terça-feira, 7 de abril de 2015

Homilia do Papa: Missa da Ceia do Senhor 2015

Santa Missa na Ceia do Senhor
Homilia do Papa Francisco
Igreja Padre Nosso, Presídio de Rebibbia, Roma
Quinta-feira Santa, 02 de abril de 2015

Nesta quinta-feira, Jesus estava à mesa com os discípulos, celebrando a festa da Páscoa. A passagem do Evangelho que escutamos contém uma frase que é justamente o centro daquilo que Jesus fez por todos nós: «Tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim» (Jo 13,1). Jesus nos amou. Jesus nos ama. Sem limites, sempre, até o final. O amor de Jesus por nós não tem limites: sempre mais, sempre mais. Nunca se cansa de amar ninguém. Ama todos nós, ao ponto de dar a sua vida por nós. Sim, dar a vida por nós; sim dar a vida por todos nós, dar a vida por cada um de nós. E cada um de nós pode dizer: “Ele deu a vida por mim”. Cada um. Deu a vida por ti, por ti, por ti, por mim, por ele... por cada um, com nome e sobrenome. O seu amor é assim: pessoal. O amor de Jesus nunca decepciona, porque Ele nunca se cansa de amar, como não se cansa de perdoar, não se cansa de nos abraçar. Esta é a primeira coisa que queria vos dizer: Jesus nos amou, cada um de nós, até o final.

Em seguida, faz isto que os discípulos não entendiam: lavar os pés. Naquele tempo, isso era um costume, era um hábito, pois quando uma pessoa chegava numa casa, estava com os pés imundos com o pó da estrada; não existiam os paralelepípedos naquele tempo... Havia o pó da estrada. E na entrada da casa, os seus pés eram lavados. Mas isso não era o dono da casa que fazia, eram os escravos que o faziam. Era um trabalho de escravos. E Jesus, como escravo, lava os nossos pés, os pés dos discípulos, e por isso diz: «Agora, não entendes - se dirigia a Pedro - o que estou fazendo; mais trade compreenderás» (Jo 13,7). Jesus: tão grande é o seu amor que se fez escravo para nos servir, para nos curar, para nos limpar.

E hoje, nesta Missa, a Igreja pede que o sacerdote lave os pés de doze pessoas, em memória dos Doze Apóstolos. Mas devemos ter a certeza no nosso coração, devemos estar certos que o Senhor, quando nos lava os pés, nos lava por inteiro, nos purifica, nos faz sentir mais uma vez o seu amor. Na Bíblia, há uma frase, no Livro do Profeta Isaias, muito bela, que diz: «Pode uma mãe se esquecer do seu filho? Mas, ainda que uma mãe se esquecesse do seu filho, eu nunca me esquecerei de ti» (Is 49,15). Assim é o amor de Deus por nós.

E hoje eu lavarei os pés de doze de vós, mas nestes irmãos e irmãs todos estais presentes, todos, todos. Todos aqueles que moram aqui. Vós os representais. Mas eu também tenho necessidade de ser lavado pelo Senhor, e por isso rezai durante esta missa para que o Senhor também lave as minhas sujeiras, para que eu me torne mais escravo de vós, mais escravo no serviço das pessoas, como o foi Jesus.


Fonte: Santa Sé.

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Missa Crismal na Administração Apostólica

Na manhã do dia 02 de abril, Quinta-feira da Semana Santa, Dom Fernando Arêas Rifan, Bispo da Administração Apostólica São João Maria Vianney, celebrou a Santa Missa Crismal na Forma Extraordinária do Rito Romano na Igreja Principal da Administração, em Campos dos Goytacazes (RJ).

Procissão de entrada


Orações ao pé do altar
Incensação do Bispo

Missa Crismal em Foz do Iguaçu

Na manhã do último dia 02 de abril, Quinta-feira Santa, Dom Dirceu Vegini, Bispo Diocesano de Foz do Iguaçu, celebrou a Santa Missa Crismal na Catedral Diocesana Nossa Senhora de Guadalupe.

