Há cerca de 25 anos, no dia 13 de maio de 2001, o Papa São João Paulo II (†2005) celebrou a Missa do V Domingo da Páscoa (Ano C) na Basílica de São Pedro, durante a qual conferiu a Ordenação Presbiteral a 34 novos sacerdotes [1].
Reproduzimos aqui a homilia do Papa polonês na ocasião:
Santa Missa com Ordenações Presbiterais
Homilia do Papa João Paulo II
Basílica de São Pedro
Domingo, 13 de maio de 2001
1. «Nisto
todos conhecerão que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns aos outros»
(Jo 13,35).
O Evangelho
deste V Domingo da Páscoa nos conduz de novo à intimidade do Cenáculo.
Ali, durante a Última Ceia, Cristo instituiu o sacramento da Eucaristia e o
Sacerdócio da Nova Aliança e deixou aos seus o «novo mandamento» do amor. Hoje
revivemos a intensa atmosfera espiritual daquela hora extraordinária. As
palavras do Senhor aos seus discípulos são dirigidas particularmente a vós,
caríssimos candidatos ao Presbiterado, convidados a receber esta manhã o seu
testamento de amor e de serviço.
Nós aqui
presentes vos abraçamos com afeto. Ao vosso lado se encontram antes de tudo os
vossos familiares e amigos, aos quais dirijo a minha mais cordial saudação. Em
torno a vós está espiritualmente reunida toda a comunidade da Diocese de Roma,
na qual realizastes o vosso itinerário de formação. Acompanham-vos neste passo
decisivo os Reitores, os professores e os vossos educadores do Pontifício
Seminário Romano Maior, do Almo Colégio Capranica, do Seminário “Redemptoris
Mater”, do Seminário dos Oblatos Filhos de Nossa Senhora do Divino Amor, do
Instituto dos Missionários “Identes” e do Instituto dos Filhos de Santa
Ana.
Com especial
reconhecimento me dirijo aos responsáveis pela vossa formação. Deles se fez
intérprete o Cardeal Vigário no início da celebração [2]. Através dele, a quem
agradeço de coração, gostaria de fazer chegar a minha viva gratidão a quantos
trabalham ativamente no campo vocacional nesta Diocese.
2. «Agora
foi glorificado o Filho do Homem, e Deus foi glorificado n’Ele» (Jo 13,31).
Enquanto a
Liturgia nos exorta a permanecer no Cenáculo em contemplação interior, voltamos
a escutar o evangelista João que, sempre atento às ressonâncias do Coração de
Cristo, relata as palavras que Ele pronunciou depois que Judas Iscariotes saiu.
Jesus fala da sua glória, daquela glória que o Pai e o Filho se
oferecem reciprocamente no Mistério Pascal.
Caríssimos ordenandos,
hoje Cristo vos convida a entrar nessa glória e a não buscar qualquer outra
glória fora dela. Também para vós esta é uma “hora” decisiva. Com
efeito, a Ordenação é o momento em que Cristo, através da consagração no
Espírito Santo, vos associa de maneira singular ao seu Sacerdócio para a
salvação do mundo. Cada um de vós é constituído para dar glória a Deus in
persona Christi Capitis. Como Cristo e unidos a Ele, glorificareis
a Deus e sereis glorificados por Ele, oferecendo-vos a vós
mesmos para a salvação do mundo (cf. Jo 6,51), amando
até o fim as pessoas que o Pai vos confiar (cf. Jo 13,1),
lavando os pés uns dos outros (cf. Jo 13,14).
O Senhor vos entrega
de modo novo o seu mandamento: «Como Eu vos amei, assim também
vós deveis amar-vos uns aos outros» (Jo 13,34). Isto constitui para
vós um dom e um compromisso: dom do jugo suave e leve de
Cristo (cf. Mt 11,30); compromisso de serdes sempre os
primeiros a carregar esse jugo, fazendo-vos humildes modelos do rebanho (cf. 1Pd 5,3)
a vós confiado pelo Bom Pastor. Deveis recorrer constantemente à sua ajuda. Deveis
inspirar-vos sempre no seu exemplo.
3. Hoje, pensando
mais uma vez na rica experiência do Ano Jubilar, gostaria de vos entregar de
novo simbolicamente a Carta Apostólica Novo millennio ineunte, que
traça as linhas do caminho da Igreja nesta nova etapa da história. Cabe a vós
orientar os passos do povo cristão com generosa dedicação, tendo em conta especialmente
dois grandes âmbitos de empenho pastoral: «recomeçar a partir de Cristo» (nn.
