terça-feira, 16 de setembro de 2014

Santos João XXIII e João Paulo II inscritos no Calendário Romano Geral

Na última semana, foi divulgado um decreto da Congregação para o Culto Divino estendendo as memórias dos Santos João XXIII e João Paulo II para o Calendário Romano Geral, permitindo que sejam celebradas em todo o mundo. Segue o decreto:

CONGREGAÇÃO PARA O CULTO DIVINO E A DISCIPLINA DOS SACRAMENTOS
DECRETO

O Senhor Jesus, Pastor Eterno, que ressuscitou da morte e subiu ao Céu, não abandona a sua grei, mas protege-a e condu-la ao longo dos tempos, guiando-a constantemente por aqueles que Ele mesmo constituiu seus vigários. Entre eles, à semelhança do Pastor dos pastores e por verdadeiro amor às ovelhas do seu rebanho, resplandecem os Santos Papas João XXIII e João Paulo II.
Eles não desdenharam a cruz de Cristo, nem as feridas dos irmãos e, adornados pela «parrésia» do Espírito Santo, ofereceram admiravelmente à Igreja e ao mundo uma imagem viva da benevolência e da misericórdia de Deus, que não exclui nada do que foi criado e é indulgente para com elas, porque são suas (cf. Sb 11, 24-26). Assim, a esperança viva e a alegria indescritível (cf. 1 Pd 1, 3.8), que estes dois sucessores de Pedro receberam como dádiva do Senhor Ressuscitado, foram por eles abundantemente oferecidas ao povo de Deus, recebendo em contrapartida o reconhecimento eterno. Por isso, hoje a Igreja os venera com grande fervor,  resplandecentes pela exemplaridade de vida, pela excelência da doutrina e por aquela «ciência de amor» que vem da iluminação do Espírito, através da experiência dos mistérios de Deus e, depois de ter usufruído do benefício fecundo da sua solicitude pastoral, agora alegra-se porque os tem como seus intercessores espirituais.
Considerando a índole extraordinária com a qual estes Sumos Pontífices ofereceram aos ministros sagrados e aos fiéis um singular modelo de virtude promovendo a vida em Cristo, e tendo em conta os inúmeros pedidos enviados de todas as partes do mundo, o Santo Padre Francisco, fazendo suas as aspirações unânimes do povo de Deus, dispôs que as celebrações de São João XXIII, Papa, e de São João Paulo II, Papa, sejam inscritas no Calendário Romano geral, a primeira no dia 11 e a segunda no dia 22 de Outubro, com o grau de memória facultativa.
Por conseguinte, as supracitadas memórias deverão ser inscritas em todos os Ordenamentos para a celebração da Missa e da Liturgia das Horas e as relativas indicações inseridas nos livros litúrgicos doravante publicados pelas várias Conferências Episcopais.
Quanto aos textos litúrgicos em honra de São João Paulo II, Papa, utilizem-se aqueles já aprovados e publicados no anexo ao decreto desta Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, de 2 de Abril de 2011 (Prot. N. 118/11/L). No que diz respeito aos textos em honra de São João XXIII, Papa, sigam-se aqueles aqui anexados que, com o presente decreto, são declarados típicos e publicados.
Não obstante qualquer disposição contrária,
Da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, 29 de Maio de 2014, Solenidade da Ascensão do Senhor.

Antonio Card. Cañizares Llovera
Prefeito

D. Arthur Roche
Arcebispo Secretário



A oração da memória de São João XXIII (11 de outubro) foi promulgada apenas em latim e em italiano. Enquanto a Santa Sé ou a CNBB não publicam uma tradução oficial para o português, pode-se rezá-la em latim (texto abaixo) ou utilizar uma das orações do Comum dos Pastores para Papas (Missal Romano, p. 752-753).

Omnípotens sempitérne Deus, qui per orbem terrárum in beáto Ioánne, papa, Christi boni pastóris vivum effulgére fecísti exémplum, concéde nobis, quaésumus, ut, eius intercessióne, abundántiam christiánae caritátis laetánter effúndere valeámus.
Per Dominum nostrum Jesum Christum, Filium tuum, qui tecum vivit et regnat in unitate Spiritus Sancti Deus: per omnia saecula saeculorum.


