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quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

Raniero Cantalamessa: Pregação sobre São Basílio Magno

Prosseguindo, na sequência da nossa publicação sobre as celebrações dos Santos Doutores da Igreja, com as meditações do Padre Raniero Cantalamessa sobre quatro Doutores do Oriente, proferidas durante a Quaresma do ano de 2012, tomamos São Basílio Magno como guia para meditarmos sobre a fé no Espírito Santo:

Pe. Raniero Cantalamessa, OFMCap
III pregação de Quaresma
23 de março de 2012

São Basílio e a fé no Espírito Santo

1. A fé termina nas coisas

O filósofo Edmund Husserl resumiu o programa da sua fenomenologia no lema: “Zu den Sachen selbst!”, “dirigir-se para as mesmas coisas”, para as coisas como elas realmente são na realidade, antes da conceituação e formulação delas. Outro filósofo, vindo depois dele, Sartre, diz que “as palavras e, com elas, o significado das coisas e os modos do seu uso” são apenas “os sinais sutis de reconhecimento que os homens têm traçado na superfície deles”: é necessário superá-los para ter a súbita revelação, que tira o fôlego, da “existência” das coisas [1].
Santo Tomás de Aquino tinha formulado muito antes um princípio análogo em referência às coisas ou aos objetos da fé: “Fides non terminatur ad enunciabile, sed ad rem”: “a fé não termina nos enunciados, mas na realidade” [2]. Os Padres da Igreja são modelos insuperáveis ​​desta fé que não para nas fórmulas, mas vai até a realidade. Tendo passado esta “era de ouro” dos grandes Padres e Doutores, vemos quase que imediatamente o que um estudioso do pensamento patrístico define “o triunfo do formalismo” [3]. Conceitos e termos, como “substância”, “pessoa”, “hipóstase”, são analisados ​​e estudados por si mesmos, sem a constante referência à realidade que com eles os criadores do dogma tinham tentado expressar.
Atanásio é talvez o caso mais exemplar de uma fé que está mais preocupada com o conteúdo do que com o seu enunciado. Por algum tempo, depois do Concílio de Niceia, ele parece quase ignorar o termo homousios, consubstancial, embora defendendo com a tenacidade que vimos na última vez o seu conteúdo, ou seja, a plena divindade do Filho e a sua igualdade com o Pai. Também está pronto para acolher termos equivalentes para ele, desde que ficasse claro que se pretendia manter firme a fé de Niceia. Só mais tarde, quando ele percebeu que aquele termo era o único que não deixava brechas para as heresias, fez cada vez mais uso dele.
Destacamos isto porque conhecemos os danos que causados à comunhão eclesial o fato de dar mais importância ao acordo dos termos do que ao conteúdo da fé. Nos últimos anos tem sido possível restaurar a comunhão com algumas igrejas orientais, as assim chamadas monofisitas, tendo reconhecido que o contraste deles com a fé de Calcedônia estava no significado diferente atribuído aos termos ousia e hipóstase, e não na substância da doutrina. Também o acordo entre a Igreja Católica e a Federação Mundial das Igrejas Luteranas sobre o tema da justificação pela fé, assinado em 1998, mostrou que o conflito secular sobre este ponto estava mais nos termos do que na realidade. As fórmulas, uma vez inventadas, tendem a fossilizar-se, tornando-se bandeiras e sinais partidários, ao invés de expressões de fé vivida.

2. São Basílio e a divindade do Espírito Santo

Hoje “subimos nos ombros” de outro “gigante”, São Basílio Magno (329-379), para analisar com ele outra realidade da nossa fé:, o Espírito Santo. Veremos em breve como também ele é um modelo da fé que não para nas fórmulas, mas vai até a realidade.