29-41) e ser «testemunhas do Amor» (nn. 42-57). No interior deste segundo
âmbito, caracterizado pela comunhão e pela caridade, é determinante a «capacidade
da comunidade cristã de dar espaço a todos os dons do Espírito», estimulando «todos
os batizados e crismados a tomar consciência da própria responsabilidade ativa
na vida eclesial» (n. 46).
No seu sentido
mais amplo e fundamental, é essa a “pastoral vocacional” que é
necessário e urgente pôr em prática de maneira ampla e pormenorizada. Trata-se
de suscitar e cultivar cada vez mais uma “mentalidade vocacional” que se
traduza em um estilo pessoal e comunitário orientado para a escuta, o
discernimento e a resposta generosa a Deus que chama.
Caríssimos
candidatos ao Presbiterado, a vossa vocação é também fruto da oração da Igreja,
assim como do trabalho assíduo e paciente de tantos operários da messe do
Senhor, que lavraram, semearam e cuidaram do terreno também para vós. A vossa
perseverança está vinculada a essa solidariedade espiritual, que jamais deve
faltar na Igreja. Por isso, gostaria de agradecer aqui todos aqueles que, em
silêncio e com solicitude quotidiana, oferecem a sua oração e o seu sofrimento
pelos sacerdotes e pelas vocações.
4. Paulo e
Barnabé «voltaram para as cidades de Listra, Icônio e Antioquia. Encorajando os
discípulos, eles os exortavam a permanecerem firmes na fé, dizendo-lhes: “É
preciso que passemos por muitos sofrimentos para entrar no Reino de Deus”» (At 14,21-22).
Com poucos traços é delineada a vida da Comunidade cristã, chamada a “permanecer
firme na fé” diante das provações e das inúmeras tribulações, necessárias “para
entrarmos no Reino de Deus”.
Caros ordenandos,
conscientes da vossa missão, tendei à santidade, difundi o amor. Antes de tudo,
sede apaixonados pela Igreja, pela Igreja terrena e pela Igreja celeste,
contemplando-a com fé e amor, apesar das manchas e das rugas que possam marcar
o seu rosto humano. Sabei ver nela «a cidade santa, a nova Jerusalém» que, como
refere o Apóstolo no Livro do Apocalipse, «descia do Céu, de junto de
Deus, vestida qual esposa enfeitada para o seu marido» (Ap 21,2).
Os Atos dos
Apóstolos destacam o vínculo dos missionários com a comunidade. A
comunidade é o ambiente vital do qual eles partem e ao qual retornam: dela
recebem o impulso, por assim dizer, e a ela comunicam a experiência vivida,
reconhecendo os sinais da ação de Deus na missão. O presbítero não é o homem
das iniciativas individuais; é o ministro do Evangelho em nome da Igreja. Cada
uma das suas obras apostólicas parte da Igreja e retorna para a Igreja.
5. Caros ordenandos,
em torno a vós jamais falte o apoio orante da comunidade. Paulo
e Barnabé foram «entregues à graça de Deus, para o trabalho que haviam
realizado» (At 14,26). Também vós, caríssimos, hoje sois «entregues
à graça de Deus» para a missão que deveis realizar na Igreja: ser ministros de
Cristo Sacerdote e Pastor no meio do seu Povo. A comunidade que está em Roma
reza por vós. Intercedem os Santos Apóstolos Pedro e Paulo. Intercede a Virgem
Maria, Salus Populi Romani e Mãe dos Sacerdotes.
Deveis partir
sustentados e animados por esta comunhão de profunda oração! Avançai
corajosamente para águas mais profundas, com as velas abertas ao sopro do
Espírito Santo. Assim, sereis felizes por tudo aquilo que o Senhor realizar por
meio de vós (cf. At 14,27) e experimentareis, mesmo
entre provações e dificuldades, a grandeza e a alegria da vossa missão. Assim
seja!
![]() |
| Jesus Cristo, Sumo e Eterno Sacerdote, com os Apóstolos Pedro e Paulo |
Fonte: Santa Sé (com pequenas correções feitas pelo autor deste blog).
Notas:
[1] Tradicionalmente as Ordenações Presbiterais na Diocese de Roma se celebram no IV Domingo da Páscoa, o “Domingo do Bom Pastor”. Em 2001, porém, nesse domingo o Papa estava realizando uma “Peregrinação nos passos de São Paulo, Apóstolo”, celebrando a Missa em Damasco (Síria).
[2] O Papa se refere ao Cardeal Camillo Ruini, Vigário Geral da Diocese de Roma de 1991 a 2008.


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