terça-feira, 5 de abril de 2022

Homilia do Papa: Missa em Malta

Viagem Apostólica a Malta
Santa Missa
Homilia do Papa Francisco
Largo dei Granai, Floriana
V Domingo da Quaresma, 03 de abril de 2022

Jesus, «de madrugada, voltou outra vez para o templo e todo o povo vinha ter com Ele» (Jo 8,2). Assim começa o episódio da mulher adúltera. O horizonte aparece sereno: uma manhã no lugar santo, no coração de Jerusalém. Protagonista é o povo de Deus, que no átrio do templo procura Jesus, o Mestre: deseja escutá-Lo, porque a sua palavra ilumina e encoraja. A sua doutrina não de forma alguma abstrata: toca a vida e liberta-a, transforma-a, renova-a. Nisto se revela a intuição, o «faro» do povo de Deus, que não se contenta com o templo feito de pedras, mas reúne-se à volta da pessoa de Jesus. Nesta página, vislumbra-se o povo dos crentes de todos os tempos, o povo santo de Deus, que aqui em Malta é numeroso e vivaz, fiel na busca do Senhor, ligado a uma fé concreta, vivida. Por tudo isso vos agradeço!

Na presença do povo que O veio encontrar, Jesus não tem pressa: «sentou-Se - diz o Evangelho - e pôs-Se a ensinar» (v.  2). Mas, na escola de Jesus, há lugares vazios. Há alguns ausentes: são a mulher e os seus acusadores. Não foram ter com o Mestre como os outros, sendo diversas as razões da ausência: escribas e fariseus pensam que já sabem tudo, não precisam do ensinamento de Jesus; ao passo que a mulher é uma pessoa perdida, extraviada, procurando a felicidade por caminhos errados. Temos, pois, ausências por motivos diferentes, como aliás será diferente o desfecho da própria vicissitude. Detenhamo-nos nestes ausentes.

Em primeiro lugar, os acusadores da mulher. Neles vemos a imagem daqueles que se vangloriam de ser justos, observadores da lei de Deus, pessoas regradas e justas. Não se preocupam com os próprios defeitos, mas mostram-se muito atentos na descoberta dos alheios. Assim se apresentam a Jesus: não com o coração disponível para O escutarem, mas «para O fazerem cair numa armadilha e terem de que O acusar» (v. 6). É um intento que fotografa a interioridade destas pessoas cultas e religiosas, que conhecem as Escrituras, frequentam o templo, mas subordinam tudo isto aos próprios interesses e não combatem os pensamentos maus que se agitam no seu coração. Aos olhos do povo, parecem peritos em Deus, e contudo não reconhecem Jesus; antes pelo contrário, veem-No como um inimigo que precisam eliminar. Para consegui-lo, colocam diante d’Ele uma pessoa, como se fosse uma coisa, chamando-a desdenhosamente «esta mulher» e denunciando publicamente o seu adultério. Pressionam para que a mulher seja apedrejada, derramando sobre ela a aversão que eles sentem pela compaixão de Jesus. E fazem tudo isto sob o manto da sua fama de homens religiosos.

Irmãos e irmãs, estas pessoas dizem-nos que, até na nossa religiosidade, se podem insinuar a traça da hipocrisia e o vício de apontar o dedo; e isto a todo o momento, em qualquer comunidade. Há sempre o perigo de entender mal Jesus, ter o seu nome nos lábios, mas negá-Lo nas obras. E pode-se fazê-lo mesmo quando se levantam estandartes com a cruz. Então como saber se somos discípulos na escola do Mestre? Pelo nosso olhar, pelo modo como olhamos para o próximo e como olhamos para nós mesmos. Aqui está o ponto para definir a nossa pertença.

Pelo modo como olhamos para o próximo: se o fazemos como Jesus nos faz ver hoje, isto é, com um olhar de misericórdia; ou de forma inquisitória, por vezes até desdenhosa, como os acusadores do Evangelho, que se erguem como defensores da Deus, mas não percebem que espezinham os irmãos. Na realidade, quem julga defender a fé apontando o dedo contra os outros, até pode possuir uma visão religiosa, mas não adota o espírito do Evangelho, porque esquece a misericórdia, que é o coração de Deus.