São Basílio Magno

Sobre a divindade do Espírito Santo, Basílio não fala nem a primeira e nem a última palavra, ou seja, não é aquele que abre o debate e nem sequer aquele que o conclui. Quem abriu a discussão sobre o estatuto ontológico do Espírito foi Santo Atanásio. Até ele, a doutrina sobre o Paráclito permaneceu na sombra, e entendemos o motivo: não era possível definir a posição do Espírito Santo na divindade antes de ter definido aquela do Filho. Somente se limitava a dizer no Símbolo da fé: “e creio no Espírito Santo”, sem outros acréscimos.
Atanásio, nas Cartas a Serapião, inicia o debate que levará à definição da divindade do Espírito Santo no Concílio de Constantinopla em 381. Ensina que o Espírito é plenamente divino, consubstancial com o Pai e com o Filho, que não pertence ao mundo das criaturas, mas ao do Criador, e a prova, também aqui, é que o seu contato nos santifica, nos diviniza, coisa que não poderia fazer se não fosse ele mesmo Deus.
Eu disse que Basílio não falou nem sequer a última palavra. Ele se abstém de aplicar ao Paráclito o título de “Deus” e aquele de “consubstancial”. Afirma claramente a fé na plena divindade do Espírito usando expressões equivalentes, como a igualdade com o Pai e o Filho na adoração (a isotimia), a sua homogeneidade e não heterogeneidade, no que diz respeito a eles. São os termos nos quais a divindade do Espírito Santo foi definida no Concílio Ecumênico de Constantinopla do ano 381 e que constroem o artigo de fé sobre o Espírito Santo que professamos ainda hoje no Credo.
Essa atitude prudencial de Basílio, dirigida a não distanciar ainda mais o partido adversário dos macedonianos, provocou-lhe a crítica de Gregório Nazianzeno, que coloca o amigo entre aqueles que tiveram bastante coragem para pensar que o Espírito Santo seja Deus, mas não o bastante para proclamá-lo tal explicitamente. Quebrando todo atraso, ele escreve: “O Espírito é portanto Deus? Certamente! É consubstancial? Sim, se é verdade que é Deus” [4].
Se, portanto, Basílio não fala sobre a teologia do Espírito Santo nem a primeira nem a última palavra, por que escolher justamente ele como nosso mestre de fé no Paráclito? É que Basílio, como já Atanásio, está mais preocupado pela “coisa” do que pela sua formulação, mais pela plena divindade do Espírito do que pelos termos com os quais expressar essa fé. O que mais lhe interessa, para colocá-lo nos termos de Tomás de Aquino, é a coisa e não a sua enunciação. Ele nos transporta no coração da pessoa e da ação do Espírito Santo.
Basílio tem uma pneumatologia concreta, vivida, não escolástica, mas “funcional” no sentido mais positivo do termo, e é aquele que a faz particularmente atual e útil para nós hoje. Por causa da conhecida questão do Filioque, a pneumatologia acabou restringindo-se nos séculos quase que exclusivamente ao problema do modo da processão do Espírito Santo: se somente do Pai como dizem os orientais, ou também do Filho, como professam os latinos. Algo da pneumatologia concreta dos Padres foi passada nos tratados sobre os “Sete Dons do Espírito Santo”, mas limitado ao âmbito da santificação pessoal e à vida contemplativa.
O Concílio Vaticano II iniciou uma renovação neste campo, por exemplo, quando trouxe de volta os carismas para a hagiografia, ou seja, passou da vida dos santos para a eclesiologia, ou seja, para a vida da Igreja, falando deles na Lumen Gentium [5]. Mas foi apenas um começo; ainda há muito a ser feito para destacar a ação do Espírito Santo em toda a vivência do Povo de Deus. Na ocasião do XVI centenário do Concílio Ecumênico de Constantinopla de 381, o Beato João Paulo II escreveu uma Carta Apostólica na qual entre outras coisas dizia: “Todo o trabalho de renovação da Igreja que o Concílio Vaticano II tão providencialmente propôs e começou... não pode ser realizado a não ser no Espírito Santo, isto é, com a ajuda da sua luz e da sua força” [6]. Basílio, veremos, será nosso guia neste caminho.

