No dia 19 de setembro de 2026 foi publicada uma Carta do Papa Leão XIV aos Bispos da América Latina e do Caribe por ocasião do III Centenário da Canonização de São Turíbio de Mogrovejo.
São Turíbio de Mogrovejo, com efeito, foi um missionário espanhol que serviu como Arcebispo Metropolitano de Lima (Peru) de 1581 até a sua morte em 1606. Foi canonizado pelo Papa Bento XIII em 1726 e proclamado padroeiro dos Bispos da América Latina pelo Papa João Paulo II em 1983. Sua Memória litúrgica se celebra no dia 23 de março.
Em sua Carta, o Papa Leão XIV reflete sobre o rito da recepção do Bispo na sua igreja Catedral:
Papa Leão XIV
Carta aos Bispos da América Latina e do Caribe
Por ocasião do III Centenário da Canonização de São Turíbio de Mogrovejo
Queridos irmãos no Episcopado,
Por ocasião do III Centenário da Canonização de São Turíbio
de Mogrovejo, padroeiro dos Bispos da América Latina, atendendo ao pedido do
Episcopado peruano, vos saúdo com afeto no Senhor e agradeço o serviço que
prestais dia após dia. Ao vos dirigir estas palavras, renova-se no meu coração
a gratidão pelo privilégio de ter exercido o ministério episcopal no Peru. Ali
conheci de perto a fé de um povo de quem recebi muito, compreendendo melhor o
que significa ser pastor. Essa experiência me aproximou de modo particular de
São Turíbio, também ele vindo de longe para uma terra que, através da caridade
pastoral, adotou como sua.
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| São Turíbio de Mogrovejo, Bispo |
Os meus antecessores debruçaram-se amplamente sobre a figura
do «excelso Metropolita de Lima» [1], recordando o seu
zelo evangelizador [2], o seu empenho na edificação e
renovação da vida eclesial [3] e a sua proximidade aos mais
pobres e vulneráveis [4]. Sem me deter agora na sua
biografia, gostaria de contemplar o seu ministério à luz de um sinal que nos
remete para a própria origem da nossa missão: a recepção do Bispo na sua igreja
Catedral [5]. Para a visita pastoral a uma comunidade
prevê-se um rito semelhante [6], como se a Igreja
quisesse recordar ao Prelado, uma e outra vez, o significado daquela primeira
entrada. O que a Liturgia expressa em poucos gestos, o Apóstolo dos Andes foi
tornando realidade ao longo dos seus anos de pastor. A melhor maneira de honrar
a sua memória será imitá-lo, deixando-nos interpelar pela forma como ele viveu
o ministério que também nós recebemos.
O rito começa na porta da Catedral. Ali o novo Bispo é
recebido pela Igreja à qual foi enviado. Chega a uma comunidade que o precede,
que percorreu um caminho de fé e na qual o Espírito Santo já estava agindo. Ao
atravessar aquele limiar, entra em uma história que não começa com ele e, pelo
seu ministério, fica ligado a um povo concreto. O Santo Arcebispo chegou a uma
terra cujos povos e culturas mal conhecia. Para pastoreá-la, tinha que
mergulhar naquela realidade e, por isso, começou a percorrê-la. As suas visitas
pastorais e a sua preocupação em anunciar o Evangelho nas línguas locais foram
estreitando o seu vínculo com aquela terra e suas gentes. Há realidades de uma Diocese
que dificilmente chegam à Cúria. Por isso, procuremos que a visita pastoral
conserve toda a sua força: indo pessoalmente ao encontro das nossas
comunidades, ouçamos o nosso rebanho e procuremos aqueles que raramente têm
oportunidade de se aproximar do Bispo. O ministério de um sucessor dos Apóstolos
exige viver com o coração no céu e os pés no caminho.
Ainda diante da porta da Catedral, o Bispo recebe um
crucifixo e o beija. A Igreja coloca diante dele Aquele que amou os seus até o
fim. Este gesto contém uma promessa de entrega. O ministério poderá levá-lo por
caminhos que ele não tinha previsto e exigir-lhe renúncias que talvez nunca
tenha imaginado. A cruz lembra-lhe que deve permanecer junto ao rebanho quando
chegarem os momentos difíceis e que a proteção das ovelhas pode implicar um
preço para o próprio pastor. Nas suas viagens e fadigas, São Turíbio prolongou
aquele beijo à carne sofredora do Senhor defendendo os indígenas, corrigindo
abusos e mantendo-se próximo dos pobres e daqueles que sofriam. Queridos
irmãos, precisamos regressar frequentemente à escola da cruz. O abandono do
rebanho pode começar muito antes de uma fuga visível, quando o conforto, o medo
ou os próprios interesses pesam mais do que o bem dos fiéis. O mercenário
calcula o que pode perder; o pastor sabe que terá de entregar algo de si mesmo
para permanecer fiel (cf. Jo 10,12-13).
