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domingo, 3 de maio de 2026

Homilia do Papa João Paulo II: V Domingo da Páscoa (2001)

Há cerca de 25 anos, no dia 13 de maio de 2001, o Papa São João Paulo II (†2005) celebrou a Missa do V Domingo da Páscoa (Ano C) na Basílica de São Pedro, durante a qual conferiu a Ordenação Presbiteral a 34 novos sacerdotes [1].

Reproduzimos aqui a homilia do Papa polonês na ocasião:

Santa Missa com Ordenações Presbiterais
Homilia do Papa João Paulo II
Basílica de São Pedro
Domingo, 13 de maio de 2001

1. «Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns aos outros» (Jo 13,35).
O Evangelho deste V Domingo da Páscoa nos conduz de novo à intimidade do Cenáculo. Ali, durante a Última Ceia, Cristo instituiu o sacramento da Eucaristia e o Sacerdócio da Nova Aliança e deixou aos seus o «novo mandamento» do amor. Hoje revivemos a intensa atmosfera espiritual daquela hora extraordinária. As palavras do Senhor aos seus discípulos são dirigidas particularmente a vós, caríssimos candidatos ao Presbiterado, convidados a receber esta manhã o seu testamento de amor e de serviço.


Nós aqui presentes vos abraçamos com afeto. Ao vosso lado se encontram antes de tudo os vossos familiares e amigos, aos quais dirijo a minha mais cordial saudação. Em torno a vós está espiritualmente reunida toda a comunidade da Diocese de Roma, na qual realizastes o vosso itinerário de formação. Acompanham-vos neste passo decisivo os Reitores, os professores e os vossos educadores do Pontifício Seminário Romano Maior, do Almo Colégio Capranica, do Seminário “Redemptoris Mater”, do Seminário dos Oblatos Filhos de Nossa Senhora do Divino Amor, do Instituto dos Missionários “Identes” e do Instituto dos Filhos de Santa Ana.

Com especial reconhecimento me dirijo aos responsáveis pela vossa formação. Deles se fez intérprete o Cardeal Vigário no início da celebração [2]. Através dele, a quem agradeço de coração, gostaria de fazer chegar a minha viva gratidão a quantos trabalham ativamente no campo vocacional nesta Diocese.

2. «Agora foi glorificado o Filho do Homem, e Deus foi glorificado n’Ele» (Jo 13,31).
Enquanto a Liturgia nos exorta a permanecer no Cenáculo em contemplação interior, voltamos a escutar o evangelista João que, sempre atento às ressonâncias do Coração de Cristo, relata as palavras que Ele pronunciou depois que Judas Iscariotes saiu. Jesus fala da sua glória, daquela glória que o Pai e o Filho se oferecem reciprocamente no Mistério Pascal.

Caríssimos ordenandos, hoje Cristo vos convida a entrar nessa glória e a não buscar qualquer outra glória fora dela. Também para vós esta é uma “hora” decisiva. Com efeito, a Ordenação é o momento em que Cristo, através da consagração no Espírito Santo, vos associa de maneira singular ao seu Sacerdócio para a salvação do mundo. Cada um de vós é constituído para dar glória a Deus in persona Christi Capitis. Como Cristo e unidos a Ele, glorificareis a Deus e sereis glorificados por Ele, oferecendo-vos a vós mesmos para a salvação do mundo (cf. Jo 6,51), amando até o fim as pessoas que o Pai vos confiar (cf. Jo 13,1), lavando os pés uns dos outros (cf. Jo 13,14).

O Senhor vos entrega de modo novo o seu mandamento: «Como Eu vos amei, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros» (Jo 13,34). Isto constitui para vós um dom e um compromisso: dom do jugo suave e leve de Cristo (cf. Mt 11,30); compromisso de serdes sempre os primeiros a carregar esse jugo, fazendo-vos humildes modelos do rebanho (cf. 1Pd 5,3) a vós confiado pelo Bom Pastor. Deveis recorrer constantemente à sua ajuda. Deveis inspirar-vos sempre no seu exemplo.

3. Hoje, pensando mais uma vez na rica experiência do Ano Jubilar, gostaria de vos entregar de novo simbolicamente a Carta Apostólica Novo millennio ineunte, que traça as linhas do caminho da Igreja nesta nova etapa da história. Cabe a vós orientar os passos do povo cristão com generosa dedicação, tendo em conta especialmente dois grandes âmbitos de empenho pastoral: «recomeçar a partir de Cristo» (nn. 29-41) e ser «testemunhas do Amor» (nn. 42-57). No interior deste segundo âmbito, caracterizado pela comunhão e pela caridade, é determinante a «capacidade da comunidade cristã de dar espaço a todos os dons do Espírito», estimulando «todos os batizados e crismados a tomar consciência da própria responsabilidade ativa na vida eclesial» (n. 46).