Para compreender se somos verdadeiros discípulos do Mestre, é preciso verificar também como olhamos para nós mesmos. Os acusadores da mulher estão convencidos de que não têm nada a aprender. Com efeito, a aparência externa é perfeita, mas falta a verdade do coração. São a figura dos crentes de cada época que fazem da fé um elemento de fachada, onde sobressai o aspecto exterior solene, mas falta a pobreza interior, que é o tesouro mais precioso do homem. De fato, para Jesus o que conta é a abertura disponível de quem não se sente perfeito, mas necessitado de salvação. Por isso, quando estivermos em oração e mesmo quando tomarmos parte em belas cerimônias religiosas, será bom perguntarmo-nos se estamos sintonizados com o Senhor. Podemos perguntá-lo diretamente a Ele: «Jesus, estou aqui convosco, mas Vós que quereis de mim? Que quereis que mude no meu coração, na minha vida? Como quereis que veja os outros?». Será útil rezarmos assim, porque o Mestre não Se satisfaz com a aparência, mas busca a verdade do coração. E quando Lhe abrimos de verdade o coração, Jesus pode operar maravilhas em nós.

Vemos acontecer isto mesmo na mulher adúltera. A sua situação parece irremediável, mas aos seus olhos abre-se um horizonte novo, antes inconcebível. Coberta de insultos, pronta a receber palavras implacáveis e severos castigos, com maravilha sua vê-se absolvida por Deus, que lhe abre de par em par um futuro inesperado: «Ninguém te condenou? - diz-lhe Jesus - Também Eu não te condeno. Vai e de agora em diante não tornes a pecar» (vv. 10-11). Que diferença entre o Mestre e os acusadores! Estes citaram a Escritura para condenar; Jesus, Palavra de Deus em pessoa, reabilita completamente a mulher, restituindo-lhe a esperança. Deste caso, aprendemos que qualquer advertência, se não for movida pela caridade e não contiver caridade, afunda ainda mais quem a recebe. Deus, pelo contrário, deixa sempre aberta uma possibilidade e sabe encontrar sempre caminhos de libertação e salvação.

A vida daquela mulher muda graças ao perdão. Encontraram-se a Misericórdia e a miséria. Estão ali Misericórdia e miséria. E a mulher muda. Apetece-me pensar que, perdoada por Jesus, ela por sua vez aprendeu a perdoar. Talvez passasse a ver os seus acusadores, já não como pessoas rígidas e perversas, mas como aqueles que lhe permitiram encontrar Jesus. O Senhor quer que também nós, seus discípulos, nós como Igreja, perdoados por Ele, nos tornemos testemunhas incansáveis de reconciliação: testemunhas de um Deus para o Qual não existe a palavra «irrecuperável»; de um Deus que sempre perdoa, sempre. Deus perdoa sempre. Somos nós que nos cansamos de pedir perdão. Um Deus que continua a crer em nós e todas as vezes dá a possibilidade de recomeçar. Não há pecado ou fracasso que, levados a Ele, não possam tornar-se ocasião para começar uma vida nova, diferente, sob o signo da misericórdia. Não há pecado que não se possa superar por esta estrada. Deus perdoa tudo. Tudo.

Assim é o Senhor Jesus; sabe-o bem quem fez experiência do seu perdão; quem, como a mulher do Evangelho, descobre que Deus nos visita através das nossas chagas interiores: é sobretudo nestas que o Senhor prefere fazer-Se presente, pois não veio para os sãos, mas para os doentes (cf. Mt 9,12). E hoje esta mulher, que conheceu a misericórdia na sua miséria e volta curada pelo perdão de Jesus, sugere-nos, como Igreja, que principiemos de novo a frequentar a escola do Evangelho, a escola do Deus da esperança que sempre nos surpreende. Se O imitarmos, não seremos levados a concentrar-nos na denúncia dos pecados, mas a sair amorosamente à procura dos pecadores. Não ficaremos a contar os presentes, mas iremos em busca dos ausentes. Não voltaremos a apontar o dedo, mas começaremos a pôr-nos à escuta. Não descartaremos os desprezados, mas olharemos como primeiros aqueles que são considerados últimos. Isto, irmãos e irmãs, é o que Jesus nos ensina hoje com o exemplo. Deixemo-nos surpreender por Ele e acolhamos com alegria a sua novidade.


Fonte: Santa Sé.

segunda-feira, 4 de abril de 2022

Oração do Papa na Gruta de São Paulo em Malta

Na manhã do último domingo, 03 de abril de 2022, o Papa Francisco visitou a Gruta de São Paulo em Rabat, Malta, no contexto da sua Viagem Apostólica ao país.

