Missa no Início do Ano Acadêmico das Universidades Pontifícias
Homilia do Papa Leão XIV
Basílica de São Pedro
Quinta-feira, 08 de outubro de 2026
Foi celebrada a Missa votiva do Espírito Santo com as leituras do dia (quinta-feira da XXVII semana do Tempo Comum, ano par).
Queridos irmãos e irmãs,
Celebramos hoje a Eucaristia invocando o dom
do Espírito Santo para que o início de um novo ano acadêmico nas Universidades
Pontifícias seja mais do que um simples recomeço das atividades de estudo e
investigação. Desejamos abrir a inteligência e as relações educativas ao sopro
criador do Ressuscitado, que concede paz e unidade para que cada um assuma a
própria tarefa e, assim, corresponda ao Deus que chama e à humanidade que
espera. Portanto, possa este novo começo ser um verdadeiro momento eclesial, no
qual este encontro em torno da mesa do Senhor alimente a nossa missão comum.
Então, ninguém ensinará, estudará ou investigará apenas por si mesmo, mas com e
para os outros; e, sobretudo, com e para o Senhor. Tal como ouvimos na Carta aos Gálatas: a inteligência é determinante para a fé e a missão.
O Apóstolo Paulo, preocupado com as notícias
recebidas das comunidades da Galácia, escreve palavras que convidam os
destinatários da Carta à reflexão. O tom é vibrante, vivo; porém,
o que poderia parecer uma repreensão é, na realidade, um apelo à inteligência,
à memória e ao espírito crítico. Em cada época, não faltam falsos mestres que
desviam o sentimento religioso de muitos fiéis para os seus próprios
interesses, levando-os frequentemente a radicalizar algum aspecto do
ensinamento recebido em detrimento do todo, que é Cristo e seu Evangelho.
Caríssimos, para o bem de cada um de vós e
de tantos irmãos e irmãs pelos quais o Senhor deu a sua vida, valorizai o
estudo como um serviço à fé e à verdade. Embora o encontro com Ele gere
verdadeira alegria e entusiasmo, não se trata nunca de ficar “enfeitiçado” ou
“fascinado” (cf. Gl 3,1). À luz da Palavra de Deus e
da Tradição da Igreja, a razão, o questionar-se e o fazer perguntas são parte
essencial do caminho de fé no seguimento de Jesus Cristo. Por isso mesmo, a
Igreja tem o desejo e a responsabilidade de salvaguardar integralmente o
tesouro da Revelação e de desenvolver, nos diversos contextos, a sua
inteligência orante, a reflexão científica, a mediação cultural e a tradução
prática. Todas expressões de um único amor que hoje vos chama, sustenta e
compromete na comum investigação. É uma missão! As nossas vocações são
diversas, mas a missão é única.
Encontramos uma ulterior sugestão nas
palavras do Apóstolo. Ele, com efeito, convida os gálatas a recordarem onde
tinham começado. Escreve: «Sois assim tão insensatos? A ponto de, depois de
terdes começado pelo espírito, quererdes terminar pela carne? Foi acaso em vão
que sofrestes tanto? Se é que foi mesmo em vão!» (vv. 3-4). Desse modo, a
inteligência deve fazer memória: não simplesmente juntando dados - como um
algoritmo já faz mais rapidamente do que nós -, mas recordando as experiências
vividas, com as ressonâncias que só a alma humana pode sentir, e entrando mais
intensamente em contato com a sua bondade. Tudo o que é bom começa “sob o sinal
do Espírito Santo” e, portanto, tem um ímpeto, um dinamismo, um sentido de
comunhão que, uma vez experimentados, ficam gravados no coração. A rotina, as
ambições, as rivalidades e outros fatores negativos podem, com o tempo,
distrair a nossa atenção e forças, deixando-nos áridos, apáticos, irritadiços e
tristes. É preciso, então, regressar ao coração. Foi ali que tudo começou, é
ali que está o início que permanece conosco. Caríssimos, guardai o vosso
coração! Quer sejais estudantes, investigadores ou docentes, guardai o vosso
coração, para que cada idade e responsabilidade sejam vividas “sob o sinal do
Espírito”.
