segunda-feira, 11 de julho de 2022

Ângelus: XV Domingo do Tempo Comum - Ano C

Papa Francisco
Ângelus
Domingo, 10 de julho de 2022

Prezados irmãos e irmãs, bom dia!
O Evangelho da Liturgia de hoje narra a parábola do Bom Samaritano (Lc 10,25-37). Todos a conhecemos. Como pano de fundo há a estrada que de Jerusalém desce até Jericó, ao longo da qual se encontra um homem espancado brutalmente e assaltado por ladrões. Um sacerdote que passa vê-o mas não se para, vai além; assim como um levita, ou seja, um ministro do culto no templo. «Mas um samaritano», diz o Evangelho, «que estava a caminho, chegando àquele lugar, viu-o e teve compaixão dele» (v. 33). Não esqueçamos estas palavras: “teve compaixão dele”; é o que Deus sente cada vez que nos vê com um problema, num pecado, numa miséria: “teve compaixão dele”. O evangelista deseja especificar que o Samaritano estava a caminho. Portanto, aquele Samaritano, embora tivesse os seus programas e se dirigisse para uma meta distante, não encontra desculpas e deixa-se interpelar, deixa-se interpelar, pelo que acontece ao longo do caminho. Pensemos: não nos ensina o Senhor a fazer exatamente isto? A olhar para longe, para a meta final, contudo prestando muita atenção aos passos que devemos dar, aqui e agora, para lá chegar.

É significativo que os primeiros cristãos se chamassem “discípulos da Via” (cf. At 9,2), ou seja, do caminho. Com efeito, o crente é muito parecido com o Samaritano: como ele, está a caminho, é um viandante. Sabe que não é alguém que “chegou”, mas quer aprender todos os dias, seguindo o Senhor Jesus, que disse: «Eu sou o caminho, a verdade e a vida» (Jo 14,6). Eu sou o caminho: o discípulo de Cristo caminha seguindo-o, e assim torna-se um “discípulo do Caminho”. Segue o Senhor, que não é um sedentário, mas está sempre a caminho: ao longo da estrada encontra pessoas, cura doentes, visita aldeias e cidades. Assim agia o Senhor, sempre a caminho!

Por isso, o “discípulo do Caminho” - ou seja, nós cristãos - vê que a sua maneira de pensar e de agir muda gradualmente, conformando-se cada vez mais com a do Mestre. Seguindo os passos de Cristo, torna-se um viandante e aprende - como o Samaritano - a ver e a ter compaixão. Vê e tem compaixão. Em primeiro lugar, vê: abre os olhos para a realidade, não permanece egoisticamente fechado dentro dos próprios pensamentos. Ao contrário, o sacerdote e o levita veem o infeliz, mas é como se não o vissem, vão além, olham para o outro lado. O Evangelho educa-nos a ver: leva cada um de nós a compreender corretamente a realidade, superando dia após dia os preconceitos e os dogmatismos. Muitos crentes refugiam-se nos dogmatismos para se defenderem da realidade. E depois ensina-nos a seguir Jesus, porque seguir Jesus nos ensina a ter compaixão: a dar-nos conta dos outros, especialmente daqueles que sofrem, dos mais necessitados. E para agir como o Samaritano: não ir além, mas parar.

Diante desta parábola evangélica, pode acontecer que demos a culpa a outros ou a nós mesmos, apontando o dedo contra o próximo, comparando-o com o sacerdote e com o levita - “Mas este ou aquele vão além, não para!” -, ou culpando-nos a nós mesmos, enumeramos a nossa falta de atenção ao próximo. Mas gostaria de vos sugerir outro tipo de exercício. Não tanto o de nos culparmos a nós mesmos, não; sem dúvida, devemos reconhecer quando fomos indiferentes e quando nos justificamos, mas não nos limitemos a isto. Devemos reconhecê-lo, é um erro, mas peçamos ao Senhor que nos faça sair da nossa indiferença egoísta e nos coloque no Caminho. Peçamos-lhe para ver e ter compaixão. É uma graça, devemos pedi-la ao Senhor: “Senhor, que eu veja, que eu tenha compaixão, como Tu me vês e tens compaixão de mim!”. É a prece que hoje vos sugiro: “Senhor, que eu veja, que eu tenha compaixão, como Tu me vês e tens compaixão de mim!”. Tenhamos compaixão daqueles que encontramos ao longo do caminho, sobretudo de quantos sofrem e estão em necessidade, para nos aproximarmos e fazer o que pudermos para ajudar.