Confira a seguir a oração recitada pelo Santo Padre na Gruta do Apóstolo:

Viagem Apostólica do Papa Francisco a Malta
Visita à Gruta de São Paulo
Oração do Santo Padre
Basílica de São Paulo em Rabat
Domingo, 03 de abril de 2022

Deus de misericórdia, na vossa admirável providência quisestes que o Apóstolo Paulo anunciasse o vosso amor aos habitantes de Malta, que ainda não Vos conheciam. Ele proclamou-lhes a vossa Palavra e curou as suas doenças.
Salvos do naufrágio, São Paulo e os companheiros de viagem encontraram aqui, acolhendo-os, pessoas pagãs de bom coração, que os trataram com invulgar humanidade, apercebendo-se que precisavam de abrigo, segurança e assistência. Ninguém conhecia os seus nomes, a proveniência nem a condição social; sabiam apenas uma coisa: que precisavam de ajuda.
Não era momento para discussões, juízos, análises e cálculos: era o momento de prestar socorro; deixaram as suas ocupações e assim fizeram.
Acenderam uma grande fogueira, e fizeram-nos enxugar e aquecer. Acolheram-nos com coração aberto e, juntamente com Públio, o primeiro no governo e na misericórdia, encontraram alojamento para eles.
Pai bom, concedei-nos a graça de um bom coração que palpite de amor pelos irmãos. Ajudai-nos a reconhecer de longe as necessidades daqueles que lutam por entre as ondas do mar, atirados contra as rochas de uma costa desconhecida. Fazei que a nossa compaixão não se reduza a palavras vãs, mas acenda a fogueira do acolhimento, que faz esquecer o mau tempo, aquece os corações e os une: lareira da casa construída sobre a rocha, da única família dos vossos filhos, todos irmãos e irmãs. Vós amai-los sem distinção e quereis que nos tornemos um só com o vosso Filho, Jesus Cristo, nosso Senhor, pelo poder do fogo enviado do Céu, o vosso Espírito Santo, que queima toda a inimizade, e de noite ilumina o caminho rumo ao vosso reino de amor e de paz.
R. Amém.

A Gruta de São Paulo em Rabat (Malta)
O Papa acende uma vela diante da imagem do Apóstolo

A oração do Santo Padre

Fotos da oração do Papa no Santuário de Ta’ Pinu

No último sábado, 02 de abril de 2022, o Papa Francisco presidiu um encontro de oração no Santuário de Nossa Senhora de Ta' Pinu em Malta, no contexto da sua Viagem Apostólica ao país.

Após um momento de oração dentro do Santuário, durante o qual o Santo Padre depositou uma rosa de ouro diante da imagem de Nossa Senhora de Ta' Pinu, seguiu-se o encontro de oração diante do Santuário. Após os testemunhos de algumas famílias e a proclamação do Evangelho (Jo 19,25-27), o Papa Francisco proferiu sua homilia.

Chegada do Santo Padre
Momento de oração dentro do Santuário

O Papa abençoa os fiéis dentro do Santuário
Momento de oração diante do Santuário

Homilia do Papa: Oração no Santuário de Ta’ Pinu

Viagem Apostólica do Papa Francisco a Malta
Encontro de Oração
Homilia do Santo Padre
Santuário Nacional de Ta' Pinu, Gozo
Sábado, 02 de abril de 2022

