quinta-feira, 22 de março de 2018

Angelus do Papa: V Domingo da Quaresma - Ano B

Papa Francisco
Angelus
Praça São Pedro
V Domingo de Quaresma, 18 de março de 2018

Queridos irmãos e irmãs, bom dia!
O Evangelho de hoje (cf. Jo 12,20-33) narra um episódio ocorrido nos últimos dias da vida de Jesus. A cena desenrola-se em Jerusalém, onde Ele se encontra para a festa da Páscoa judaica. Para esta celebração ritual vieram também alguns gregos; trata-se de homens animados por sentimentos religiosos, atraídos pela fé do povo hebreu e que, tendo ouvido falar deste grande profeta, aproximam-se de Filipe, um dos doze apóstolos, e dizem-lhe: «Senhor, quiséramos ver Jesus» (v. 21). João realça esta frase, centrada no verbo ver, que no vocabulário do evangelista significa ir além das aparências para colher o mistério de uma pessoa. O verbo que João utiliza, “ver”, é chegar ao coração, chegar com a vista, com a compreensão até ao íntimo da pessoa, dentro da pessoa.
A reação de Jesus é surpreendente. Ele não responde com um “sim” nem com um “não”, mas diz: «Chegou a hora para o Filho do Homem ser glorificado» (v. 23). Estas palavras, que à primeira vista parecem ignorar a pergunta daqueles gregos, na realidade dão a verdadeira resposta, porque quem quiser conhecer Jesus deve olhar dentro da cruz, onde se revela a sua glória. Olhar dentro da cruz. O Evangelho de hoje convida-nos a dirigir o nosso olhar para o crucifixo, que não é um objeto ornamental nem um acessório de vestuário - por vezes abusado! - mas é um sinal religioso a ser contemplado e compreendido. No imaginário de Jesus crucificado desvela-se o mistério da morte do Filho como gesto supremo de amor, fonte de vida e de salvação para a humanidade de todos os tempos. Fomos curados nas suas chagas.
Posso pensar: “Como olho eu para o crucifixo? Como uma obra de arte, para ver se é bonito ou não? Ou olho para dentro, entro nas chagas de Jesus até ao seu coração? Olho o mistério de Deus aniquilado até à morte, como um escravo, como um criminoso?”. Não vos esqueçais disto: olhar para o crucifixo, mas olhar dentro dele. Há esta bela devoção de recitar um Pai-Nosso por cada uma das cinco chagas: quando rezamos aquele Pai-Nosso, tentemos entrar através das chagas de Jesus dentro, dentro, precisamente do seu coração. E ali aprendemos a grande sabedoria do mistério de Cristo, a grande sabedoria da cruz.
E para explicar o significado da sua morte e ressurreição, Jesus faz uso de uma imagem e diz: «Se o grão de trigo, caído na terra, não morrer, fica só; se morrer, produz muito fruto» (v. 24). Quer fazer compreender que a sua vicissitude extrema - ou seja, a cruz, morte e ressurreição - é um ato de fecundidade - as suas chagas sararam-nos - uma fecundidade que dará fruto para muitos. Deste modo, compara-se a si mesmo com o grão de trigo que, apodrecendo na terra, gera uma nova vida. Com a Encarnação Jesus veio sobre a terra; mas isto não é suficiente: Ele deve também morrer, para resgatar os homens da escravidão do pecado e lhes doar uma nova vida reconciliada no amor. Eu disse “para resgatar os homens”: mas, a fim de resgatar a mim, a ti, a todos nós, cada um de nós, Ele pagou aquele preço. Este é o mistério de Cristo. Vai rumo às suas chagas, entra, contempla; vê Jesus, mas a partir de dentro.
E este dinamismo do grão de trigo, que se realizou em Jesus, deve realizar-se também em nós seus discípulos: somos chamados a fazer nossa esta lei pascal do perder a vida para a receber nova e também eterna. E que significa perder a vida? Isto é, que significa ser o grão de trigo? Significa pensar menos em si mesmo, nos interesses pessoais, e saber “ver” e ir ao encontro das necessidades do nosso próximo, especialmente dos últimos. Cumprir com alegria obras de caridade a favor de quantos sofrem no corpo e no espírito é o modo mais autêntico de viver o Evangelho, é o fundamento necessário para que as nossas comunidades possam crescer na fraternidade e no acolhimento recíproco. Quero ver Jesus, mas vê-lo dentro. Entra nas suas chagas e contempla aquele amor do seu coração por ti, por ti, por ti, por mim, por todos.
A Virgem Maria, que sempre manteve o olhar do coração fixo no seu Filho, da manjedoura de Belém até à cruz no Calvário, nos ajude a encontrá-lo e a conhecê-lo assim como Ele deseja, para que possamos viver iluminados por Ele, e levar pelo mundo frutos de justiça e de paz.


