sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

O Advento 2017 em Milão

Como já recordamos várias vezes neste blog, a Arquidiocese de Milão possui um rito próprio, o Rito Ambrosiano, que difere em alguns aspectos do Rito Romano. Uma destas diferenças é a duração do Advento: seis semanas, o mesmo tempo da Quaresma.

Outra diferença é quando o dia 24 de dezembro (véspera do Natal) cai em um domingo, como neste ano. Neste caso, o Advento Ambrosiano é antecipado em um domingo, para que o VI Domingo, que é a festa da Maternidade Divina de Maria, possa ser celebrado comodamente.

Este ano, o Arcebispo de Milão, Dom Mario Enrico Delpini, presidiu a Santa Missa todos os seis domingos na Catedral de Santa Maria Nascente, o Duomo de Milão, cada domingo convidando um grupo específico para a celebração:

12 de novembro: I Domingo do Advento
Convidados: Idosos

Procissão de entrada

19 de novembro: II Domingo do Advento
Convidados: Professores e estudantes

Homilia
Consagração
26 de novembro: III Domingo do Advento
Convidados: Nascidos em 1951 (mesmo ano do Arcebispo)

Oração do dia

Angelus do Papa: III Domingo do Advento - Ano B

Papa Francisco
Angelus
Praça São Pedro
Domingo, 17 de dezembro de 2017

Amados irmãos e irmãs, bom dia!
Nos domingos passados a liturgia frisou o que significa pôr-se em atitude de vigilância e o que comporta concretamente preparar o caminho do Senhor. Neste terceiro domingo de Advento, chamado “domingo da alegria”, a liturgia convida-nos a sentir o espírito com o qual tudo isto acontece, ou seja, precisamente, o júbilo. São Paulo convida-nos a preparar a vinda do Senhor assumindo três atitudes. Ouvi bem: três atitudes. Primeira, o júbilo constante; segunda, a oração perseverante; terceira, a ação de graças contínua. Alegria constante, oração perseverante e ação de graças contínua.
A primeira atitude, alegria constante: «Regozijai-vos sempre» (1Ts 5,16), diz São Paulo. Isto significa permanecer sempre na alegria, até quando as coisas não correm segundo os nossos desejos; mas há aquele júbilo profundo, que é a paz: também ela é júbilo, está dentro. E a paz é um júbilo “a nível terreno”, mas é um júbilo. As angústias, as dificuldades e os sofrimentos atravessam a vida de cada um, como todos sabemos; e muitas vezes a realidade que nos circunda parece ser inóspita e árida, semelhante ao deserto no qual ressoava a voz de João Batista, como recorda o Evangelho de hoje (cf. Jo 1,23). Mas precisamente as palavras do Batista revelam que o nosso júbilo se baseia numa certeza, que este deserto é habitado: «no meio de vós - diz - está um a quem vós não conheceis» (v. 26). Trata-se de Jesus, o enviado do Pai que, como frisa Isaías, «leva a boa nova aos que sofrem, cura os de coração despedaçado, anuncia a amnistia aos cativos, e a liberdade aos prisioneiros; proclama um ano de graça da parte do Senhor» (cf. 61,1-2). Estas palavras, que Jesus fará suas no sermão da sinagoga de Nazaré (cf. Lc 4,16-19), esclarecem que a sua missão no mundo consiste na libertação do pecado e das escravidões pessoais e sociais que ele causa. Ele veio à terra para restituir aos homens a dignidade e a liberdade dos filhos de Deus, que só Ele pode comunicar, e dar júbilo para isto.
O júbilo que caracteriza a expetativa do Messias baseia-se na oração perseverante: esta é a segunda atitude. São Paulo diz: «rezai sem cessar» (1Ts 5,17). Por meio da oração podemos entrar numa relação estável com Deus, que é a fonte da verdadeira alegria. A alegria do cristão não se compra, não se pode comprar; vem da fé e do encontro com Jesus Cristo, razão da nossa felicidade. E quanto mais estivermos radicados em Cristo, quanto mais estivermos próximos de Jesus, tanto mais encontraremos a serenidade interior, mesmo no meio das contradições diárias. Por isso o cristão, tendo encontrado Jesus, não pode ser um profeta de desventura, mas uma testemunha e um arauto de alegria. Uma alegria a partilhar com os demais; uma alegria contagiosa que torna menos cansativo o caminho da vida.
A terceira atitude indicada por Paulo é a ação de graças contínua, ou seja, o amor grato a Deus. Com efeito, Ele é muito generoso conosco, e nós somos convidados a reconhecer sempre os seus benefícios, o seu amor misericordioso, a sua paciência e bondade, vivendo assim numa incessante ação de graças.
Júbilo, oração e gratidão são três atitudes que nos preparam para viver o Natal de maneira autêntica. Júbilo, oração e gratidão. Digamos todos juntos: júbilo, oração e gratidão [as pessoas na praça repetem]. Outra vez! [repetem]. Nesta última fase do tempo de Advento, confiemo-nos à materna intercessão da Virgem Maria. Ela é “causa do nosso júbilo”, não só por ter gerado Jesus, mas porque nos reconduz continuamente a Ele.