Muitas vezes, quando me encontro com algum cristão ou cristã que vem falar de coisas espirituais, pergunto se dá esmola. “Sim”, responde-me - “E, diz-me, tocas a mão da pessoa a quem dás a moeda?”. “Não, não, lanço-a lá”. “E fitas os olhos daquela pessoa?”. “Não, não me passa pela cabeça”. Se deres esmola sem tocares na realidade, sem fitares os olhos da pessoa em necessidade, aquela esmola é para ti, não para ela. Pensemos nisto: “Toco as misérias, até as misérias que ajudo? Fito nos olhos as pessoas que sofrem, as pessoas que ajudo?”. Deixo-vos este pensamento: ver e ter compaixão!

Que a Virgem Maria nos acompanhe neste caminho de crescimento. Ela, que “nos indica o Caminho” - ou seja, Jesus -, nos ajude também a tornar-nos cada vez mais “discípulos do Caminho”!

O Samaritano se põe a caminho com o irmão ferido
(Eugène Delacroix)

Fonte: Santa Sé.

sábado, 9 de julho de 2022

Abertura do Sínodo da Igreja Ucraniana

Na quinta-feira, 07 de julho de 2022, teve lugar na Catedral Católica Ucraniana de São João Batista em Przemyśl (Polônia) a Divina Liturgia de abertura do Sínodo da Igreja Greco-Católica Ucraniana, presidida pelo Arcebispo-Maior, Dom Sviatoslav Shevchuk (Святосла́в Шевчу́к).

Uma vez que essa Igreja segue o calendário juliano, com 13 dias de diferença em relação ao calendário gregoriano, celebrou-se nesse dia justamente a Festa da Natividade de São João Batista (24 de junho).

O Papa Francisco enviou uma mensagem, lida pelo Núncio Apostólico na Polônia, Dom Salvatore Pennacchio, assegurando sua proximidade à Ucrânia, ferida pela guerra.

O Arcebispo-Maior é recebido com pão e sal,
tradicional gesto de acolhida entre os povos eslavos

O Núncio na Polônia, Dom Salvatore Pennacchio, lê a mensagem do Papa

Início da Divina Liturgia: "Bendito seja o reino..."

sexta-feira, 8 de julho de 2022

Cardeal Jorge Mario Bergoglio: Ars celebrandi (2005)

Há cerca de uma semana, no dia 29 de junho de 2022, foi promulgada a Carta Apostólica Desiderio desideravi do Papa Francisco sobre a formação litúrgica do povo de Deus.

Além de recolher os frutos da Assembleia Plenária da Congregação para o Culto Divino de 2019, o documento tem sua fonte primeira em uma reflexão do então Cardeal Jorge Mario Bergoglio na Plenária da Congregação de 2005, dedicada à ars celebrandi, isto é, à “arte de celebrar”.

A reflexão do então Arcebispo de Buenos Aires (Argentina), proferida no dia 01 de março de 2005, foi retomada pelo Papa Francisco em seu encontro com o clero da diocese de Roma no dia 19 de fevereiro de 2015.

O Cardeal Jorge Mario Bergoglio celebra a Santa Missa no Santuário Nacional de Aparecida

Segue o texto da reflexão, publicado na íntegra em italiano pelo jornal L’Osservatore Romano de 20 de maio de 2015. A tradução é de Benno Dischinger, publicada no site do Instituto Humanitas Unisinos, com algumas correções realizadas pelo autor deste blog.

Ars celebrandi

Introdução

Na Igreja hodierna muitos Bispos, sacerdotes e leigos sentem a exigência que seja dada maior atenção ao aspecto por assim dizer contemplativo da celebração litúrgica, isto é, àquela dimensão de interioridade que abriria a mente e o coração ao mistério celebrado, que é Cristo nossa Páscoa. Esta sensibilidade se exprime de diversas maneiras segundo as circunstâncias, os lugares, as gerações e os gostos. Há quem sustenta que seria preciso insistir no retorno de uma celebração realizada segundo o modelo ideal dos séculos passados; e há quem fala, ao invés, de inculturação da Liturgia nos diferentes contextos sociais. Não poucos apontam para a qualidade artística do interior das nossas igrejas, para sua harmonia arquitetônica, para os materiais preciosos, para o engenho de escultores e pintores. Aponta-se acima de tudo para uma música que conduza os participantes “ao alto”, para além dos sentimentos passageiros dos indivíduos, além das costumeiras dificuldades e preocupações da vida cotidiana. Alguns, depois, imaginam que uma música “popular” poderia estar em condições de atrair a atenção dos jovens, bem como de favorecer neles o desejo religioso. Depois, a percepção de uma meta não atingida impele muitos outros que se impacientam com o enquadramento dos livros litúrgicos ou com a própria tradição da Igreja. Em consequência, procuram nas inovações livres uma melhoria da celebração, um maior envolvimento do povo.