Junto da cruz de Jesus, estão Maria e João: a Mãe, que deu à luz o Filho de Deus, encontra-Se trespassada de dor com a morte d’Ele, enquanto as trevas envolvem o mundo; e o discípulo amado, que deixara tudo para segui-Lo, vemo-lo agora imóvel aos pés do Mestre crucificado. Parece estar tudo perdido, parece ter acabado tudo para sempre. Entretanto Jesus, tomando sobre Si as chagas da humanidade, reza: «Meu Deus, meu Deus, por que Me abandonaste?» (Mt 27,46; Mc 15,34). Esta é também a nossa oração nos momentos da vida marcados pelo sofrimento; é a oração que se eleva cada dia a Deus do vosso coração, Sandi e Domenico: obrigado pela perseverança do vosso amor; obrigado pelo vosso testemunho de fé!
Contudo a hora de Jesus, que no Evangelho de João é a hora da morte na cruz, não constitui a conclusão da história, mas marca o início duma vida nova. Com efeito, na cruz, contemplamos o amor misericordioso de Cristo, que estende os braços para nós e, através da sua morte, abre-nos à alegria da vida eterna. A partir da hora do fim, abre-se uma vida que começa; daquela hora da morte, começa outra hora cheia de vida: é o tempo da Igreja que nasce. Daquela célula primordial, o Senhor reunirá um povo, que continuará a atravessar os caminhos impérvios da história, levando no coração a consolação do Espírito, com a qual enxugará as lágrimas da humanidade.
Irmãos e irmãs, a partir deste Santuário de Ta' Pinu, podemos meditar juntos sobre o novo início que brota da hora de Jesus. Também neste lugar, antes do edifício esplêndido que vemos hoje, havia só uma capelinha em estado de abandono. Já estava aliás decidida a sua demolição: parecia o fim. Mas uma série de acontecimentos mudou o rumo das coisas, como se o Senhor quisesse dizer a esta população: «Não serás mais chamada a “Desamparada”, nem a tua terra a “Deserta”; antes, serás chamada: “Minha Dileta”, e a tua terra a “Desposada”» (Is 62,4). Aquela capelinha tornou-se o Santuário nacional, meta de peregrinos e fonte de vida nova. No-lo recordaste tu, Jennifer: aqui muitos confiam a Nossa Senhora os seus sofrimentos e alegrias, e todos se sentem acolhidos. Aqui veio, peregrino, também São João Paulo II, cujo aniversário da morte ocorre hoje. Um lugar que parecia perdido, hoje regenera fé e esperança no Povo de Deus.
À luz disto, tentemos recolher também para nós o convite da hora de Jesus, daquela hora da salvação. Diz-nos que, para renovar a nossa fé e a missão da comunidade, somos chamados a voltar àquele início, à Igreja nascente que vemos, junto da cruz, em Maria e João. Mas que significa voltar àquele início? Que significa tornar às origens?
Antes de tudo, trata-se de voltar a descobrir o essencial da fé. Tornar à Igreja das origens não significa olhar para trás para copiar o modelo eclesial da primeira comunidade cristã. Não podemos «saltar a história», como se o Senhor não tivesse falado e feito grandes coisas também na vida da Igreja dos séculos seguintes. Nem significa sermos demasiado idealistas, imaginando que naquela comunidade não haveria dificuldades quando, pelo contrário, lemos que os discípulos discutem e chegam mesmo a litigar entre eles, e nem sempre entendem os ensinamentos do Senhor. Voltar às origens significa, antes, recuperar o espírito da primeira comunidade Cristã, isto é, voltar ao coração e redescobrir o centro da fé: a relação com Jesus e o anúncio do seu Evangelho ao mundo inteiro. E isto é o essencial! Esta é alegria da Igreja: evangelizar.
Na verdade, depois da hora da morte de Jesus, os primeiros discípulos - nomeadamente Maria Madalena e João - tendo visto o sepulcro vazio, sem perder tempo, de coração vibrante, correm a anunciar a Boa Nova da Ressurreição. O pranto de tristeza junto da cruz transforma-se na alegria do anúncio. E penso também nos Apóstolos, que «todos os dias, no templo e nas casas, não cessavam de ensinar e de anunciar a Boa Nova de Jesus, o Messias» (At 5,42). A preocupação principal dos discípulos de Jesus não era o prestígio da comunidade e dos seus ministros, não era a influência social, não era a perfeição do culto. Não. A inquietação que os movia era o anúncio e o testemunho do Evangelho de Cristo (cf. Rm 1,1), porque a alegria da Igreja é evangelizar.
Irmãos e irmãs, a Igreja maltesa gloria-se duma história preciosa da qual extrair tantas riquezas espirituais e pastorais. Todavia, a vida da Igreja - tenhamo-lo sempre presente - nunca é só «uma história passada a recordar», mas um «grande futuro a construir», dócil aos desígnios de Deus. Não nos pode bastar uma fé feita de usos e costumes recebidos por tradição, de celebrações solenes, belas iniciativas populares, momentos fortes e emocionantes; precisamos de uma fé fundada e renovada no encontro pessoal com Cristo, na escuta diária da sua Palavra, na ativa colaboração na vida da Igreja, na alma da piedade popular.
A crise da fé, a apatia da prática religiosa sobretudo no pós-pandemia e a indiferença de muitos jovens relativamente à presença de Deus não são questões que devemos «adocicar» pensando que, apesar de tudo, ainda subsiste um certo espírito religioso. Na realidade, às vezes o suporte exterior pode ser religioso, mas por trás desses andaimes a fé vai envelhecendo. Nem sempre a elegante amostra de vestes religiosas corresponde a uma fé viva animada pelo dinamismo da evangelização. É preciso vigiar para que as práticas religiosas não se reduzam à repetição dum repertório do passado, mas expressem uma fé viva, aberta, que difunda a alegria do Evangelho, porque a alegria da Igreja é evangelizar.
