liberdade e optastes por renunciar à sua imaginação para criar espaço à realidade, ajudai cada um de nós a deixarmo-nos surpreender por Deus e acolher a vida não como um acontecimento imprevisto do qual nos devemos defender, mas como um mistério que esconde o segredo da verdadeira alegria.
Obtende alegria e radicalidade para todos os noivos cristãos, mas conservando sempre a consciência de que só a misericórdia e o perdão tornam o amor possível. Amém.


Fonte: Santa Sé.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2021

Festa de Santo André em Constantinopla

No último dia 30 de novembro o Patriarca Bartolomeu de Constantinopla celebrou na igreja de São Jorge em Istambul a Divina Liturgia por ocasião da Festa de Santo André, Apóstolo, padroeiro do Patriarcado. Durante a celebração, o Patriarca conferiu o Sacramento da Ordem a um novo diácono.

Uma vez que São Pedro e Santo André eram irmãos, há tradicionalmente um "intercâmbio de delegações" entre as igrejas de Roma e Constantinopla: o Patriarca Bartolomeu envia um representante para a Missa da Solenidade de São Pedro e São Paulo em Roma e o Papa Francisco envia um representante à Divina Liturgia da Festa de Santo André.

Como de costume, a delegação foi presidida pelo Cardeal Kurt Koch, Presidente do Conselho para a Unidade dos Cristãos, que leu uma mensagem do Papa Francisco no final da celebração.

Início da Divina Liturgia
O Patriarca abençoa o candidato ao diaconato


O Patriarca abençoa os fiéis

A viagem do Papa Francisco ao Chipre e à Grécia

De 02 a 06 de dezembro de 2021 o Papa Francisco realiza sua 35ª Viagem Apostólica fora da Itália, com destino ao Chipre e à Grécia.

Esta será sua terceira viagem desde o início da pandemia de Covid-19 (após as viagens ao Iraque em março e à Hungria e Eslováquia em setembro) e a 14ª dentro da Europa [1].

Logotipo da viagem do Papa Francisco ao Chipre
Note-se a imagem de São Barnabé, natural desta ilha

A primeira etapa da viagem será o Chipre, do dia 02 ao dia 04 de dezembro. Esta será a segunda visita de um Papa ao país, uma vez que Bento XVI visitou o Chipre de 04 a 06 de junho de 2010, ocasião em que publicou o Instrumentum Laboris da Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para o Oriente Médio (celebrada em outubro do mesmo ano no Vaticano).

Logotipo da viagem do Papa Francisco à Grécia

Do dia 04 ao dia 06 de dezembro, por sua vez, Francisco visita a Grécia. Esta será sua segunda visita ao país: no dia 16 de abril de 2016 o Papa realizou uma breve visita ao país, especificamente a um campo de refugiados na ilha de Lesbos.

Antes de Francisco, também São João Paulo II (†2005) visitou a Grécia: como “fruto” do Grande Jubileu do ano 2000, o Papa polonês realizou uma peregrinação “Nos passos de São Paulo”, que incluiu uma etapa em Atenas entre 04 e 05 de maio de 2001.

Confira a homilia proferida por São João Paulo II na Missa em Atenas clicando aqui.

São João Paulo II no Areópago de Atenas (2001)

Programa da viagem:

Dia 02 de dezembro (quinta-feira):

O Santo Padre chega ao Chipre na tarde da quinta-feira, 02 de dezembro. Nesse dia estão previstos dois encontros: primeiramente com sacerdotes e religiosos na Catedral Maronita de Nossa Senhora das Graças em Nicósia; e o encontro com o Presidente e outras autoridades civis no Palácio Presidencial, também na capital, Nicósia.

Bento XVI celebra a Missa no Chipre (2010)

Dia 03 de dezembro (sexta-feira):

O segundo dia da viagem, por sua vez, será marcado por quatro encontros em Nicósia: pela manhã, Francisco visita Sua Beatitude Chrysostomos II (Χρυσόστομος), Arcebispo da Igreja Ortodoxa do Chipre, na sede do Arcebispado. Na sequência, o Santo Padre encontra-se com os Bispos do Sínodo da Igreja Ortodoxa do Chipre na nova Catedral de São Barnabé.