“Este é o dia que o Senhor fez para nós: alegremo-nos e nele exultemos!” (Sl 117,24).
Um símbolo recorrente nas diversas tradições religiosas é o “centro”
ou “eixo do mundo” (em latim, axis mundi): uma árvore, uma montanha, um templo... a
partir do qual o ser humano podia conectar-se com a divindade.
A árvore como axis mundi (Hilma af Klint - Tree of Knowledge) |
Na tradição judaica, por exemplo, o “centro do mundo” era situado no Templo de Jerusalém. No Cristianismo, porém, o próprio Jesus diz à mulher samaritana que o mais importante não é onde adorar a Deus, mas sim como adorá-lo: “em espírito e verdade” (cf. Jo 4).
Assim, embora os cristãos construam templos onde a comunidade se reúne para partilhar a Palavra e os Sacramentos, no Cristianismo de certa forma “o tempo é mais importante que o espaço”.
Portanto, mais do que o “axis mundi”, a tradição cristã reflete sobre o “axis temporis”, o “eixo do tempo”: a Encarnação do Verbo de Deus, entendida aqui em sentido amplo, desde sua Concepção até sua Ascensão aos céus.
O próprio Jesus inicia sua pregação afirmando que “o tempo se
cumpriu” (Mc 1,15). O mesmo atesta São Paulo, situando a vinda do Filho
de Deus “na plenitude dos tempos” (Gl 4,4; cf. também Hb
1,2).
Não é de estranhar, portanto, que uma das antigas sequências
propostas para o Domingo de Páscoa seja uma grande “recapitulação” da vida
de Jesus. Trata-se da sequência “Laudes
Salvatori” (Os louvores do Salvador), prescrita para o “dia santo
da Páscoa” (in die sancto Paschae) ou “na Ressurreição do Senhor” (in
Resurrectione Domini). Para saber mais, confira nossa postagem sobre a história do Domingo de Páscoa.
Esta “sequência pascal” (Sequentia Paschalis) é a nona
das 38 composições presentes no Liber Sequentiarum compilado por Notker
Balbulus (†912), monge beneditino da Abadia de São Galo (Sankt Gallen), na
Suíça.
As sequências, com efeito, composições poéticas entoadas
antes do Evangelho da Missa, se popularizaram no Rito Romano a partir do século
X. A reforma do Concílio de Trento (séc. XVI), porém, infelizmente as reduziu a
apenas quatro, conservando para a Missa do Domingo de Páscoa a sequência “Victimae paschali laudes”, atribuída a Wippo
de Borgonha (†1050) [1].
No Missal de Sarum,
por sua vez, utilizado na Inglaterra durante a Idade Média, era prescrita uma
sequência para cada dia da Oitava Pascal, incluindo “Laudes Salvatori” no II Domingo da Páscoa [2].
Outra sequência pascal sobre a qual já falamos aqui em nosso
blog era “Zyma vetus expurgetur”, atribuída
a Adão de São Vítor (†1146), na qual vários acontecimentos do Antigo Testamento
são lidos à luz do mistério de Cristo (leitura tipológica).
Na sequência “Laudes Salvatori”, como afirmamos
anteriormente, os eventos da vida terrena de Cristo são lidos à luz da sua Páscoa.
O próprio Evangelho atesta que os discípulos só compreenderam muitas coisas que
Jesus fez e disse “depois que Ele ressuscitou dos mortos” (cf., por
exemplo, Jo 2,22-24).
Além disso, embora a Igreja tenha distribuído “pedagogicamente”
a celebração dos mistérios de Cristo no ciclo do Ano Litúrgico (cf. Sacrosanctum
Concilium, n. 102), cada celebração litúrgica é celebração do mistério de
Cristo em sua totalidade, sobretudo do Mistério Pascal da sua
Morte-Ressurreição.
A anamnese (memorial) da história da salvação presente na
sequência encontra eco também em alguns candelabros para o círio pascal realizados
durante a Idade Média: essas “colunas pascais” costumavam retratar diversas
cenas da vida de Cristo, culminando em seu Mistério Pascal. Para saber mais, confira nossa postagem sobre a história da Vigília Pascal.
Coluna pascal Basílica de São Paulo fora dos muros (Roma) |
Como já fizemos com outras composições aqui em nosso blog, propomos a seguir a sequência Laudes Salvatori em seu texto original em latim, seguida de uma tradução
nossa bastante livre e de alguns comentários
destacando suas diversas citações bíblicas.
