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sábado, 9 de maio de 2026

Homilia do Papa: Missa em Malabo

Viagem Apostólica à Argélia, Camarões, Angola e Guiné Equatorial
Missa em Malabo
Homilia do Papa Leão XIV
Estádio de Malabo (Guiné Equatorial)
Quinta-feira, 23 de abril de 2026

Foi celebrada a Missa da quinta-feira da III semana da Páscoa.

Queridos irmãos e irmãs,
Gostaria de começar por saudar com carinho esta Igreja particular de Malabo com o seu pastor e, ao mesmo tempo, expressar as minhas sinceras condolências a toda a comunidade arquidiocesana, aos irmãos sacerdotes e aos familiares pelo falecimento, há alguns dias, do seu Vigário Geral, Monsenhor Fortunato Nsue Esono, a quem recordamos nesta Eucaristia.
Convido-vos a viver este momento de dor com espírito de fé. Espero que, sem ceder a comentários ou conclusões precipitadas, se esclareçam plenamente as circunstâncias da sua morte.


As Escrituras que acabamos de ouvir nos interpelam, perguntando a cada um de nós se e como somos capazes de ler as páginas bíblicas que hoje compartilhamos. Trata-se de um convite tão sério quanto providencial, pois nos prepara para ler juntos o livro da história, ou seja, as páginas da nossa vida, que Deus continua a inspirar com a sua sabedoria.

Participando da jornada de um viajante, que regressava de Jerusalém precisamente para a África, o diácono Filipe lhe perguntou: «Tu compreendes o que estás lendo?» (At 8,30). Aquele peregrino, um eunuco da rainha da Etiópia, lhe responde imediatamente com humilde perspicácia: «Como posso, se ninguém me explica?» (v. 31). A sua pergunta torna-se assim não só um apelo à verdade, mas uma expressão de curiosidade. Observemos com atenção quem está falando: é um homem rico, assim como a sua terra, mas escravo. Todos os tesouros que administra não são seus: seus são os cansaços, que beneficiam outros. Esse homem tem inteligência e cultura, e o demonstra tanto no trabalho como na oração, mas não é plenamente livre. Este estado está dolorosamente impresso no seu corpo: com efeito, trata-se de um eunuco. Não pode gerar vida: as suas energias estão todas a serviço de um poder que o controla e o domina.

Justamente enquanto está regressando à sua terra natal, a África, que se tornou para ele um lugar de servidão, o anúncio do Evangelho o liberta. A Palavra de Deus, que tem nas mãos, produz um fruto surpreendente na sua vida: quando encontra Filipe, testemunha de Cristo Crucificado e Ressuscitado, o eunuco se torna não apenas um leitor da Bíblia, ou seja, um espectador, mas protagonista de uma narrativa que o envolve, porque diz respeito precisamente a ele. O texto sagrado lhe fala e suscita a sua busca da verdade. É assim que esse africano entra na Escritura, acolhedora em relação a todos os leitores que desejam compreender a Palavra de Deus. Entra na história da salvação, acolhedora em relação a todos os homens e mulheres, sobretudo em relação aos oprimidos, aos marginalizados e aos últimos. Ao texto escrito corresponde agora o gesto vivido: recebendo o Batismo, ele já não é um estranho, mas se torna filho de Deus, nosso irmão na fé. Escravo e sem descendência, esse homem renasce para uma vida nova e livre em nome do Senhor Jesus: é do seu resgate que ainda hoje falamos, precisamente ao lermos as Escrituras!

Assim como ele, também nós nos tornamos cristãos através do Batismo, herdando a mesma luz, ou seja, a mesma fé, para ler a Palavra de Deus. Para refletir sobre as profecias, para rezar os salmos, para estudar a Lei e proclamar o Evangelho com a nossa vida. Com efeito, todos os textos bíblicos revelam na fé o seu verdadeiro sentido, porque na fé foram escritos e transmitidos a nós: por isso, a sua leitura é um ato sempre pessoal e sempre eclesial, não um exercício solitário ou meramente técnico.

Juntos, lemos a Escritura como um bem comum da Igreja, tendo por guia o Espírito Santo, que inspirou a sua redação, e a Tradição apostólica, que a guardou e difundiu por toda a terra. Tal como o eunuco pede, também nós podemos compreender a Palavra de Deus graças a alguém que nos oriente no caminho da fé, como foi o diácono Filipe, que «começou a falar e, partindo dessa passagem da Escritura, anunciou Jesus ao eunuco» (v. 35). O viajante africano estava lendo uma profecia, que se cumpriu para ele naquele momento, tal como se cumpre para nós hoje: o servo sofredor, de quem fala o profeta Isaías (cf. Is 53,7-8), é Jesus, Aquele que, através da sua Paixão, Morte e Ressurreição, nos redime do pecado e da morte. Ele é o Verbo feito homem, no qual se cumpre cada palavra de Deus: revela-lhe a intenção originária, o sentido pleno e o fim último.

