Há 20 anos, no dia 01 de janeiro de 2006, o Papa Bento XVI (†2022) presidiu pela primeira vez no seu pontificado a Missa da Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus. Nesta mesma ocasião foi celebrado o 39º Dia Mundial da Paz, com o tema “Na verdade, a paz”. Repropomos aqui sua homilia na ocasião:
Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus
39º Dia Mundial da Paz
Homilia do Papa Bento XVI
Basílica de São Pedro
Domingo, 01 de janeiro de 2006
Amados irmãos e irmãs,
Na Liturgia de
hoje o nosso olhar continua dirigido para o grande mistério da Encarnação do
Filho de Deus enquanto, com particular ênfase, contemplamos a maternidade da
Virgem Maria. No trecho paulino que ouvimos (Gl 4,4-7), o Apóstolo refere-se de
maneira muito discreta àquela por meio da qual o Filho de Deus entra no mundo: Maria
de Nazaré, a Mãe de Deus, a Theotókos. No início de um novo ano, somos
como que convidados a nos colocarmos na sua escola, na escola da discípula fiel
do Senhor, para aprender dela a acolher na fé e na oração a salvação que Deus quer
derramar sobre aqueles que confiam no seu amor misericordioso.
A salvação é um
dom de Deus. Na 1ª leitura ela nos foi apresentada como bênção: “O Senhor te abençoe e te guarde...
volte para ti o seu rosto e te dê a paz”
(Nm 6,24.26). Trata-se
aqui da bênção que os sacerdotes costumavam invocar sobre o povo no final das
grandes festas litúrgicas, particularmente na festa do ano novo. Estamos diante
de um texto muito significativo, cadenciado pelo nome do Senhor que se repete
no início de cada versículo. Um texto que não se limita a uma simples
enunciação de princípio, mas tende a realizar aquilo que afirma. Como sabemos, com
efeito, no pensamento semítico a bênção do Senhor produz, pela sua própria
força, o bem-estar e a salvação, assim como a maldição traz desgraça e ruína.
Além disso, a eficácia da bênção se concretiza, mais especificamente, por parte
de Deus que nos protege (v. 24), nos é propício (v. 25) e nos concede a paz, ou
seja, em outros termos, que nos oferece a abundância da felicidade.
Ao nos fazer
ouvir novamente essa antiga bênção no início de um novo ano solar, é como se a Liturgia
quisesse nos encorajar a invocar, por nossa vez, a bênção do Senhor sobre o
novo ano que dá os seus primeiros passos, para que seja para todos nós um ano
de prosperidade e de paz. E é precisamente estes bons votos que gostaria de
dirigir aos ilustres Embaixadores do Corpo Diplomático acreditado junto à Santa
Sé que participam na hodierna celebração litúrgica. Saúdo o Cardeal Angelo
Sodano, meu Secretário de Estado. Juntamente com ele, saúdo o Cardeal Renato
Raffaele Martino e todos os membros do Pontifício Conselho “Justiça e Paz”. Sou
particularmente grato a eles pelo compromisso assumido na difusão da anual Mensagem
para o Dia Mundial da Paz, dirigida aos cristãos e a todos os homens e
mulheres de boa vontade. Uma saudação especial também aos numerosos pueri cantores que, com o seu canto, tornam ainda
mais solene esta Missa, com a qual pedimos a Deus o dom da paz para o mundo
inteiro.
Escolhendo para
a Mensagem deste Dia
Mundial da Paz o tema: “Na
verdade, a paz”, quis manifestar a
convicção de que “sempre que o
homem se deixa iluminar pelo esplendor da verdade, empreende quase que naturalmente
o caminho da paz” (n. 3). Como não ver uma eficaz e apropriada realização disso
na passagem evangélica que acaba de ser proclamada (Lc 2,16-21), na qual
pudemos contemplar a cena dos pastores a caminho de Belém, para adorar o
Menino? Não são acaso aqueles pastores - que o evangelista Lucas nos descreve
na sua pobreza e na sua simplicidade, obedientes ao mandato do anjo e dóceis à
vontade de Deus - a imagem mais facilmente acessível a cada um de nós do homem
que se deixa iluminar pela verdade, tornando-se assim capaz de construir um
mundo de paz?
A paz! Esta
grande aspiração do coração de cada homem e mulher se edifica dia após dia com
a contribuição de todos, valorizando também a admirável herança que nos foi
legada pelo Concílio Vaticano II com a Constituição Pastoral Gaudium et spes, na qual se
afirma, entre outras coisas, que a humanidade não conseguirá “edificar um mundo
verdadeiramente mais humano para todos os homens no mundo inteiro, a não ser
que todos, com espírito renovado, se convertam à verdadeira paz” (n. 77). O
momento histórico no qual a Constituição Gaudium
et spes foi promulgada, no
dia 07 de dezembro de 1965, não era muito diferente do nosso; naquela época,
como infelizmente também nos dias de hoje, tensões de vários tipos delineavam-se
no horizonte mundial. Diante da persistência de situações de injustiça e de
violência, que continuam a oprimir várias regiões da terra, diante daquelas que
se apresentam como as novas e mais insidiosas ameaças à paz - o terrorismo, o
niilismo e o fundamentalismo fanático -, torna-se mais necessário do que nunca
trabalhar em conjunto pela paz!
É preciso um “sobressalto”
de coragem e de confiança em Deus e no homem para escolher percorrer o caminho
da paz. E isso por parte de todos: cada indivíduo e cada povo, as organizações
internacionais e as potências mundiais. Na Mensagem para a celebração
deste dia, quis exortar particularmente a Organização das Nações Unidas a tomar
uma renovada consciência das suas responsabilidades na promoção dos valores da
justiça, da solidariedade e da paz, em um mundo cada vez mais marcado pelo
vasto fenômeno da globalização. Se a paz é a aspiração de cada pessoa de boa
vontade, para os discípulos de Cristo ela é um mandato permanente que
compromete a todos; é uma missão exigente que nos impele a anunciar e testemunhar
o “Evangelho da Paz”, proclamando que o reconhecimento da plena verdade de Deus
é condição prévia e indispensável para a consolidação da verdade da paz. Que essa
consciência aumente cada vez mais, para que cada comunidade cristã se torne “fermento”
de uma humanidade renovada no amor.
“Quanto a
Maria, guardava todos estes fatos e meditava sobre eles em seu coração” (Lc 2, 19). O primeiro dia do ano é
colocado sob o sinal de uma mulher, Maria. O evangelista Lucas a descreve como
a Virgem silenciosa, constantemente à escuta da palavra eterna, que vive na
Palavra de Deus. Maria conserva no seu coração as palavras que provêm de Deus
e, unindo-as como em um mosaico, aprende a compreendê-las. Na sua escola também
nós queremos aprender a nos tornarmos atentos e dóceis discípulos do Senhor.
Com a sua ajuda materna, desejamos nos comprometer a trabalhar alegremente no “canteiro”
da paz, no seguimento de Cristo, Príncipe da Paz. Seguindo o exemplo da Virgem
Santa, queremos nos deixar orientar sempre e unicamente por Jesus Cristo, que é
o mesmo “ontem, hoje e sempre” (Hb 13,8).
Amém!
![]() |
| Virgem Maria com o Menino Jesus (Francesco Trevisani) |
Fonte: Santa Sé.


Nenhum comentário:
Postar um comentário