Como as demais sequências atribuídas a Notker, sua divisão
em estrofes não é clara. Propomos aqui uma divisão em dez estrofes com distintos
números de versos.
Sequentia Paschalis
Laudes Salvatori voce modulemur supplici
1. Laudes Salvatori voce modulemur supplici.
2. Et devotis melodiis caelesti
Domino iubilemus Messiae,
qui se ipsum exinanivit ut nos
perditos liberaret homines.
3. Carne gloriam deitatis occulens,
pannis tegitur in praesepi, miserans
praecepti transgressorem, pulsum
patria paradisi nudulum.
Ioseph, Mariae, Simeoni subditur,
circumciditur et legali hostia
mundatur, ut peccator, nostra
qui solet relaxare crimina.
4. Servi subiit manus baptizandus
et perfert fraudes tentatoris,
fugit persequentum lapides.
Famem patitur, dormit et tristatur,
ac lavat discipulis pedes,
Deus homo, summus humilis.
5. Sed tamen inter haec abiecta corporis
eius deitas nequaquam
quivit latere signis variis
et doctrinis prodita.
Aquam nuptiis dat saporis vinei,
caecos oculos claro lumine
vestivit, lepram luridam
tactu fugat placido.
6. Putres suscitat mortuos
membraque curat debilia,
fluxum sanguinis constrinxit
et saturavit quinque de panibus
quina milia.
Stagnum peragrans fluctuans, ceu
siccum litus, ventos sedat,
linguam reserat constrictam,
reclusit aures privatas
vocibus, febres depulit.
Notker Balbulus em um manuscrito do séc. XI |
7. Post haec mira miracula taliaque
sponte sua comprehenditur et damnatur.
Et se crucifigi non despexit,
sed sol eius mortem non aspexit.
8. Illuxit dies, quam fecit Dominus,
mortem devastans et victor suis
apparens dilectoribus vivus.
Primo Mariae, dehinc Apostolis,
docens scripturas, cor aperiens,
ut clausa de ipso reserarent.
9. Favent igitur resurgenti
Christo cuncta gaudiis,
flores, segetes redivivo fructu
vernant, et volucres gelu tristi
terso dulce iubilant.
Lucent clarius sol et luna,
morte Christi turbida,
tellus herbida resurgenti
plaudit Christo, quae tremula eius
morte se casuram minitat.
10. Ergo die ista exsultemus, qua nobis
viam vitae resurgens patefecit Iesus.
Astra, solum, mare iucundentur,
et cuncti gratulentur in caelis
spiritales chori Trinitati [3].
Sequência Pascal
Os louvores do Salvador
1. Os louvores do Salvador entoemos com voz humilde.
2. E, com piedosas melodias, alegremo-nos
no Senhor, o Messias celeste,
que se esvaziou a si mesmo
para libertar a nós, homens perdidos.
3. Escondendo na carne a glória da divindade,
envolto em panos na manjedoura,
compadeceu-se do homem, transgressor do preceito,
expulso de sua pátria, despojado do paraíso.
Submeteu-se a José, Maria, Simeão,
foi circuncidado e, como pecador,
purificado pelo sacrifício da Lei,
Ele que expia nossos crimes.
Histórias da vida de Cristo (Gaudenzio Ferrari): Da Anunciação à Ressurreição |
4. Sob as mãos do servo foi batizado,
suportou as ciladas do tentador
e fugiu das pedras dos perseguidores.
Teve fome, dormiu e se entristeceu,
e lavou os pés dos discípulos,
homem-Deus, o mais humilde entre todos.
5. Mesmo entre essas limitações corporais,
sua divindade não poderia ser ocultada,
revelando-se em vários sinais e ensinamentos.
À água das núpcias Ele deu o sabor de vinho,
revestiu com luz brilhante os olhos dos cegos,
com um gentil toque afastou a lepra.
6. Levantou os mortos da corrupção,
curou os membros débeis,
estancou o fluxo sanguíneo
e, com cinco pães,
saciou cinco mil.
Atravessando as ondas do lago
como se fosse terra seca, acalmou os ventos,
destravou a língua acorrentada,
abriu os ouvidos dos privados de voz,
e dissipou a febre.
7. Após tão maravilhosos milagres,
por vontade própria foi preso e condenado.
E não recusou ser crucificado,
embora o sol não tenha visto a sua morte.
