segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Missas de Nossa Senhora: Maria, saúde dos enfermos

44. Bem-aventurada Virgem Maria, saúde dos enfermos
(Para o Tempo Comum)

Introdução
A salvação de Deus atinge o homem todo: corpo, alma, espírito. A salvação é o próprio Jesus Cristo, enviado do Pai como médico dos corpos e das almas, como o chama Santo Inácio de Antioquia em sua Carta aos Efésios. Durante sua vida terrena, Jesus curou muitos doentes, manifestando assim sua missão de salvar o homem todo.
Também a Virgem Maria, como Mãe de Cristo Salvador, socorre com amor seus filhos aflitos. Muitas vezes os doentes invocam a sua intercessão, inclusive dirigindo-se aos seus santuários, a fim de pedir por sua saúde. Portanto, com razão dentre os títulos de Maria aparece o de “Saúde dos Enfermos”, título propagado sobretudo pela Ordem dos Clérigos Regulares Ministros dos Enfermos (Camilianos).
Maria é apresentada como modelo de solicitude, recordando-se o episódio de sua visita a Isabel, e modelo de confiança na misericórdia de Deus, que ela canta no Magnificat (Lc 1,39-56). Assim como ela, somos chamados a ser solícitos para com os doentes e confiarmos sempre na misericórdia do Senhor.
As orações desta celebração, tomadas do Próprio dos Camilianos (exceto o prefácio), recordam a Virgem como “sinal de salvação e celeste esperança” para todos os que invocam seu auxílio (Prefácio). Ao mesmo templo, ela é exemplo de conformidade à vontade de Deus e configuração a Cristo, que tomou sobre si nossas enfermidades.

Antífona de entrada (cf. Sl 34/35,3; Jn 2,3)
Eu sou a salvação do meu povo, diz o Senhor.
Quando chamar por mim nas suas tribulações,
Eu ouvirei s sua voz.

Oração do dia
Senhor nosso Deus, concedei-nos sempre saúde de alma e corpo e fazei que, pela intercessão da sempre Virgem Maria, libertos das tristezas do tempo presente, gozemos das alegrias eternas. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.

Oração sobre as oferendas*
Ouvi, Senhor, as preces dos vossos fiéis, e aceitai os dons que vos apresentamos ao celebrarmos a memória da Virgem Maria, Mãe de Deus, para que a nossa oferenda vos seja agradável e nos traga o auxílio da vossa misericórdia. Por Cristo, nosso Senhor.

Prefácio
Na verdade, é justo e necessário, é nosso dever e salvação dar-vos graças, sempre e em todo o tempo e lugar, Senhor Pai santo, Deus eterno e todo-poderoso, e glorificar o vosso nome, ao celebrarmos a memória da Santa Virgem Maria.
Participando de modo admirável do mistério do sofrimento, ela brilha aos olhos dos enfermos que imploram o seu auxílio como sinal de salvação e celeste esperança. Ela prepara os corações dos que a veem como exemplo para aceitarem a vossa vontade e se identificarem plenamente com Cristo, que, pela sua grande caridade para conosco, suportou as nossas enfermidades e tomou sobre si as nossas dores.
Por Ele, com a multidão dos anjos que adoram a vossa majestade e se alegram na vossa presença, proclamamos a vossa glória, cantando (dizendo) a uma só voz:

Antífona de Comunhão (cf. Sl 117/118,14)
O Senhor é minha força e o meu canto,
e tornou-se para mim o Salvador.

Oração após a Comunhão
Ó Deus, o sacramento salutar do Corpo e Sangue de vosso Filho Unigênito que alegres recebemos em honra da bem-aventurada Virgem Maria, sua Mãe, nos cumule com os bens da vida temporal e nos plenifique com os dons eternos. Por Cristo, nosso Senhor.