Como afirma Cristo: «Só Aquele que vem de junto de Deus viu o Pai» (Jo 6,46). No Filho, o próprio Pai manifesta a sua glória: Deus se deixa ver, ouvir e tocar. Através dos gestos de Jesus, o Redentor, Ele dá plenitude ao que sempre fez: dar vida. Ele cria o mundo, o salva e o ama para sempre. Aos que o escutam, Jesus recorda um sinal dessa constante providência: «Os vossos pais comeram o maná no deserto e, no entanto, morreram» (v. 49). Refere-se dessa forma à experiência do êxodo: um caminho de libertação da escravidão, que se tornou, porém, uma errância extenuante, com duração de quarenta anos, porque o povo não acreditou na promessa do Senhor, chegando até mesmo a sentir saudades do Egito (cf. Ex 16,3). Sob o jugo do Faraó, realmente, o povo comia os frutos da terra; Deus, pelo contrário, os conduz ao deserto, onde o pão só pode vir da sua providência. O maná, portanto, é uma prova, uma bênção e uma promessa, que Jesus vem realizar. A esse antigo sinal sucede agora o sacramento da nova e eterna Aliança: a Eucaristia, pão consagrado por Aquele que desceu do céu para se tornar o nosso alimento. Se aqueles que comeram o maná «morreram» (Jo 6,49), quem come este pão vive para sempre (v. 51), porque Cristo está vivo! Ele é o Ressuscitado e continua a dar a sua vida por nós.

Através do êxodo definitivo que é a Páscoa de Jesus, todos os povos são libertados da escravidão do mal. Enquanto celebramos este acontecimento de salvação, o Senhor nos chama a uma escolha decisiva: «Quem crê, possui a vida eterna» (v. 47). Em Jesus nos é dada uma possibilidade surpreendente: Deus se entrega por nós. Creio que o seu amor é mais forte do que a minha morte? Ao decidir acreditar n’Ele, cada um de nós escolhe entre um desespero certo e uma esperança que Deus torna possível. Assim, a nossa fome de vida e justiça encontra saciedade na palavra de Jesus: «O pão que Eu darei é a minha carne dada para a vida do mundo» (v. 51).

Obrigado, Senhor! Nós vos louvamos e vos bendizemos, porque quisestes vos tornar para nós Eucaristia, pão da vida eterna, para que pudéssemos viver para sempre. Neste preciso momento, caríssimos, enquanto celebramos este sacramento de salvação, podemos exclamar com alegria: “Cristo é tudo para nós!”. N’Ele encontramos a plenitude de vida e de sentido: «Se estás oprimido pela iniquidade, Ele é a justiça; se precisas de ajuda, Ele é a força; se temes a morte, Ele é a vida; se desejas o céu, Ele é o caminho; se estás nas trevas, Ele é a luz» (Santo Ambrósio, De Virginitate, 16, 99). Na companhia do Senhor, os nossos problemas não desaparecem, mas são iluminados: assim como toda a cruz encontra redenção em Jesus, também no Evangelho a história da nossa vida encontra sentido. Por isso, hoje cada um de nós pode dizer: «Bendito seja o Senhor Deus que me escutou, não rejeitou minha oração e meu clamor, nem afastou longe de mim o seu amor» (Sl 65,20). Ele nos ama primeiro, sempre: a sua palavra é para nós Evangelho, e nada temos de melhor para anunciar ao mundo. Essa evangelização nos envolve a todos, começando pelo Batismo, que é sacramento de fraternidade, lavacro de perdão e fonte de esperança. Através do nosso testemunho, o anúncio da salvação se torna gesto, serviço e perdão: em uma palavra, torna-se Igreja!

Como ensinava o Papa Francisco, realmente «a alegria do Evangelho enche o coração e a vida inteira daqueles que se encontram com Jesus» (Exortação Apostólica Evangelii gaudium, n. 1). Ao mesmo tempo, quando partilhamos essa alegria, percebemos ainda melhor o risco de uma «tristeza individualista que brota do coração comodista e mesquinho, da busca desordenada de prazeres superficiais, da consciência isolada. Quando a vida interior se fecha nos próprios interesses, deixa de haver espaço para os outros, já não entram os pobres, já não se ouve a voz de Deus, já não se desfruta da doce alegria do seu amor» (ibid., n. 2). Perante tais fechamentos, é precisamente o amor do Senhor que sustenta o nosso empenho, sobretudo a serviço da justiça e da solidariedade.

Por isso, encorajo todos vós, Igreja que vive na Guiné Equatorial, a continuar com alegria a missão dos primeiros discípulos de Jesus. Lendo juntos o Evangelho, sede seus anunciadores entusiastas, tal como o foi o diácono Filipe. Celebrando juntos a Eucaristia, testemunhai com a vossa vida a fé que salva, para que a Palavra de Deus se torne pão bom para todos.


Fonte: Santa Sé.

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