Procissão de entrada


Reverência ao altar
Incensação

Fotos da Missa Crismal em Curitiba

No último dia 02 de abril, Quinta-feira Santa, o Arcebispo de Curitiba Dom José Antônio Peruzzo celebrou na Catedral Basílica Menor Nossa Senhora da Luz dos Pinhais a Santa Missa Crismal.

Procissão de entrada

Sinal da cruz

Procissão com o Livro dos Evangelhos

Fotos da Missa Crismal no Vaticano

Na manhã do dia 02 de abril, Quinta-feira Santa, o Papa Francisco celebrou na Basílica de São Pedro a Santa Missa Crismal.

Foram cerimoniários assistentes os Monsenhores Guido Marini e Marco Agostini. O livreto da celebração pode ser visto aqui.

Procissão de entrada
Incensação

Ritos iniciais
Lituria da Palavra

Homilia do Papa: Missa Crismal 2015

Santa Missa Crismal
Homilia do Papa Francisco
Basílica Vaticana
Quinta-feira Santa, 02 de abril de 2015

«A minha mão estará sempre com ele e o meu braço há de torná-lo forte» (Sl 88,22). Assim pensa o Senhor, quando diz para consigo: «Encontrei Davi, meu servo, e o ungi com óleo santo» (v. 21). Assim pensa o nosso Pai cada vez que «encontra» um padre. E acrescenta: «A minha fidelidade e o meu amor estarão com ele (...). Ele me invocará, dizendo: “Tu és meu pai, és o meu Deus e o rochedo da minha salvação”» (vv. 25.27).

Faz-nos muito bem entrar, com o salmista, neste solilóquio do nosso Deus. Ele fala de nós, os seus sacerdotes, os seus padres; na realidade, porém, não é um solilóquio, não fala sozinho. É o Pai que diz a Jesus: «Os teus amigos, aqueles que Te amam, poderão dizer-Me de uma maneira especial: “Tu és o meu Pai”» (Jo 14,21). E, se o Senhor pensa e Se preocupa tanto com o modo como poderá ajudar-nos, é porque sabe que a tarefa de ungir o povo fiel não é fácil, é dura; causa fadiga e leva-nos ao cansaço. E nós experimentamo-lo em todas as suas formas: desde o cansaço habitual do trabalho apostólico diário até ao da doença e da morte, incluindo o consumar-se no martírio.

O cansaço dos sacerdotes! Sabeis quantas vezes penso nisto, no cansaço de todos vós? Penso muito e rezo com frequência, especialmente quando sou eu que estou cansado. Rezo por vós que trabalhais no meio do povo fiel de Deus, que vos foi confiado; e muitos fazem-no em lugares demasiado isolados e perigosos. E o nosso cansaço, queridos sacerdotes, é como o incenso que sobe silenciosamente ao Céu (cf. Sl 140,2; Ap 8,3-4). O nosso cansaço eleva-se diretamente ao coração do Pai.

Estai certos de que também Nossa Senhora Se dá conta deste cansaço e, imediatamente, fá-lo notar ao Senhor. Como Mãe, sabe compreender quando os seus filhos estão cansados, e só disso se preocupa. «Bem-vindo! Descansa, filho. Depois falamos... Não estou aqui eu, que sou tua Mãe?»: dirá ao abeirarmo-nos d’Ela (cf. Evangelii gaudium, n. 286). E dirá, ao seu Filho, como em Caná: «Não têm vinho!» (Jo 2,3).

Pode acontecer também que, ao sentir o peso do trabalho pastoral, nos venha a tentação de descansarmos de um modo qualquer, como se o repouso não fosse uma coisa de Deus. Não caiamos nesta tentação! A nossa fadiga é preciosa aos olhos de Jesus, que nos acolhe e faz levantar o ânimo: «Vinde a Mim, todos os que estais cansados e oprimidos, que Eu hei de aliviar-vos» (Mt 11,28). Se uma pessoa sabe que, morta de cansaço, pode prostrar-se em adoração e dizer: «Senhor, por hoje basta!», rendendo-se ao Pai, sabe também que, ao fazê-lo, não cai mas renova-se, pois o Senhor que ungiu com o óleo da alegria o povo fiel de Deus, também a unge a ela: «Muda a sua cinza em coroa, o seu semblante triste em perfume de festa e o seu abatimento em cantos de festa» (Is 61,3).