Leitura: Is 53,1-5.7-10 (“Ele tomava sobre si nossas enfermidades”)
Salmo: Sl 102, 1-2.3-4.6-7.8 e 10 (R: vv. 1a.3b)
Evangelho: Lc 1,39-56 (Visitação e Magnificat)

*Na oração sobre as oferendas a Coletânea apresenta a conclusão “Por nosso Senhor Jesus Cristo...”. Porém, esta conclusão é própria das coletas. Aqui o correto é utilizar “Por Cristo, nosso Senhor”, como indica a IGMR, n. 77.


Fonte:
Lecionário para Missas de Nossa Senhora. Edições CNBB: Brasília, 2016, pp. 183-186.
Missas de Nossa Senhora. Edições CNBB: Brasília, 2016, pp. 223-226.

Missas de Nossa Senhora: Virgem Maria das mercês

43. Bem-aventurada Virgem Maria das mercês
(Para o Tempo Comum)

Introdução
A Ordem da Santíssima Virgem Maria das Mercês (Mercedários) foi fundada por São Pedro Nolasco em Barcelona, tendo como carisma o cuidado dos cristãos retidos em cativeiro. Os textos deste formulário são, pois, tomados justamente do Próprio da Ordem dos Mercedários, que propagaram a devoção à “Senhora das mercês” sobretudo na Espanha e América Latina.
Invocada sob esse título, Maria é celebrada como “nossa advogada e serva da redenção” (Prefácio), associada a seu Filho, “Redentor dos homens”, que com seu sacrifício nos concedeu “a verdadeira liberdade” (Coleta).
A Virgem Maria é invocada ainda como “nova Judite”, que se levanta em defesa do seu povo (1ª leitura); profetisa da redenção de Israel, pois através do seu cântico glorifica a Deus que “socorreu Israel, seu servo” (Lc 1,54); companheira da Paixão de Cristo, na qual foi realizada a obra da nossa redenção; e, enfim, como nossa “celeste intercessora” (Oração após a Comunhão): “Ela vela sempre com amor materno pelos irmãos do seu Filho que sofrem, para que, destruídas as cadeias de toda a opressão, alcancem a plena liberdade de corpo e alma” (Prefácio)

Antífona de entrada (Lc 1,46a.54-56a)
Minha alma engrandece o Senhor,
porque socorreu Israel seu servo,
lembrando-se de sua misericórdia,
conforme prometera a nossos pais.

Oração do dia
Deus, Pai de misericórdia, que enviastes ao mundo o vosso Filho, Jesus Cristo, redentor dos homens, concedei que celebrando com sincera piedade a Virgem Maria, invocada com o título de Nossa Senhora das Mercês, conservemos fielmente a verdadeira liberdade de filhos de Deus, que Jesus Cristo, nosso Senhor, nos mereceu com o seu sacrifício, e a manifestemos incansavelmente a todos os homens. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.

Oração sobre as oferendas*
Recebei, Senhor, as oferendas do vosso povo, que celebra o mistério da imensa caridade de Cristo, e, com o exemplo da gloriosa Virgem Maria, confirmai-nos no amor a vós e ao próximo. Por Cristo, nosso Senhor.

Prefácio
Na verdade, é justo e necessário, é nosso dever e salvação dar-vos graças, sempre e em todo o tempo e lugar, Senhor Pai santo, Deus eterno e todo-poderoso.
Por desígnio admirável e providente do vosso amor, unistes a gloriosa Virgem Maria a Cristo, vosso Filho, com um estreito vínculo: em seu humilde nascimento, foi sua Mãe amantíssima; junto à cruz, foi associada à sua Paixão; e agora, elevada à cidade celeste, é nossa advogada e serva da redenção. Ela vela sempre com amor materno pelos irmãos do seu Filho que sofrem, para que, destruídas as cadeias de toda a opressão, alcancem a plena liberdade de corpo e alma.
Por isso, com todos os anjos e santos, celebrando o memorial da redenção e do amor do vosso Filho, proclamamos a vossa glória, cantando (dizendo) a uma só voz:

Antífona de Comunhão (Jo 2,5)
Disse a Mãe de Jesus aos que estavam servindo:
“Fazei tudo o que Ele vos disser”

Oração após a Comunhão
Senhor, tendo recebido os sacramentos da redenção e da vida, humildemente vos pedimos que, pela intercessão de Nossa Senhora das Mercês, dada por vós misericordiosamente como nossa Mãe piedosíssima e celeste intercessora, sirvamos com mais empenho ao mistério da salvação humana e mereçamos assim alcançar o Reino dos céus. Por Cristo, nosso Senhor.

