terça-feira, 6 de novembro de 2018

XIII Catequese do Papa sobre os Mandamentos: Não cometer adultério II

Papa Francisco
Audiência Geral
Quarta-feira, 31 de outubro de 2018
Os Mandamentos (13): Não cometer adultério II

Amados irmãos e irmãs, bom dia!
Hoje gostaria de completar a catequese sobre a Sexta Palavra do Decálogo - “Não cometerás adultério” - evidenciando que o amor fiel de Cristo é a luz para viver a beleza da afetividade humana. Com efeito, a nossa dimensão afetiva é uma chamada ao amor, que se manifesta na fidelidade, no acolhimento e na misericórdia. Isto é muito importante. Como se manifesta o amor? Na fidelidade, no acolhimento e na misericórdia.
Contudo, não se deve esquecer que este mandamento se refere explicitamente à fidelidade matrimonial, e portanto é bom refletir mais a fundo acerca do significado esponsal. Este trecho da Escritura, este excerto da Carta de São Paulo, é revolucionário! Refletir, com a antropologia daquele tempo, e dizer que o marido tem que amar a esposa como Cristo ama a Igreja: mas é uma revolução! Talvez, naquela época, seja o aspeto mais revolucionário que foi dito acerca do matrimônio. Sempre pelo caminho do amor. Podemos questionar-nos: a quem se destina este mandamento de fidelidade? Só aos esposos? Na realidade, este mandamento é para todos, é uma Palavra paterna de Deus dirigida a cada homem e mulher.
Recordemo-nos que o caminho da maturação humana é o próprio percurso do amor que vai do receber cuidados à capacidade de oferecer cuidados, do receber a vida à capacidade de dar a vida. Tornar-se homens e mulheres adultos significa chegar a viver a capacidade esponsal e parental, que se manifesta nas várias situações da vida como a capacidade de assumir sobre si o peso de outra pessoa e amá-la sem ambiguidades. Trata-se, por conseguinte, de uma atitude global da pessoa que sabe assumir a realidade e sabe entrar numa relação profunda com os demais.
Por conseguinte, quem é o adúltero, o luxurioso, o infiel? É uma pessoa imatura, que conserva para si a própria vida e interpreta as situações com base no seu bem-estar e satisfação. Portanto, para se casar, não é suficiente celebrar o matrimônio! É necessário percorrer um caminho do eu para o nós, do pensar sozinho para o pensar a dois, do viver sozinho para o viver a dois: é um bonito percurso, é um bonito percurso. Quando conseguimos descentralizar-nos, então cada ação é esponsal: trabalhamos, falamos, decidimos, encontramos os outros com a atitude acolhedora e oblativa.
Cada vocação cristã, neste sentido - agora podemos alargar um pouco a perspectiva e dizer que qualquer vocação cristã, neste sentido, é esponsal. É o caso do sacerdócio, porque é uma chamada, em Cristo e na Igreja, a servir a comunidade com todo o afeto, o cuidado concreto e a sabedoria que o Senhor concede. A Igreja não precisa de candidatos para desempenhar o papel de sacerdotes - não, não servem, é melhor que fiquem em casa - mas servem homens aos quais o Espírito Santo toca o coração com um amor sem reservas pela Esposa de Cristo. No sacerdócio ama-se o povo de Deus com toda a paternidade, a ternura e a força de um esposo e de um pai. Assim também a virgindade consagrada em Cristo deve ser vivida com fidelidade e alegria como relação esponsal e fecunda de maternidade e paternidade.
Repito: cada vocação cristã é esponsal, pois é fruto do vínculo de amor no qual todos somos regenerados, o vínculo de amor com Cristo, como nos recordou o trecho de Paulo lido no início. A partir da sua fidelidade, da sua ternura, da sua generosidade olhemos com fé para o matrimônio e para cada vocação, e compreendamos o sentido pleno da sexualidade.
A criatura humana, na sua inseparável unidade de espírito e corpo, e na sua polaridade masculina e feminina, é uma realidade muito boa, destinada a amar e a ser amada. O corpo humano não é um instrumento de prazer, mas o lugar da nossa chamada ao amor, e no amor autêntico não há espaço para a luxúria nem para a sua superficialidade. Os homens e as mulheres merecem mais do que isto!
Portanto, a Palavra «Não cometerás adultério», mesmo se em forma negativa, orienta-nos para a nossa chamada originária, ou seja, para o amor esponsal total e fiel, que Jesus Cristo nos revelou e doou (cf. Rm 12,1).


