terça-feira, 18 de agosto de 2026

Homilia do Papa: Assunção de Maria (2026)

Solenidade da Assunção da Bem-aventurada Virgem Maria
Homilia do Papa Leão XIV
Paróquia Santo Tomás de Villanova, Castel Gandolfo
Sábado, 15 de agosto de 2026

Queridos irmãos e irmãs,
Também este ano, com grande alegria, celebro convosco a Solenidade da Assunção.

O Magistério da Igreja nos ensina que «Maria, terminado o curso da vida terrestre, foi assunta em corpo e alma à glória celestial» (Pio XII, Constituição Apostólica Munificentissimus Deus, 1º de novembro de 1950) e nos indica, neste Mistério, o cumprimento da plenitude da graça que Deus lhe concedeu na sua Imaculada Conceição (cf. ibid.).

Por isso, muitas obras de arte a retratam, no fim da sua vida terrena, como uma jovem belíssima que se eleva fisicamente da terra em direção à abóbada celeste. Inspiram-se na cena descrita no trecho do Apocalipse que ouvimos na 1ª Leitura: «Uma mulher vestida de sol, tendo a lua debaixo dos pés» (Ap 12,1), para significar que no coração de Maria se encontram o céu e a terra, o tempo e a eternidade.


Esta imagem contrasta, à primeira vista, com a experiência que provoca em nós o passar dos anos. Com o avançar a idade, o nosso corpo não se torna mais ágil, mas mais lento; a pele não fica mais fresca, mas mostra os sinais da velhice; os cabelos não ganham cor nem brilho, mas tornam-se grisalhos e depois brancos. Então, o que temos em comum com a jovem maravilhosa que vemos retratada nas telas dos nossos altares?

Para compreender isto, devemos manter unidos os dois sinais a que nos referimos: o corpo incorruptível da Mãe de Deus e o seu Coração Imaculado. Com efeito, é a pureza da alma que, em Maria - tal como em nós -, pela graça de Deus, ilumina e transfigura a pessoa inteira, conduzindo-a à glória do Céu.

A glorificação de Maria em corpo e alma nos ensina que a nossa verdadeira beleza não consiste em esconder os sinais do tempo que passa, mas em mostrar, impressos também na nossa carne, os sinais do amor que não tem fim (cf. 1Cor 13,8).

Convida-nos, assim, a rever muitos dos padrões estéticos que o mundo nos impõe, predominantemente de caráter hedonista e consumista, e que correm o risco de nos aprisionar em pesados condicionamentos, levando-nos a desperdiçar energias preciosas naquilo que realmente não tem valor nem dura para sempre. Na experiência comum podemos encontrar pessoas cujo rosto está marcado pelos anos e pelos sofrimentos, mas que, mesmo assim, são capazes de irradiar serenidade, benevolência e paz à sua volta; da mesma forma que podemos observar outras, talvez exteriormente atraentes, mas duras e frias no seu íntimo. E é fácil compreender onde reside a verdadeira beleza e onde, pelo contrário, ainda há necessidade de conversão, de perdão e de cura.

Se queremos verdadeiramente descobrir e cultivar a beleza divina que nos envolve e para a qual fomos criados, difundindo-a à nossa volta, temos de aprender a lê-la tanto no rosto terno de uma criança quanto nas rugas de um idoso; tanto na vivacidade de um jovem quanto na compostura de um adulto; tanto nos adornos festivos quanto nas roupas e instrumentos de trabalho. Temos de ouvir as histórias de amor únicas que cada uma destas realidades nos conta, reconhecendo nelas pequenos recantos de céu.

É o amor o mais belo ornamento do homem: o amor que transfigura, transforma, enobrece, eleva; que torna leves, livres, próximos de Deus, mesmo através das vicissitudes da vida.

São Paulo VI, meditando sobre o mistério da Assunção da Virgem, dizia que, para se compreender o seu significado, «é preciso tornar superlativos e absolutos os termos que usamos na linguagem terrena (...), para imaginar em pequena dimensão o eterno» (Homilia, 15 de agosto de 1969). E, a respeito desse encontro entre o infinito e o finito na Mãe de Deus, o Papa Francisco escrevia: «Maria é aquela que sabe transformar um curral de animais na casa de Jesus, com uns pobres paninhos e uma montanha de ternura» (Exortação Apostólica Evangelii gaudium, n. 286).

O milagre que Maria, a donzela de Nazaré, viveu no seu coração inocente, e que a conduziu à glória do Céu, é o encontrar-se de extremos, como ela mesma testemunha nas palavras inspiradas do Magnificat, que ouvimos no Evangelho (cf. Lc 1,46-55). Neste cântico, através das expressões humildes da sua fé, a Mãe do Céu nos fala de forma simples de mistérios grandiosos: de Deus que nela se faz homem para salvar os homens, do Eterno que nela se manifesta no tempo para reabrir também a nós o caminho da eternidade, mostrando-nos, ao mesmo tempo, na sua condição de “humilde serva”, a “pequena dimensão” na qual, como dizia São Paulo VI, também nós podemos encontrar o Senhor.

Portanto, não devemos procurar longe a sublimidade do Mistério que celebramos. Podemos encontrá-la ali onde há verdadeira caridade: nos olhos de um pai e de uma mãe que regressam a casa após um dia de trabalho, cansados, mas felizes por estarem com os seus filhos; nos rostos dos avôs e das avós que, apesar das indisposições da idade, se iluminam com uma energia inesperada ao cuidar dos netos; ou ainda no empenho dos jovens que se esforçam por crescer íntegros e honestos, dispostos até a ir contra a corrente em relação ao que “todos fazem”; por fim, na obra de tantos homens e mulheres que, diariamente, com fé e dedicação, contribuem para trazer um pouco do Céu à terra e levar a terra para o Céu.

Queridos irmãos, o belíssimo rosto da Assunta é único, ultrapassa qualquer representação possível. No entanto, ao mesmo tempo, é familiar: é o rosto das pessoas que estão ao nosso lado, mesmo neste momento, dos irmãos e irmãs com quem partilhamos, na fé, a oferta diária da nossa vida. Por isso, na mulher do Apocalipse, a Comunidade dos fiéis vê a si mesma, e o Concílio Vaticano II descreve Maria como «imagem e início da Igreja, (...) sinal de esperança segura e de consolação» (Constituição Dogmática Lumen gentium, n. 68). Na sua humanidade santa, pela graça de Deus, está também a nossa; lá estamos também nós, chamados a viver a sua mesma plenitude de vida e a partilhar a sua mesma glória.

Santo Agostinho, ao falar da Ressurreição de Cristo, convidava os cristãos do seu tempo a fazer dela a bússola e o ponto de referência da sua existência. Dizia: «Cristo ressuscitou para nunca mais morrer (...). Muda de rumo, segue a luz! Começa por levantar-te do mesmo lugar de onde Ele ressuscitou» (Enarratio in Psalmum 126, 7).

Acolhamos o seu convite. Sigamos a luz do Ressuscitado, mudando de rumo, se necessário. Façamo-lo, em particular, hoje, olhando para Maria, que Deus coroou de glória em corpo e alma, e nos deu como Mãe, guia, companheira de viagem e protetora no caminho para o Céu.


Fonte: Santa Sé.

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