3. O Espírito Santo na história da salvação e na Igreja

É interessante conhecer a origem do seu tratado sobre o Espírito Santo. Curiosamente está ligada à oração do Gloria Patri. Durante uma Liturgia, Basílio tinha pronunciado a doxologia às vezes na forma: “Glória ao Pai, por meio do Filho, no Espírito Santo”, às vezes sob a forma: “Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo”. Esta segunda forma esclarecia mais que a primeira a igualdade das três pessoas, coordenando-as, ao invés de subordiná-las, entre si. Na atmosfera superaquecida das discussões sobre a natureza do Espírito Santo, a coisa provocou protestos e Basílio escreveu a sua obra para justificar as suas ações; na prática, para defender contra os hereges macedonianos a plena divindade do Espírito Santo.
Mas vamos direto ao ponto que faz a doutrina de Basílio especialmente atual: a sua capacidade de destacar a ação do Espírito em cada momento da história da salvação e em cada setor da vida da Igreja. Começa da obra do Espírito na criação:
“Na criação dos seres a causa primeira de tudo o que existe é o Pai, a causa instrumental o Filho, a causa aperfeiçoadora é o Espírito. É pela vontade do Pai que os espíritos criados subsistem; é pela força operativa do Filho que são conduzidos ao ser e pela presença do Espírito que chegam à perfeição... Se tentas tirar o Espírito da criação, todas as coisas se misturarão e a vida delas aparece sem lei, sem ordem, sem qualquer determinação” [7].
Santo Ambrósio retomará de Basílio este pensamento tirando dele uma conclusão sugestiva. Referindo-se aos primeiros dois versos do Gênesis (“a terra estava deserta e sem forma e as trevas cobriam o abismo”), ele observa:
“Quando o Espírito começou a pairar sobre isso, o criado não tinha ainda nenhuma beleza. Em vez disso, quando a criação recebeu a operação do Espírito, obteve todo este esplendor de beleza que a fez brilhar como ‘mundo’” [8].
Em outras palavras, o Espírito Santo é aquele que faz o criado passar do caos para o cosmos, que faz dele algo belo, ordenado, limpo: um “mundo” (mundus) precisamente,  de acordo com o significado original desta palavra e da palavra grega cosmos. Agora nós sabemos que a ação criadora de Deus não se limita ao instante inicial, como se acreditava na visão deísta ou mecanicista do universo. Deus não “foi” uma vez, mas sempre “é” criador. Isso significa que Espírito Santo é aquele que faz passar o universo, a Igreja e cada pessoa, do caos ao cosmos, ou seja: da desordem à ordem, da confusão à harmonia, da deformidade à beleza, do velho ao novo. Não, é claro, mecanicamente e abruptamente, mas no sentido de que está trabalhando nela e guia a sua evolução para uma finalidade. Ele é aquele que sempre “cria e renova a face da terra” (cf. Sl 104,30).
Isso não significa, explicava Basílio naquele mesmo texto, que o Pai tinha criado algo imperfeito e “caótico” que tinha necessidade de correções; simplesmente, era o plano e a vontade do Pai de criar por meio do Filho e conduzir os seres à perfeição por meio do Espírito.
Da criação o santo Doutor passa a ilustrar a presença do Espírito na obra da redenção:
“No que diz respeito ao plano de salvação (oikonomia) para o homem por obra do nosso grande Deus e salvador Jesus Cristo, estabelecido segundo a vontade de Deus, quem poderia negar que se realiza por meio da graça do Espírito?” [9].
Chegando aqui, Basílio se abandona a uma contemplação da presença do Espírito na vida de Jesus que está entre as passagens mais bonitas da obra e abre à pneumatologia um campo de pesquisa que só recentemente começou a ser reconsiderado [10]. O Espírito Santo está em ação já no anúncio dos profetas e na preparação para a vinda do Salvador; é pelo seu poder que se realiza a Encarnação no seio de Maria; é ele o crisma com o qual Jesus foi ungido por Deus no batismo. Toda obra sua foi realizada com a presença do Espírito. Este estava presente quando foi tentado pelo diabo, quando fazia milagres, não o deixou quando ressuscitou dos mortos, e no dia da Páscoa o derramou sobre os discípulos (cf. Jo 20,22s). O Paráclito foi “o companheiro inseparável” de Jesus ao longo da sua vida.
Da vida de Jesus, São Basílio passa a ilustrar a presença do Espírito na Igreja:
“E a organização da Igreja, não é claro e indiscutível que é obra do Espírito? Ele próprio deu à Igreja, diz Paulo, ‘em primeiro lugar os Apóstolos, depois os profetas, depois os mestres’... Esta ordem está organizada de acordo com a diversidade dos dons do Espírito” [11].
Na Anáfora que leva o nome de São Basílio, que a nossa atual Oração Eucarística IV tem seguido de perto, o Espírito Santo tem um lugar central.
A última imagem retrata a presença do Paráclito na escatologia: “Também no momento do evento da esperada manifestação do Senhor aos céus - escreve Basílio - não está ausente o Espírito Santo”. Neste momento haverá, para os salvos, a passagem das “primícias” para a posse plena do Espírito e para os réprobos a separação definitiva, o corte claro, entre a alma e o Espírito [12].