A oração  da memória de São João Paulo II (22 de outubro) foi promulgada em latim e em várias outras línguas por ocasião de sua beatificação, incluindo o português, como segue abaixo:

Deus, dives in misericórdia, qui beatum Ioánnem Paulum, papam, univérsae Ecclésiae tuae praeésse voluísti, praesta, quaésumus, ut, eius institútis edócti, corda nostra salutíferae grátiae Christi, uníus redemptóris hóminis, fidénter aperiámus. Qui tecum vivit et regnat in unitate Spiritus Sancti, Deus, per omnia saecula saeculorum.

Ó Deus, rico de misericórdia, que escolhestes o Santo João Paulo II para governar a Vossa Igreja como papa, concedei-nos que, instruídos pelos seus ensinamentos, possamos abrir confiadamente os nossos corações à graça salvífica de Cristo, único Redentor do homem. Ele que convosco vive e reina, na unidade do Espírito Santo, por todos os séculos dos séculos. Amém.


As demais orações (sobre as oferendas e pós-Comunhão) tomam-se do Comum dos Pastores para Papas (Missal Romano, p. 752-753). O Prefácio mais indicado é o dos Santos Pastores (Missal Romano, p. 454).

As leituras sejam preferencialmente as do dia da semana (Tempo Comum). Contudo, nos locais em que há especial devoção a estes santos, podem-se tomar as leituras do Comum dos Pastores para Papas (Lecionário III, p. 299-329).

Lembrando ainda que no Brasil a memória de São João XXIII só pode ser celebrada antes do final da tarde, pois a partir de aproximadamente 18h se iniciam as I Vésperas da Solenidade de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, padroeira do Brasil.

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Ângelus do Papa: XXIII Domingo do Tempo Comum - Ano A

Papa Francisco
Ângelus
Domingo, 07 de setembro de 2014

Prezados irmãos e irmãs, bom dia!
O Evangelho deste domingo, tirado do capítulo 18 de Mateus, apresenta o tema da correção fraterna no seio da comunidade dos fiéis: ou seja, como devo corrigir outro cristão, quando ele faz algo que não é bom. Jesus ensina-nos que se o meu irmão cristão comete uma culpa contra mim, quando me ofende, eu devo ter caridade para com ele e, antes de tudo, falar-lhe pessoalmente, explicando-lhe que quanto ele disse ou fez não é bom. E se o irmão não me ouve? Jesus sugere uma intervenção progressiva: primeiro, volta a falar-lhe, com mais duas ou três pessoas, para que esteja mais consciente do erro cometido; se, não obstante isto, ele não aceitar a exortação, é necessário dizê-lo à comunidade; e se ele não ouvir nem sequer a comunidade, é preciso levá-lo a compreender a ruptura e a separação que ele mesmo provocou, faltando à comunhão com os irmãos na fé.

As etapas deste itinerário indicam o esforço que o Senhor pede à sua comunidade para acompanhar quem erra, a fim de que não se perca. Antes de tudo, é necessário evitar o clamor da crónica e a bisbilhotice da comunidade - esta é a primeira coisa que devemos evitar. «Vai e repreende-o, somente entre ti e ele» (v. 15). A atitude é de delicadeza, prudência, humildade e atenção àquele que cometeu uma culpa, evitando que as palavras possam ferir e até matar o irmão. Pois vós sabeis que até as palavras matam! Quando falo mal de alguém, quando faço uma crítica injusta, quando «esfolo» um irmão com a minha língua, isto significa matar a sua reputação. Até as palavras matam! Prestemos atenção a isto. Ao mesmo tempo, esta discrição de lhe falar a sós tem a finalidade de não mortificar inutilmente o pecador. Quando se fala a sós com ele, ninguém se dá conta e tudo acaba. É à luz desta exigência que se compreende também a série sucessiva de intervenções, que prevê a participação de algumas testemunhas e depois até a própria comunidade. A finalidade é ajudar a pessoa a dar-se conta daquilo que cometeu, e que com a sua culpa ofendeu não apenas um indivíduo, mas todos. Mas também tem a finalidade de nos ajudar a libertar-nos da ira ou do rancor, que só fazem mal: aquela amargura do coração que alberga a ira e o rancor, e que nos leva a insultar e a agredir. É muito feio ver sair da boca de um cristão um insulto ou uma agressão. É feio! Compreendestes? Nenhum insulto! Insultar não é cristão. Entendestes? Insultar não é cristão.