8. Amanheceu o dia que o Senhor fez:
destruída a morte, Ele, vitorioso,
apareceu vivo àqueles que o amavam.
Primeiro a Maria, depois aos Apóstolos,
explicando as Escrituras, abrindo os corações,
abrindo o que estava fechado.
9. Por isso todos acolhem com alegria
o Cristo Ressuscitado:
as flores e os campos brotam
com frutos renovados, e os pássaros
rejubilam porque o triste gelo se derrete.
Antes perturbados pela morte de Cristo,
o sol e a lua brilham mais fortes;
a terra com sua relva, que antes tremia
e ameaçava colapsar com sua morte,
agora aplaude o Ressuscitado.
10. Portanto, exultemos neste dia, no qual
Jesus abriu para nós o caminho da vida.
As estrelas, a terra e o mar se alegrem
e todos os coros espirituais,
no céu, rejubilem na Trindade.
Ressurreição (Paolo de Matteis) Edícula do Santo Sepulcro - Jerusalém |
Breve comentário:
A 1ª estrofe, com apenas um verso, serve como
introdução da sequência através do “convite ao louvor”, exortando-nos a “entoar
os louvores do Salvador com voz suplicante” (isto é, com voz humilde).
A 2ª estrofe, com seus quatro versos, une a
introdução ao “corpo do hino”: após a exortação a nos alegrarmos no Senhor (cf.
Fl 4,4), a sequência começa a apresentar os “motivos do louvor”, introduzindo
o mistério da Encarnação: alegramo-nos porque o Senhor “esvaziou-se a si mesmo”
(cf. Fl 2,7) e veio “para salvar o que estava perdido” (Lc 19,10).
A 3ª estrofe, com oito versos, continua
cantando o mistério da Encarnação, início da kenosis (esvaziamento) ou katábasis
(rebaixamento) de Cristo. A primeira parte da estrofe, com efeito, canta como Ele se
fez homem, “escondendo na carne a glória
da sua divindade”, aceitando humildemente ser “envolto em panos na manjedoura” (no
presépio) em seu nascimento (cf. Lc 2,7.12).
Para saber mais, confira a sequência de Notker para o Natal, Grates nunc omnes.
Nesta primeira
parte da estrofe se retoma também o “motivo” da Encarnação: Cristo “compadeceu-se
do homem” que havia transgredido o mandamento do Senhor, sendo por isso expulso
de sua pátria, o paraíso.
A segunda parte da 3ª estrofe prossegue cantando os acontecimentos ligados à Encarnação: Cristo “submeteu-se
a Maria e José” (cf. Lc 2,51), “foi circuncidado” (Lc 2,21) e apresentado
no Templo, sendo “purificado pelo sacrifício da Lei” (Lc 2,22-35). A sequência,
porém, recorda que Jesus não tinha necessidade de passar por esse ritual, uma
vez que é Ele mesmo quem “expia nossos pecados”.
Para saber mais, confira a sequência de Notker para a Festa da Apresentação do Senhor, Concentu parili hic te.
Com a 4ª estrofe, de seis versos, entramos na anamnese
(memorial) da vida pública de Jesus, centrando-se aqui em alguns aspectos da
sua humanidade.
Recorda-se primeiramente
o seu Batismo no Jordão, submetendo-se “às mãos do servo” João Batista (cf.
Mt 3,21-22 e paralelos); sua peregrinação ao deserto, onde “suportou as
ciladas do tentador” (cf. Mt 4,1-13 e paralelos); e as ocasiões que “fugiu das pedras dos perseguidores”, os quais queriam apedrejá-lo por blasfêmia,
por proclamar-se Filho de Deus (cf. Jo 8,59; 10,31-33).
Sobre o Batismo do Senhor, confira a sequência de Notker para a Epifania, Festa Christi omnis.
A segunda parte da
estrofe recorda vários aspectos da humanidade de Jesus: “teve fome, dormiu e se
entristeceu”. A fome de Jesus é recordada durante as tentações no deserto (Mt
4,2) e em outras ocasiões (Mt 21,18), enquanto seu sono aparece
sobretudo no episódio da tempestade acalmada (Mt 8,24). Sua tristeza é
mencionada, por exemplo, durante a Agonia no Getsêmani (Mt 26,37) e nas
duas ocasiões em que chorou: sobre a cidade de Jerusalém, por sua
incredulidade (Lc 19,41-44), e diante da morte do amigo Lázaro (Jo
11,35).