Leitura: Jt 15,8-10; 16,13-14 (“Tu és bendita, ó mulher, junto de Deus”)
Salmo: Lc 1,46-48a.48b-49.50-51.52-3.54-55 (R: “O Senhor compadeceu-se de seu povo”)
Evangelho: Jo 19,25-27 (“Mulher, este é o teu filho”)

*Na oração sobre as oferendas a Coletânea apresenta a conclusão “Por nosso Senhor Jesus Cristo...”. Porém, esta conclusão é própria das coletas. Aqui o correto é utilizar “Por Cristo, nosso Senhor”, como indica a IGMR, n. 77.


Fonte:
Lecionário para Missas de Nossa Senhora. Edições CNBB: Brasília, 2016, pp. 180-182.
Missas de Nossa Senhora. Edições CNBB: Brasília, 2016, pp. 219-222.

domingo, 17 de setembro de 2017

Homilia: XXIV Domingo do Tempo Comum - Ano A

São Pedro Crisólogo
Sermão 139
O número prescrito não limita, mas amplia o perdão

Assim como o ouro fica escondido na terra, assim também o sentido divino se oculta nas palavras humanas. Por isso, sempre que nos é proclamada a palavra evangélica, a mente deve colocar-se alerta e o espírito deve prestar atenção, para que o entendimento possa penetrar o segredo da ciência celeste. Digamos por que o Senhor começa hoje com estas palavras: Tenham cuidado, se teu irmão te ofende, repreende-o, se ele se arrepende, perdoa-o. Coragem, irmão! Deus te ordena: perdoa, perdoa os pecados; sê misericordioso frente ao delito, perdoa as ofensas de que fostes objeto, não percas agora os poderes divinos que tens; tudo o que tu não perdoares em outro, o negas a ti mesmo.
Repreende-o como juiz, perdoa-o como irmão, pois a caridade unida à liberdade e a liberdade fundida com a caridade expele o terror e anima ao irmão. Quando o irmão te fere está exaltado, quando comete um delito, está enfurecido, está fora de si, perdeu todo sentimento de humanidade; quem não o socorre pela compaixão, quem não lhe cura mediante a paciência, quem não lhe sara perdoando-o, não está são, está mal, enfermo, não tem comiseração, demonstra ter perdido os sentimentos humanitários. O irmão está furioso, atribui à enfermidade: tu, ajuda-o como a um irmão; tudo o que ele faça em semelhante situação atribui à sua perturbação, e o ocorrido não poderás imputá-lo ao irmão; e tu prudentemente lançarás a culpa à enfermidade, e ao irmão, o perdão; desta forma, sua saúde redundará em tua honra e o perdão te acarretará o prêmio.
Se teu irmão te ofende, repreende-o; se ele se arrepende, perdoa-o. Perdoa ao que peca, perdoa ao que se arrepende, para que, quando tu, por sua vez, pecares, o perdão te seja concedido como compensação, não como doação. Sempre é bom o perdão, porém quando é devido, torna-se duplamente doce. Aquele que, perdoando, já se assegurou o perdão antes de pecar, evitou o castigo, tem inclinado ao juiz em seu favor, enganou o juízo.
Se te ofende sete vezes em um dia, e sete vezes volta a dizer-te: “sinto muito”, o perdoarás. Por que constrange com a lei, reduz no número e coloca um limite de perdão Aquele que tanto nos favorece pela misericórdia e que tão facilmente concede pela graça? E se em lugar de sete te ofende oito vezes? Vai prevalecer o número sobre a graça? Pode contrapor-se o cálculo à bondade? Pode uma só culpa condenar ao castigo a quem sete vezes consecutivas obtém o perdão? De jeito nenhum. Se é proclamado feliz aquele que perdoou sete vezes, muito mais feliz será aquele que perdoa setenta vezes sete.
Esquecido deste mandato, Pedro interroga ao Senhor, dizendo: Se meu irmão me ofende, quantas vezes devo perdoá-lo? Até sete vezes? Jesus lhe responde: Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete. Portanto, o número prescrito não limita, mas amplia o perdão, e ao que o preceito coloca um limite, o assume ilimitadamente a livre vontade; de maneira que se perdoares até o limite do que ordena o preceito, outro tanto te será contado à obediência, te será contado ao prêmio. E se o número sete setuplicado por dias, meses e anos implica a concessão da totalidade do perdão, calcule o cristão e julgue o ouvinte que cotas não alcançará o número sete setuplicado setenta vezes sete. Então realmente vai cessar toda forma contratual de débitos e créditos; então se abolirá de verdade qualquer condição servil; então chegará àquela liberdade sem fim; então será recuperado o campo eterno e imortal; então chegará o verdadeiro perdão quando será inclusive abolida a própria necessidade de pecar, quando, cancelada toda imundície, o mundo deixará de ser imundo, quando com o retorno da vida deixará de existir a morte, quando estabelecido o reinado de Cristo, o diabo perecerá definitivamente.
Orai, irmãos, para que o Senhor aumente em nós a fé e possamos finalmente crer, ver e possuir estes bens.