Fonte: Santa Sé

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

Ângelus: XXX Domingo do Tempo Comum - Ano B

Papa Francisco
Ângelus
Domingo, 28 de outubro de 2018

Prezados irmãos e irmãs, bom dia!
Hoje de manhã, na Basílica de São Pedro, celebramos a Missa de encerramento da Assembleia do Sínodo dos Bispos, dedicada aos jovens. A 1ª leitura, do profeta Jeremias (Jr 31,7-9), estava particularmente em sintonia com este momento, porque é uma palavra de esperança que Deus oferece ao seu povo. Uma palavra de consolação, fundada sobre o fato de que Deus é Pai para o seu povo, que o ama e cuida dele como um filho (v. 9); abre-lhe à frente um horizonte de futuro, uma senda acessível, praticável, ao longo da qual poderão caminhar também «o cego e o coxo, a mulher grávida e a que deu à luz» (v. 8), ou seja, as pessoas em dificuldade. Porque a esperança de Deus não é uma miragem, como certas publicidades, nas quais todos são sadios e bonitos, mas é uma promessa para pessoas reais, com qualidades e defeitos, potencialidades e fragilidades, como todos nós: a esperança de Deus é uma promessa para pessoas como nós.

Esta Palavra de Deus exprime bem a experiência que vivemos nas semanas do Sínodo: foi um tempo de consolação e de esperança. Foi-o sobretudo como momento de escuta: com efeito, ouvir exige tempo, atenção, abertura da mente e do coração. Mas este compromisso transformava-se cada dia em consolação, sobretudo porque tínhamos no meio de nós a presença vivaz e estimulante dos jovens, com as suas histórias e as suas contribuições. Através dos testemunhos dos Padres sinodais, a realidade multiforme das novas gerações entrou no Sínodo, por assim dizer, de todas as partes: de todos os continentes e de muitas e diversificadas situações humanas e sociais.

Com esta atitude fundamental de escuta, procuramos ler a realidade, compreender os sinais destes nossos tempos. Um discernimento comunitário, feito à luz da Palavra de Deus e do Espírito Santo. Este é um dos dons mais bonitos que o Senhor oferece à Igreja católica, ou seja, o de recolher vozes e rostos das realidades mais variadas e assim poder tentar uma interpretação que tenha em consideração a riqueza e a complexidade dos fenômenos, sempre à luz do Evangelho. Assim, nestes dias, confrontamo-nos sobre o modo de caminhar juntos, enfrentando numerosos desafios, como o mundo digital, o fenômeno das migrações, o sentido do corpo e da sexualidade, o drama das guerras e da violência.

Os frutos deste trabalho já estão a “fermentar”, como faz o sumo das uvas nos barris depois da vindima. O Sínodo dos jovens foi uma boa vindima e promete um bom vinho. Mas gostaria de dizer que as primícias desta Assembleia sinodal deveriam estar precisamente no exemplo de um método que se procurou seguir, desde a fase preparatória. Um estilo sinodal que não tem como objetivo principal a redação de um documento, que contudo é precioso e útil. Mas mais do que o documento, é importante que se difunda um modo de ser e trabalhar juntos, jovens e idosos, na escuta e no discernimento, para chegar a opções pastorais correspondentes à realidade.

Por isso, invoquemos a intercessão da Virgem Maria. A ela, que é a Mãe da Igreja, confiemos a ação de graças a Deus pelo dom desta Assembleia sinodal. E que agora ela nos ajude a levar em frente o que experimentamos, sem medo, na vida diária das comunidades. O Espírito Santo faça crescer, com a sua sábia fantasia, os frutos do nosso trabalho, para continuarmos a caminhar juntamente com os jovens do mundo inteiro.


Fonte: Santa Sé.