Fonte: Santa Sé

Fotos da Missa do Papa em San Giovanni Rotondo

No último dia 17 de março o Papa Francisco celebrou a Santa Missa na Praça da igreja de São Pio de Pietrelcina em San Giovanni Rotondo por ocasião de sua visita à cidade nos 50 anos da morte de São Pio de Pietrelcina.

O Santo Padre foi assistido por Mons. Guido Marini. Para ler sua homilia, clique aqui.

Antes da Missa, porém, o Papa visitou o Santuário de Santa Maria das Graças, onde rezou diante do corpo incorrupto de São Pio:

O Papa reza diante do corpo de São Pio
Veneração do crucifixo

O Papa oferece uma estola

Homilia do Papa: Missa em San Giovanni Rotondo

Visita Pastoral do Papa Francisco a San Giovanni Rotondo no 50º Aniversário da Morte de São Pio de Pietrelcina
Concelebração Eucarística
Homilia do Papa Francisco
Praça da igreja de São Pio de Pietrelcina
Sábado, 17 de março de 2018

Das Leituras bíblicas que ouvimos, gostaria de frisar três palavras: oração, pequenez, sabedoria.
Oração. O Evangelho de hoje apresenta-nos Jesus que reza. Do seu Coração brotam estas palavras: «Bendigo-te, Pai, Senhor do céu e da terra...» (Mt 11,25). Em Jesus, a oração surgia espontaneamente, mas não era um optional: Ele costumava retirar-se em lugares desertos para rezar (cf. Mc 1,35); o diálogo com o Pai estava em primeiro lugar. E assim os discípulos descobriram com naturalidade como a oração era importante, até que certo dia lhe perguntaram: «Senhor, ensina-nos a rezar» (Lc 11,1). Se quisermos imitar Jesus, iniciemos também nós por onde Ele começou, ou seja, pela oração.
Podemos questionar-nos: nós, cristãos, oramos o suficiente? Muitas vezes, no momento de rezar, vêm à mente tantas desculpas, muitas coisas urgentes para fazer... Depois, por vezes, pomos de lado a oração porque estamos atarefados num ativismo que se torna inconcludente quando esquecemos «a melhor parte» (Lc 10,42), quando esquecemos que sem Ele nada podemos fazer (cf. Jo 15,5) - e assim abandonamos a oração. Cinquenta anos após a sua partida para o Céu, São Pio ajuda-nos porque, como herança, nos quis deixar a oração. Ele recomendava: «Orai muito, meus filhos, rezai sempre, sem nunca vos cansardes» (Palavras pronunciadas no 2° Congresso internacional dos grupos de oração, 5 de maio de 1966).
No Evangelho, Jesus mostra-nos também como se reza. Antes de tudo, diz: «Bendigo-te, Pai»; não começa, dizendo: “Preciso disto e daquilo”, mas dizendo: «Bendigo-te». Não conhecemos o Pai sem nos abrirmos ao louvor, sem dedicar tempo unicamente a Ele, sem adorar. Como esquecemos a prece de adoração, a oração de louvor! Devemos retomá-la. Cada um pode interrogar-se: como adoro, quando adoro, quando louvo a Deus? Retomar a prece de adoração e de louvor. O segredo para entrar cada vez mais em comunhão com Ele é o contato pessoal, cara a cara, o estar em silêncio diante do Senhor. A oração pode nascer como pedido, até de intervenção imediata, mas amadurece no louvor e na adoração. Oração madura. Então, torna-se verdadeiramente pessoal, como para Jesus, que depois dialoga de modo livre com o Pai: «Sim, Pai, bendigo-te porque assim decidiste na tua benevolência» (Mt 11,26). E então, no diálogo livre e confiante, a oração assume a vida inteira e leva-a diante de Deus.