Fonte: Lecionário Patrístico Dominical, pp. 213-214. Para adquiri-lo no site da Editora Vozes, clique aqui.

Confira também uma homilia de Santo Astério de Amaseia para este domingo clicando aqui.

Fotos da Missa do Papa em Cartagena

No último dia 10 de setembro o Papa Francisco celebrou a Santa Missa do XXIII Domingo do Tempo Comum no Porto de Contecar em Cartagena, por ocasião de sua Viagem Apostólica à Colômbia.

O Santo Padre foi assistido pelos Monsenhores Guido Marini e Ján Dubina. O livreto da celebração pode ser visto aqui (pp. 139-169).

Procissão de entrada


Incensação

Homilia do Papa: Missa em Cartagena

Viagem Apostólica à Colômbia
Santa Missa do XXIII Domingo do Tempo Comum (Ano A)
Homilia do Papa Francisco
Porto de Contecar, Cartagena das Índias
Domingo, 10 de setembro de 2017

Celebro a última Eucaristia da viagem nesta cidade, que foi chamada «a heroica» pela sua tenacidade - há duzentos anos - na defesa da liberdade obtida. E, desde há trinta e dois anos, Cartagena das Índias é também a sede dos Direitos Humanos na Colômbia, porque aqui se valoriza o facto de que, «graças ao grupo missionário formado pelos sacerdotes jesuítas Pedro Claver y Corberó, Alonso de Sandoval e o irmão Nicolás González, acompanhados por muitos filhos da cidade de Cartagena das Índias, no século XVII, nasceu a preocupação por aliviar a situação dos oprimidos de então, especialmente a dos escravos, para quem reclamaram bom tratamento e a liberdade» (Congresso da Colômbia, 1985, Lei 95-art. 1).

Aqui, no Santuário de São Pedro Claver, onde de forma contínua e sistemática se procede à verificação, aprofundamento e promoção dos avanços na vigência dos direitos humanos na Colômbia, a Palavra de Deus hoje fala-nos de perdão, correção, comunidade e oração.