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| Ósculo da cruz |
Em seguida o Bispo recebe a água benta, asperge a si mesmo e
aos presentes. O gesto o remete à fonte comum do Batismo. Antes de ser pastor,
é discípulo; antes de presidir o Povo de Deus, conta-se entre os batizados,
tornados filhos em Cristo. A santidade do pastor não pode ser dada como
garantida (cf. 1Tm 4, 16). São Turíbio pôde pedir uma vida eclesial mais
fiel ao Evangelho porque começou por se deixar medir por essa mesma exigência.
Quem recebeu a missão de santificar continua precisando de santificação; quem
anuncia a misericórdia também vive dela. Cuidemos, pois, da nossa vida interior
e conservemos a consciência de sermos discípulos que necessitam de conversão.
O rito continua conduzindo o Bispo à frente do Sacrário,
onde se ajoelha e adora. Antes de iniciar o seu ministério, detém-se em
silêncio perante o Santíssimo. Os Bispos passam; Cristo permanece (cf. Hb
13,8). Os pastores mudam, surgem novas urgências e os projetos se sucedem,
mas a Igreja vive do Senhor. Por isso, gostaria de vos convidar a fazer da
adoração eucarística uma prioridade pastoral. O amor de São Turíbio pela
Eucaristia manifestou-se na sua solicitude em aproximar todos de Jesus.
Ofereçamos aos nossos fiéis tempo e espaços para permanecerem diante d’Ele e
incentivemos a adoração prolongada. Estou convencido de que a santa presença do
Senhor, acolhida e adorada com fidelidade, sustenta aquilo que as nossas forças
não conseguem e abre caminhos que nenhum plano poderia prever. Será o seu amor
que transformará as nossas Dioceses.
Depois de se revestir com as vestes litúrgicas, o Bispo
aproxima-se do altar e o beija. É o próprio Senhor, perante quem acabara de se
ajoelhar, agora contemplado como Aquele que reúne a sua Igreja em torno a si e
faz dela um único corpo (cf. 1Cor 10,17). O santo Prelado serviu uma
Igreja imensa e plural, esforçando-se por mantê-la unida. Também a nós cabe
velar para que a diversidade das nossas Dioceses encontre em Cristo a sua
unidade. O altar nos recorda que a comunhão pertence ao cerne da nossa missão.
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| Aspersão |
Posteriormente o Bispo se dirige à cátedra e são lidas as Cartas
Apostólicas, a bula pela qual o Romano Pontífice o nomeou pastor daquela
Igreja particular. O Bispo não atribuiu a si mesmo esta missão, mas a recebeu e
a exerce na comunhão da Igreja, unido ao Sucessor de Pedro e ao Colégio
Episcopal. O ensinamento que oferece a partir da cátedra não surge de uma
palavra própria que deve impor. Ele recebeu a fé da Igreja e está chamado a
«guardar o bom depósito», aprofundando-o e tornando-o compreensível para
aqueles que estão sob os seus cuidados (cf. 2Tm 1,13-14). São Turíbio
compreendeu bem esta responsabilidade. A recepção do Concílio de Trento, os Concílios
provinciais, os Sínodos diocesanos e o seu trabalho catequético dão testemunho do
desejo de transmitir integralmente a fé, tornando-a acessível àqueles que tinha
diante de si. Em uma época em que tantas vozes reivindicam autoridade sobre a
consciência dos fiéis, cabe ao Bispo oferecer um ensinamento claro, paciente e
enraizado nessa comunhão, para ajudar o seu povo a reconhecer a voz do único
Pastor.
O clero e os fiéis aproximam-se em seguida «para lhe
manifestar obediência e respeito» [7]. O respeito
recebido transforma-se, para o Bispo, em responsabilidade, e a obediência
oferecida exige dele a paternidade. Isto torna-se especialmente visível na sua
relação com os presbíteros, unidos a ele de forma singular no único sacerdócio
e na missão confiada à Igreja particular. São Turíbio zelou pela formação
deles, foi exigente na admissão às Ordens, visitou os seus sacerdotes e manteve
a disciplina eclesiástica, consciente de que a vida do clero se repercute na do
povo. Queridos irmãos, permaneçamos próximos dos nossos sacerdotes. Cuidemos
especialmente do Seminário e dos primeiros anos de ministério, favoreçamos uma
fraternidade autêntica e procuremos que nenhum presbítero sinta que apenas pode
aproximar-se do seu Bispo quando tem um problema a resolver. Com frequência a
paternidade episcopal se reconhece quando um sacerdote sabe que pode bater à
porta da residência episcopal com confiança.
Após a proclamação do Evangelho o Bispo dirige pela primeira
vez a palavra ao seu povo. Até então a Liturgia colocou-o em uma atitude de
acolhida e escuta, e conduziu-o ao silêncio da adoração. Só depois é que fala.
Esta simples sequência contém um ensinamento que convém ter sempre presente.