4. A alma e o Espírito

São Basílio não fica, porém, com a ação do Espírito na história da salvação e na Igreja. Como ascético e  homem espiritual, o seu principal interesse é pela ação do Espírito na vida de cada batizado. Embora ainda sem estabelecer a distinção e a ordem das três vias que se tornarão clássicas mais tarde, ele destaca maravilhosamente a ação do Espírito Santo na purificação da alma do pecado, na sua iluminação e na divinização que ele chama também “intimidade com Deus” [13].
Só podemos ler a página na qual, em referência constante com as Escrituras, o santo descreve essa ação e deixar-nos conquistar pelo seu entusiasmo:
“A relação de familiaridade do Espírito com a alma, não é uma aproximação no espaço - de fato, como poderia aproximar-se o incorpóreo corporalmente? -  mas, em vez disso, consiste na exclusão das paixões, as quais, como consequência da sua atração pela carne, chegam à alma e a separam da união com Deus. Purificado da imundície da qual tinha se sujado por meio do pecado e voltado para a beleza natural, como tendo restituído a uma imagem real a antiga forma por meio da purificação, só assim é possível aproximar-se do Paráclito. Ele, como um sol, reconhecendo o olho purificado, te mostrará em si mesmo a imagem do invisível. Na beata contemplação da imagem, verás a inefável beleza do arquétipo. Por meio dele se elevam os corações, os fracos são levados pela mão, aqueles que progridem atingem a perfeição. Ele, iluminando aqueles que foram purificados de toda mancha, torna-os espirituais através da comunhão com ele. E como os corpos claros e transparentes, quando um raio os atinge, tornam-se eles próprios brilhantes e refletem um outro raio, assim as almas portadoras do Espírito são iluminadas pelo Espírito; elas mesmas se tornam plenamente espirituais e transmitem aos outros a graça. Daqui vem a presciência das coisas futuras; a compreensão dos mistérios; a percepção das coisas ocultas; as distribuições dos carismas, a cidadania celeste; a dança com os anjos; a alegria sem fim; a permanência em Deus; a semelhança com Deus; o cumprimento dos desejos: tornar-se Deus” [14].
Não foi difícil para os estudiosos descobrir por detrás do texto de Basílio imagens e conceitos derivados das Enéadas de Plotino e falar, a este respeito, de uma infiltração estranha no corpo do cristianismo. Na verdade, trata-se de um tema puramente bíblico e paulino que se expressa, como era correto, em termos familiares e significativos para a cultura do tempo. Na base de tudo, Basílio não coloca a ação do homem - a contemplação -, mas a ação de Deus e a imitação de Cristo. Estamos na antítese da visão de Plotino e de toda filosofia. Tudo, para ele, começa com o Batismo que é um novo nascimento. O ato decisivo não está no fim, mas no início do caminho:
“Como na corrida dupla dos estados, uma parada e um descanso separam os caminhos em sentidos opostos, assim também na mudança de vida é necessário que uma morte se coloque no meio das duas vidas para colocar fim ao que precede e para começar as coisas sucessivas. Como conseguir descer aos infernos? Imitando a sepultura de Cristo por meio do Batismo” [15].
O esquema básico é o mesmo de Paulo. No capítulo sexto da Carta aos Romanos, o Apóstolo fala da purificação radical do pecado que acontece no Batismo, e no capítulo oitavo descreve a luta que, sustentado pelo Espírito, o cristão deve levar pelo resto da sua existência, contra os desejos da carne, para avançar na vida nova:
“Os que vivem de acordo com a carne aspiram às coisas da carne; mas os que vivem de acordo com o Espírito aspiram às coisas do Espírito. De fato, a carne aspira ao que conduz à morte; mas o Espírito aspira ao que dá vida e paz. É que a carne aspira à inimizade com Deus, uma vez que não se submete à lei de Deus; aliás nem sequer é capaz disso. Os que vivem sob o domínio da carne são incapazes de agradar a Deus (...). Portanto, irmãos, somos devedores, mas não à carne, para vivermos de acordo com a carne. É que, se viverdes de acordo com a carne, morrereis; mas, se pelo Espírito fizerdes morrer as obras do corpo, vivereis” (Rm 8,5-13).
Não devemos admirar-nos se para ilustrar a tarefa descrita por São Paulo, Basílio tenha usado uma imagem de Plotino. Ela está na origem de uma das metáforas mais universais da vida espiritual e hoje fala a nós o mesmo que aos cristãos daquela época:
“Vamos, retornes a ti mesmo e olhes; e se ainda não te vês bonito, imita o autor de uma estátua que tem que conseguir a sua beleza: em parte bate com o cinzel, em parte aplaina; aqui engrossa, ali afina, até quando tenha conseguido expressar um belo rosto na estátua. Igualmente também tu tires o supérfluo, endireita o que está torto, e, por força de purificar o que é escuro, faça que se torne brilhante e não deixe de atormentar a tua estátua até que o divino esplendor da virtude brilhe diante de ti” [16].
Se a escultura, como dizia Leonardo da Vinci, é a arte de remover, tem razão o filósofo quando compara a purificação e a santidade com a escultura. Para o cristão não se trata, porém, de alcançar uma beleza abstrata, de construir uma bonita estátua, mas de trazer à luz e tornar mais brilhante a imagem de Deus que o pecado tende constantemente a cobrir.
Conta-se que um dia Michelangelo, passeando em um pátio de Florença, viu um bloco de mármore bruto coberto de poeira e lama. Parou de repente para contemplá-lo, depois, como iluminado por um súbito clarão, disse aos presentes: “Nesta massa de pedra está escondido um anjo; quero tirá-lo daí!” E começou a trabalhar com um cinzel para moldar o anjo que havia vislumbrado. Assim é também conosco. Somos ainda massa de pedra bruta, tendo acima muita “terra” e muitos pedaços inúteis. Deus Pai nos olha e diz: “Neste pedaço de pedra se esconde a imagem do meu Filho; quero tirá-la daí, para que brilhe eternamente do meu lado no céu!” E para fazer isso usa o cinzel da cruz, nos poda (cf. Jo 15,2).
Os mais generosos não só suportam os golpes do cinzel que vêm de fora, mas também colaboram, o quanto lhes seja concedido, impondo-se pequenas ou grandes mortificações voluntárias e quebrando a vontade velha deles. Dizia um Padre do deserto: “Se queremos ser completamente livres, aprendamos a quebrar a nossa vontade, e assim, aos poucos, com a ajuda de Deus, avançaremos e chegaremos à plena liberação das paixões. É possível quebrar de vez a própria vontade em brevíssimo tempo e lhes digo como. Você está passeando e vê algo; o seu pensamento lhe diz: ‘Olha lá’, mas ele responde ao seu pensamento: ‘Não, não olho!’, e quebra a sua vontade” [17].
Este antigo Padre tem outros exemplos tirados da vida monástica. Se se está falando mal de alguém, talvez do superior; o teu homem velho diz: “Participes também tu; diga aquilo que sabes”. Mas tu respondes: “Não”. E mortificas o homem velho... Mas não é difícil alongar a lista com outros atos de renúncia, próprios do estado ao qual se vive e do trabalho que se faz.
Enquanto se vive favorecendo os desejos da carne, nós nos parecemos aos dois famosos “Bronzes de Riace”, quando foram encontrados no fundo do mar, todo cobertos de crustáceos e quase irreconhecíveis como figuras humanas. Se também nós queremos brilhar, como estas duas obras-primas após a sua restauração, a Quaresma é o momento oportuno para colocar mãos à obra.