No quarto discurso do Evangelho de Mateus, Jesus fala a nós que decidimos apostar na comunidade, que valorizamos a vida em comum e sonhamos com um projeto que inclua a todos (Mt 18,15-20). O texto anterior é o do bom pastor que deixa as noventa e nove ovelhas para ir atrás da perdida, e este aroma perfuma todo o discurso que acabamos de ouvir: não há ninguém tão perdido que não mereça a nossa solicitude, a nossa proximidade e o nosso perdão. Então, a partir desta perspectiva, compreende-se que uma falta, um pecado cometido por alguém nos interpele a todos, mas a primeira pessoa envolvida é a vítima do pecado do irmão; e ela é chamada a tomar a iniciativa para que não se perca quem lhe fez mal. Tomar a iniciativa: quem toma a iniciativa é sempre o mais corajoso.

Nestes dias, ouvi muitos testemunhos de pessoas que saíram ao encontro de quem lhes fizera mal. Feridas terríveis que pude contemplar nos seus próprios corpos, perdas irreparáveis pelas quais se continua a chorar, e contudo aquelas pessoas saíram, deram o primeiro passo num caminho diferente daqueles já percorridos. Porque há decênios que a Colômbia multiplica as tentativas à procura da paz e, como ensina Jesus, não foi suficiente que duas partes se encontrassem e dialogassem; foi necessário incorporar muitos mais atores neste diálogo reparador dos pecados. «Se [o teu irmão] não te der ouvidos, toma contigo mais uma ou duas pessoas» (v. 16): diz-nos o Senhor no Evangelho.

Aprendemos que estes caminhos de pacificação, de primazia da razão sobre a vingança, de delicada harmonia entre a política e o direito, não podem prescindir das pessoas implicadas nos processos. Não basta o desenho de quadros normativos e acordos institucionais entre grupos políticos ou económicos de boa vontade. Jesus encontra a solução para o dano causado no encontro pessoal entre as partes. Além disso, é sempre enriquecedor incorporar nos nossos processos de paz a experiência de setores que, em muitas ocasiões, foram deixados de lado, para que sejam precisamente as comunidades a revestir os processos de memória coletiva. «O autor principal, o sujeito histórico deste processo, é a gente e a sua cultura, não uma classe, uma fracção, um grupo, uma elite [mas a gente toda e a sua cultura]. Não precisamos de um projeto de poucos para poucos, ou de uma minoria esclarecida ou testemunhal que se aproprie de um sentimento coletivo. Trata-se de um acordo para viver juntos, de um pacto social e cultural» (cf. Exortação Apostólica Evangelii gaudium, n. 239).

Podemos dar uma grande contribuição para este novo passo que quer dar a Colômbia. Jesus indica-nos que este caminho de reinserção na comunidade começa por um diálogo a dois. Nada poderá substituir este encontro reparador; nenhum processo coletivo dispensa do desafio de nos encontrarmos, de esclarecer, de perdoar. As feridas profundas da história precisam necessariamente de instâncias onde se faça justiça, se dê possibilidade às vítimas de conhecer a verdade, seja devidamente reparado o dano e se atue claramente para evitar que se repitam tais crimes. Mas tudo isto deixa-nos apenas no limiar das exigências cristãs. A nós, cristãos, é-nos exigido gerar «a partir de baixo» uma mudança cultural: à cultura da morte, da violência, responder com a cultura da vida e do encontro. Já no-lo dizia aquele escritor tão querido para vós e tão querido para todos: «Este desastre cultural não se remedeia com chumbo nem com dinheiro, mas com uma educação para a paz, construída com amor sobre as ruínas dum país em chamas onde nos levantamos cedo para continuar a matar-nos uns aos outros... uma revolução legítima de paz que canalize para a vida a imensa energia criativa que, durante quase dois séculos, usamos para nos destruirmos e que reivindique e exalte o predomínio da imaginação» (Gabriel García Márquez, Mensagem sobre a paz, 1998).