Sei que iniciastes, através do Sínodo, um processo de renovação: agradeço-vos por este caminho. Irmãos, irmãs, este é o momento de voltar àquele começo, ao pé da cruz, olhando para a primeira comunidade Cristã, para ser uma Igreja que tem a peito a amizade com Jesus e o anúncio do seu Evangelho, e não a busca de espaço e atenções; uma Igreja que tem, no centro, o testemunho, e não qualquer costume religioso; uma Igreja que deseja ir ao encontro de todos com a lâmpada do Evangelho acesa, e não formar um círculo fechado. Não tenhais medo de empreender - como já fazeis - percursos novos de evangelização e anúncio, talvez até arriscados mas que tocam a vida, porque a alegria da Igreja é evangelizar.
Voltemos o olhar mais uma vez para as origens, para Maria e João junto da cruz. Nos primórdios da Igreja, temos o seu gesto de mútua entrega. Com efeito, o Senhor confia cada um deles aos cuidados do outro: João a Maria e Maria a João, de tal modo que, «desde aquela hora, o discípulo acolheu-A como sua» (Jo 19,27). Voltar ao início significa também desenvolver a arte do acolhimento. Dentre as últimas palavras de Jesus na cruz, as palavras dirigidas à Mãe e a João incitam a fazer do acolhimento o estilo perene do discipulado. Realmente não se tratou dum simples gesto de compaixão - Jesus teria confiado a sua Mãe a João, para que Ela não ficasse sozinha depois da morte d’Ele - mas duma indicação concreta do modo como viver o mandamento supremo: o do amor. O culto a Deus passa pela proximidade ao irmão.
Quão importante é na Igreja o amor entre os irmãos e o acolhimento do próximo! No-lo recorda o Senhor na hora da cruz, na mútua aceitação de Maria e João, exortando a comunidade cristã de todos os tempos a não perder esta prioridade. «Eis o teu filho (...) eis a tua mãe» (Jo 19,26.27) é como se dissesse: fostes salvos pelo mesmo sangue, sois uma única família; então acolhei-vos mutuamente, amai-vos uns aos outros, curai as feridas uns dos outros. Sem suspeitas, sem divisões, calúnias, murmurações nem desconfianças. Irmãos e irmãs, fazei «sínodo», isto é, «caminhai juntos». Porque Deus está presente onde reina o amor!
Caríssimos, o mútuo acolhimento, não como pura formalidade, mas em nome de Cristo, é um desafio permanente. É-o antes de mais nada para as nossas relações eclesiais, porque a nossa missão produz fruto se trabalharmos na amizade e na comunhão fraterna. Sois duas lindas comunidades - Malta e Gozo, ou Gozo e Malta? Não sei qual das duas seja a mais importante, seja a primeira! -, tal como dois eram Maria e João! Então que as palavras de Jesus na cruz sejam a vossa estrela polar, para vos acolherdes mutuamente, criardes familiaridade, trabalhardes em comunhão! E continuando sempre na evangelização, porque a alegria da Igreja é evangelizar.
Mas o acolhimento é também o teste decisivo para verificar quão efetivamente esteja permeada a Igreja pelo espírito do Evangelho. Maria e João acolhem-se não no refúgio ameno do Cenáculo, mas junto da cruz, naquele lugar tenebroso onde se era condenado e crucificado como criminoso. Também nós não podemos acolher-nos apenas entre nós à sombra das nossas belas igrejas, enquanto fora muitos irmãos e irmãs sofrem e são crucificados pelo sofrimento, a miséria, a pobreza e a violência. Encontrais-vos numa posição geográfica crucial, que abre para o Mediterrâneo como polo de atração e cais de salvação para muitas pessoas em balia das tempestades da vida, que, por diferentes motivos, chegam às vossas costas. No rosto destes pobres, é o próprio Cristo que Se apresenta a vós. Esta foi a experiência do Apóstolo Paulo que, depois dum terrível naufrágio, foi calorosamente acolhido pelos vossos antepassados. Afirmam os Atos dos Apóstolos: «Os nativos (...) acenderam uma grande fogueira, junto à qual nos recolheram a todos, por causa da chuva que estava a cair e por causa do frio» (At 28,2).
Eis o Evangelho que somos chamados a viver: acolher, ser peritos em humanidade, acender fogueiras de ternura quando o frio da vida paira sobre aqueles que sofrem. Então, duma experiência dramática, nasceu algo importante, porque Paulo anunciou e difundiu o Evangelho e, em seguida, muitos arautos, pregadores, sacerdotes e missionários seguiram os seus passos, impelidos pelo Espírito Santo, para evangelizar, para fazer continuar a alegria da Igreja que é evangelizar. Quero dizer um obrigado especial a estes evangelizadores: aos numerosos missionários malteses que espalham a alegria do Evangelho por todo o mundo, aos inúmeros sacerdotes, às religiosas e aos religiosos e a todos vós. Como disse o vosso Bispo, Dom Teuma, sois uma ilha pequena mas de coração grande. Sois um tesouro na Igreja e para a Igreja. Repito: sois um tesouro na Igreja e para a Igreja. Para guardá-lo, é preciso voltar à essência do cristianismo: ao amor de Deus, motor da nossa alegria, que nos faz sair e percorrer as estradas do mundo; e ao acolhimento do próximo, que é o nosso mais simples e belo testemunho no mundo, e assim continuar a percorrer as estradas do mundo, porque a alegria da Igreja é evangelizar.
Que o Senhor vos acompanhe neste caminho e a Santíssima Virgem vos guie. Ela, que pediu para rezar três «Ave Marias» a fim de nos recordarmos do seu coração materno, reacenda em nós seus filhos o fogo da missão e o desejo de cuidarmos uns dos outros. Nossa Senhora vos guarde e acompanhe na evangelização.


