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quarta-feira, 8 de abril de 2026

Catequeses do Jubileu 2025: Páscoa de Jesus 5

Nesta Oitava Pascal, concluindo as reflexões sobre a Páscoa de Jesus proferidas pelo Papa Leão XIV como parte das Catequeses do Jubileu Ordinário de 2025, “Jesus Cristo, nossa esperança”, trazemos suas meditações sobre a Ressurreição (Jo 20,19-23) e sobre os discípulos de Emaús (Lc 24,13-35).

Papa Leão XIV
Audiência Geral
Quarta-feira, 01 de outubro de 2025
Jubileu 2025: Jesus Cristo, nossa esperança
3.9. A Páscoa de Jesus: A Ressurreição (Jo 20,19-23)

Queridos irmãos e irmãs, bom dia!
O centro da nossa fé e o coração da nossa esperança se encontram bem enraizados na Ressurreição de Cristo. Lendo atentamente os Evangelhos, compreendemos que este mistério é surpreendente não só porque um homem - o Filho de Deus - ressuscitou dos mortos, mas também pelo modo como escolheu fazê-lo. Com efeito, a Ressurreição de Jesus não é um triunfo retumbante, não é uma vingança ou uma revanche contra os seus inimigos. É o testemunho maravilhoso de como o amor é capaz de se levantar depois de uma grande derrota para prosseguir o seu irrefreável caminho.

Quando nos levantamos depois de um trauma causado por outros, muitas vezes a primeira reação é a raiva, o desejo de fazer alguém pagar pelo que sofremos. O Ressuscitado não reage desse modo. Saindo da mansão dos mortos, Jesus não se vinga de modo algum. Não volta com gestos de poder, mas manifesta com mansidão a alegria de um amor maior do que qualquer ferida e mais forte do que qualquer traição.

Encontro do Ressuscitado com os Apóstolos
(Franciszek Smuglewicz)

O Ressuscitado não sente necessidade alguma de reiterar ou afirmar a sua superioridade. Ele aparece aos seus amigos - os discípulos - e o faz com extrema discrição, sem forçar os tempos da sua capacidade de acolhida. O seu único desejo é voltar a estar em comunhão com eles, ajudando-os a superar o sentimento de culpa. Vemos muito bem isso no Cenáculo, onde o Senhor aparece aos seus amigos fechados no medo. É um momento que manifesta uma força extraordinária: depois de ter descido aos abismos da morte para libertar aqueles que estavam presos ali, Jesus entra na sala fechada daqueles que estão paralisados pelo medo, levando um dom que ninguém ousaria esperar: a paz!

A sua saudação é simples, quase banal: «A paz esteja convosco!» (Jo 20,19). Mas é acompanhada por um gesto tão belo que chega a ser quase inconveniente: Jesus mostra aos discípulos as mãos e o lado, com os sinais da Paixão. Por que exibir as feridas precisamente diante de quem, naquelas horas dramáticas, o negou e abandonou? Por que não esconder esses sinais de dor e evitar reabrir a ferida da vergonha?

No entanto, o Evangelho diz que, vendo o Senhor, os discípulos «se alegraram» (v. 20). O motivo é profundo: Jesus já está plenamente reconciliado com tudo aquilo que sofreu. Não há sombra de rancor. As feridas não servem para repreender, mas para confirmar um amor mais forte do que qualquer infidelidade. São a prova de que, precisamente no momento da nossa falha, Deus não desistiu. Não renunciou a nós.

Assim, o Senhor se mostra nu e desarmado. Não exige, não chantageia. O seu amor não humilha; é a paz de quem sofreu por amor e agora pode finalmente afirmar que valeu a pena!

Nós, ao contrário, muitas vezes mascaramos as nossas feridas por orgulho ou por medo de parecer frágeis. Dizemos “não importa”, “tudo passou”, mas não estamos realmente em paz com as traições que nos feriram. Às vezes preferimos esconder a nossa dificuldade em perdoar para não parecer vulneráveis e não correr o risco de sofrer novamente. Jesus não! Ele oferece as suas chagas como garantia de perdão. E mostra que a Ressurreição não é a anulação do passado, mas a sua transfiguração em uma esperança de misericórdia.

Em seguida, o Senhor repete: «A paz esteja convosco!». E acrescenta: «Como o Pai me enviou, também Eu vos envio» (v. 21). Com estas palavras, confia aos Apóstolos uma tarefa que não é tanto um poder, mas uma responsabilidade: ser instrumentos de reconciliação no mundo. Como se dissesse: “Quem poderá anunciar o rosto misericordioso do Pai, senão vós, que experimentastes o fracasso e o perdão?”.

Jesus sopra sobre eles e dá o Espírito Santo (v. 22). É o mesmo Espírito que o sustentou na obediência ao Pai e no amor até a Cruz. A partir desse momento, os Apóstolos não poderão mais silenciar aquilo que viram e ouviram: que Deus perdoa, levanta, restitui confiança.

Este é o coração da missão da Igreja: não administrar um poder sobre os outros, mas comunicar a alegria de quem foi amado precisamente quando não o merecia. É a força que fez nascer e crescer a comunidade cristã: homens e mulheres que descobriram a beleza de voltar à vida para poder doá-la aos outros!

Caros irmãos e irmãs, também nós somos enviados. Também a nós o Senhor mostra as suas feridas e diz: A paz esteja convosco! Não tenhais medo de mostrar as vossas feridas curadas pela misericórdia. Não tenhais medo de vos aproximar de quem está fechado no medo ou no sentimento de culpa. Que o sopro do Espírito nos torne, também nós, testemunhas dessa paz e desse amor mais forte do que qualquer derrota.

