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terça-feira, 18 de agosto de 2020

Vestes talares e corais

Há exatos sete anos, no dia 18 de agosto de 2013, iniciamos uma série de postagens sobre os paramentos, isto é, as vestes que são usadas nas celebrações litúrgicas: túnica, estola, dalmática, casula...

Aqui daremos continuidade a esta proposta falando sobre outro conjunto de vestes que, conforme o caso, possuem uma maior ou menor relação com a Liturgia: as vestes talares e as vestes corais.

Estas não são paramentos, isto é, não são vestes litúrgicas. Ordinariamente se situam fora da Liturgia, sendo utilizadas pelos clérigos (isto é, por aqueles que receberam o Sacramento da Ordem) em seu quotidiano ou em algumas celebrações, especialmente quando não exercem sua função ministerial própria (quando apenas participam da celebração, sem presidir ou concelebrar).

De acordo com o Apêndice I do Cerimonial dos Bispos, que é o texto que atualmente regula o uso destas vestes, recolhendo as reformas realizadas após o Concílio Vaticano II, estas se dividem em três categorias:

Vestes corais
São as vestes usadas pelos clérigos que participam da Missa sem presidir ou concelebrar, pelo Bispo quando se dirige publicamente à igreja (especialmente em sua tomada de posse e nas visitas pastorais), para presidir a recitação das horas menores do Ofício Divino, nas procissões ou em outras formas de piedade popular.

Dom Henrique Soares da Costa em vestes corais

Vestes para ocasiões solenes fora da Liturgia
Como o nome indica, é um conjunto de vestes para ocasiões solenes fora da Liturgia. Por exemplo, em uma audiência com o Santo Padre ou com o Chefe de Estado, em uma cerimônia solene civil ou militar (como uma formatura), entre outras ocasiões.

Dom Henrique com as vestes solenes não-litúrgicas

Vestes de uso cotidiano
São as vestes que, vias de regra, os clérigos deveriam utilizar no dia-a-dia, que podem ser substituídas, conforme indica o Código de Direito Canônico, por outra veste digna, a critério da Conferência dos Bispos (cân. 284).

Dom Henrique com as vestes de uso cotidiano

Outra distinção que precisa ser feita é em relação aos vários títulos que os clérigos recebem. Os graus do Sacramento da Ordem são três: diaconato, presbiterado e episcopado. Mas, sobretudo os presbíteros, costumam receber alguns títulos em razão do ofício que exercem ou como reconhecimento por seus serviços, que influem nas vestes a que têm direito:

Presbítero
É, para os efeitos desta postagem, aquele que recebeu o segundo grau da Ordem e não possui nenhum título honorífico. Ordinariamente, usam as mesmas vestes do presbítero também os diáconos e os seminaristas, quando permitido pelo Bispo diocesano.

Vale ressaltar que nos referimos aqui aos presbíteros do clero diocesano. Os presbíteros religiosos já possuem sua veste própria, que é o hábito da respectiva ordem ou congregação.

Cônego
Do latim canonicus (de canon, regra), sacerdote que pertence ao Cabido de uma Diocese, grupo de sacerdotes que tradicionalmente exercem a função de conselheiros do Bispo e que zelam pelas celebrações litúrgicas da igreja Catedral. Este título é concedido pelo Bispo. Portanto, as vestes dos cônegos costumam variar conforme os costumes de cada Diocese.

Monsenhor Capelão de Sua Santidade
Primeiro dos títulos honoríficos concedidos pelo Papa, geralmente a sacerdotes mais idosos em reconhecimento por seus serviços à Igreja.

Monsenhor Prelado de Honra ou Protonotário Apostólico supranumerário
Dois outros títulos concedidos pelo Papa, porém geralmente restritos a sacerdotes que trabalham na Cúria Romana.

Protonotário Apostólico numerário
Um grupo restrito de sete sacerdotes que trabalham na Cúria Romana, responsáveis por alguns documentos oficiais. Usam as mesmas vestes que eles os Superiores de Dicastérios da Cúria Romana que não são Bispos (por exemplo, Monsenhor Guido Marini, que é um Prelado de Honra, usa as vestes como um Protonotário Apostólico numerário, por ser superior do Ofício de Celebrações Litúrgicas do Sumo Pontífice) [1].


Bispos
São os sacerdotes que receberam o terceiro grau do Sacramento da Ordem. Também podem usar as vestes episcopais aqueles que são equiparados pelo direito aos Bispos, mesmo permanecendo presbíteros, como Prelados, Prefeitos Apostólicos ou Abades territoriais.

Cardeais
Os Cardeais são Bispos ou presbíteros a quem o Papa concedeu este título, tornando-os seus conselheiros e eleitores do novo Pontífice.

Papa
É o Bispo de Roma, Sucessor do Apóstolo Pedro, cabeça do Colégio dos Bispos e Pastor da Igreja universal.

Nas próximas postagens falaremos de cada uma das vestes talares e corais, indicando as diferenças em seu uso por cada um dos membros da hierarquia citados acima. As vestes que abordaremos são:






O Cerimonial dos Bispos: nossa fonte de consulta

[1] Também usam estas vestes os Auditores da Rota Romana, o Promotor Geral da Justiça e o Defensor do Vínculo do Supremo Tribunal da Assinatura Apostólica e os Clérigos da Câmara Apostólica.

Fontes:
CERIMONIAL DOS BISPOS, Cerimonial da Igreja. Tradução portuguesa da edição típica. Apêndice I: Vestes prelatícias. São Paulo: Paulus, 1988, pp. 311-313.

CÓDIGO DE DIREITO CANÔNICO, Livro II: Do Povo de Deus, Parte II: Da constituição hierárquica da Igreja, cân. 330-572. Brasília: Edições CNBB, 2019, pp. 102-155.