Caríssimos, cultivai na Universidade o dom
precioso da amizade, ainda mais quando é vivida na busca comum da verdade em
Cristo. Permanecei enraizados no povo de Deus, valorizando o seu sensus
fidei e acolhendo as suas questões. E não vos esqueçais dos pobres, que,
por vezes, são aquele amigo insistente que vem bater à porta durante a noite (cf. Lc 11,5-13). Segundo a lógica da Encarnação, fora da qual a
Revelação se cala, levai a vida para o estudo e o estudo para a vida. Sim,
quanto mais nos afastamos da inteira realidade que o Filho de Deus assumiu e
habitou com amor infinito, menos teremos algo a dizer e menos possibilidades de
compreender. Irmãos e irmãs, ouçamos o desejo de Deus que hoje volta a bater à
porta e o levemos para a investigação científica. Partilhemos aquilo que nos
nutre. São muitos aqueles que não têm as mesmas oportunidades de formação que
nós recebemos. Abramos a porta, não nos fechemos.
Como sugeri na minha primeira Encíclica,
para construir a cidade onde Deus deseja habitar em paz com toda a humanidade,
somos hoje chamados a assumir a atitude do povo na época de Neemias (cf. Magnifica humanitas, n. 8). Cada um tem a sua tarefa neste
canteiro de obras, no qual é importante trabalharmos juntos. Por exemplo, quem
se depara com a fragmentação do conhecimento e com o impacto das novas
tecnologias na mente humana percebe que «é necessário promover uma verdadeira
higiene da atenção: ritmos que prevejam silêncio, estudo aprofundado, leitura,
debate ponderado. Sem estes elementos, a liberdade interior pode ficar
comprometida» (ibid., n. 146).
O estudo da Teologia não é alheio a estes
desafios, mas, no canteiro de obras da “cidade de Deus”, a sua investigação
contribui para iluminar o trabalho de todos, colocando-se como encruzilhada
entre os diversos saberes. Em particular, a Comunidade eclesial de Roma, com a
sua vocação de servir toda a catolicidade, é um ponto de encontro, diálogo e
enriquecimento mútuo entre sensibilidades, culturas e tradições diversas, nas
quais o Evangelho revela os seus tesouros inesgotáveis.
Queridos irmãos e irmãs, que possais viver
em plenitude estes vossos anos em Roma. Não os deixeis passar em vão! Aqui
Pedro confessou a sua fé até o martírio. Aqui Paulo, o grande tradutor
universal da experiência cristã para tantos povos, línguas e culturas, completou
a sua corrida, conservando a fé (cf. 2Tm 4,7). Na Universidade, olhai à
vossa volta: nas vossas salas de aula senta-se o mundo. Estudam ao vosso lado
pessoas vindas da África, da Ásia, da América, da Europa e da Oceania. Não vos
limiteis ao estar sentados lado a lado: encontrai-vos, conversai, escutai-vos,
partilhai as vossas experiências de Igreja, rezai juntos, partilhai momentos de
lazer, fazei nascer amizades que vos acompanharão por toda a vida.
O Senhor disse-nos: «Pedi e recebereis;
procurai e encontrareis; batei e vos será aberto. Pois quem pede, recebe; quem
procura, encontra; e, para quem bate, se abrirá» (Lc 11,9-10).
Fortalecidos por esta promessa, perseveremos na oração. Confiemos o novo ano
acadêmico à intercessão maternal da Virgem Maria, Sede da Sabedoria, e
acolhamos o Espírito Santo que o nosso Pai celestial não deixa faltar àqueles
que o pedem com confiança filial.
Fonte: Santa Sé.


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