Na realidade, diante de Deus somos todos pecadores e necessitados de perdão. Todos. Com efeito, Jesus disse-nos que não devemos julgar. A correção fraterna é um aspecto do amor e da comunhão que devem reinar no seio da comunidade cristã, é um serviço recíproco que podemos e devemos oferecer uns aos outros. Corrigir os irmãos é um serviço, e só será possível e eficaz se cada um se reconhecer pecador e necessitado do perdão do Senhor. A própria consciência, que me leva a reconhecer o erro cometido por outrem, recorda-me primeiro que eu mesmo errei e erro muitas vezes.

Por isso no início da Missa somos sempre convidados a reconhecer diante do Senhor que somos pecadores, expressando com palavras e com gestos o arrependimento sincero do coração. Dizemos: «Tende piedade de mim, Senhor. Sou pecador! Deus Todo-Poderoso, confesso os meus pecados». E não dizemos: «Senhor, tende piedade daquele ou daquela que está ao meu lado, pois são pecadores». Não! «Tende piedade de mim!». Todos nós somos pecadores e necessitados do perdão do Senhor. É o Espírito Santo que fala ao nosso espírito e nos leva a reconhecer as nossas culpas, à luz da palavra de Jesus. E é o próprio Jesus que convida todos nós, santos e pecadores, à sua mesa congregando-nos das encruzilhadas das estradas, das várias situações de vida (cf. Mt 22, 9-10). E entre as condições que irmanam os participantes na celebração eucarística, duas são fundamentais, duas são as condições para ir bem à Missa: todos nós somos pecadores; e a todos Deus concede a sua misericórdia. Trata-se de duas condições que abrem de par em par a porta para entrarmos bem na Missa. Devemos recordar sempre isto, antes de ir ter com o irmão para a correção fraterna.

Peçamos tudo isto por intercessão da Bem-Aventurada Virgem Maria, que amanhã celebraremos na memória litúrgica da sua Natividade!


Fonte: Santa Sé.

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

V Catequese do Papa sobre a Igreja

PAPA FRANCISCO
AUDIÊNCIA GERAL
Praça de São Pedro
Quarta-feira, 3 de Setembro de 2014
A Igreja é Mãe