Fonte: Santa Sé.

sábado, 2 de abril de 2022

Cardeal Cantalamessa: IV Pregação de Quaresma 2022

Confira a quarta meditação de Quaresma do Cardeal Raniero Cantalamessa, OFMCap, Pregador da Casa Pontifícia, sobre o sacramento da Eucaristia, proferida no dia 01 de abril de 2022 e dedicada à “presença real”:

Cardeal Raniero Cantalamessa, OFMCap
IV pregação de Quaresma
01 de abril de 2022

Uma catequese mistagógica sobre a Eucaristia:
A Eucaristia, presença real do Senhor

Depois das catequeses mistagógicas sobre as três partes da Missa - a Liturgia da Palavra, a Consagração e a Comunhão - meditemos hoje a Eucaristia como presença real de Cristo na Igreja.
Como enfrentar um mistério tão alto e tão inacessível? Vêm-nos logo à memória as variadíssimas teorias e discussões existentes acerca disso, as divergências entre católicos e protestantes, entre latinos e ortodoxos, que enchiam os livros por onde estudamos teologia, nós que temos certa idade e somos tentados a pensar que é impossível dizer ainda alguma coisa acerca deste mistério que possa edificar a nossa fé e aquecer o nosso coração, sem desembocarmos inevitavelmente na polêmica interconfessional.
Mas esta é precisamente a obra maravilhosa que o Espírito Santo vai realizando nos nossos dias entre todos os cristãos. Ele impele-nos a reconhecer quanta parte tinham, nas nossas disputas eucarísticas, a presunção humana de poder encerrar o mistério numa teoria ou, até, numa palavra, como também a vontade de prevalecer sobre o adversário. Impele-nos a arrependermo-nos por termos reduzido o supremo penhor de amor e de unidade que o Senhor nos deixou a um objeto privilegiado das nossas altercações.
A via do ecumenismo eucarístico é a via do reconhecimento recíproco, a via cristã do ágape, da partilha e das diferenças reconciliadas de que fala nosso Santo Padre. Não se trata de passar por cima das divergências reais, ou de renunciar a alguma coisa da doutrina católica autêntica. Trata-se, antes, de reunir todos os aspectos positivos e os valores autênticos que existem em cada uma das tradições, de modo a constituir um “montão” de verdades comuns que comece a atrair-nos para a unidade.
É incrível como algumas posições católicas, ortodoxas e protestantes acerca da presença real se tornam divergentes entre si e destrutivas quando contrapostas e vistas em alternativa entre si, ao passo que se mostram maravilhosamente convergentes se mantidas juntas em equilíbrio. É a síntese que devemos começar a fazer; devemos passar, como por um crivo, as grandes tradições cristãs, para colher de cada uma, como nos exorta o Apóstolo, “aquilo que é bom” (cf. 1Ts 5,21). Esta é a única maneira pela qual podemos esperar um dia sentar à mesma mesa.


