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domingo, 28 de junho de 2026

Homilia do Papa Bento XVI: São Pedro e São Paulo (2006)

Há 20 anos, no dia 29 de junho de 2006, o Papa Bento XVI (†2022) celebrou a Missa da Solenidade de São Pedro e São Paulo, Apóstolos, na Basílica Vaticana.

Recordamos aqui sua homilia (centrada na missão de Pedro) e sua meditação durante a oração do Ângelus na ocasião:

Solenidade dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo
Concelebração Eucarística e Imposição do Pálio aos novos Arcebispos Metropolitanos
Homilia do Papa Bento XVI
Basílica de São Pedro
Quinta-feira, 29 de junho de 2006

1. «Tu és Pedro, e sobre esta pedra construirei a minha Igreja» (Mt 16,18). O que o Senhor diz exatamente a Pedro com estas palavras? Que promessa lhe faz com elas e que tarefa lhe confia? E o que diz a nós - ao Bispo de Roma, que está na Cátedra de Pedro, e à Igreja de hoje?

Se quisermos compreender o significado das palavras de Jesus, é útil recordar que os Evangelhos nos narram três situações diversas nas quais o Senhor, cada vez de um modo particular, transmite a Pedro a tarefa que deverá realizar. Trata-se sempre da mesma tarefa, mas, pela diversidade das situações e das imagens usadas, torna-se mais claro para nós o que queria e o que quer dele o Senhor.


2. No Evangelho de Mateus que ouvimos há pouco, Pedro faz sua profissão de fé a Jesus, reconhecendo-o como Messias e Filho de Deus. Com base nisso lhe é conferida sua tarefa particular mediante três imagens: a da rocha que se torna pedra fundamental ou pedra angular, a das chaves e a de ligar e desligar. Neste momento não pretendo interpretar mais uma vez estas três imagens que a Igreja, ao longo dos séculos, explicou sempre de novo; desejaria antes chamar a atenção para o lugar geográfico e o contexto cronológico destas palavras.

A promessa é feita junto às fontes do rio Jordão, na fronteira da terra judaica, nos confins com o mundo pagão. O momento da promessa marca uma virada decisiva no caminho de Jesus: agora o Senhor se encaminha para Jerusalém e, pela primeira vez, diz aos discípulos que este caminho rumo à Cidade Santa é o caminho rumo à Cruz: «Jesus começou a mostrar a seus discípulos que devia ir a Jerusalém e sofrer muito da parte dos anciãos, dos sumos sacerdotes e dos mestres da Lei, e que devia ser morto e ressuscitar no terceiro dia» (Mt 16,21).

Os dois aspectos caminham juntos e determinam o lugar interior do Primado, mais ainda, da Igreja em geral: o Senhor está continuamente a caminho rumo à Cruz, rumo à humilhação do servo de Deus sofredor e morto, mas ao mesmo tempo também está sempre a caminho rumo à vastidão do mundo, na qual Ele nos precede como Ressuscitado, para que resplandeça no mundo a luz da sua Palavra e a presença do seu amor; está a caminho porque através d’Ele, Cristo crucificado e ressuscitado, o próprio Deus chegue ao mundo.

Neste sentido, na sua Primeira Carta Pedro se define «testemunha dos sofrimentos de Cristo e participante da glória que será revelada» (1Pd 5,1). Para a Igreja, a Sexta-Feira Santa e a Páscoa existem sempre juntas; ela é sempre tanto o grão de mostarda como a árvore em cujos ramos os pássaros do céu fazem o ninho. A Igreja - e nela Cristo - sofre hoje também.

Nela Cristo é sempre de novo escarnecido e golpeado; sempre de novo se procura colocá-lo fora do mundo. Sempre de novo a pequena barca da Igreja é abalada pelo vento das ideologias, que com as suas águas penetram nela e parecem condená-la a afundar.

E precisamente na Igreja sofredora, porém, Cristo é vitorioso. Apesar de tudo, a fé n’Ele retoma força sempre de novo. Também hoje o Senhor comanda as águas e se demonstra Senhor dos elementos. Ele permanece na sua barca, na barca da Igreja. Assim também no ministério de Pedro se revela, por um lado, a debilidade do que é próprio do homem, mas ao mesmo tempo também a força de Deus: precisamente na debilidade dos homens o Senhor manifesta a sua força; demonstra que é Ele mesmo quem constrói, através de homens débeis, a sua Igreja.

3. Dirijamo-nos agora ao Evangelho de Lucas, que nos narra como o Senhor, durante a Última Ceia, confere novamente uma tarefa especial a Pedro (cf. Lc 22,31-33). Esta vez as palavras que Jesus dirige a Simão se encontram imediatamente depois da instituição da Santíssima Eucaristia. O Senhor acabou de se oferecer aos seus, sob as espécies do pão e do vinho. Podemos ver na instituição da Eucaristia o verdadeiro e próprio ato fundador da Igreja. Através da Eucaristia o Senhor doa aos seus não só a si mesmo, mas também a realidade de uma nova comunhão entre eles que se prolonga nos tempos «até que Ele venha» (1Cor 11,26).