Quanto atuamos nós a favor do encontro, da paz? Quanta omissão houve da nossa parte, permitindo que a barbárie se fizesse carne na vida do nosso povo? Jesus manda confrontar-nos com os modelos de comportamento, os estilos de vida que fazem mal ao corpo social, que destroem a comunidade. Quantas vezes se «normalizam» – se vivem como uma coisa normal – processos de violência, exclusão social, sem que a nossa voz se erga nem as nossas mãos acusem profeticamente! Ao lado de São Pedro Claver, havia milhares de cristãos, muitos deles consagrados; mas só um punhado iniciou a cultura contracorrente do encontro. São Pedro soube restaurar a dignidade e a esperança de centenas de milhares de negros e escravos que chegavam em condições absolutamente desumanas, cheios de pavor, com todas as suas esperanças perdidas. Não possuía títulos académicos de renome; chegou-se mesmo a afirmar que era «medíocre» de inteligência, mas teve o «génio» de viver cabalmente o Evangelho, de ir ao encontro daqueles que os outros consideravam apenas um desperdício. Séculos mais tarde, a senda deste missionário e apóstolo da Companhia de Jesus foi seguida por Santa Maria Bernarda Bütler, que dedicou a sua vida ao serviço dos pobres e marginalizados nesta mesma cidade de Cartagena [1].

No encontro entre nós, descobrimos novamente os nossos direitos, recriamos a vida para voltar a ser verdadeiramente humana. «A casa comum de todos os homens deve continuar a erguer-se sobre uma reta compreensão da fraternidade universal e sobre o respeito pela sacralidade de cada vida humana, de cada homem e de cada mulher; dos pobres, dos idosos, das crianças, dos doentes, dos nascituros, dos desempregados, dos abandonados, daqueles que são vistos como descartáveis porque considerados meramente como números desta ou daquela estatística. A casa comum de todos os homens deve edificar-se também sobre a compreensão de uma certa sacralidade da natureza criada» (Francisco, Discurso às Nações Unidas, 25 de setembro de 2015).

No Evangelho, Jesus prevê também a possibilidade de o outro se fechar, se negar a mudar, persistir no seu mal. Não podemos negar que há pessoas que persistem em pecados que ferem a convivência e a comunidade: «Penso no drama dilacerante da droga com a qual se lucra desafiando leis morais e civis» (Francisco, Mensagem para o Dia Mundial da Paz de 2014, n. 8). Este mal ameaça diretamente a dignidade da pessoa humana e, gradualmente, rompe a imagem que o Criador moldou em nós. Condeno firmemente esta praga que apagou tantas vidas e que é mantida e sustentada por pessoas sem escrúpulos. Não se pode jogar com a vida do nosso irmão, nem manipular a sua dignidade. Lanço um apelo para que se procurem as formas de pôr fim ao narcotráfico, que para nada mais serve senão para semear morte por todo o lado, destroçando tantas esperanças e destruindo tantas famílias. Penso também noutro drama: «na devastação dos recursos naturais e na poluição em curso, na tragédia da exploração do trabalho; penso nos tráficos ilícitos de dinheiro como também na especulação financeira que, muitas vezes, assume caracteres predadores e nocivos para inteiros sistemas econômicos e sociais, lançando na pobreza milhões de homens e mulheres; penso na prostituição que diariamente ceifa vítimas inocentes, sobretudo entre os mais jovens, roubando-lhes o futuro; penso na abominação do tráfico de seres humanos, nos crimes e abusos contra menores, na escravidão que ainda espalha o seu horror em muitas partes do mundo, na tragédia frequentemente ignorada dos emigrantes sobre quem se especula indignamente na ilegalidade» (ibid.); e especula-se até com uma «asséptica legalidade» pacifista que não tem em conta a carne do irmão, que é a carne de Cristo. Também para isto devemos estar preparados e solidamente fundados em princípios de justiça que, em nada, diminuem a caridade. Não é possível conviver em paz, sem fazer nada contra aquilo que corrompe a vida e atenta contra ela. A propósito, lembramos todos aqueles que, ousada e incansavelmente, trabalharam e até perderam a vida em defesa e proteção dos direitos da pessoa humana e da sua dignidade. Como a eles, a história pede-nos para assumirmos um compromisso definitivo na defesa dos direitos humanos, aqui em Cartagena das Índias, lugar que escolhestes como sede nacional da defesa deles.