E então questionemo-nos: as nossas preces parecem-se com as de Jesus, ou reduzem-se a esporádicas chamadas de emergência? “Preciso disto”, e então rezo imediatamente. E quando não tens necessidade, o que fazes? Ou então, interpretamo-las como calmantes para tomar em doses regulares, para ter um pouco de alívio do stress? Não, a oração é um gesto de amor, é estar com Deus e levar-lhe a vida do mundo: é uma indispensável obra de misericórdia espiritual. E se nós não confiarmos os irmãos, as situações ao Senhor, quem o fará? Quem intercederá, quem se preocupará em bater ao Coração de Deus para abrir a porta da misericórdia à humanidade necessitada? Foi por isto que padre Pio nos deixou os grupos de oração. Disse-lhes: «É a oração, esta força unida de todas as almas boas, que move o mundo, que renova as consciências [...] que cura os doentes, que santifica o trabalho, que eleva a assistência à saúde, que dá força moral [...], que dilata o sorriso e a bênção de Deus sobre todos as prostrações e debilidades» (ibid.). Conservemos estas palavras e voltemos a interrogar-nos: eu rezo? E quando rezo, sei louvar, sei adorar, sei levar a minha vida e a de todas as pessoas a Deus?
Segunda palavra: pequenez. No Evangelho, Jesus louva o Pai porque revelou os mistérios do seu Reino aos pequeninos. Quem são estes pequeninos, que sabem acolher os segredos de Deus? Os pequeninos são aqueles que têm necessidade dos grandes, que não são autossuficientes, que não pensam que se bastam a si mesmos. Pequeninos são os que têm o coração humilde e aberto, pobre e carenciado, que sentem a necessidade de rezar, de se confiar e de se deixar acompanhar. O coração destes pequeninos é como uma antena: capta o sinal de Deus imediatamente, apercebe-se imediatamente. Porque Deus procura ter contato com todos, mas quem se faz grande cria uma interferência enorme, e assim o desejo de Deus não chega: quando estamos cheios de nós mesmos, não há lugar para Deus. Por isso, Ele prefere os pequeninos, revela-se a eles e o caminho para o encontrar é o do abaixar-se, do tornar-se pequeno dentro, do reconhecer-se necessitado. O mistério de Jesus Cristo é mistério de pequenez: Ele abaixou-se, aniquilou-se. O mistério de Jesus, como vemos na Hóstia em cada Missa, é mistério de pequenez, de amor humilde, e só o captamos se nos tornarmos e frequentarmos os pequeninos.
E agora podemos perguntar-nos: sabemos procurar Deus onde Ele está? Aqui existe um santuário especial onde Ele está presente, pois aqui vivem muitos pequeninos, seus prediletos. São Pio denominou-o «templo de oração e de ciência», onde todos são chamados a ser «reservas de amor» para os outros (Discurso por ocasião do 1° aniversário da inauguração, 5 de maio de 1957): é a Casa Alívio do Sofrimento. No doente encontra-se Jesus, e na cura amorosa de quantos se inclinam sobre as feridas do próximo está o caminho para encontrar Jesus. Quem cuida dos pequeninos está do lado de Deus e vence a cultura do descarte que, ao contrário, prefere