Prezados irmãos e irmãs, bom dia!
Nas catequeses precedentes tivemos a oportunidade de frisar várias vezes que não nos tornamos cristãos sozinhos, ou seja, com as nossas próprias forças, autonomamente, e nem sequer nos tornamos cristãos no laboratório, mas somos gerados e crescemos na fé no interior do grande corpo que é a Igreja. Neste sentido, a Igreja é verdadeiramente mãe, a nossa mãe Igreja - é bonito dizê-lo assim: a nossa mãe Igreja - uma mãe que nos dá vida em Cristo e que nos faz viver com todos os outros irmãos na comunhão do Espírito Santo.
Nesta sua maternidade, a Igreja tem como modelo a Virgem Maria, o modelo mais bonito e mais excelso que possa existir. Foi o que já as primeiras comunidades cristãs esclareceram e o Concílio Vaticano II expressou de modo admirável (cf. Const. Lumen gentium, 63-64). A maternidade de Maria é sem dúvida única, singular, cumprindo-se na plenitude dos tempos, quando a Virgem deu à luz o Filho de Deus, concebido por obra do Espírito Santo. E todavia, a maternidade da Igreja insere-se precisamente em continuidade com a de Maria, como uma sua prolongação na história. Na fecundidade do Espírito, a Igreja continua a gerar novos filhos em Cristo, sempre à escuta da Palavra de Deus e em docilidade ao seu desígnio de amor. A Igreja é mãe. Com efeito, o nascimento de Jesus no ventre de Maria, é prelúdio do nascimento de cada cristão no seio da Igreja, dado que Cristo é o primogénito de uma multidão de irmãos (cf. Rm 8, 29) e o nosso primeiro irmão Jesus nasceu de Maria, é o modelo, e todos nós nascemos na Igreja. Então, compreendemos que a relação que une Maria à Igreja é mais profunda do que nunca: contemplemos Maria, descubramos o rosto mais belo e mais terno da Igreja; e olhemos para a Igreja, reconheçamos os lineamentos sublimes de Maria. Nós, cristãos, não somos órfãos, temos uma mãe, temos uma mãe, e isto é sublime! Não somos órfãos! A Igreja é mãe, Maria é mãe.
A Igreja é nossa mãe, porque nos deu à luz no Baptismo. Cada vez que baptizamos uma criança, ela torna-se filha da Igreja, entra na Igreja. E a partir daquele dia, como mãe cheia de desvelo, faz-nos crescer na fé e indica-nos com a força da Palavra de Deus o caminho de salvação, defendendo-nos do mal.
A Igreja recebeu de Jesus o tesouro precioso do Evangelho, não para o conservar para si mesma, mas para o oferecer generosamente aos outros, como faz uma mãe. Neste serviço de evangelização manifesta-se de modo peculiar a maternidade da Igreja, comprometida como mãe em oferecer aos seus filhos a alimento espiritual que nutre e faz fecundar a vida cristã. Portanto, todos nós somos chamados a acolher com mente e coração abertos a Palavra de Deus que a Igreja dispensa todos os dias, porque esta Palavra tem a capacidade de nos mudar a partir de dentro. Somente a Palavra de Deus tem esta capacidade de nos transformar positivamente a partir de dentro, das nossas raízes mais profundas. A Palavra de Deus tem este poder. E quem nos dá a Palavra de Deus? A mãe Igreja. Com esta palavra ela amamenta-nos como crianças, cuida de nós durante a vida com esta Palavra, e isto é sublime! É precisamente a mãe Igreja que, com a Palavra de Deus, nos muda a partir de dentro. A Palavra de Deus que recebemos da mãe Igreja transforma-nos, tornando a nossa humanidade não palpitante segundo a mundanidade da carne, mas segundo o Espírito.
Na sua solicitude materna, a Igreja esforça-se por mostrar aos crentes o caminho a percorrer para viver uma existência fecunda de alegria e de paz. Iluminados pela luz do Evangelho e sustentados pela graça dos Sacramentos, especialmente pela Eucaristia, nós podemos orientar as nossas opções para o bem e atravessar com coragem e esperança os momentos de obscuridade e as veredas mais tortuosas. O caminho de salvação, através do qual a Igreja nos guia e acompanha com a força do Evangelho e o sustentáculo dos Sacramentos, confere-nos a capacidade de nos defendermos do mal. A Igreja tem a coragem de uma mãe consciente de que deve defender os seus filhos dos perigos que derivam da presença de satanás no mundo, para os conduzir ao encontro com Jesus. Uma mãe defende sempre os seus filhos. Esta defesa consiste inclusive em exortar à vigilância: velar contra o engano e a sedução do maligno. Pois embora Deus tenha derrotado satanás, ele volta sempre com as suas tentações; como sabemos, todos somos tentados, fomos tentados e somos tentados. Satanás vem «como um leão que ruge» (1 Pd 5, 8), diz o apóstolo Pedro, e temos o dever de não ser ingénuos, mas de vigiar e resistir firmes na fé. Resistir com os conselhos da mãe Igreja, resistir com a ajuda da mãe Igreja que, como uma boa mãe, sempre acompanha os seus filhos nos momentos difíceis.
Caros amigos, esta é a Igreja, esta é a Igreja que todos nós amamos, esta é a Igreja que eu amo: uma mãe que tem a peito o bem dos seus filhos e é capaz de dar a própria vida por eles. No entanto, não devemos esquecer que a Igreja não é composta só por sacerdotes, nem por nós bispos, não, somos todos nós! A Igreja somos todos! Concordais? E também nós somos filhos, mas também mães de outros cristãos. Todos nós baptizados, homens e mulheres, formamos juntos a Igreja. Quantas vezes na nossa vida não damos testemunho desta maternidade da Igreja, desta coragem materna da Igreja! Quantas vezes somos cobardes! Então, confiemo-nos a Maria para que Ela, como mãe do nosso Irmão primogénito, Jesus, nos ensine a ter o seu mesmo espírito materno em relação aos nossos irmãos, com a capacidade sincera de acolher, de perdoar, de dar força e de infundir confiança e esperança. É isto que faz uma mãe!


Fonte: Santa Sé

terça-feira, 9 de setembro de 2014

O pálio

O pálio (do latim pallium, manto) é uma tira de lã branca com seis cruzes negras que o Papa entrega aos Arcebispos Metropolitanos (também chamados Metropolitas).


Esta é a única insígnia episcopal que não é utilizada por todos os Bispos, mas apenas por aqueles que governam uma Arquidiocese Metropolitana, que unida às dioceses próximas, denominadas sufragâneas, forma uma Província Eclesiástica.