Fotos da Missa de conclusão do Sínodo dos Bispos

No último dia 28 de outubro o Papa Francisco celebrou na Basílica de São Pedro a Santa Missa do XXX Domingo do Tempo Comum por ocasião da conclusão da XV Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, que refletiu sobre o tema "Os jovens, a fé e o discernimento vocacional".

O Santo Padre foi assistido pelos Monsenhores Guido Marini e Ján Dubina. O livreto da celebração pode ser visto aqui.

Para ler a homilia do Papa, clique aqui.

Procissão de entrada
 

Incensação
Ritos iniciais

Homilia do Papa: Missa de conclusão do Sínodo (2018)

XV Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos
Santa Missa de Conclusão
Homilia do Papa Francisco
XXX Domingo do Tempo Comum (Ano B), 28 de outubro de 2018

O episódio escutado é o último narrado pelo evangelista Marcos no ministério itinerante de Jesus, que, pouco depois, entra em Jerusalém para morrer e ressuscitar. Assim, Bartimeu é o último que segue Jesus ao longo do caminho: de mendigo na margem da estrada para Jericó, torna-se discípulo que vai juntamente com os outros para Jerusalém. Também nós caminhamos juntos, «fizemos sínodo» e agora este Evangelho corrobora três passos fundamentais no caminho da fé.

Antes de mais nada, olhemos para Bartimeu: o seu nome significa «filho de Timeu». O próprio texto o especifica: «Bartimeu, o filho de Timeu» (Mc 10,46). Mas o Evangelho, ao mesmo tempo que o reitera, põe a descoberto um paradoxo: o pai está ausente. Bartimeu jaz sozinho na estrada, fora de casa e sem pai: não é amado, mas abandonado. É cego e não tem quem o ouça; e, quando queria falar, mandavam-no calar. Jesus ouve o seu grito. E, quando Se encontra com ele, deixa-o falar. Não era difícil intuir o pedido que faria Bartimeu: é óbvio que um cego queira ver ou reaver a vista. Mas Jesus não tem pressa, reserva tempo para a escuta. E aqui temos o primeiro passo para ajudar o caminho da fé: escutar. É o apostolado do ouvido: escutar, antes de falar.

Em vez disso, muitos dos que estavam com Jesus repreendiam Bartimeu para que estivesse calado (10,48). Para estes discípulos, o indigente era um transtorno no caminho, um imprevisto no programa pré-estabelecido. Preferiam os seus tempos aos do Mestre, as suas palavras à escuta dos outros: seguiam Jesus, mas tinham em mente os seus projetos. Trata-se dum risco do qual sempre nos devemos precaver. Ao contrário, para Jesus, o grito de quem pede ajuda não é um transtorno que estorva o caminho, mas uma questão vital. Como é importante, para nós, escutar a vida! Os filhos do Pai celeste prestam ouvidos aos irmãos: não às críticas inúteis, mas às necessidades do próximo. Ouvir com amor, com paciência, como Deus faz conosco, com as nossas orações muitas vezes repetitivas. Deus nunca Se cansa, sempre Se alegra quando O procuramos. Peçamos, também nós, a graça dum coração dócil a escutar. Gostaria de dizer aos jovens, em nome de todos nós, adultos: desculpai, se muitas vezes não vos escutamos; se, em vez de vos abrir o coração, vos enchemos os ouvidos. Como Igreja de Jesus, desejamos colocar-nos amorosamente à vossa escuta, certos de duas coisas: que a vossa vida é preciosa para Deus, porque Deus é jovem e ama os jovens; e que, também para nós, a vossa vida é preciosa, mais ainda necessária para se avançar.

Depois da escuta, um segundo passo para acompanhar o caminho de fé: fazer-se próximo. Vejamos Jesus, que não delega em ninguém da «grande multidão» que O seguia, mas encontra Ele pessoalmente Bartimeu. Diz-lhe: «Que queres que Eu faça por ti?» (v. 51). Que queres - Jesus amolda-Se a Bartimeu, não prescinde das suas expectativas - que Eu faça - fazer, não se limita a falar - por ti - não segundo ideias pré-estabelecidas para todos, mas para ti, na tua situação. É assim que Deus procede, envolvendo-Se pessoalmente com um amor de predileção por cada um. Na sua maneira de proceder, ressalta já a sua mensagem: assim a fé germina na vida.