Tenhamos bem em mente que uma chave da fecundidade sacerdotal reside na forma como repousamos e como sentimos que o Senhor cuida do nosso cansaço. Como é difícil aprender a repousar! Nisto transparece a nossa confiança e a consciência de que também nós somos ovelhas e temos necessidade do pastor que nos ajude. A propósito, podem ajudar-nos algumas perguntas.

Sei repousar recebendo o amor, a gratidão e todo o carinho que me dá o povo fiel de Deus? Ou, depois do trabalho pastoral, procuro repousos mais refinados: não os repousos dos pobres, mas os que oferece a sociedade de consumo? O Espírito Santo é verdadeiramente, para mim, «repouso na fadiga», ou apenas Aquele que me faz trabalhar? Sei pedir ajuda a qualquer sacerdote experiente? Sei repousar de mim mesmo, da minha autoexigência, da minha autocomplacência, da minha autorreferencialidade? Sei conversar com Jesus, com o Pai, com a Virgem Maria e São José, com os meus Santos padroeiros e amigos, para repousar nas suas exigências - que são suaves e leves - nas suas complacências - eles gostam de estar na minha companhia - e nos seus interesses e referências – só lhes interessa a maior glória de Deus? Sei repousar dos meus inimigos, sob a proteção do Senhor? Vou argumentando, tecendo e ruminando repetidamente cá para comigo a minha defesa, ou confio-me ao Espírito Santo que me ensina o que devo dizer em cada ocasião? Preocupo-me e afano-me excessivamente ou encontro repouso, dizendo como Paulo: «Sei em quem acreditei» (2Tm 1,12).

Repassemos brevemente os compromissos dos sacerdotes, que proclama a Liturgia de hoje: levar a Boa-Nova aos pobres, anunciar a libertação aos cativos e a cura aos cegos, dar a liberdade aos oprimidos e proclamar o ano de graça do Senhor. Isaías diz também cuidar daqueles que têm o coração despedaçado e consolar os aflitos.

Não são tarefas fáceis, não são tarefas externas, como, por exemplo, as actividades manuais: construir um novo salão paroquial, ou traçar as linhas dum campo de futebol para os jovens do oratório, etc. Os compromissos mencionados por Jesus envolvem a nossa capacidade de compaixão: são compromissos nos quais o nosso coração estremece e se comove. Alegramo-nos com os noivos que vão casar; rimos com a criança que trazem para batizar; acompanhamos os jovens que se preparam para o matrimónio e para ser família; entristecemo-nos com quem recebe a extrema-unção no leito do hospital; choramos com os que enterram uma pessoa querida... Tantas emoções! Se tivermos o coração aberto, estas emoções e tanto carinho cansam o coração do pastor. Para nós, sacerdotes, as histórias do nosso povo não são um noticiário: conhecemos a nossa gente, podemos adivinhar o que se passa no seu coração; e o nosso, sofrendo com eles, vai-se desgastando, divide-se em mil pedaços, compadece-se e parece até ser comido pelas pessoas: tomai, comei. Esta é a palavra que o sacerdote de Jesus sussurra sem cessar, quando está a cuidar do seu povo fiel: tomai e comei, tomai e bebei... E, assim, a nossa vida sacerdotal se vai doando no serviço, na proximidade ao povo fiel de Deus, etc., o que sempre, sempre cansa.