Papa Leão XIV
Audiência Geral
Quarta-feira, 08 de outubro de 2025
Jubileu 2025: Jesus Cristo, nossa esperança
3.10. A Páscoa de Jesus: Reacender (Lc 24,13-35)

Queridos irmãos e irmãs, bom dia!
Hoje gostaria de vos convidar a refletir sobre um aspecto surpreendente da Ressurreição de Cristo: a sua humildade. Se recordamos os relatos evangélicos, percebemos que o Senhor Ressuscitado não faz nada de espetacular para se impor à fé dos seus discípulos. Não se apresenta rodeado de legiões de anjos, não faz gestos sensacionais, não pronuncia discursos solenes para revelar os segredos do universo. Ao contrário, aproxima-se discretamente, como um viajante qualquer, como um homem faminto que pede para partilhar um pouco de pão (cf. Lc 24,15.41).

Maria Madalena o confunde com um jardineiro (cf. Jo 20,15). Os discípulos de Emaús creem que se trata de um forasteiro (cf. Lc 24,18). Pedro e os outros pescadores pensam que é um simples transeunte (cf. Jo 21,4). Nós esperaríamos efeitos especiais, sinais de poder, provas esmagadoras. Mas o Senhor não busca isso: prefere a linguagem da proximidade, da normalidade, da mesa compartilhada.

Irmãos e irmãs, há uma mensagem preciosa nisso: a Ressurreição não é um “golpe de cena” teatral, é uma transformação silenciosa que enche de sentido cada gesto humano. Jesus Ressuscitado come um pedaço de peixe diante dos seus discípulos: não é um detalhe marginal, é a confirmação de que o nosso corpo, a nossa história, as nossas relações não são uma embalagem a ser jogada fora. Estão destinados à plenitude da vida. Ressuscitar não significa tornar-se espíritos evanescentes, mas entrar em uma comunhão mais profunda com Deus e com os irmãos, em uma humanidade transfigurada pelo amor.

Na Páscoa de Cristo tudo pode se tornar graça. Até as coisas mais comuns: comer, trabalhar, esperar, cuidar da casa, apoiar um amigo. A Ressurreição não subtrai a vida ao tempo e ao esforço, mas transforma o seu sentido e o seu “sabor”. Cada gesto feito com gratidão e na comunhão antecipa o Reino de Deus.

No entanto, há um obstáculo que muitas vezes nos impede de reconhecer essa presença de Cristo no quotidiano: a pretensão de que a alegria deve ser desprovida de feridas. Os discípulos de Emaús caminham tristes porque esperavam outro final, esperavam um Messias que não conhecesse a cruz. Apesar de terem ouvido dizer que o sepulcro está vazio, não conseguem sorrir. Mas Jesus se põe ao lado deles, ajudando-os pacientemente a compreender que a dor não é a negação da promessa, mas o caminho através do qual Deus manifestou a medida do seu amor (cf. Lc 24,13-27).

Quando por fim se sentam à mesa com Ele e partem o pão, os seus olhos se abrem. E percebem que o seu coração já ardia, embora não o soubessem (cf. Lc 24,28-32). Esta é a maior surpresa: descobrir que, sob as cinzas do desencanto e do cansaço, há sempre uma brasa viva, que só espera ser reavivada.

Irmãos e irmãs, a Ressurreição de Cristo nos ensina que não há história tão marcada pela desilusão ou pelo pecado que não possa ser visitada pela esperança. Nenhuma queda é definitiva, nenhuma noite é eterna, nenhuma ferida está destinada a permanecer aberta para sempre. Por mais distantes, perdidos ou indignos que possamos nos sentir, não há distância que possa extinguir a força infalível do amor de Deus.

Às vezes pensamos que o Senhor só vem nos visitar nos momentos de recolhimento ou de fervor espiritual, quando nos sentimos à altura, quando a nossa vida parece ordenada e luminosa. Pelo contrário, o Ressuscitado se faz próximo precisamente nos lugares mais escuros: nos nossos fracassos, nas relações desgastadas, nas fadigas quotidianas que pesam sobre os nossos ombros, nas dúvidas que nos desencorajam. Nada do que somos, nenhum fragmento da nossa existência lhe é estranho.

Hoje o Senhor Ressuscitado se aproxima de cada um de nós precisamente enquanto percorremos os nossos caminhos - aqueles do trabalho e do compromisso, mas também aqueles do sofrimento e da solidão - e, com infinita delicadeza, pede que nos deixemos aquecer o coração. Não se impõe com clamor, não pretende ser reconhecido imediatamente. Espera com paciência o momento em que os nossos olhos se abrirão para vislumbrar o seu rosto amigo, capaz de transformar a desilusão em espera confiante, a tristeza em gratidão, a resignação em esperança.

O Ressuscitado deseja apenas manifestar a sua presença, fazer-se nosso companheiro de caminho e acender em nós a certeza de que a sua vida é mais forte do que qualquer morte. Peçamos, então, a graça de reconhecer a sua presença humilde e discreta, de não pretender uma vida sem provações, de descobrir que cada dor, se habitada pelo amor, pode se tornar lugar de comunhão.

E assim, como os discípulos de Emaús, também nós voltamos para casa com um coração que arde de alegria. Uma alegria simples, que não elimina as feridas, mas as ilumina. Uma alegria que nasce da certeza de que o Senhor está vivo, caminha conosco, dando-nos a cada instante a possibilidade de recomeçar.

O Ressuscitado com os discípulos de Emáus
(Abraham Bloemaert)

Fonte: Santa Sé (01 de outubro e 08 de outubro de 2025).

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