Os Arcebispos não Metropolitanos (chamados Titulares) não possuem direito ao pálio, pois tratam-se de Bispos que não governam Arquidioceses, mas que possuem funções de grande dignidade dentro da Igreja (Prefeitos de Dicastérios da Cúria Romana, Núncios Apostólicos), sendo-lhes portanto conferido o título de uma Arquidiocese extinta.

Os únicos dois não Metropolitas que, por tradição, possuem direito ao pálio são o Decano do Colégio Cardinalício (atualmente, o Cardeal Angelo Sodano) e o Patriarca Latino de Jerusalém (Dom Fouad Twal).

Dom Foaud Twal, Patriarca de Jerusalém, com o pálio
O Metropolita, uma vez recebido o pálio, pode usá-lo em toda a Província Eclesiástica, mas apenas dentro da celebração da Missa, quando preside ou concelebra, ao menos nos dias mais solenes. Não se usa o pálio sobre o pluvial, nem sobre as vestes corais.

A entrega do pálio, segundo o Cerimonial dos Bispos e o Pontifical Romano, deveria ser feita na Ordenação Episcopal ou na tomada de posse do Arcebispo. Contudo, desde o pontificado de São João Paulo II, o Papa tomou para si a atribuição de entregar pessoalmente os pálios na Missa da Solenidade dos Santos Pedro e Paulo (29 de junho) na Basílica de São Pedro. Esta será a única vez que o Metropolita usará o pálio fora de sua jurisdição.


A preparação dos pálios começa na verdade no dia 21 de janeiro, memória de Santa Inês, Virgem e Mártir, quando o Papa abençoa a lã de duas ovelhas. Desta lã, as monjas beneditinas do mosteiro de Santa Cecília in Trastevere tecem os pálios para os Metropolitas nomeados naquele ano.

No dia 24 de junho, Solenidade da Natividade de São João Batista, os pálios já prontos são depositados junto ao túmulo de São Pedro na Basílica Vaticana. De lá são trazidos no início da Missa da Solenidade dos Santos Pedro e Paulo, para que o Papa os imponha aos Metropolitas, recitando a seguinte fórmula:

 Para glória de Deus Onipotente e louvor da Bem-aventurada sempre Virgem Maria e dos Bem-aventurados Apóstolos Pedro e Paulo, para decoro das Sés a vós confiadas, como sinal do poder de metropolitas, vos entregamos o pálio tomado da Confissão do Bem-aventurado Pedro, para que o uses dentro dos limites de vossa província eclesiástica. Que este pálio seja para vós símbolo de unidade e sinal de comunhão com a Sé Apostólica; seja vínculo de caridade e estímulo à fortaleza, a fim de que no dia da vinda e da revelação do grande Deus e do príncipe dos pastores, Jesus Cristo, possam obter, com o rebanho a vós confiado, a veste da imortalidade e da glória. Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo.

Imposição dos pálios (2014)
(Para saber mais sobre o rito da imposção do pálio, clique aqui).

Esta oração evidencia, pois, as duas realidades fundamentais que o pálio simboliza: a união dos Metropolitas ao Papa e a sua missão de pastores do rebanho de Cristo. Este segundo simbolismo é ainda mais eloquente quando se considera a forma e a matéria do pálio, que indicam claramente a ovelha que o pastor carrega aos ombros.

Um outro elemento que pode fazer-se presente no pálio são três cravos, fixados sobre as cruzes no peito, nas costas e no ombro esquerdo. Estes cravos recordam os pregos da Paixão de Cristo e também a própria cruz do Senhor, que o arcebispo é chamado a carregar sobre o ombro.

Mons. Guido Marini impõe os cravos no pálio do Papa (2013)
Por fim, o Papa, como Metropolita da Província Romana, faz igualmente uso do pálio, que lhe é imposto na Missa de Início do Ministério Petrino pelo Cardeal Proto-Diácono. Desde o início de seu pontificado, o Papa Bento XVI havia adotado um modelo de pálio distinto dos demais Metropolitas, com cruzes vermelhas ao invés de negras, para evidenciar a dignidade própria do Romano Pontífice. Porém, desde junho deste ano, Francisco voltou a usar um pálio igual ao dos demais Arcebispos.

Papa Francisco com o pálio idêntico ao dos demais Arcebispos (2014)

O termo "pálio" refere-se também a um objeto litúrgico, sobre o qual tratamos aqui.