Por fim, Jesus pede-nos para rezarmos juntos; que a nossa oração seja sinfónica, com matizes pessoais, acentuações diferentes, mas que se erga de maneira concorde num único grito. Estou certo de que hoje rezamos juntos pelo resgate daqueles que erraram e não pela sua destruição, pela justiça e não pela vingança, pela reparação na verdade e não no seu esquecimento. Rezamos para cumprir o lema desta visita: «Demos o primeiro passo», e que este primeiro passo seja numa direção comum.

«Dar o primeiro passo» é sobretudo ir ao encontro dos outros com Cristo, o Senhor. Ele sempre nos pede para darmos um passo decidido e seguro rumo aos irmãos, renunciando à pretensão de sermos perdoados sem perdoar, de sermos amados sem amar. Se a Colômbia quer uma paz estável e duradoura, deve dar urgentemente um passo nesta direção, que é a do bem comum, da equidade, da justiça, do respeito pela natureza humana e as suas exigências. Só se ajudarmos a desatar os nós da violência, é que desenredaremos a complexa teia dos conflitos: é-nos pedido para darmos o passo do encontro com os irmãos, tendo a coragem duma correção que não quer expulsar mas integrar; é-nos pedido para sermos caridosamente firmes naquilo que não é negociável; em suma, a exigência é construir a paz «falando, não com a língua, mas com as mãos e as obras» (São Pedro Claver), e juntos erguermos os olhos ao céu: Jesus Cristo é capaz de desatar aquilo que nos parecia impossível; Ele prometeu acompanhar-nos até ao fim dos tempos, e não deixará estéril um esforço tão grande. 


[1] Também ela teve a inteligência da caridade e soube encontrar Deus no próximo; nenhum dos dois ficou paralisado à vista da injustiça e das dificuldades. É que «perante o conflito, alguns limitam-se a olhá-lo e passam adiante como se nada fosse, lavam-se as mãos para poder continuar com a sua vida. Outros entram de tal maneira no conflito que ficam prisioneiros, perdem o horizonte, projetam nas instituições as suas próprias confusões e insatisfações e, assim, a unidade torna-se impossível. Mas há uma terceira forma, a mais adequada, de enfrentar o conflito: é aceitar suportar o conflito, resolvê-lo e transformá-lo no elo de ligação de um novo processo» (Exortação Apostólica Evangelii gaudium, n. 227).

Fonte: Santa Sé.

sábado, 16 de setembro de 2017

Posse do Arcebispo e Profissão Religiosa em Milão

O dia 09 de setembro de 2017 foi muito importante para a Arquidiocese de Milão:

Primeiramente, ocorreu na Catedral a posse oficial de Dom Mario Enrico Delpini como Arcebispo de Milão. Porém, a posse se deu por procuração: o delegado, Dom Erminio De Scalzi, Bispo Auxiliar, apresentou a bula de nomeação ao Colégio de Consultores, oficializando assim a eleição de Dom Delpini, feita pelo Papa em julho.

Isto se deu para respeitar o prazo de dois meses entre o anúncio da eleição e a posse, previsto pelo Código Canônico. O novo Arcebispo, seguindo uma tradição em Milão, fará sua entrada solene na Catedral no próximo dia 24 de setembro, véspera da solenidade de Santo Anatalo e todos os Santos Bispos Milaneses.

Apresentação da bula de nomeação
Leitura da bula
Hino

Homilia

Fotos da Missa do Papa em Medellín

No último dia 09 de setembro o Papa Francisco celebrou a Santa Missa da Memória de São Pedro Claver no Aeroporto Enrique Olaya Herrera em Medellín, por ocasião de sua Viagem Apostólica à Colômbia.

O Santo Padre foi assistido pelos Monsenhores Guido Marini e Diego Giovanni Ravelli. O livreto da celebração pode ser visto aqui (pp. 93-119).

Procissão de entrada
Incensação

Liturgia da Palavra
Evangelho