Através da Eucaristia os discípulos se tornam a sua casa viva que, ao longo da história, cresce como o novo e vivo templo de Deus neste mundo. E assim Jesus, logo após a instituição do Sacramento, fala sobre o que significa ser discípulos, o “ministério”, na nova comunidade: diz que esse é um compromisso de serviço, assim como Ele mesmo se encontra no meio deles como Aquele que serve.

E então se dirige a Pedro. Diz que Satanás pediu permissão para peneirar os discípulos como o trigo. Isto recorda o trecho do Livro de Jó no qual Satanás pede a Deus permissão para ferir Jó. O Diabo - o caluniador de Deus e dos homens - quer provar com isto que não existe uma verdadeira religiosidade, mas que no homem tudo tem por objetivo sempre e unicamente a utilidade.

No caso de Jó, Deus concede a Satanás a liberdade pedida precisamente para poder com isso defender a sua criatura, o homem, e a si mesmo. E assim acontece também com os discípulos de Jesus - Deus dá certa liberdade a Satanás em todos os tempos. Muitas vezes nos parece que Deus conceda demasiada liberdade a Satanás; que lhe conceda a faculdade de nos golpear de maneira demasiado terrível; e que isto supera as nossas forças e nos oprime demasiado. Gritaremos sempre de novo a Deus: Ai de mim, olha para a miséria dos teus discípulos, protege-nos! Com efeito, Jesus continua: «Eu, porém, rezei por ti, para que tua fé não se apague» (Lc 22,32).

A oração de Jesus é o limite colocado ao poder do Maligno. A oração de Jesus é a proteção da Igreja. Podemos nos refugiar sob esta proteção, apegar-nos a ela e estar seguros dela. Mas, como nos diz o Evangelho, Jesus reza de modo especial por Pedro: «Para que tua fé não se apague». Esta oração de Jesus é ao mesmo tempo promessa e tarefa. A oração de Jesus guarda a fé de Pedro; aquela fé que ele lhe confessou em Cesareia de Filipe: «Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo» (Mt 16,16).

Eis a tarefa de Pedro: nunca permitir que esta fé se torne muda, fortalecê-la sempre de novo, sobretudo diante da cruz e de todas as contradições do mundo. Por isso o Senhor não reza apenas pela fé pessoal de Pedro, mas pela sua fé como serviço aos outros. É precisamente isto que Ele pretende dizer com as palavras: «E tu, uma vez convertido, fortalece os teus irmãos» (Lc 22,32).

4. «E tu, uma vez convertido»: estas palavras são ao mesmo tempo profecia e promessa. Elas profetizam a debilidade de Simão que, diante de uma serva e um servo, negará conhecer Jesus. Através desta queda, Pedro - e com ele cada Sucessor seu - deve aprender que a própria força sozinha não é suficiente para edificar e guiar a Igreja do Senhor. Ninguém consegue sozinho.

Por mais que Pedro pareça capaz e corajoso, falha já no primeiro momento da prova. «E tu, uma vez convertido» - o Senhor, que lhe prediz a queda, também lhe promete a conversão: «Então o Senhor se voltou e olhou para Pedro» (Lc 22,61). O olhar de Jesus realiza a transformação e se torna a salvação de Pedro, que «saiu para fora e chorou amargamente» (v. 62).

Queremos implorar sempre de novo esse olhar salvador de Jesus: para todos os que possuem uma responsabilidade na Igreja; para todos os que sofrem pelas confusões deste tempo; para os grandes e para os pequenos: Senhor, olha sempre de novo para nós e assim eleva-nos de todas as nossas quedas e toma-nos nas tuas mãos bondosas.

Entrega das chaves a Pedro
(Pietro Perugino - Capela Sistina)

5. O Senhor confia a Pedro a tarefa de confirmar os irmãos através da promessa da sua oração. A missão de Pedro está ancorada na oração de Jesus. É isto que lhe dá a segurança de perseverar através de todas as misérias humanas. E o Senhor lhe confia essa tarefa no contexto da Ceia, em conexão com o dom da Santíssima Eucaristia. A Igreja, fundada na instituição da Eucaristia, no seu íntimo é comunidade eucarística e, assim, comunhão no Corpo do Senhor.

A tarefa de Pedro é presidir essa comunhão universal; mantê-la presente no mundo como unidade também visível, encarnada. Ele, juntamente com toda a Igreja de Roma, como diz Santo Inácio de Antioquia, deve presidir na caridade: presidir na comunidade daquele amor que provém de Cristo e, sempre de novo, ultrapassa os limites do privado para levar o amor de Cristo até os confins da terra.

6. A terceira referência ao Primado se encontra no Evangelho de João (Jo 21,15-19). O Senhor ressuscitou, e como Ressuscitado confia a Pedro o seu rebanho. Também aqui se compenetram reciprocamente a Cruz e a Ressurreição. Jesus prediz a Pedro que o seu caminho irá rumo à cruz. Nesta Basílica construída sobre o túmulo de Pedro - um túmulo de pobres - vemos que o Senhor vence sempre precisamente assim, através da Cruz. O seu poder não é um poder segundo as modalidades deste mundo. É o poder do bem, da verdade e do amor, que é mais forte do que a morte. Sim, a sua promessa é verdadeira: os poderes da morte, as portas dos infernos não prevalecerão contra a Igreja que Ele edificou sobre Pedro (cf. Mt 16,18) e que Ele, precisamente desta forma, continua a edificar pessoalmente.