Gostaria agora de partilhar convosco alguns cansaços, em que meditei.
Temos aquele que podemos chamar «o cansaço do povo, o cansaço das multidões»: para o Senhor, como o é para nós, era desgastante - di-lo o Evangelho - mas é um cansaço bom, um cansaço cheio de frutos e de alegria. O povo que O seguia, as famílias que Lhe traziam os seus filhos para que os abençoasse, aqueles que foram curados e voltavam com os seus amigos, os jovens que se entusiasmavam com o Mestre… Não Lhe deixavam sequer tempo para comer. Mas o Senhor não Se aborrecia de estar com a gente. Antes pelo contrário, parecia que ganhava nova energia (cf. Evangelii gaudium, n. 11). Este cansaço habitual no meio da nossa atividade é uma graça que está ao alcance de todos nós, sacerdotes (cf. ibid., n. 279). Como é belo tudo isto: o povo amar, desejar e precisar dos seus pastores! O povo fiel não nos deixa sem atividade direta, a não ser que alguém se esconda em um escritório ou passe pela cidade com vidros escuros. E este cansaço é bom, é um cansaço saudável. É o cansaço do sacerdote com o cheiro das ovelhas, mas com o sorriso de um pai que contempla os seus filhos ou os seus netinhos. Isto não tem nada a ver com aqueles que conhecem perfumes caros e te olham de cima e de longe (cf. ibid., n. 97). Somos os amigos do noivo: esta é a nossa alegria. Se Jesus está apascentando o rebanho no meio de nós, não podemos ser pastores com a cara azeda ou melancólica, nem - o que é pior - pastores enjoados. Cheiro de ovelhas e sorriso de pais... Muito cansados, sim; mas com a alegria de quem ouve o seu Senhor que diz: «Vinde, benditos de meu Pai!» (Mt 25,34).

Existe depois aquele que podemos chamar «o cansaço dos inimigos». O diabo e os seus sectários não dormem e, uma vez que os seus ouvidos não suportam a Palavra de Deus, trabalham incansavelmente para a silenciar ou distorcer. Aqui o cansaço de enfrentá-los é mais árduo. Não se trata apenas de fazer o bem, com toda a fadiga que isso implica, mas é preciso também defender o rebanho e defender-se a si mesmo do mal (cf. Evangelii gaudium, n. 83). O maligno é mais astuto do que nós e é capaz de destruir num instante aquilo que construímos pacientemente durante muito tempo. Aqui é preciso pedir a graça de aprender a neutralizar (é um hábito importante: aprender a neutralizar): neutralizar o mal, não arrancar a cizânia, não pretender defender como super-homens aquilo que só o Senhor deve defender. Tudo isto nos ajuda a não deixarmos cair os braços à vista da espessura da iniquidade, frente à zombaria dos malvados. Eis a palavra do Senhor para estas situações de cansaço: «Tende confiança! Eu já venci o mundo» (Jo 16,33). E esta palavra dar-nos-á força.

E, por último (último, para que esta homilia não vos canse demasiado!), há também «o cansaço de nós mesmos» (cf. Evangelii gaudium, n. 277). É talvez o mais perigoso. Porque os outros dois derivam do fato de estarmos expostos, de sairmos de nós mesmos para ungir e servir (somos aqueles que cuidam). Ao contrário, este cansaço é mais autorreferencial: é a desilusão com nós mesmos, mas sem a encararmos de frente, com a alegria serena de quem se descobre pecador e carecido de perdão, de ajuda; é que, neste caso, a pessoa pede ajuda e segue em frente. Trata-se do cansaço que resulta de «querer e não querer», de ter apostado tudo e depois pôr-se a chorar pelos alhos e as cebolas do Egito, de jogar com a ilusão de sermos outra coisa qualquer. Gosto de lhe chamar o cansaço de «fazer a corte ao mundanismo espiritual». E, quando uma pessoa fica sozinha, dá-se conta de quantos sectores da vida foram impregnados por este mundanismo e temos até a impressão de que não há banho que o possa lavar. Aqui pode haver um cansaço mau. A palavra do Apocalipse indica-nos a causa deste cansaço: «Tens constância, sofreste por causa de Mim, sem te cansares. No entanto, tenho uma coisa contra ti: abandonaste o teu primeiro amor» (Ap 2,3-4). Só o amor dá repouso. Aquilo que não se ama, cansa de forma má; e, com o passar do tempo, cansa de forma pior.

