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sábado, 10 de janeiro de 2026

Homilia do Papa Bento XVI: Batismo do Senhor (2006)

Neste domingo em que celebramos a Festa do Batismo do Senhor repropomos a homilia proferida pelo Papa Bento XVI (†2022) nesta ocasião há 20 anos, no dia 08 de janeiro de 2006, durante a Missa com o Batismo de algumas crianças na Capela Sistina, aprofundando o significado desse Sacramento:

Festa do Batismo do Senhor
Santa Missa e Batismo de algumas crianças
Homilia do Papa Bento XVI 
Capela Sistina
Domingo, 08 de janeiro de 2006

Queridos pais, padrinhos e madrinhas,
Amados irmãos e irmãs,
O que acontece no Batismo? O que esperamos do Batismo? Vós destes uma resposta ao entrar nesta Capela: esperamos para os nossos filhos a vida eterna. Esta é a finalidade do Batismo. Mas como pode se realizar isso? Como pode o Batismo dar a vida eterna? O que é a vida eterna?

Poderíamos dizer com palavras mais simples: esperamos para estas nossas crianças uma vida boa; a vida verdadeira; a felicidade mesmo em um futuro ainda desconhecido. Nós não somos capazes de garantir este dom durante todo o futuro desconhecido e, por isso, nos dirigimos ao Senhor para obter d’Ele este dom.

O Papa batiza uma criança na Capela Sistina

À pergunta: “Como acontecerá isto?” podemos dar duas respostas. A primeira: no Batismo cada criança é inserida em uma companhia de amigos que nunca a abandonará, nem na vida e nem na morte, porque esta companhia de amigos é a família de Deus, que traz em si a promessa da eternidade. Esta companhia de amigos, esta família de Deus, na qual agora a criança é inserida, a acompanhará sempre, também nos dias de sofrimento, nas noites escuras da vida; lhe dará consolo, conforto, luz. Esta companhia, esta família, lhe dará palavras de vida eterna. Palavras de luz que respondem aos grandes desafios da vida e dão a indicação justa sobre o caminho a empreender. Esta companhia oferece à criança consolo e conforto, o amor de Deus também no limiar da morte, no vale escuro da morte. Ela lhe dará amizade, lhe dará vida. E esta companhia, absolutamente fiável, nunca desaparecerá. Ninguém sabe o que acontecerá no nosso planeta, na nossa Europa, nos próximos cinquenta, sessenta, setenta anos. Mas, sobre um ponto temos a certeza: a família de Deus estará sempre presente e quem pertence a esta família nunca ficará sozinho, terá sempre a amizade segura d’Aquele que é a vida.

E assim chegamos à segunda resposta. Esta família de Deus, esta companhia de amigos, é eterna, porque é comunhão com Aquele que venceu a morte, que tem nas mãos as chaves da vida. Estar na companhia, na família de Deus, significa estar em comunhão com Cristo, que é vida e dá amor eterno além da morte. E se podemos dizer que amor e verdade são fontes de vida, são a vida - e uma vida sem amor não é vida -, podemos dizer que esta companhia com Aquele que é vida realmente, com Aquele que é o Sacramento da vida, responderá à vossa expectativa, à vossa esperança.

Sim, o Batismo insere na comunhão com Cristo e assim dá vida, a vida. Interpretamos desse modo o primeiro diálogo que tivemos aqui, na entrada da Capela Sistina. Agora, depois da bênção da água, seguirá um segundo diálogo de grande importância. O conteúdo é este: o Batismo - como vimos - é um dom; o dom da vida. Mas um dom deve ser acolhido, deve ser vivido. Um dom de amizade implica um “sim” ao amigo e um “não” a tudo que não é compatível com esta amizade, a tudo que é incompatível com a vida da família de Deus, com a vida verdadeira em Cristo. E assim, neste segundo diálogo, são pronunciados três vezes “nãos” e três “sins”. Diz-se “não” e renuncia-se às tentações, ao pecado, ao diabo. Conhecemos bem estas coisas, mas, talvez porque as ouvimos demasiadas vezes, estas palavras não nos dizem muito. Então devemos aprofundar um pouco os conteúdos destes “nãos”. A que dizemos “não”? Só assim podemos compreender ao que desejamos dizer “sim”.

Na Igreja antiga estes “nãos” eram resumidos em uma expressão que para os homens daquele tempo era bem compreensível: renuncia-se - assim se dizia - à “pompa diabuli”, isto é, à promessa da vida em abundância, daquela aparência de vida que parecia vir do mundo pagão, das suas liberdades, do seu modo de viver apenas segundo o que agradava. Era, portanto, um “não” a uma cultura aparentemente de abundância de vida, mas que na realidade era uma “anticultura” da morte. Era o “não” àqueles espetáculos onde a morte, a crueldade, a violência tinham se tornado diversão. Pensemos ao que se realizava no Coliseu ou aqui, nos jardins de Nero, onde os homens eram acesos como tochas vivas. A crueldade e a violência tinham se tornado um motivo de diversão, uma verdadeira perversão da alegria, do verdadeiro sentido da vida. Esta “pompa diabuli”, esta “anticultura” da morte era uma perversão da alegria, era amor à mentira, ao engano, era abuso do corpo como mercadoria e como comércio.