7. Nesta Solenidade dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo dirijo-me de modo especial a vós, queridos Arcebispos Metropolitanos, que viestes de numerosos países do mundo para receber o Pálio do Sucessor de Pedro. Saúdo-vos cordialmente juntamente com quantos vos acompanham.

Saúdo também com particular alegria a Delegação do Patriarcado Ecumênico, presidida por Sua Eminência Joannis Zizioulas, Metropolita de Pérgamo, Presidente da Comissão Mista Internacional para o diálogo teológico entre católicos e ortodoxos. Estou grato ao Patriarca Bartolomeu e ao Santo Sínodo por este sinal de fraternidade, que manifesta o desejo e o compromisso de progredir mais rapidamente pelo caminho da unidade plena que Cristo invocou para todos os seus discípulos.

Nós compartilhamos o ardente desejo expresso um dia pelo Patriarca Atenágoras e pelo Papa Paulo VI: beber juntos do mesmo Cálice e comer juntos o Pão que é o próprio Senhor. Imploramos novamente, nesta ocasião, que este dom nos seja concedido logo. E agradecemos ao Senhor por nos encontrarmos unidos na profissão de fé que Pedro fez por todos os discípulos em Cesareia de Filipe: «Tu és Cristo, o Filho do Deus vivo». Queremos levar juntos esta profissão de fé ao mundo de hoje.

Que o Senhor nos ajude a sermos, precisamente nesta hora da nossa história, verdadeiras testemunhas dos seus sofrimentos e participantes da glória que deve ser revelada (cf. 1Pd 5,1). Amém!

Solenidade dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo
Papa Bento XVI
Ângelus
Quinta-feira, 29 de junho de 2006

Queridos irmãos e irmãs,
Hoje honramos solenemente os Santos Pedro e Paulo, «Apóstolos de Cristo, colunas e fundamento da cidade de Deus», como canta a Liturgia hodierna [1]. O seu martírio é considerado como o verdadeiro e próprio ato de nascimento da Igreja de Roma. Os dois Apóstolos deram o seu testemunho supremo a pouca distância de tempo e de espaço um do outro: aqui, em Roma, São Pedro foi crucificado e, sucessivamente, São Paulo foi decapitado. O seu sangue fundiu-se assim como que em um único testemunho de Cristo, que levou Santo Irineu, Bispo de Lião, a meados do século II, a falar da «Igreja fundada e constituída em Roma pelos dois gloriosíssimos Apóstolos Pedro e Paulo» (Contra as heresias, 3, 3, 2).

Pouco tempo depois, no norte da África, Tertuliano exclamava: «Quanto é bem-aventurada esta Igreja de Roma! Foram os próprios Apóstolos que derramaram nela, com o seu sangue, toda a doutrina» (A prescrição contra os hereges, 36). Precisamente por isso o Bispo de Roma, Sucessor do Apóstolo Pedro, desempenha um peculiar ministério a serviço da unidade doutrinal e pastoral do Povo de Deus disperso em todo o mundo.

Neste contexto compreende-se melhor também o significado do rito que renovamos esta manhã, durante a Missa na Basílica de São Pedro, isto é, a entrega a alguns Arcebispos Metropolitanos do Pálio, antiga insígnia litúrgica, que expressa a especial comunhão destes Pastores com o Sucessor de Pedro. A estes venerados irmãos Arcebispos e a quantos os acompanharam dirige-se a minha saudação, enquanto convido todos vós, queridos irmãos e irmãs, a rezar por eles e pelas Igrejas que lhes foram confiadas.

Há ainda outro motivo que torna ainda maior hoje a nossa alegria: a presença em Roma, por ocasião da Solenidade dos Santos Pedro e Paulo, de uma especial Delegação enviada pelo Patriarca Ecumênico de Constantinopla, Bartolomeu. Aos membros desta Delegação repito com afeto as minhas boas-vindas e agradeço de coração ao Patriarca por ter realçado ainda mais, com este gesto, o vínculo de fraternidade existente entre as nossas Igrejas.

Maria, a Rainha dos Apóstolos, que invocamos com confiança, obtenha aos cristãos o dom da plena unidade. Com a sua ajuda e seguindo os passos de São Pedro e São Paulo, a Igreja que está em Roma e todo o Povo de Deus possam oferecer ao mundo um testemunho de unidade e de corajosa dedicação ao Evangelho de Cristo.

“Apascenta as minhas ovelhas” (Jo 21)
(Altar da Cátedra da Basílica de São Pedro)

Nota:
[1] O Papa cita aqui a versão italiana do hino para o Ofício das Leituras do Comum dos Apóstolos, “O Apostoli di Cristo, colonna e fondamento della città di Dio”.

Fonte: Santa Sé (Homilia / Ângelus) - Com pequenas correções feitas pelo autor deste blog.

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