A imagem mais profunda e misteriosa do modo como o Senhor cuida do nosso cansaço pastoral - «Ele que amara os seus (...), levou o seu amor por eles até ao extremo» (Jo 13,1) - é a cena do lava-pés. Gosto de a contemplar como o lava-seguimento. O Senhor purifica o próprio seguimento, Ele «envolve-Se» conosco (Evangelii gaudium, n. 24), tem pessoalmente o cuidado de lavar todas as manchas, aquela sujeira mundana e gordurosa que se apegou a nós no caminho que percorremos em seu Nome.

Sabemos que, nos pés, se pode ver como está todo o nosso corpo. No modo de seguir o Senhor, manifesta-se como está o nosso coração. As chagas dos pés, os entorses e o cansaço são sinal de como O seguimos, das estradas que percorremos à procura das ovelhas perdidas, tentando conduzir o rebanho aos prados verdejantes e às águas tranquilas (cf. ibid., n. 270). O Senhor lava-nos e purifica-nos de tudo aquilo que se acumulou nos nossos pés ao segui-Lo. E isto é sagrado. Não permitais que fique manchado. Como Ele beija as feridas de guerra, assim lava a sujeira do trabalho.

O seguimento de Jesus é lavado pelo próprio Senhor para que nos sintamos no direito de ser e viver «alegres», «satisfeitos», «sem medo nem culpa» e, assim, tenhamos a coragem de sair e ir, «a todas as periferias até aos confins do mundo», levar esta Boa-Nova aos mais abandonados, sabendo que «Ele estará sempre conosco até ao fim dos tempos». E, por favor, peçamos a graça de aprender a estar cansados, mas com um cansaço bom!


Fonte: Santa Sé.

Catequese do Papa: O Tríduo Pascal (2015)

Papa Francisco
Audiência Geral
Quarta-feira, 1º de abril de 2015
O Tríduo Pascal

Amados irmãos e irmãs, bom dia!
Amanhã é Quinta-Feira Santa. À tarde, com a Santa Missa «na Ceia do Senhor», terá início o Tríduo Pascal da Morte e Ressurreição de Cristo, que é o ápice de todo o Ano Litúrgico e também ponto culminante da nossa vida cristã.

O Tríduo inicia com a comemoração da Última Ceia. Jesus, na vigília da sua Paixão, ofereceu ao Pai o seu corpo e o seu sangue sob as espécies do pão e do vinho e, oferecendo-os como alimento aos Apóstolos, ordenou-lhes que perpetuassem a oferenda em sua memória. O Evangelho desta celebração, recordando o lava-pés, expressa o mesmo significado da Eucaristia sob outra perspectiva. Jesus - como um servo - lava os pés de Simão Pedro e dos outros onze discípulos (Jo 13,4-5). Com este gesto profético, Ele exprime o sentido da sua vida e da sua paixão, como serviço a Deus e aos irmãos: «De facto, o Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir» (Mc 10,45).

Isto aconteceu também com o nosso Batismo, quando a graça de Deus nos lavou do pecado e nos revestimos de Cristo (cf. Cl 3,10). Isto acontece todas as vezes que repetimos o memorial do Senhor na Eucaristia: fazemos comunhão com Cristo Servo para obedecer ao seu mandamento, o de nos amarmos uns aos outros como Ele nos amou (Jo 13,34; 15,12). Se recebermos a sagrada Comunhão sem estar sinceramente dispostos a lavar-nos os pés uns aos outros, não reconhecemos o Corpo do Senhor. É o serviço de Jesus que se doa a si mesmo, totalmente.

E, depois de amanhã, na liturgia da Sexta-Feira Santa meditamos sobre o mistério da morte de Cristo e adoramos a Cruz. Nos últimos momentos de vida, antes de entregar o espírito ao Pai, Jesus disse: «Tudo está consumado» (Jo 19,30). Que significa esta palavra? Jesus que diz: «Tudo está consumado»? Significa que a obra de salvação está completada, que todas as Escrituras encontram o seu pleno cumprimento no amor de Cristo, Cordeiro imolado.