Uma presença real, mas escondida: A tradição latina

Vamos agora examinar, com este espírito, as três principais tradições eucarísticas - a latina, a ortodoxa e a protestante - para nos edificarmos com as riquezas de cada uma e reunir todas no tesouro comum da Igreja. A ideia que, no final, iremos ter do mistério da presença real ficará mais rica e mais viva.
Na visão da teoria latina, o centro indiscutível da ação eucarística, da qual deriva a presença real de Cristo, é o momento da consagração. Nele, Jesus age e fala em primeira pessoa. A teologia latina recolhe, nisto, todo um filão da tradição patrística. Santo Ambrósio escreve:
“Este pão é pão antes das palavras sacramentais; mas, ao intervir a consagração, o pão torna-se carne de Cristo... Com que palavras se fez a consagração, e de quem são essas palavras? Do Senhor Jesus! Todas as coisas que se dizem antes desse momento são ditas pelo sacerdote que louva a Deus, reza pelo povo, pelos reis e pelos outros; mas quando se chega ao momento de realizar o venerável sacramento, o sacerdote já não utiliza palavras suas, mas de Cristo. É, pois, a palavra que opera (conficit) o sacramento... Vês quanto é eficaz (operatorius) a fala de Cristo? Antes da consagração não havia Corpo de Cristo, mas depois da consagração, eu digo-te que já existe o Corpo de Cristo. Ele diz e a coisa acontece, Ele ordena e a coisa se afirma (Sl 33,9)” [1].

sexta-feira, 1 de abril de 2022

Dom Henrique Soares da Costa: Paixão segundo Lucas 15-16

“Jesus dizia: Pai, perdoa-lhes! Eles não sabem o que fazem!” (Lc 23,34).

Dom Henrique Soares da Costa
Quaresma 2019
A Paixão de nosso Senhor Jesus Cristo segundo Lucas

Para acessar o índice, com os links para todas as meditações, clique aqui.

Paixão segundo Lucas XV: Lc 23,23-32

Enquanto levavam Jesus, pegaram um certo Simão, de Cirene, que voltava do campo, e impuseram-lhe a cruz para carregá-la atrás de Jesus. Seguia-O uma grande multidão do povo e de mulheres que batiam no peito e choravam por Ele. Jesus, porém, voltou-Se e disse: “Filhas de Jerusalém, não choreis por Mim! Chorai por vós mesmas e por vossos filhos! Porque dias virão em que se dirá: ‘Felizes as mulheres que nunca tiveram filhos, os ventres que nunca deram à luz e os seios que nunca amamentaram’. Então começarão a pedir às montanhas: ‘Cai sobre nós! e às colinas: ‘Escondei-nos!’ Porque, se fazem assim com a árvore verde, o que não farão com a árvore seca?” Levavam também outros dois malfeitores para serem mortos junto com Jesus (Lc 23,23-32).

Três grupos de personagens aparecem aqui. Cada um com algo a nos dizer...

Caminho do Calvário - Duccio di Buoninsegna

Primeiro, Simão de Cirene, obrigado pelos soldados romanos a carregar a Cruz. Um absurdo, um ato de truculência. Mas Roma permitia que se obrigasse, desde que não fosse a um cidadão romano... E aquele homem de Cirene, sem saber, completava em si as dores do Salvador; sem nem imaginar, tornou-se ícone do que deve ser cada um de nós: aquele que leva com Jesus a Cruz, aquele que vai com Jesus até o Calvário. Esse Cireneu não conhecia Jesus e, ao que parece, ali converteu-se. Não, não é uma suposição piedosa, esta minha! Há um indício precioso, comovente. São Marcos quando fala do Cireneu, afirma que ele era o pai de Alexandre e Rufo (Mc 15,21). Observe, meu irmão, que o evangelista supõe que esses dois irmãos eram conhecidos na Comunidade cristã: eram cristãos. Sim, os filhos do Cireneu tornaram-se discípulos do Condenado, do Homem de dores. Não terá o velho Simão abraçado a fé? Marcos escreveu pelo ano 63 da nossa era, cerca de 34 anos após estes acontecimentos... Eu fico pensando no orgulho de Alexandre e Rufo no meio da Comunidade cristã: “Olha lá aqueles dois! O pai deles ajudou o Senhor a levar a Cruz! O pai deles, o velho Simão, tocou no sangue do Salvador, juntou seu suor ao suor do Filho de Deus, repartiu com Ele o peso da Cruz”.