O báculo

O báculo (do latim baculus, cajado) é um cajado de metal com a ponta curva que o Bispo leva nas celebrações litúrgicas como símbolo de sua missão de pastor.


O simbolismo do báculo é expresso de maneira muito clara na oração que acompanha sua entrega na Ordenação Episcopal:

“Recebe o báculo, símbolo do serviço pastoral, e cuida de todo o rebanho, no qual o Espírito Santo te constituiu Bispo a fim de apascentares a Igreja de Deus”
(Pontifical Romano, Rito da Ordenação de um Bispo, p. 79).

Papa Francisco entrega o báculo a um novo Bispo (2013)
O Papa São João Paulo II relaciona o báculo à missão do Bispo de zelar pela santidade do rebanho: “É o sinal da autoridade que compete ao Bispo no cumprimento do dever de cuidar do rebanho. Também este sinal se insere na perspectiva da solicitude pela santidade do Povo de Deus” (Levantai-vos! Vamos!, p. 57).

Uma antiga tradição afirma que a função do pastor é tríplice: “congregar os que dispersam, sustentar os que fraquejam e incentivar os que se atrasam”. Isto é expresso nas três partes que compõem o báculo: a parte superior, com a ponta curva, recorda o dever de congregar; a haste central, o dever de sustentar; e a parte inferior, que anteriormente terminava em uma ponta aguçada, o dever de incentivar.

Báculo desmontado
O uso do báculo como insígnia episcopal começa a consolidar-se no século VII, na Espanha e na Gália, difundindo-se pouco depois para toda a Igreja. Porém, pode-se presumir que seu uso esporádico seja mais antigo.

Na Liturgia romana, o uso do báculo é atualmente definido de modo geral no n. 59 do Cerimonial dos Bispos. Primeiramente, pela própria natureza desta insígnia, afirma-se que seu uso é restrito ao Bispo diocesano dentro de seu próprio território. Outro Bispo só pode fazer uso do báculo com a permissão do Ordinário do local.

Em uma concelebração, o único Bispo a usar o báculo é o celebrante principal, mesmo que este não seja o Ordinário local. O único caso do uso de mais de um báculo na mesma celebração é a Ordenação Episcopal, na qual portam o báculo o Sagrante principal e o novo Bispo.

Nas celebrações litúrgicas (e jamais fora delas) o báculo é usado nos seguintes momentos:
  • Nas procissões (exceto se o Bispo deve levar alguma coisa; vela, ramo...);
  • Durante a proclamação do Evangelho;
  • Para fazer a homilia, se desejar;
  • Para receber votos, promessas e a profissão de fé;
  • Para abençoar (exceto quando tiver de impor as mãos).

Bispo com báculo durante o Evangelho
A única celebração na qual se proíbe o uso do báculo é a Celebração da Paixão do Senhor, na Sexta-feira Santa.

O bispo sempre leva o báculo com a curva voltada para frente, símbolo de seu múnus de pastor daquele rebanho. Por tradição, aqueles que sustentam o báculo o mantêm com a curva voltada para si, recordando que são ovelhas do rebanho.

Bispo com o báculo em procissão (note-se a curva para frente)
Os abades podem, igualmente por tradição, levar o báculo com uma tira de pano pendente, chamada de sudarium. Este gesto serve para indicar que, ainda que possuam o direito às insígnias episcopais, não são bispos.

Abade recebe báculo com sudarium
O báculo é a única insígnia episcopal que não se põe junto o corpo do Bispo falecido nas exéquias. Isto para indicar que, com a morte, cessa o múnus de pastor, do qual agora o Bispo é chamado a prestar contas a Deus.

O Papa não faz uso do báculo, mas sim da férula, sobre a qual falaremos em postagem própria. 

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

A mitra

A mitra é a insígnia utilizada pelo Bispo sobre a cabeça nas celebrações litúrgicas. Consiste em dois pentágonos de pano rígido costurados (formato bicúspide) e com a ponta voltada para cima. Da parte de trás pendem duas tiras de pano (ínfulas).