No seu sentido mais amplo e fundamental, é essa a “pastoral vocacional” que é necessário e urgente pôr em prática de maneira ampla e pormenorizada. Trata-se de suscitar e cultivar cada vez mais uma “mentalidade vocacional” que se traduza em um estilo pessoal e comunitário orientado para a escuta, o discernimento e a resposta generosa a Deus que chama.

Caríssimos candidatos ao Presbiterado, a vossa vocação é também fruto da oração da Igreja, assim como do trabalho assíduo e paciente de tantos operários da messe do Senhor, que lavraram, semearam e cuidaram do terreno também para vós. A vossa perseverança está vinculada a essa solidariedade espiritual, que jamais deve faltar na Igreja. Por isso, gostaria de agradecer aqui todos aqueles que, em silêncio e com solicitude quotidiana, oferecem a sua oração e o seu sofrimento pelos sacerdotes e pelas vocações.

4. Paulo e Barnabé «voltaram para as cidades de Listra, Icônio e Antioquia. Encorajando os discípulos, eles os exortavam a permanecerem firmes na fé, dizendo-lhes: “É preciso que passemos por muitos sofrimentos para entrar no Reino de Deus”» (At 14,21-22). Com poucos traços é delineada a vida da Comunidade cristã, chamada a “permanecer firme na fé” diante das provações e das inúmeras tribulações, necessárias “para entrarmos no Reino de Deus”.

Caros ordenandos, conscientes da vossa missão, tendei à santidade, difundi o amor. Antes de tudo, sede apaixonados pela Igreja, pela Igreja terrena e pela Igreja celeste, contemplando-a com fé e amor, apesar das manchas e das rugas que possam marcar o seu rosto humano. Sabei ver nela «a cidade santa, a nova Jerusalém» que, como refere o Apóstolo no Livro do Apocalipse, «descia do Céu, de junto de Deus, vestida qual esposa enfeitada para o seu marido» (Ap 21,2).

Os Atos dos Apóstolos destacam o vínculo dos missionários com a comunidade. A comunidade é o ambiente vital do qual eles partem e ao qual retornam: dela recebem o impulso, por assim dizer, e a ela comunicam a experiência vivida, reconhecendo os sinais da ação de Deus na missão. O presbítero não é o homem das iniciativas individuais; é o ministro do Evangelho em nome da Igreja. Cada uma das suas obras apostólicas parte da Igreja e retorna para a Igreja.

5. Caros ordenandos, em torno a vós jamais falte o apoio orante da comunidade. Paulo e Barnabé foram «entregues à graça de Deus, para o trabalho que haviam realizado» (At 14,26). Também vós, caríssimos, hoje sois «entregues à graça de Deus» para a missão que deveis realizar na Igreja: ser ministros de Cristo Sacerdote e Pastor no meio do seu Povo. A comunidade que está em Roma reza por vós. Intercedem os Santos Apóstolos Pedro e Paulo. Intercede a Virgem Maria, Salus Populi Romani e Mãe dos Sacerdotes.

Deveis partir sustentados e animados por esta comunhão de profunda oração! Avançai corajosamente para águas mais profundas, com as velas abertas ao sopro do Espírito Santo. Assim, sereis felizes por tudo aquilo que o Senhor realizar por meio de vós (cf. At 14,27) e experimentareis, mesmo entre provações e dificuldades, a grandeza e a alegria da vossa missão. Assim seja!

Jesus Cristo, Sumo e Eterno Sacerdote, com os Apóstolos Pedro e Paulo

Fonte: Santa Sé (com pequenas correções feitas pelo autor deste blog).

Notas:

[1] Tradicionalmente as Ordenações Presbiterais na Diocese de Roma se celebram no IV Domingo da Páscoa, o “Domingo do Bom Pastor”. Em 2001, porém, nesse domingo o Papa estava realizando uma “Peregrinação nos passos de São Paulo, Apóstolo”, celebrando a Missa em Damasco (Síria).

[2] O Papa se refere ao Cardeal Camillo Ruini, Vigário Geral da Diocese de Roma de 1991 a 2008.

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