No decorrer dos séculos há homens e mulheres que com o testemunho da sua existência refletem um raio deste amor perfeito, pleno, incontaminado. Apraz-me recordar uma testemunha heroica dos nossos dias, Padre Andrea Santoro, sacerdote da diocese de Roma e missionário na Turquia. Alguns dias antes de ser assassinado em Trebisonda, escrevia: «Estou aqui para habitar no meio deste povo e permitir que Jesus o faça emprestando-lhe a minha carne... Só nos tornamos capazes de salvação oferecendo a própria carne. O mal do mundo deve ser carregado e o sofrimento partilhado, absorvendo-o na própria carne até ao fim, como fez Jesus» (A. Polselli, Padre Andrea Santoro: Le eredità [As heranças], Città Nuova, Roma, 2008, p. 31). Este exemplo de um homem do nosso tempo, e de muitos outros, nos amparem na oferenda da nossa vida como dom de amor aos irmãos, à imitação de Jesus. E também hoje há tantos homens e mulheres, verdadeiros mártires que oferecem a sua vida com Jesus para professar a fé, unicamente por este motivo. Trata-se de um serviço do testemunho cristão até ao sangue, serviço que Cristo nos prestou: redimiu-nos até ao fim. E é este o significado daquela palavra «Está completado». Que bonito que será que nós, no fim da nossa vida, com os nossos erros, pecados, e também com as nossas boas ações, com o nosso amor ao próximo, possamos dizer ao Pai como Jesus: «Está completado»; não com a perfeição com que Ele o disse, mas dizer: «Senhor, fiz tudo o que podia. Está completado». Adorando a Cruz, olhando para Jesus, pensemos no amor, no serviço, na nossa vida, nos mártires cristãos, e também nos fará bem pensar no fim da nossa vida. Nenhum de nós sabe quando será, mas podemos pedir a graça de poder dizer: «Pai, fiz o que pude. Está completado».

Sábado Santo é o dia no qual a Igreja contempla o «repouso» de Cristo no túmulo depois do combate vitorioso da cruz. No Sábado Santo a Igreja, identifica-se mais uma vez com Maria: toda a sua fé está reunida nela, a primeira e perfeita discípula, a primeira e perfeita crente. Na obscuridade que envolve a criação, ela permanece sozinha a manter acesa a chama da fé, esperando contra qualquer esperança (cf. Rm 4,18) na Ressurreição de Jesus.

E na grande Vigília Pascal, na qual ressoa de novo o Aleluia, celebramos Cristo Ressuscitado centro e fim da criação e da história; vigiamos cheios de esperança na expectativa da sua nova vinda, quando a Páscoa terá a sua plena manifestação.

Às vezes a escuridão da noite parece penetrar na alma; outras vezes pensamos: «agora já não há nada a fazer», e o coração não encontra mais a força para amar... Mas precisamente naquela escuridão Cristo acende o fogo do amor de Deus: um clarão rasga a obscuridade e anuncia um novo início, algo começa na escuridão mais profunda. Nós sabemos que a noite é «noite funda», é mais escura pouco antes que comece o dia. Mas precisamente naquela escuridão é Cristo que vence e que acende o fogo do amor. A pedra do sofrimento está afastada cedendo o lugar à esperança. Eis o grande mistério da Páscoa! Nesta santa noite a Igreja entrega-nos a luz do Ressuscitado, para que em nós não haja mais a lamentação de quem diz «agora já não...», mas a esperança de quem se abre a um presente cheio de futuro: Cristo venceu a morte, e nós com Ele. A nossa vida não termina diante da pedra de um sepulcro, a nossa vida vai além com a esperança em Cristo que ressuscitou precisamente daquele sepulcro. Como cristãos somos chamados a ser sentinelas da manhã, que sabem distinguir os sinais do Ressuscitado, como fizeram as mulheres e os discípulos que acorreram ao sepulcro na alvorada do primeiro dia da semana.

Amados irmãos e irmãs, nestes dias do Tríduo Santo não nos limitemos a comemorar a paixão do Senhor, mas entremos no mistério, façamos nossos os seus sentimentos, as suas atitudes, como nos convida a fazer o apóstolo Paulo: «Tende em vós os mesmos sentimentos que havia em Cristo Jesus» (Fl 2,5). Então a nossa será uma «feliz Páscoa».


Fonte: Santa Sé.