O sentido da mitra é expresso por seu próprio formato, que “aponta para o alto”, indicando que o poder do Bispo vem de Deus, o qual lhe concede esta “coroa da justiça” (2Tm 4,8). A mitra simboliza também a santidade à qual o Bispo é chamado a viver, como indica a oração que acompanha sua entrega na Ordenação Episcopal:

“Recebe a mitra e brilhe em ti o esplendor da santidade, para que, quando vier o Príncipe dos pastores, mereças receber a imarcescível coroa da glória”
(Pontifical Romano, Rito da Ordenação de um Bispo, p. 79)

Papa Francisco impõe a mitra a um novo Bispo (2013)
Nesta mesma linha está a reflexão do Papa São João Paulo II, que em seu livro “Levantai-vos! Vamos!” enfatiza a função da mitra como exortação à santidade: “o Bispo é chamado à santidade pessoal para contribuir para o crescimento da santidade na comunidade eclesial que lhe foi confiada” (p. 56).

As ínfulas têm igualmente uma dupla significação: simbolizam tanto o poder sacerdotal, que o Bispo possui em plenitude, quanto seu dever de possuir o conhecimento da Sagrada Escritura (Antigo e Novo Testamento) para bem exercer seu múnus de ensinar.

Os primeiros cristãos sempre rezavam com a cabeça descoberta durante as celebrações, exceto as mulheres, que usavam um véu. O primeiro registro de uma cobertura de cabeça na Liturgia é do século VIII, que fala do uso do camelauco (espécie de gorro) branco por parte do Papa. Somente no século XI o camelauco toma o nome de mitra e passa a ser insígnia de todos os bispos.

Atualmente, as normas gerais para o uso da mitra estão determinadas pelo número 60 do Cerimonial dos Bispos. Recorda-se primeiramente que a mitra é uma só dentro da celebração (na Forma Extraordinária do Rito Romano usa-se duas) e que seu tipo é determinado conforme a celebração:

Mitra simples: não possui nenhum ornato, sendo inteiramente branca (exceto a mitra simples do Papa, que possui leves contornos em dourado). É utilizada na Quarta-feira de Cinzas, na Celebração da Paixão do Senhor, na Comemoração dos Fieis Defuntos, no rito da Inscrição do Nome dos Catecúmenos, nas celebrações penitenciais e nas exéquias (inclusive nas do próprio bispo, que é sepultado com a mitra simples).

Papa Francisco com a mitra simples na Celebração da Paixão (2014)
Mitra ornada: possui algum ornamento, geralmente um titulus (galão na forma de um “T” invertido), que pode ser da cor litúrgica ou não. É utilizada em todas as celebrações em que não se pede expressamente a mitra simples.

Papa Francisco com mitra ornada no Domingo de Páscoa (2014)
Há um costume que nas concelebrações apenas o celebrante principal use a mitra ornada e todos os demais usem a mitra simples. Isto é observado principalmente nas celebrações presididas pelo Papa, nas quais os bispos devem usar mitra simples.

Nestas celebrações, há também o costume de os Cardeais usarem um tipo específico de mitra, a “damascata”, também chamada de “mitra pinha”. Esta possui os contornos de uma pinha, simbolizando a união dos Cardeais em torno do Romano Pontífice.

Cardeais Diáconos com a mitra pinha (2008)
O Bispo usa a mitra apenas dentro das celebrações litúrgicas, ao menos nas mais solenes, podendo dispensá-la nas celebrações mais simples. Geralmente o Bispo a usa nos seguintes momentos (cf. Cerimonial dos Bispos, n. 60):
  • Nas procissões (exceto quando se leva o Santíssimo Sacramento ou relíquias da Cruz);
  • Quando está sentado;
  • Para fazer a homilia;
  • Para dar a bênção;
  • Nos gestos sacramentais (infusão da água no Batismo, imposição das mãos nas Ordenações, etc);
  • Para as monições ou avisos.

O Bispo NÃO usa a mitra:
  • Diante do Santíssimo Sacramento exposto;
  • Durante as orações (Ritos iniciais, Preces, Oração Eucarística, etc);
  • Durante o Evangelho;
  • Durante os hinos e cânticos evangélicos da Liturgia das Horas.

Para tornar claro como se dá o uso da Mitra, o Cerimonial remete às rubricas específicas das diversas celebrações. Buscaremos tratar deste assunto em postagens futuras sobre as celebrações presididas pelo Bispo.

Como fora dito anteriormente, a mitra é entregue ao Bispo em sua Ordenação, sendo-lhe imposta na cabeça pelo Ordenante principal, logo após a entrega do anel. Nas demais celebrações, é costume que a mitra lhe seja imposta ou retirada pelo cerimoniário (em uma concelebração, tal gesto destina-se apenas ao celebrante principal).