8 comentários:

  1. Olá, quero entender melhor sobre os Sacramentos da Ordem e os títulos que os religiosos podem receber. Não sei se posso dizer assim, mas gostaria de entender a hierarquina na Igreja. Você tem algum artigo que fala a respeito ou pode me indicar onde posso conseguir isso?

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    1. Como indicado nesta postagem, a fonte principal sobre esse assunto é o Livro II do Código de Direito Canônico, particularmente os cân. 330-572 (Da constituição hierárquica da Igreja).

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  2. Bispos e Cardeais não podem usar batina com faixa e romeira quotidianamente, ou é só incomum?

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    1. Como melhor explicado na postagem sobre a batina ou hábito talar (a seguinte dessa série), o Cerimonial dos Bispos indica o uso da batina preta com detalhes vermelhos por parte dos Bispos e Cardeais em "ocasiões solenes fora das celebrações litúrgicas" (n. 1203). Essa batina é acompanhada da faixa e pode ser guarnecida com uma romeira, esta última facultativa ("pode-se usar a romeira").
      No parágrafo seguinte o Cerimonial indica que no dia a dia o Bispo pode usar a batina inteiramente preta. Nesse caso a romeira não é mencionada (portanto, não é prevista) e a faixa é facultativa ("pode-se usar...").

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  3. Olá. Excelente conteúdo! Queria aproveitar a oportunidade para sanar algumas dúvidas que tive (lendo esta página e as outras indicadas):

    1. Por "veste talar" se entendem as vestes de uso cotidiano, é isso? As vestes corais seriam, então, vestes para momentos solenes e ocasiões mais especiais?

    2. Existe alguma orientação sobre o uso da faixa da batina por cerimoniáios leigos ou por leigos seminaristas em formação presbiteral: é proibido ou permitido? Ou fica a critério do Bispo local ou, ainda, do pároco da igreja ou reitor do seminário?

    3. Dado o desejo do Vaticano II e a índole de suas reformas litúrgicas, parece adequado o uso do barrete por presbíteros na celebração da missa? A título de orientações, CDC, rubricas, como fica a situação?

    4. Sobre o uso da estola no momento da comunhão por clérigo com ofício de cerimoniário durante a celebração da missa: é correto ou não? Existe alguma orientação? Já vi alguns usando, mas também já escutei outros que criticam e afirmam que no Vaticano não é assim nas celebrações com o Papa, assim também como escutei, certa vez, que se trata de uma compreensão equivocada de uma disposição para o rito de ordenação presbiteral na qual se orientaria que, nessas condições, o clérigo presbítero que fosse cerimoniário deveria colocar estola para impor as mãos sobre o ordenando.

    Desde já, agradeço pela partilha dos seus conhecimentos!

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    1. Lamento a demora em responder. São várias perguntas, espero responder todas:

      1. A veste talar é especificamente a batina que, via de regra, os sacerdotes deveriam usar sempre (podendo ser substituída por outra veste digna, conforme indica o cân. 284 do Código de Direito Canônico).
      As vestes corais são um conjunto mais amplo de vestes (batina, sobrepeliz, mozeta, etc.) que os clérigos usam em determinadas circunstâncias, mas sempre relacionadas com as celebrações litúrgicas, conforme indicado nesta postagem.
      Em ocasiões solenes fora da Liturgia não se usam as vestes corais, mas apenas a veste talar (batina).

      2. Como indicado em respostas a outras postagens, as vestes dos ministros leigos (incluindo cerimoniários e seminaristas) são estabelecidas pela Conferência Episcopal e/ou pelo Bispo Diocesano. O pároco e o reitor do Seminário não têm autoridade nesse assunto.

      3. O uso do barrete pelo sacerdote que preside ou concelebra a Missa não é mencionado nos atuais livros litúrgicos. Não obstante, seu uso foi conservado em muitos lugares como costume. Por exemplo, na Basílica de Santa Maria Maior em Roma, os cônegos que concelebram a Missa nas ocasiões mais solenes costumam usar o barrete. Não obstante, a questão permanece em aberto.
      Ademais, é preciso tomar cuidado ao invocar o "desejo do Vaticano II" ou a "índole das reformas litúrgicas", pois podemos chegar a conclusões ideológicas. O desejo do Concílio está expresso em seus documentos e a índole da reforma nos livros litúrgicos aprovados.

      4. O sacerdote que atua como cerimoniário deve endossar a veste desse ofício: batina e sobrepeliz (Cerimonial dos Bispos, n. 36).
      Não obstante, ao exercer alguma função própria do ministério sacerdotal durante a celebração, como impor as mãos durante a Ordenação Presbiteral, deve endossar a estola (n. 532).
      Vale lembrar ainda que em algumas celebrações durante a pandemia ou na Comemoração dos Fiéis Defuntos nos cemitérios romanos os Cerimoniários Pontifícios endossaram a estola para exercer algumas funções, como distribuir a Comunhão.
      Quanto a endossar a estola apenas para receber a Comunhão, não está previsto nos livros litúrgicos. A única exceção seria a Celebração da Paixão do Senhor na Sexta-feira Santa, para a qual se deve preparar "estolas vermelhas para os presbíteros e diáconos que receberem a Comunhão" (n. 315). Vale lembrar que nesse dia não há concelebração, uma vez que não se celebra a Missa.

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  4. Padres podem usar veste coral? Ouvi dizer uma vez que só bispos usavam? Fiquei em dúvida

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    1. Como indicado ao longo dessa série de postagens, a veste coral dos presbíteros é formada pela batina e a sobrepeliz. Outros elementos (mozeta, cruz peitoral, solidéu, barrete) são próprios dos Bispos e de outros Prelados.

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