A fé passa para a vida. Quando a fé se concentra apenas em formulações doutrinárias, arrisca-se a falar apenas à cabeça, sem tocar o coração. E quando se concentra apenas na ação, corre o risco de tornar-se moralismo e reduzir-se ao social. Ao contrário, a fé é vida: é viver o amor de Deus que mudou a nossa existência. Não podemos ser doutrinaristas ou ativistas; somos chamados a levar para a frente a obra de Deus segundo o modo de Deus, na proximidade: unidos intimamente a Ele, em comunhão entre nós, próximo dos irmãos. Proximidade: aqui está o segredo para transmitir, não algum aspeto secundário, mas o coração da fé.

Fazer-se próximo é levar a novidade de Deus à vida do irmão, é o antídoto contra a tentação das receitas prontas. Interroguemo-nos se somos cristãos capazes de nos tornar próximo, capazes de sair dos nossos círculos para abraçar aqueles que «não são dos nossos» e a quem Deus ansiosamente procura. Sempre existe aquela tentação que reaparece tantas vezes na Escritura: lavar as mãos, desinteressar-se. É o que faz a multidão no Evangelho de hoje, é o que fez Caim com Abel, é o que fará Pilatos com Jesus: lavar as mãos. Nós, pelo contrário, queremos imitar Jesus e, como Ele, meter as mãos na massa, sujá-las. Ele, o caminho (cf. Jo 14,6), por Bartimeu deteve-Se ao longo da estrada; Ele, a luz do mundo (cf. Jo 9,5), inclinou-Se sobre um cego. Reconhecemos que o Senhor sujou as mãos por cada um de nós e, fixando a Cruz, recomecemos de lá, da lembrança de Deus que Se fez meu próximo no pecado e na morte. Fez-Se meu próximo: tudo começa de lá. E, quando por amor d’Ele também nós nos fazemos próximo, tornamo-nos portadores de vida nova: não mestres de todos, não especialistas do sagrado, mas testemunhas do amor que salva.

Testemunhar é o terceiro passo. Olhemos os discípulos que chamam Bartimeu: não vão junto dele, que mendigava, levar uma moedinha para o contentar ou dar-lhe conselhos; vão em nome de Jesus. De facto, dirigem-lhe apenas três palavras, todas de Jesus: «Coragem, levanta-te que Ele chama-te» (Mc 10,49). No resto do Evangelho, só Jesus diz «coragem!», porque só Ele ressuscita o coração. No Evangelho, só Jesus é que diz «levanta-te», para curar o espírito e o corpo. Só Jesus chama, mudando a vida de quem O segue, colocando de pé quem está por terra, levando a luz de Deus às trevas da vida. Tantos filhos, tantos jovens, como Bartimeu, procuram uma luz na vida! Procuram amor verdadeiro. E como Bartimeu que, apesar da multidão, só invoca Jesus, também eles imploram vida, mas frequentemente só encontram promessas falsas e poucos que se interessem verdadeiramente por eles.

Não é cristão esperar que os irmãos inquietos batam às nossas portas; somos nós que devemos ir ter com eles, não lhes levando a nós mesmos, mas Jesus. Ele manda-nos, como aqueles discípulos, para encorajar e levantar em seu nome. Manda-nos dizer a cada um: «Deus pede para te deixares amar por Ele». Quantas vezes, em vez desta mensagem libertadora de salvação, nos levamos a nós mesmos, as nossas «receitas», as nossas «etiquetas» na Igreja! Quantas vezes, em vez de fazer nossas as palavras do Senhor, despachamos como palavra d’Ele as nossas ideias! Quantas vezes as pessoas sentem mais o peso das nossas instituições que a presença amiga de Jesus! Então aparecemos como uma ONG, uma organização parestatal, e não como a comunidade dos redimidos que vivem a alegria do Senhor.