Entre as muitas responsabilidades que ocupam a nossa jornada, fomos enviados
para anunciar a Boa Nova. Tal como os Apóstolos, somos chamados a dedicar-nos
«à oração e ao serviço da Palavra» (At 6,4). São Turíbio fez da sua vida
uma pregação contínua, e o seu anúncio revelava-se fidedigno porque tinha
permitido que o Evangelho moldasse, em primeiro lugar, a sua existência. Que
nenhuma urgência nem tarefa pastoral, por mais necessária que seja, coloque em
segundo plano a oração, que é antecâmara da pregação. Reservemos sempre o tempo
necessário para ouvir a Palavra e preparar com esmero a forma de disponibilizá-la
ao nosso povo.
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| Oração diante do Santíssimo Sacramento |
Terminados os ritos de acolhida e celebrada a Liturgia da
Palavra, chega o momento da apresentação dos dons. No ofertório podemos ver
antecipadamente tudo o que o Bispo irá colocar, dia após dia, nas mãos do
Senhor: o trabalho, os projetos que empreenderá, as decisões que terá de tomar,
as pessoas que lhe foram confiadas, as suas preocupações e esperanças. Haverá
momentos em que verá com clareza o caminho e outros em que sentirá a própria
pequenez: tudo isso se coloca na patena. Cabe ao Bispo entregar-se com
fidelidade; os frutos, em última análise, pertencem a Deus (cf. 1Cor
3,6-7).
A própria celebração mostra onde essa fecundidade tem a sua
fonte. Na Santa Missa o único sacrifício de Cristo é atualizado
sacramentalmente pela salvação do mundo, enquanto o Povo é associado à oferenda
do seu Senhor. Deste Santo Sacrifício brota a graça da qual a Igreja vive e
pela qual Cristo continua a reuni-la e a santificá-la ao longo da história. O Bispo,
como todo o sacerdote, empresta a sua voz e as suas mãos a Cristo, Sumo e Eterno
Sacerdote, que atua por meio do seu ministério. Aquilo que celebra deve
prolongar-se também na própria vida, cada vez mais unida à oferenda do Senhor,
até que toda a sua existência se torne, em Cristo, uma oferenda ao Pai.
A geografia espiritual da Igreja na América Latina é marcada
por pastores que tornaram visível esta união entre o altar e a vida. A figura
de São Turíbio, portanto, não está isolada. Ao longo dos séculos e em
diferentes regiões do continente, foi tomando forma uma verdadeira constelação
de Bispos que a Igreja venera como Santos e Beatos. Ao lado do grande Arcebispo
de Lima encontram-se os Santos Antônio Maria Claret, Ezequiel Moreno, Rafael
Guízar e Óscar Romero, e os Beatos Juan de Palafox, Jacinto Vera, Mamerto
Esquiú, Enrique Angelelli, Jesús Jaramillo e Eduardo Pironio, entre tantos
outros Bispos ilustres. Aprofundemos o ministério e os escritos desses pastores
e divulguemo-los nas nossas Igrejas particulares. O seu testemunho pode nos ajudar
a compreender melhor a missão do Bispo e reveste-se de especial interesse para
a formação dos seminaristas e dos sacerdotes. As suas vidas mostram como uma só
missão pode assumir formas diversas, de acordo com os tempos e as
circunstâncias, e constituem uma escola de pastores nascida da nossa história
eclesial. Os santos continuam a formar santos (cf. Hb 13,7).
Confiemos a Santa Maria de Guadalupe o nosso desejo de viver
com renovada fidelidade a missão que recebemos. Nos primórdios da evangelização
desse querido continente ela quis que São Juan Diego levasse o seu pedido ao Bispo
e que fosse este a discernir e acolher o que o Senhor estava realizando por
meio de um humilde mensageiro. Esse encontro continua a ser um convite a nós,
pastores, a estarmos atentos à ação de Deus, que muitas vezes se manifesta por
caminhos imprevistos e se serve daqueles de quem menos se esperaria. Pela
intercessão da Mãe de Deus, peçamos a graça de conhecer, servir e amar as
Igrejas que nos foram confiadas, para que, quando chegar a hora de prestar
contas ao Senhor do nosso ministério, possamos ouvir: «Muito bem, servo bom e
fiel! (...) Vem participar da minha alegria!» (Mt 25,21).
Com afeto fraterno, abençoo-vos de todo o coração.
Do Vaticano, 08 de setembro de 2026, Festa da Natividade da Bem-aventurada Virgem Maria.
Leão XIV
Notas:
[1] Pio XII, Mensagem radiofônica ao
V Congresso Interamericano de Educação Católica, 12 de janeiro de 1954.
[2] cf. São João Paulo II, Encontro
com os membros do Episcopado do Peru, 02 de fevereiro de 1985.
[3] cf. Bento XVI, Mensagem
por ocasião do IV Centenário da morte de São Turíbio, 23 de março de 2006.
[4] cf. Francisco, Encontro
com os Bispos em Lima, 21 de janeiro de 2018.
[5] cf. Dicastério para o Culto
Divino e a Disciplina dos Sacramentos, Cerimonial dos Bispos, nn. 1141-1144.
[6] cf.
ibid., n. 1180.
[7] ibid.,
n. 1143.
Fonte: Santa Sé.





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