quarta-feira, 6 de julho de 2022

Ordenações Presbiterais em Lisboa: Fotos

O Patriarca de Lisboa, Cardeal Manuel José Macário do Nascimento Clemente, celebrou no dia 03 de julho de 2022 a Santa Missa na igreja de Santa Maria de Belém, o Mosteiro dos Jerônimos, para a Ordenação Presbiteral de 10 novos sacerdotes:

Procissão de entrada
Ritos iniciais

Leituras
Evangelho

Ordenações Presbiterais em Lisboa: Homilia

No dia 03 de julho de 2022 o Patriarca de Lisboa, Cardeal Manuel José Macário do Nascimento Clemente, celebrou a Santa Missa na igreja de Santa Maria de Belém, o Mosteiro dos Jerônimos, para a Ordenação Presbiteral de 10 novos sacerdotes.

Foi celebrada a Missa Ritual das Ordenações com as leituras do XIV Domingo do Tempo Comum (Ano C). Eis a homilia do Patriarca na ocasião:

Homilia na Missa de Ordenação de Presbíteros

Caríssimos ordenandos e todos vós aqui presentes nesta bela celebração - bela porque repleta de verdade pessoal e eclesial, bela porque manifesta a bondade de Deus, que não abandona o seu povo e assim vem ao nosso encontro em cada um dos ordenandos de hoje, tornados sacramento de Cristo sacerdote e pastor no meio de nós.
Acabamos de ouvir no Evangelho um conjunto de indicações que, podendo aplicar-se a todos os discípulos de Cristo, têm particular incidência em cada um de vós, os ordenandos.
Como seja o envio: «Naquele tempo, designou o Senhor setenta e dois discípulos e enviou-os dois a dois à sua frente, a todas as cidades e lugares aonde Ele havia de ir» (Lc 10,1). Na verdade, o que acontece convosco não é iniciativa vossa, mas um envio divino.
Não é iniciativa vossa, nem poderia ser. É algo de tão profundo e decisivo que só de Deus pode provir. Foi há dois mil anos e é agora convosco, a partir da vontade de Cristo, que se torna vida das pessoas concretas que sois, na história que vos trouxe aqui e vos impele além.
Também porque vos envia a preparar a sua chegada aonde fordes. Por nós, só por nós, vamos aonde queremos ou temos de ir, com finalidades que não ultrapassam o nosso desejo e medida. Mas neste caso - no vosso caso - ides em função de Cristo que vos envia, para que a vossa vida se transforme em sinal da sua própria chegada e precisamente aí.


Fostes tomados por Cristo e certamente o sentistes já, como vocação e destino. Tendo como toda a gente propensões naturais e projetos próprios, fostes desapropriados deles para assumirdes de alma e coração o projeto de Deus a vosso respeito e em função de todos.
Daqui a pouco, na prostração que fareis, vivereis o momento de Cristo, naquele horto em que deixou que a vontade do Pai fosse também a sua, ainda que passasse pela cruz para nos salvar a todos com o dom da sua vida. Sim, o vosso destino é inteiramente pascal.
No dia a dia da vossa vida sacerdotal, é este envio que vos determinará, para que a presença salvadora de Cristo possa chegar também a cada pessoa e circunstância que for.

terça-feira, 5 de julho de 2022

Ângelus: XIV Domingo do Tempo Comum - Ano C

Papa Francisco
Ângelus
Domingo, 03 de julho de 2022

Estimados irmãos e irmãs, bom dia!
No Evangelho da Liturgia deste Domingo lemos que «designou o Senhor ainda setenta e dois outros discípulos e mandou-os, dois a dois, adiante de si, por todas as cidades e lugares para onde ele tinha de ir» (Lc 10,1). Os discípulos foram enviados dois a dois, não singularmente. Ir em missão dois a dois, de um ponto de vista prático, parece ter mais desvantagens do que vantagens. Há o risco de que os dois não se entendam, que tenham um ritmo diferente, que um fique cansado ou doente pelo caminho, forçando também o outro a parar. Quando, ao contrário, se está sozinho parece que o caminho se torna mais rápido e sem impedimentos. Contudo, Jesus não pensa assim: não envia solitários antes d’Ele, mas discípulos que vão dois a dois. Mas façamo-nos uma pergunta: qual é a razão desta escolha do Senhor?