Cerimoniário impõe a mitra no Papa Francisco

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Ângelus do Papa: XXII Domingo do Tempo Comum - Ano A

Papa Francisco
Ângelus
Domingo, 31 de agosto de 2014

Prezados irmãos e irmãs!
No itinerário dominical com o Evangelho de Mateus, hoje chegamos ao ponto crucial em que Jesus, depois de ter verificado que Pedro e os outros onze tinham acreditado nele como Messias e Filho de Deus, «começou a explicar aos seus discípulos que tinha de ir a Jerusalém e sofrer muito... teria morrido e ressuscitaria no terceiro dia» (Mt 16,21). Trata-se de um momento crítico no qual sobressai o contraste entre o modo de pensar de Jesus e o dos discípulos. Pedro chega a sentir que tem o dever de repreender o Mestre, porque não pode atribuir ao Messias um fim tão ignóbil. Então Jesus, por sua vez, admoesta severamente Pedro, chama-o à «obediência», pois não pensa «segundo Deus, mas segundo os homens» (v. 23) e, sem se dar conta, desempenha o papel de satanás, o tentador.

Sobre este ponto insiste, na Liturgia deste domingo, também o Apóstolo Paulo que, escrevendo aos cristãos de Roma, lhe diz: «Não vos conformeis com este mundo - não entreis nos esquemas deste mundo - mas transformai-vos pela renovação do vosso espírito, para que possais discernir qual é a vontade de Deus» (Rm 12,2).

Com efeito, nós cristãos vivemos no mundo, estamos plenamente inseridos na realidade social e cultural do nosso tempo, e isto é bom; no entanto, isto comporta o risco de nos tornarmos «mundanos», o risco de que «o sal perca o seu sabor», como diria Jesus (cf. Mt 5,13), ou seja, que o cristão se «dilua», perca a sua carga de novidade que lhe advém do Senhor e do Espírito Santo. Na realidade, deveria ser o contrário: quando nos cristãos permanece viva a força do Evangelho, ela pode transformar «os critérios de julgar, os valores que contam, os centros de interesse, as linhas de pensamento, as fontes inspiradoras e os modelos de vida» (Paulo VI, Exortação Apostólica Evangelii nuntiandi, n. 19). É triste encontrar cristãos «diluídos», que se parecem com o vinho aguado, e já não se sabe se são cristãos ou mundanos, como o vinho aguado, que não se sabe se é vinho ou água! Isto é triste. É triste encontrar cristãos que já não são o sal da terra, e sabemos que quando o sal perde o seu sabor, não serve para mais nada. O seu sal perdeu o sabor, porque cederam ao espírito do mundo, ou seja, tornaram-se mundanos.

Por isso é necessário renovar-se continuamente, haurindo a linfa do Evangelho. E como se pode realizar isto a nível prático? Antes de tudo, precisamente lendo e meditando o Evangelho todos os dias, de tal forma que a palavra de Jesus esteja sempre presente na nossa vida. Recordai-vos: servir-vos-á de ajuda, trazer sempre convosco o Evangelho: um pequeno Evangelho, no bolso, na bolsa, para dele ler um trecho durante o dia. Mas sempre com o Evangelho, porque isto significa trazer a Palavra de Jesus, poder lê-la. Além disso, participando na Missa dominical, onde encontramos o Senhor na comunidade, ouvimos a sua Palavra e recebemos a Eucaristia que nos une a Ele e entre nós; e depois são muito importantes para a renovação espiritual os dias de retiro e de exercícios espirituais. Evangelho, Eucaristia e oração. Não esqueçais: Evangelho, Eucaristia e oração. Graças a estes dons do Senhor nós podemos conformar-nos não com o mundo, mas com Cristo, e segui-lo ao longo do seu caminho, a vereda do «perder a própria vida» para a encontrar (cf. Mt 15,25). «Perdê-la» no sentido de entregá-la, oferecê-la por amor e no amor - e isto requer o sacrifício e até a cruz - para voltar a recebê-la purificada, livre do egoísmo e da hipoteca da morte, repleta de eternidade.

A Virgem Maria precede-nos sempre ao longo deste caminho; deixemo-nos orientar e acompanhar por Ela.


Fonte: Santa Sé.