os poderosos e considera os pobres inúteis. Quem prefere os pequeninos proclama uma profecia de vida contra os profetas de morte de todos os tempos, até de hoje, que descartam as pessoas, as crianças e os idosos, porque não servem. Quando eu era criança, na escola ensinavam-nos a história dos espartanos. Impressionava-me sempre o que dizia a professora, que quando nascia um menino ou uma menina com malformações, levavam-no ao cimo do monte e atiravam-no para baixo, para que estes pequeninos não existissem. Nós, crianças, dizíamos: “Mas quanta crueldade!”. Irmãos e irmãs, nós fazemos o mesmo, com maior crueldade, com maior ciência. Aquele que não serve, aquele que não produz, é descartado. Esta é a cultura do descarte, hoje os pequeninos não são desejados. E por isso Jesus é deixado de lado.
Enfim, a terceira palavra. Na primeira Leitura, Deus diz: «Não se envaideça o sábio do seu saber, nem o forte da sua força» (Jr 9,22). A verdadeira sabedoria não reside no facto de ter grandes dotes, e a verdadeira força não consiste no poder. Não é sábio quem se mostra forte, e não é forte quem responde ao mal com o mal. A única arma sábia e invencível é a caridade animada pela fé, porque tem o poder de desarmar as forças do mal. São Pio lutou contra o mal durante a vida inteira, e combateu-o sabiamente, como o Senhor: com humildade, com a obediência e com a cruz, oferecendo a dor por amor. E todos ficam admirados com isto, mas poucos agem do mesmo modo. Muitos falam bem, mas quantos imitam? Muitos estão dispostos a postar um “eu gosto” na página dos grandes santos, mas quantos agem como eles? Porque a vida cristã não é um “eu gosto”, é um “eu ofereço-me”. A vida perfuma quando é oferecida como dom; e torna-se insípida quando é conservada para si mesmo.
E na primeira Leitura Deus explica também de onde haurir a sabedoria de vida: «Aquele, porém, que se quiser vangloriar, glorie-se [...] de me conhecer» (cf. Jr 9,23). Conhecê-lo, ou seja, encontrá-lo, como o Deus que salva e perdoa: este é o caminho da sabedoria. No Evangelho, Jesus reitera: «Vinde a mim, vós todos que estais cansados e aflitos» (Mt 11,28). Quem de nós pode sentir-se excluído do convite? Quem pode dizer: “Não tenho necessidade disto?”. São Pio ofereceu a vida e inúmeros sofrimentos para fazer com que os irmãos encontrassem o Senhor. E o meio decisivo para o encontrar era a Confissão, o sacramento da Reconciliação. É ali que começa e recomeça uma vida sábia, amada e perdoada; é ali que tem início a purificação do coração. Padre Pio foi um apóstolo do confessionário. Também hoje nos convida a ir ali; e diz-nos: “Onde vais? Ao encontro de Jesus ou das tuas tristezas? Para onde te diriges? Para Aquele que te salva, ou para os teus padecimentos, as tuas lamentações, os teus pecados? Vem, vem, o Senhor espera por ti. Ânimo, não há motivo algum tão grave que te exclua da sua misericórdia”.
Os grupos de oração, os doentes da Casa Alívio, o confessionário; três sinais visíveis, que nos recordam três heranças preciosas: a oração, a pequenez e a sabedoria de vida. Peçamos a graça de as cultivar todos os dias.