Ouvir, fazer-se próximo, testemunhar. No Evangelho, o caminho de fé termina, de maneira bela e surpreendente, com Jesus que diz: «Vai, a tua fé te salvou» (v. 52). E todavia Bartimeu não fez profissões de fé, não realizou ação alguma; pediu apenas piedade. Sentir-se necessitado de salvação é o início da fé. É o caminho direto para encontrar Jesus. A fé, que salvou Bartimeu, não estava nas suas ideias claras sobre Deus, mas no facto de O procurar, de O querer encontrar. A fé é questão de encontro, não de teoria. No encontro, Jesus passa; no encontro, palpita o coração da Igreja. Então serão eficazes, não as nossas homilias, mas o testemunho da nossa vida.

E a todos vós que participastes neste «caminhar juntos», digo obrigado pelo vosso testemunho. Trabalhamos em comunhão e com ousadia, com o desejo de servir a Deus e ao seu povo. Que o Senhor abençoe os nossos passos, para podermos escutar os jovens, fazer-nos próximo e testemunhar-lhes a alegria da nossa vida: Jesus.


Fonte: Santa Sé.

sexta-feira, 2 de novembro de 2018

Nota de falecimento: Padre Robert Taft

Faleceu hoje, 02 de novembro de 2018, aos 86 anos, o Padre Robert Francis Taft, S.J., um dos maiores estudiosos das Liturgias Orientais, particularmente da Liturgia Bizantina.


Robert Taft nasceu no dia 09 de janeiro de 1932 na cidade de Providence, estado de Rhode Island, nos EUA. Ingressou na Companhia de Jesus (Jesuítas) em 14 de agosto de 1949, sendo ordenado sacerdote de Rito Bizantino em 07 de junho de 1963.

Enviado a Roma para os estudos no Pontifício Instituto Oriental, concluiu sua célebre tese de doutorado sobre a Grande Entrada na Divina Liturgia de Rito Bizantino em 1975. Imediatamente tornou-se professor no mesmo Instituto, ofício que exerceu até 2011. Foi ainda Vice-reitor da instituição de 1995 a 2001.

Sua obra abrange mais de 800 produções acadêmicas, entre artigos e livros. Dentre estes, destacam-se Uma História da Liturgia de São João Crisóstomo, em 6 volumes (1978-2008) e A Liturgia das Horas no Oriente e no Ocidente (1986).


Além disso, foi diretor do jornal Orientalia Christiana Periodica de 1972 a 1976 e editor da coleção Orientalia Christiana Analecta de 1987 a 2004, ambas publicações do Pontifício Instituto Oriental. Foi ainda por muitos anos consultor da Congregação para as Igrejas Orientais e fundador da Societas Orientalium Liturgiarum.

O Padre Taft teve um importante papel na fundamentação teológica do decreto sobre a recepção da Eucaristia na Igreja Assíria do Orientepor fiéis católicos, promulgado em 2001.

Em 1998, Taft foi elevado à categoria de Arquimandrita (o equivalente a Monsenhor no Rito Romano) pela Igreja Greco-Católica Ucraniana. Ao longo de sua trajetória acadêmica recebeu ainda muitas condecorações por universidades do mundo todo.

Em 2002 aposentou-se do ofício de professor e em 2011 retornou aos Estados Unidos, passando a residir em uma casa dos jesuítas na cidade de Weston, estado de Massachusetts, onde faleceu neste dia 02 de novembro.

Que Deus o receba em sua glória e o recompense por todo o bem que fez! Que sua memória seja eterna! вічна пам'ять!


Informações biográficas: Wikipedia

quinta-feira, 1 de novembro de 2018

Exortação Apostólica Gaudete et Exsultate

No dia 19 de março deste ano, Solenidade de São José, o Papa Francisco publicou a Exortação Apostólica Gaudete et Exsultate (Alegrai-vos e exultai), sobre o chamado à santidade no mundo atual. O documento está estruturado em cinco capítulos com 177 parágrafos.

Embora não trate diretamente da Liturgia, o documento traz uma série de temas relacionados: por exemplo, o cap. 3 traz um comentário sobre as Bem-aventuranças, evangelho recorrente na Liturgia (inclusive nessa Solenidade de Todos os Santos), enquanto os nn. 147-157 apresentam uma reflexão sobre a oração.