5. Uma mortificação “espiritual”

Existe um ponto em que a transformação do ideal de Plotino em ideal cristão permaneceu incompleta, ou pelo menos pouco explícita. São Paulo, ouvimos, diz: “Se pelo Espírito mortificardes as obras do corpo, vivereis.” O Espírito não é, portanto, só o fruto da mortificação, mas também o que a torna possível; não está só no final do caminho, mas também no início. Os Apóstolos não receberam o Espírito em Pentecostes porque se tornaram fervorosos; tornaram-se fervorosos porque receberam o Espírito.
Os três Padres Capadócios eram basicamente ascetas e monges; Basílio, em particular, com as suas Regras monásticas (Asceticon), foi o fundador do monaquismo cenobítico. Isso os levou a destacar fortemente a importância do esforço humano. O irmão e discípulo de Basílio, Gregório de Nissa, vai escrever nesta linha: “Na medida em que desenvolvas tuas lutas pela piedade, nesta mesma medida se desenvolve também a grandeza da alma por meio destas lutas e destes esforços” [18].
Na geração seguinte, esta visão da ascese será retomada e desenvolvida por autores espirituais, como João Cassiano, mas separada da sólida base teológica que tinha em Basílio e em Gregório de Nissa. “É a partir deste ponto - nota Bouyer - que o pelagianismo, colocando o esforço humano antes da graça, terá o seu início” [19]. Mas este resultado negativo dificilmente pode ser atribuído a Basílio e aos Capadócios.
Voltemos, para concluir, ao motivo que faz com que a doutrina de Basílio sobre o Espírito Santo seja perenemente válida e hoje, dizia, mais do que nunca atual e necessária: a sua praticidade e adesão à vida da Igreja. Nós latinos temos um caminho privilegiado para fazer nossa e transformar em oração este mesmo tipo de pneumatologia: o hino do Veni Creator.
Ele é do início ao fim uma contemplação orante daquilo que o Espírito concretamente faz: em toda a terra e na humanidade como Espírito Criador; na Igreja, como Espírito de santificação (dom de Deus, água viva, fogo, amor e unção espiritual) e como Espírito carismático (multiforme nos seus dons, dedo da mão direita de Deus, que coloca sobre os lábios a palavra); na vida individual do fiel, como luz para a mente, amor para o coração, cura para o corpo; como nosso aliado na luta contra o mal e guia no discernimento do bem.
Invoquemo-Lo com as palavras da primeira estrofe, pedindo-lhe para fazer passar também o nosso mundo e a nossa alma do caos para o cosmos, da dispersão para a unidade, da feiura do pecado para a beleza da graça.

Veni, Creator Spiritus,
mentes tuorum visita,
imple superna gratia,
quae tu creasti pectora,

Ó vinde Espírito criador;
visita os teus fiéis no profundo,
derrama a plenitude da graça,
nos corações que criastes somente para ti.


Notas:
[1] Jean-Paul Sartre, La Nausea, trad. it, Milano, 1984, pp. 193s. Tradução nossa.
[2] Tomás de Aquino, Suma teológica, II-IIae , q. 1,a.2,ad 2.
[3] cf. G. Prestige, God in Patristic Thought, London, 1936, cap. XIII (trad. it.: Dio nei pensiero dei Padri, Bologna, il Mulino, 1969, pp. 273ss).
[4] Gregório Nazianzeno, Oratio 31, 5.10; cf. também Oratio 6: “Até quando esconderemos a lâmpada debaixo do móvel e não proclamaremos em alta voz a plena divindade do Espírito Santo?”.
[5] cf. Lumen Gentium, n. 12.
[6] João Paulo II. A Concilio Costantinopolitano I, in: AAS 73, 1981, p. 521.
[7] Basílio, Sobre o Espírito Santo, XVI, 38 (PG 32, 137B); trad. it.: E. Cavalcanti, L’esperienza di Dio nei Padri Greci, Roma, 1984.
[8] Ambrósio, Sobre o Espírito Santo, II, 32.
[9] Basílio, Sobre o Espírito Santo, XVI, 39.
[10] J. D. G. Dunn, Jesus and the Spirit, London, 1988.
[11] Basílio, Sobre o Espírito Santo, XVI, 39.
[12] ibid., XVI, 40.
[13] ibid., XIX, 49.
[14] ibid., IX, 23.
[15] ibid., XV, 35.
[16] Plotino, Enneadi I, 9 (trad. it.: V. Cilento, v. I, Laterza, Bari, 1973, p. 108).
[17] Doroteu de Gaza, Insegnamenti 1,20 (SCh 92, p. 177).
[18] Gregório de Nissa, De instituto christiano (ed. W. Jaeger, Two Rediscovered Works, Leida, 1954, p. 46).
[19] L. Bouyer, La spiritualità dei Padri, Edizioni Dehoniane, Bologna, 1968, p. 295.

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