Fonte: Santa Sé

segunda-feira, 19 de março de 2018

Raniero Cantalamessa: IV Pregação de Quaresma 2018

Padre Raniero Cantalamessa, OFMCap
IV pregação de Quaresma
16 de março de 2018

“Cada qual seja submisso às autoridades constituídas”
A obediência a Deus na vida cristã

1. O fio do alto 
Ao delinear os traços, ou as virtudes, que devem resplandecer na vida dos renascidos do Espírito, depois de ter falado da caridade e da humildade, São Paulo, no capítulo 13 da Carta aos Romanos, também fala da obediência:
"Cada qual seja submisso às autoridades constituídas, porque não há autoridade que não venha de Deus; as que existem foram instituídas por Deus. Assim, aquele que resiste à autoridade, opõe-se à ordem estabelecida por Deus" (Rm 13,1ss).
O restante da passagem, que fala da espada e dos tributos, bem como a comparação com outros textos do Novo Testamento sobre o mesmo assunto (cf. Tt 3,1; 1Pd 2,13-15), indicam claramente que o Apóstolo não fala aqui da autoridade em geral e de qualquer autoridade, mas apenas da autoridade civil e estatal. São Paulo trata de um aspecto particular da obediência que era particularmente sentido quando ele escrevia e, talvez, também pela comunidade à qual ele escrevia.
Era o momento em que estava amadurecendo, dentro do judaísmo palestino, a revolta zelota contra Roma que terminará, alguns anos depois, com a destruição de Jerusalém. O cristianismo nasceu do judaísmo; muitos membros da comunidade cristã, também de Roma, eram judeus convertidos. O problema de obedecer ou não ao Estado romano colocava-se, indiretamente, também para os cristãos.
A Igreja apostólica estava diante de uma escolha decisiva. São Paulo, como também todo o Novo Testamento, resolve o problema à luz da atitude e das palavras de Jesus, especialmente da palavra sobre o tributo a César (cf. Mc 12,17). O Reino pregado por Cristo "não é deste mundo", não é, isto é, de natureza nacional e política. Pode, por conseguinte, viver sob qualquer regime político, aceitando suas vantagens (como era a cidadania romana), mas também as suas leis. O problema é, em suma, resolvido no sentido de obediência ao Estado.
A obediência ao Estado é uma consequência e um aspecto de uma obediência muito mais importante e abrangente que o Apóstolo chama de "obediência ao Evangelho" (cf. Rm 10,16). A severa advertência do Apóstolo mostra que pagar impostos e, em geral, cumprir o próprio dever com a sociedade não é apenas um dever civil, mas também um dever moral. Aqueles que o transgridem não só enfrentarão o juízo do Estado, mas também o de Deus.
Tudo isso é muito atual, mas nós não podemos limitar o discurso sobre a obediência somente a este aspecto de obediência ao Estado. São Paulo nos mostra o lugar onde se coloca o discurso cristão sobre a obediência, mas não nos diz, neste único texto, tudo o que se pode dizer sobre essa virtude. Ele traça aqui as consequências de princípios anteriores, na mesma Carta aos Romanos e em outros lugares, e devemos buscar esses princípios para fazer um discurso sobre a obediência que seja útil e atual para nós hoje.
Devemos ir à descoberta da obediência "essencial", a partir da qual surgem todas as obediências particulares, inclusive aquela às autoridades civis. De fato, há uma obediência que diz respeito a todos - superiores e súditos, religiosos e leigos -, que é a mais importante de todas, que governa e vivifica todas as outras, e esta obediência não é a obediência do homem ao homem, mas a obediência do homem a Deus.
Depois do Concílio Vaticano II, alguém escreveu: “Se há um problema de obediência hoje, não é o da docilidade direta ao Espírito Santo - ao qual, pelo contrário, todos mostram aderir-se voluntariamente - mas sim a submissão a uma hierarquia, a uma lei e a uma autoridade humanamente expressadas”. Estou convencido de que este é o caso. Mas é precisamente para tornar possível de novo esta obediência concreta à lei e à autoridade visível que devemos recomeçar da obediência a Deus e ao Seu Espírito.
A obediência a Deus é como “o fio do alto” que mantém a esplêndida teia de aranha pendurada em uma sebe. Descendo do alto por meio do fio que ela própria produz, a aranha constrói a sua teia, perfeita e tensa em cada canto. No entanto, aquele fio do alto que foi usado para construir a teia não é cortado, uma vez interrompida a obra, mas permanece. Pelo contrário, é ele que, do centro, sustenta todo o enredo; sem ele tudo colapsa. Caso se rompa um dos fios laterais (uma vez testei isso), a aranha aparece e repara velozmente a sua teia, mas uma vez cortado aquele fio do alto ela vai embora: não há mais nada a se fazer.
Algo parecido acontece com o enredo das autoridades e das obediências em uma sociedade, em uma ordem religiosa e na Igreja. Cada um de nós vive em uma espessa teia de dependências: das autoridades civis, das eclesiásticas; nestas últimas, do superior local, do bispo, da Congregação do clero ou dos religiosos, do Papa. A obediência a Deus é o fio do alto: tudo é construído sobre ela, mas ela não pode ser esquecida nem mesmo após a conclusão da construção. Pelo contrário, tudo recai sobre si mesmo e não se entende mais por que é preciso obedecer.