Neste dia em que a Igreja celebra a Solenidade de Todos os Santos, publicamos aqui o documento na íntegra:

Santo Padre Francisco
Exortação Apostólica Gaudete et Exsultate
Sobre a chamada à santidade no mundo atual

1. «Alegrai-vos e exultai» (Mt 5,12), diz Jesus a quantos são perseguidos ou humilhados por causa d’Ele. O Senhor pede tudo e, em troca, oferece a vida verdadeira, a felicidade para a qual fomos criados. Quer-nos santos e espera que não nos resignemos com uma vida medíocre, superficial e indecisa. Com efeito, a chamada à santidade está patente, de várias maneiras, desde as primeiras páginas da Bíblia; a Abraão, o Senhor propô-la nestes termos: «anda na minha presença e sê perfeito» (Gn 17,1).
2. Não se deve esperar aqui um tratado sobre a santidade, com muitas definições e distinções que poderiam enriquecer este tema importante ou com análises que se poderiam fazer acerca dos meios de santificação. O meu objetivo é humilde: fazer ressoar mais uma vez a chamada à santidade, procurando encarná-la no contexto atual, com os seus riscos, desafios e oportunidades, porque o Senhor escolheu cada um de nós «para ser santo e irrepreensível na sua presença, no amor» (cf. Ef 1,4).

Capítulo I: A chamada à santidade

Os santos que nos encorajam e acompanham
3. Na Carta aos Hebreus, mencionam-se várias testemunhas que nos encorajam a «correr com perseverança a prova que nos é proposta» (12,1): fala-se de Abraão, Sara, Moisés, Gedeão e vários outros (cf. cap. 11). Mas, sobretudo somos convidados a reconhecer-nos «circundados de tal nuvem de testemunhas» (12,1), que incitam a não deter-nos no caminho, que nos estimulam a continuar a correr para a meta. E, entre tais testemunhas, podem estar a nossa própria mãe, uma avó ou outras pessoas próximas de nós (cf. 2Tm 1,5). A sua vida talvez não tenha sido sempre perfeita, mas, mesmo no meio de imperfeições e quedas, continuaram a caminhar e agradaram ao Senhor.
4. Os santos, que já chegaram à presença de Deus, mantêm conosco laços de amor e comunhão. Atesta-o o livro do Apocalipse, quando fala dos mártires intercessores: «Vi debaixo do altar as almas dos que tinham sido mortos, por causa da Palavra de Deus e por causa do testemunho que deram. E clamavam em alta voz: “Tu, que és o Poderoso, o Santo, o Verdadeiro! Até quando esperarás para julgar?”» (6,9-10). Podemos dizer que «estamos circundados, conduzidos e guiados pelos amigos de Deus. (...) Não devo carregar sozinho o que, na realidade, nunca poderia carregar sozinho. Os numerosos santos de Deus protegem-me, amparam-me e guiam-me» [1].
5. Nos processos de beatificação e canonização, tomam-se em consideração os sinais de heroicidade na prática das virtudes, o sacrifício da vida no martírio e também os casos em que se verificou um oferecimento da própria vida pelos outros, mantido até à morte. Esta doação manifesta uma imitação exemplar de Cristo, e é digna da admiração dos fiéis [2]. Lembremos, por exemplo, a Beata Maria Gabriela Sagheddu, que ofereceu a sua vida pela unidade dos cristãos.