E se agora refletimos, podemos dizer que também no nosso tempo é necessário dizer “não” à cultura amplamente dominante da morte. Uma “anticultura” que se manifesta, por exemplo, nas drogas, na fuga do real ao ilusório, a uma felicidade falsa que se expressa na mentira, no engano, na injustiça, no desprezo do próximo, da solidariedade, da responsabilidade pelos pobres e pelos que sofrem; que se expressa em uma sexualidade que se torna pura diversão sem responsabilidade, que se torna uma “coisificação” - por assim dizer - do homem, que já não é considerado pessoa, digno de um amor pessoal que exige fidelidade, mas se torna mercadoria, um mero objeto. A esta promessa de aparente felicidade, a esta “pompa” de uma vida aparente que na realidade é apenas instrumento de morte, a esta “anticultura”, dizemos “não” para cultivar a cultura da vida. Por isso o “sim” cristão, dos tempos antigos até hoje, é um grande “sim” à vida. Este é o nosso “sim” a Cristo, o “sim” ao vencedor da morte e o “sim” à vida no tempo e na eternidade.

Assim como no diálogo batismal o “não” é articulado em três renúncias, também o “sim” é articulado em três adesões: “sim” ao Deus vivo, isto é, a um Deus criador, a uma razão criadora que dá sentido ao cosmo e à nossa vida; “sim” a Cristo, isto é, a um Deus que não permaneceu escondido, mas que tem um nome, que tem palavras, que tem corpo e sangue, a um Deus concreto que nos dá a vida e nos mostra o caminho da vida; “sim” à comunhão da Igreja, na qual Cristo é o Deus vivo, que entra no nosso tempo, entra na nossa profissão, entra na vida de todos os dias.

Poderíamos dizer também que o rosto de Deus, o conteúdo dessa cultura da vida, o conteúdo do nosso grande “sim”, se expressa nos dez Mandamentos, que não são um pacote de proibições, de “nãos”, mas na realidade apresentam uma grande visão de vida. São um “sim” a um Deus que dá sentido à vida (os primeiros três mandamentos); “sim” à família (quarto mandamento); “sim” à vida (quinto mandamento); “sim” ao amor responsável (sexto mandamento); “sim” à solidariedade, à responsabilidade social, à justiça (sétimo mandamento); “sim” à verdade (oitavo mandamento); “sim” ao respeito ao próximo e àquilo que lhe é próprio (nono e décimo mandamentos). Esta é a filosofia da vida, a cultura da vida, que se torna concreta, praticável e bela na comunhão com Cristo, o Deus vivo, que caminha conosco na companhia dos seus amigos, na grande família da Igreja. O Batismo é dom de vida. É um “sim” ao desafio de viver verdadeiramente a vida, dizendo “não” ao ataque da morte que se apresenta com a máscara da vida; e é “sim” ao grande dom da verdadeira vida, que se fez presente no rosto de Cristo, o qual se doa a nós no Batismo e depois na Eucaristia.

Digo isso como breve comentário às palavras que, no diálogo batismal, interpretam o que se realiza neste Sacramento. Além das palavras, temos os gestos e os símbolos, mas serei muito breve ao indicá-los. O primeiro gesto já o realizamos: é o sinal da cruz, que nos é dado como escudo que deve proteger esta criança na sua vida; é como um “indicador” para o caminho da vida, porque a cruz é o resumo da vida de Jesus. Depois estão os elementos: a água, a unção com óleo, a veste branca e a chama da vela. A água é símbolo da vida: o Batismo é vida nova em Cristo. O óleo é símbolo da força, da saúde, da beleza, porque é realmente belo viver em comunhão com Cristo. Depois a veste branca, como expressão da cultura da beleza, da cultura da vida. E por fim a chama da vela, como expressão da verdade que resplandece nas sombras da história e nos indica quem somos, de onde viemos e para onde devemos ir.

Queridos padrinhos e madrinhas, queridos pais, queridos irmãos, agradeçamos neste dia ao Senhor, porque Deus não se esconde atrás das nuvens do mistério impenetrável, mas, como disse o Evangelho de hoje (Mc 1,7-11), abriu os céus, mostrou-se, fala conosco e está conosco, vive conosco e nos guia na nossa vida. Agradeçamos ao Senhor por este dom e rezemos pelas nossas crianças, para que tenham realmente a vida, a vida verdadeira, a vida eterna. Amém.

Batismo de Cristo
(Perugino - Capela Sistina)

Fonte: Santa Sé (com pequenas correções feitas pelo autor deste blog). 

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