A participação ativa dos fiéis na Liturgia

Continuando a série de postagens sobre “10 aspectos da Reforma Litúrgica do Vaticano II”, a Rádio Vaticano (agora Vatican News) traz algumas reflexões sobre a participação ativa dos fiéis na celebração:

No nosso espaço Memória Histórica – 50 anos do Concílio Vaticano II, vamos continuar a tratar na edição de hoje sobre a reforma litúrgica.
“Cristo, o grande sacrifício na Eucaristia” foi o tema abordado em nosso último programa.
Já neste primeiro programa do ano de 2018, Padre Gerson Schmidt nos apresenta outro aspecto da reforma litúrgica do Concílio Vaticano II, que é a participação ativa dos fiéis na celebração. Vamos ouvir sua reflexão:
“Um dos aspectos importantes da reforma litúrgica do Concilio Vaticano II é a participação ativa dos fiéis. Para entender bem esse aspecto, acentuado por diversas vezes na Constituição Sacrosanctum Concilium, nós dizemos o seguinte:
Os bispos brasileiros, que tiveram participação no Concilio Vaticano II, apontam que essa participação ativa dos fiéis foi uma das grandes bandeiras firmemente levantadas pelo episcopado brasileiro, por ocasião dos debates nas sessões de aprovação do documento da reforma litúrgica.
A permissão do uso da língua vernácula já trouxe a possibilidade dessa participação mais ativa e consciente, a renovação dos ritos, aclamações e cantos. São inúmeros os textos da Sacrosanctum Concilium que falam dessa participação ativa, inclusive com o título em destaque: “Participação ativa dos fiéis”, mais de uma vez no documento.
Já falamos aqui do número 48 que afirma: “Por isso, a Igreja procura, solícita e cuidadosa, que os cristãos não assistam a este mistério de fé como estranhos ou expectadores mudos, mas participem na ação sagrada consciente, piedosa e ativamente, por meio de uma boa compreensão dos ritos e orações; sejam instruídos na Palavra de Deus”. Ou seja: participação da Missa consciente, piedosa e ativa.
Por isso, nós não vamos “assistir” a Missa, como era a expressão até então, usada antes do Concílio, como se a gente fosse a um cinema ou a um teatro muito bem montado. Precisamos participar de maneira consciente, mesmo no silêncio. Também quem celebra não é somente o sacerdote. Somos todos nós.
Por isso é incorreto, na motivação inicial da Santa Missa, o animador dizer: “Vamos receber o celebrante”. O padre não é somente ele o celebrante. Todos celebramos. O sacerdote é o celebrante principal ou o presidente da celebração. É correto dizer simplesmente: “Vamos receber a procissão de entrada com o canto...”.
Nesse prisma, o número 30 e 31 da SC afirma, tendo como título desses dois artigos - “Participação ativa dos fiéis”:
(30) Para promover a participação ativa, cuide-se de incentivar as aclamações dos fiéis, as respostas, a salmodia, as antífonas, os cânticos, bem como as ações, gestos e atitudes. Seja também observado, a seu tempo, o silêncio sagrado.
(31) Na revisão dos livros litúrgicos, procure-se que as rubricas prevejam também as partes dos fiéis”.

sábado, 17 de março de 2018

Homilia: V Domingo da Quaresma - Ano B

São Cirilo de Alexandria
Comentário sobre o Livro dos Números
“Cristo brotou no meio de nós como uma espiga de trigo; morreu e produz muito fruto”