- Dá-nos, Jesus, a honra que deste ao Cireneu, de levar contigo a Cruz nas cruzes da vida e nas cruzes dos irmãos, nos quais estás presente!

A viagem do Papa Francisco a Malta

Entre os dias 02 e 03 de abril de 2022 o Papa Francisco realiza sua 36ª Viagem Apostólica fora da Itália e a 15ª dentro da Europa, tendo como destino a República de Malta.

Santuário de Nossa Senhora de Ta' Pinu em Malta

Esta será a quarta vez que o pequeno país insular recebe o Sucessor de Pedro, após duas visitas de São João Paulo II (†2005) e uma do Papa Bento XVI.

O Papa polonês visitou Malta de 25 a 27 de maio de 1990 e nos dias 08 e 09 de maio de 2001, no contexto de uma peregrinação “Nos passos de Paulo” como eco do Grande Jubileu do Ano 2000. Nesta última visita o Papa presidiu a Beatificação de três fiéis malteses.

Bento XVI, por sua vez, visitou o país entre 17 e 18 de abril de 2010, por ocasião dos 1950 anos do naufrágio do Apóstolo Paulo no arquipélago (cf. At 27–28) e como “eco” do Ano Paulino (2008-2009).

São João Paulo II coroa a imagem de Nossa Senhora de Ta' Pinu (1990)

A viagem de Francisco estava prevista inicialmente para o dia 31 de maio de 2020, sendo adiada devido à pandemia de Covid-19. No ano de 2020, com efeito, o material da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos havia sido preparado pelas igrejas cristãs em Malta, com o tema “Eles nos demonstraram um benevolência fora do comum” (At 28,2). Este mesmo versículo é agora retomado como lema da visita do Santo Padre.

Programa da viagem:

02 de abril (sábado):

O Papa Francisco chega a Malta na manhã do sábado, dia 02 de abril. Seu primeiro compromisso é o encontro com as autoridades civis na capital, Valeta (ou Valletta).

À tarde o Papa dirige-se de barco à ilha de Gozo, a segunda maior ilha do arquipélago maltês, onde preside um momento de oração no Santuário Nacional de Nossa Senhora de Ta' Pinu, retornando à ilha de Malta no final da tarde.

Confira a homilia do Papa e as fotos da celebração no Santuário de Ta' Pinu.

Imagem de Nossa Senhora de Ta' Pinu (Malta)

03 de abril (domingo):

Na manhã do domingo, 03 de abril, após um encontro privado com os membros da Companhia de Jesus (jesuítas) na sede da Nunciatura Apostólica em Rabat, o Santo Padre visita a gruta de São Paulo, junto à Basílica do Apóstolo na mesma cidade.

Confira a oração do Papa e as fotos da visita à Gruta de São Paulo clicando aqui.

Ainda pela manhã o Papa dirige-se à cidade de Floriana, onde preside a Santa Missa do V Domingo da Quaresma no “Largo dei Granai”, a praça diante da igreja paroquial da cidade.


O último compromisso da viagem, na tarde do domingo, é a visita ao centro para migrantes “John XXIII Peace Lab”, em Hal Far, distrito do município de Zurrieq. Após o encontro com os migrantes, o Santo Padre retorna a Roma.

Bento XVI reza na Gruta de São Paulo em Rabat (2010)

Alguns dados da Igreja Católica em Malta:

Número de católicos: 408 mil (cerca de 85% da população)
Dioceses: 02
Paróquias: 85

Bispos: 06
Sacerdotes diocesanos: 411
Sacerdotes religiosos: 305
Religiosos (as): 830
Seminaristas: 48

Escolas católicas: 72
Universidades católicas: 02

Logotipo da viagem do Papa Francisco a Malta

Programa da viagem e estatísticas: Boletim de imprensa da Santa Sé.