A tarefa dos discípulos é ir pelas aldeias e preparar o povo para receber Jesus; e as instruções que Ele lhes dá não são tanto sobre o que devem dizer, mas sobre como devem ser: isto é, não sobre a “cartilha” que devem recitar, não; sobre o testemunho de vida, o testemunho a ser dado mais do que sobre as palavras a dizer. De fato, define-os como operários: ou seja, são chamados a operar, a evangelizar através do seu comportamento. E a primeira ação concreta através da qual os discípulos realizam a sua missão é precisamente a de ir dois a dois. Os discípulos não são “batedores livres”, pregadores que não sabem ceder a palavra a outro. É antes de tudo a própria vida dos discípulos que proclama o Evangelho: o seu saber estar juntos, o respeitar-se reciprocamente, o não querer demonstrar que se é mais capaz do que o outro, a referência concordante ao único Mestre.

Podem-se elaborar planos pastorais perfeitos, implementar projetos bem elaborados, organizar-se nos mínimos detalhes; podem-se convocar multidões e ter muitos meios; mas se não houver disponibilidade para a fraternidade, a missão evangélica não progride. Certa vez, um missionário relatou que tinha partido para África juntamente com um confrade. Após algum tempo, contudo, separou-se dele, ficando numa aldeia onde realizou com sucesso uma série de atividades de construção para o bem da comunidade. Tudo estava funcionando bem. Mas um dia teve um abalo: percebeu que a sua vida era a de um bom empresário, sempre no meio de canteiros de construção e papelada! Mas... e o “mas” permaneceu lá. Então, deixou a gestão a outros, aos leigos, e foi ter com o seu confrade. Compreendeu assim porque o Senhor tinha enviado os discípulos “dois a dois”: a missão evangelizadora não se baseia no ativismo pessoal, ou seja, no “fazer”, mas no testemunho do amor fraterno, inclusive através das dificuldades que a convivência implica.

Então podemos perguntar-nos: como levar a boa nova do Evangelho aos outros? Fazemo-lo com espírito e estilo fraternal, ou à maneira do mundo, com protagonismo, competitividade e eficiência? Perguntemo-nos se temos capacidade para colaborar, se sabemos como tomar decisões em conjunto, respeitando sinceramente os que nos rodeiam e tendo em conta o seu ponto de vista, se o fazemos em comunidade, não sozinhos. De fato, é sobretudo deste modo que a vida do discípulo permite que a do Mestre resplandeça, anunciando-o verdadeiramente aos outros.

Que a Virgem Maria, Mãe da Igreja, nos ensine a preparar o caminho para o Senhor com o testemunho da fraternidade.

Jesus envia os discípulos dois a dois
(James Tissot)

Fonte: Santa Sé.

Observação: No Brasil celebramos neste domingo a Solenidade de São Pedro e São Paulo, Apóstolos, transferida do dia 29 de junho.

Fotos da Missa do XIV Domingo do Tempo Comum no Vaticano

No início do mês de julho de 2022 estava prevista uma Viagem Apostólica do Papa Francisco à República Democrática do Congo e ao Sudão do Sul, a qual teve de ser adiada devido às suas dores no joelho.

Portanto, no dia 04 de julho o Santo Padre quis celebrar a Santa Missa do XIV Domingo do Tempo Comum com a comunidade congolesa em Roma.

O Santo Padre, assistido pelos Monsenhores Diego Giovanni Ravelli e L'ubomir Welnitz, presidiu a Missa sem celebrar (cf. Cerimonial dos Bispos, nn. 175-185). A Liturgia Eucarística foi celebrada por Dom Paul Richard Gallagher, Secretário para as Relações com os Estados da Santa Sé, assistido pelo Monsenhor Marco Agostini.

A Missa foi celebrada segundo o "rito zairense", uma forma do Rito Romano aprovado pela Santa Sé para o Congo (então Zaire) em 1988, com uma série de particularidades, tais como:
- os movimentos ritmados nas procissões de entrada e das oferendas;
- a invocação dos santos no início da celebração, como memória dos antepassados;
- a bênção do sacerdote aos leitores no início da Liturgia da Palavra;
- os diálogos entre o sacerdote e a assembleia no início e no final da homilia;
- o Ato Penitencial e o abraço da paz após a homilia, indicando que a escuta da Palavra dispõe à reconciliação com Deus e os irmãos.

O Papa aguarda a procissão de entrada
Incensação do altar
Ritos iniciais

Bênção aos leitores