Cristo foi a primícias deste trigo , ele é o único que escapou da maldição, precisamente quando desejou tornar-se maldição por nós. E mais: venceu até mesmo os agentes da corrupção, retornando por si mesmo à existência livre entre os mortos. Realmente ressuscitou derrotando a morte e subiu ao Pai como dom ofertado, qual primícias da natureza humana renovada na incorruptibilidade. Verdadeiramente, Cristo não entrou em um santuário construído por homens – imagem do autêntico –, mas sim no próprio céu, para dispor-se diante de Deus, intercedendo por nós.
Que Cristo seja aquele pão da vida descido do céu; e que também perdoe os pecados e liberte aos homens de suas transgressões oferecendo-se a si mesmo a Deus Pai como vítima de agradável odor, o poderás compreender perfeitamente se, com os olhos do espírito, o contemplas como aquele novilho sacrificado e como aquele bode imolado pelos pecados do povo. Cristo realmente ofereceu sua vida por nós, para cancelar os pecados do mundo.
Portanto, assim como no pão vemos a Cristo como vida e doador da vida, no novilho o vemos imolado, oferecendo-se novamente a Deus Pai em odor de suavidade; e na figura do bode o contemplamos transformado em pecado por nós e em vítima pelos pecados, da mesma forma podemos considerá-lo como um feixe de trigo. O que pode representar este feixe, eu vos explicarei em poucas palavras.
O gênero humano pode ser comparado às espigas de um campo: nasce de certo modo da terra, desenvolve-se buscando seu crescimento normal, e é ceifado quando a morte o colhe. O próprio Cristo falou disto aos seus discípulos, dizendo: Vocês não dizem que ainda faltam quatro meses para a colheita? Eu porém vos digo: Levantai os olhos e contemplai os campos que já estão maduros para a ceifa; o ceifeiro já está recebendo o salário e armazenando fruto para a vida eterna.
Os habitantes da terra podem, portanto, comparar-se, e com razão, à messe dos campos. E Cristo, modelado conforme nossa natureza, nasceu da Santíssima Virgem assim como uma espiga de trigo. Na realidade, é o próprio Cristo quem se dá o nome de grão de trigo: Em verdade, em verdade vos digo: se o grão de trigo que cai na terra não morre, permanece infecundo; porém, se morre, dá muito fruto. Por esta razão Cristo se tornou para nós anátema, ou seja, em algo consagrado e ofertado ao Pai, à maneira de um feixe ou como as primícias da terra. Uma única espiga, porém, não considerada isoladamente, mas unida a todos nós que, como um feixe formado de muitas espigas, formamos um só molho.
Pois bem, esta realidade é necessária para a nossa utilidade e proveito, e complementa o símbolo do mistério. Pois Cristo Jesus é único, mas pode ser considerado – e realmente o é – como um feixe cingido, pois que contém em si a todos os crentes, com uma união preferentemente espiritual. Do contrário, como poderia São Paulo ter escrito: Ressuscitou-nos com Cristo Jesus e nos assentou com ele no céu? Sendo ele um de nós, comungamos com ele em um mesmo corpo e, mediante a carne, alcançamos a união com ele. E esta é a razão pela qual, em outra passagem, ele mesmo dirige a Deus, Pai celestial, estas palavras: Pai, este é o meu desejo: que todos sejam um, como tu, ó Pai, está em mim e eu em ti, que também eles estejam em nós.


Fonte: Lecionário Patrístico Dominical, pp. 320-322.

sexta-feira, 16 de março de 2018

Cantar o Domingo de Páscoa

Para saber mais sobre os ritos desta celebração, clique aqui.

1. Procissão de Entrada
Canto de entrada à escolha, de caráter pascal. Preferencialmente inspirado em uma das antífonas de entrada propostas no Missal (p. 295):

Ressuscitei, ó Pai, e sempre estou contigo:
Pousaste sobre mim a tua mão,
Tua sabedoria é admirável, aleluia! (Sl 138,18.5-6)


Ou:
Na verdade o Cristo ressuscitou, aleluia!
A ele o poder e a glória pelos séculos eternos (Lc 24,34; Ap 1,6).