A estrofe se conclui
com uma menção ao episódio do Lava-pés (Jo 13,1-20), testemunho da
humildade do Deus que se fez homem.
A celebração litúrgica, espiral que gira ao redor do mistério de Cristo |
Se a 4ª estrofe proclamou
Jesus verdadeiro homem, a 5ª
estrofe, também com seis versos,
o proclama como verdadeiro Deus, indicando que, mesmo assumindo nossas
limitações corporais, “sua divindade não poderia ser ocultada, revelando-se em
vários sinais e ensinamentos”.
A estrofe recorda as
Bodas de Caná (Jo 2,1-11), que marca o “início dos sinais” de Jesus no Evangelho
de João, durante o qual Ele “deu o sabor de vinho à água das núpcias”; as várias
curas de cegos, sendo a mais célebre a do cego de nascença (Jo 9), que
Ele “iluminou com luz brilhante”; e as várias curas de leprosos, doença que Ele
afasta “com gentil toque” (cf., por exemplo, Mt 8,1-4).
A 6ª estrofe, com dez versos, conclui a anamnese da vida
pública de Jesus, igualmente centrada nos seus “milagres”.
Antes de tudo se
recorda que Ele “levantou os mortos da corrupção”. Foram três, com efeito, as “ressurreições”
realizadas por Jesus durante a sua vida terrena, que prefiguram sua própria
Ressurreição: da filha de Jairo (Mc 5,21-43 e paralelos), do filho da
viúva de Naim (Lc 7,11-17) e do amigo Lázaro (Jo 11).
Seguem-se referências
a Jesus que “curou os membros débeis” - expressão que podemos associar às
diversas curas de paralíticos, como o da piscina de Betesda (Jo 5,1-18)
- e “estancou o fluxo sanguíneo”, alusão à cura da mulher que sofria de
hemorragia (Mt 9,20-22 e paralelos), e à multiplicação dos pães, quando
Ele “com cinco pães, saciou cinco mil”, relato atestado nos quatro Evangelhos (Mt
14,13-21 e paralelos).
A segunda parte da
estrofe recorda Jesus que caminhou sobre o lago “como se fosse terra seca” (Mt
14,22-33 e paralelos) e “acalmou os ventos” (Mt 8,23-27 e paralelos),
concluindo com alusões a outras três curas: Ele “destravou a língua acorrentada”,
gesto associado a alguns exorcismos (cf. Mt 9,32-34), “abriu os ouvidos
dos privados de voz”, em alusão às várias curas de surdos (cf., por exemplo,
Mc 7,31-37), e “dissipou a febre”, como no caso da cura
da sogra de Pedro (Mt 8,14-17 e paralelos).
Concluído o memorial
da vida pública de Jesus, a 7ª
estrofe, com apenas quatro
versos, canta mais um passo da sua katábasis: o mistério da Paixão. De
maneira sucinta, a estrofe indica como esta foi um gesto voluntário de Cristo,
uma oblação de amor para nossa salvação: “por vontade própria foi preso e
condenado” e “não recusou ser crucificado”.
A estrofe acrescenta
ainda um detalhe que será retomado adiante: os fenômenos cósmicos associados à
Morte do Senhor, indicando que “o sol não viu a sua morte” (cf. Mt 27,45
e paralelos).
As últimas três
estrofes, a partir de Illuxit dies, quam fecit Dominus..., aparecem em alguns manuscritos como “forma breve” da sequência. Essas tratam diretamente do mistério da Ressurreição, passando da katábasis
(rebaixamento) à anábasis (elevação ou exaltação) de Cristo.
Tríptico com cenas da Paixão e Ressurreição (Adriaen van Overbeck) |
A 8ª estrofe começa com uma paráfrase do célebre “refrão
pascal” do Salmo 117: “Este é o
dia que o Senhor fez para nós: alegremo-nos e nele exultemos!” (Sl
117,24), indicando os “motivos do louvor” deste dia: “destruída a morte” (“destruído
o inimigo”, em algumas versões), “Ele,
vitorioso, apareceu vivo àqueles que o amavam”.
As aparições do Ressuscitado,
com efeito, integram o querigma, o núcleo fundamental da mensagem cristã,
como expresso, por exemplo, por São Paulo na Primeira Carta aos Coríntios: “Cristo
morreu e foi sepultado, ressuscitou ao terceiro dia e apareceu...” (cf. 1Cor
15,3-8).