Os santos ao pé da porta
6. Não pensemos apenas em quantos já estão beatificados ou canonizados. O Espírito Santo derrama a santidade, por toda a parte, no santo povo fiel de Deus, porque «aprouve a Deus salvar e santificar os homens, não individualmente, excluída qualquer ligação entre eles, mas constituindo-os em povo que O conhecesse na verdade e O servisse santamente» [3]. O Senhor, na história da salvação, salvou um povo. Não há identidade plena, sem pertença a um povo. Por isso, ninguém se salva sozinho, como indivíduo isolado, mas Deus atrai-nos tendo em conta a complexa rede de relações interpessoais que se estabelecem na comunidade humana: Deus quis entrar numa dinâmica popular, na dinâmica dum povo.
7. Gosto de ver a santidade no povo paciente de Deus: nos pais que criam os seus filhos com tanto amor, nos homens e mulheres que trabalham a fim de trazer o pão para casa, nos doentes, nas consagradas idosas que continuam a sorrir. Nesta constância de continuar a caminhar dia após dia, vejo a santidade da Igreja militante. Esta é muitas vezes a santidade «ao pé da porta», daqueles que vivem perto de nós e são um reflexo da presença de Deus, ou – por outras palavras – da «classe média da santidade» [4].
8. Deixemo-nos estimular pelos sinais de santidade que o Senhor nos apresenta através dos membros mais humildes deste povo que «participam também da função profética de Cristo, difundindo o seu testemunho vivo, sobretudo pela vida de fé e de caridade» [5]. Como nos sugere Santa Teresa Benedita da Cruz, pensemos que é através de muitos deles que se constrói a verdadeira história: «Na noite mais escura, surgem os maiores profetas e os santos. Todavia a corrente vivificante da vida mística permanece invisível. Certamente, os eventos decisivos da história do mundo foram essencialmente influenciados por almas sobre as quais nada se diz nos livros de história. E saber quais sejam as almas a quem devemos agradecer os acontecimentos decisivos da nossa vida pessoal, é algo que só conheceremos no dia em que tudo o está oculto for revelado» [6].
9. A santidade é o rosto mais belo da Igreja. Mas, mesmo fora da Igreja Católica e em áreas muito diferentes, o Espírito suscita «sinais da sua presença, que ajudam os próprios discípulos de Cristo» [7]. Por outro lado, São João Paulo II lembrou-nos que o «testemunho, dado por Cristo até ao derramamento do sangue, tornou-se patrimônio comum de católicos, ortodoxos, anglicanos e protestantes» [8]. Na sugestiva comemoração ecumênica, que ele quis celebrar no Coliseu durante o Jubileu do ano 2000, defendeu que os mártires são «uma herança que fala com uma voz mais alta do que os fatores de divisão» [9].


História da Solenidade de Todos os Santos

“Alegremo-nos todos no Senhor, celebrando a festa de Todos os Santos!”.

A Solenidade de Todos os Santos, celebrada no Rito Romano no dia 01 de novembro [1], tem suas raízes em uma festa de todos os mártires, celebrada em Antioquia em meados do século IV no domingo depois de Pentecostes, como atesta uma homilia de São João Crisóstomo. Esta data é conservada até hoje na tradição bizantina.

Anjos e Santos adoram o Cordeiro
(Retábulo da Catedral de Ghent, Bélgica - Jan van Eyck)

No final do século IV a mesma festa era celebrada em Edessa no dia 13 de maio, como testemunha um hino de Santo Efrém. No início do século V, por sua vez, era celebrada na Síria Oriental na sexta-feira da oitava da Páscoa, como atesta um calendário de 411.

Esta tríplice tradição influenciou posteriormente as igrejas ocidentais. O Lecionário de Würzburg, do início do século VII, contém a indicação Dominica in Natale Sanctorum (Domingo do Nascimento dos Santos) no domingo depois de Pentecostes [2].

Com o tempo, porém, esta data é abandonada no Ocidente, sobretudo a partir do desenvolvimento das Têmporas de verão, celebradas na oitava de Pentecostes. A festa passa a ser celebrada então no dia 13 de maio, sobretudo a partir de 609, quando nesse dia o Papa Bonifácio IV dedicou a igreja de Santa Maria ad Martyres no antigo Panteão Romano, 

Para saber mais sobre a celebração das Quatro Têmporas, clique aqui.

O aniversário dessa dedicação era celebrado todos os anos com grande solenidade e presença de muitos peregrinos. Do alto da abertura central da igreja se fazia chover uma nuvem de pétalas de rosa vermelhas, uma alusão ao sangue dos mártires derramado por causa do Evangelho. Posteriormente este gesto foi transferido para o dia de Pentecostes, como alusão à efusão dos dons do Espírito, costume conservado até hoje.

Santa Maria ad Martyres (antigo Panteão romano)

O Papa Gregório III deu um novo impulso tanto ao culto dos mártires quanto dos demais santos ao dedicar em 741 um oratório em honra de todos os santos na Basílica de São Pedro, onde diariamente eram celebradas Missas e rezadas vigílias.