A segunda parte da estrofe explana as diversas aparições: a
Maria Madalena (cf. Jo 20,11-18), aos Apóstolos (cf. Jo 20,19-29)
e aos discípulos de Emaús, aos quais Jesus “explica as Escrituras” e “abre os corações” (cf. Lc 24,13-35). Com
suas aparições, com efeito, o Ressuscitado “abriu o que estava fechado”, “revelou
o que estava escondido” (cf. Cl 1,26).
Após a grande
anamnese da história da salvação, as últimas duas estrofes são uma grande
celebração da Ressurreição, na qual inclusive a natureza é convidada a louvar o
Senhor, em sintonia com alguns hinos bíblicos (cf., por exemplo, o “cântico
dos três jovens” em Dn 3).
A 9ª estrofe, com dez versos, começa convidando todos a “acolher
com alegria o Cristo Ressuscitado”. Primeiramente se alude às flores e aos campos,
que “brotam com frutos renovados”, e aos pássaros, que cantam alegres “porque o
triste gelo se derrete”. Trata-se de uma clara referência à passagem da morte
para a vida representada na passagem do inverno à primavera.
Vale lembrar que a
Páscoa originalmente era uma festa ligada ao ciclo da natureza, celebrada no domingo
após a primeira lua cheia da primavera no hemisfério norte. Ademais, o encontro do Ressuscitado com Madalena se dá em um jardim, e esta o confunde com o “jardineiro”, reforçando esse simbolismo vegetal de renascimento.
A segunda parte da
estrofe, por sua vez, associa o céu e a terra ao mistério da Morte-Ressurreição
de Cristo através de duas comparações: se antes, na sua Morte, “o sol se perturbou”
(cf. Mt 27,45 e paralelos), agora, na manhã da Ressurreição, ele brilha
mais forte; se, diante da Morte do Senhor, a terra “tremia” e “colapsava” (cf.
Mt 27,51), agora, com sua relva (ou grama), ela “aplaude o Ressuscitado”.
Por fim, a 10ª estrofe, com cinco versos, continua convidando toda
a criação a alegrar-se neste dia, “no qual Jesus abriu para nós o caminho da
vida”. Aqui são involucrados “as estrelas, a terra e o mar” e “todos os coros
espirituais, no céu”, exortados a “rejubilar-se na Trindade”.
Em alguns manuscritos,
ao invés da Trindade (Trinitati), os coros espirituais são convidados a alegrar-se no “Tonante” ou “Trovejante”
(Tonanti), expressão que
nos remete a Cristo como Senhor do céu e ao mistério da sua Ascensão, ápice da
sua anábasis. Contudo, dado que essa expressão era utilizada sobretudo
para referir-se a Júpiter, deus do céu na mitologia romana, acabou por ser substituída
por uma referência à Trindade.
Para saber mais, confira a sequência de Notker para a Ascensão, Summi triumphum Regis.
O Ressuscitado aparece a Madalena como jardineiro (Willem van Herp I e Guillam Forchondt I) |
Notas:
[1] Além de Victimae paschali laudes (Domingo de Páscoa),
foram conservadas as sequências Veni, Sancte Spiritus (Pentecostes), Lauda Sion (Corpus Christi) e Dies irae (Missas dos defuntos). Em 1727
seria acrescentada a sequência Stabat Mater dolorosa (Nossa Senhora das Dores).
Após o Concílio Vaticano II a sequência Dies irae tornou-se hino
facultativo da Liturgia das Horas para a última semana do Tempo Comum.
[2] cf. MISSALE ad usum insignis et praeclarae Ecclesiae
Sarum. Labore ac studio:
Francisci Henrici Dickinson. Burntisland: 1861-1883, pp. 383-384.
[3] NOTKER
Balbulus. Liber Sequentiarum, cap. IX: In die sancto Paschae. in:
MIGNE, J. P. Patrologiae: Cursus Completus, Series Latina, vol. 131, pp.
1009-1010.
THESAURUS HYMNOLOGICUS sive
Hymnorum, canticorum, sequentiarum circa annum MD usitatarum collectio
amplissima. Tomus Secundus:
Sequentiae, cantica, antiphonae. Lipsiae, 1855, pp. 12-14.
Imagens: Wikimedia Commons.
Nenhum comentário:
Postar um comentário