Depois do Ângelus:
Amados irmãos e irmãs!
E agora uma saudação afetuosa às crianças que vieram para a bênção das imagens do Menino Jesus, organizada pelo Centro dos Oratórios Romanos. É bonito o que eu leio daqui: o oratório é precisamente para cada um de nós. “Há sempre um lugar para ti”, diz o cartaz. Há sempre um lugar para ti! Quando rezardes em casa, diante do presépio com os vossos familiares, deixai-vos atrair pela ternura do Menino Jesus, nascido pobre e frágil no meio de nós, para nos dar o seu amor. É este o verdadeiro Natal. Se tirarmos Jesus, o que resta do Natal? Uma festa vazia. Não tireis Jesus do Natal! Jesus é o centro do Natal, Jesus é o verdadeiro Natal! Compreendestes?
Por isso desejo a todos bom domingo e bom caminho rumo ao Natal de Jesus. Por favor, não vos esqueçais de rezar por mim. Bom almoço e até à vista.


Fonte: Santa Sé

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Raniero Cantalamessa: I Pregação de Advento 2017

Pe. Raniero Cantalamessa, OFMCap
I Pregação de Advento
15/12/2017

"Tudo foi criado por Ele e para Ele"
Cristo e a criação

As meditações do Advento deste ano (somente duas por razões de calendário) se propõem recolocar a pessoa divina-humana de Cristo no centro dos dois grandes componentes que, em conjunto, constituem "o real", isto é, o cosmos e a história, o espaço e o tempo, a criação e o homem. Na verdade, devemos reconhecer que, apesar do muito que se fala dele, Cristo, na nossa cultura, é um marginalizado. Ele está completamente ausente - e por razões mais do que compreensíveis - nos três diálogos principais em que a fé está envolvida no mundo contemporâneo: com a ciência, com a filosofia e com as outras religiões.
O objetivo final não é teórico, mas prático. Trata-se de colocar Cristo, antes de mais nada, "no centro" de nossa vida pessoal e de nossa visão de mundo, no centro das três virtudes teologais da fé, da esperança e da caridade. O Natal é a melhor época para tal reflexão, pois nele lembramos o momento em que o Verbo se faz carne, entrando, também fisicamente, na criação e na história, no espaço e no tempo.

1. A terra estava vazia
Nesta primeira meditação, vamos refletir na primeira parte do programa anunciado: sobre o relacionamento, isto é, entre Cristo e o cosmos. "No princípio, Deus criou os céus e a terra. A terra estava informe e vazia; as trevas cobriam o abismo e o Espírito de Deus pairava sobre as águas" (Gn 1,1-2). Um autor medieval, o abade inglês Alexander Neckam (1157-1217), comenta dessa forma, em seu poema, esses versículos iniciais da Bíblia:
A terra estava vazia porque o Verbo não se tinha feito carne ainda.
Nossa terra estava vazia porque a plenitude da graça e da verdade ainda não vivia ali.
Estava vazia porque ainda não era firme e estável pela união com a divindade.
Nosso lar terreno estava vazio porque a plenitude do tempo não havia chegado.
"E as trevas cobriam o abismo”. A luz verdadeira ainda não havia chegado
Que ilumina cada homem que entra neste mundo" [1].
Eu acredito que a relação entre criação e encarnação não pode ser expressa de uma maneira mais bíblica e sugestiva do que pela leitura do início do Livro do Gênesis feita pelo início do Evangelho de João, assim como faz esse autor. A encíclica Laudato si’ dedica a este tema um parágrafo que, dada a sua brevidade, podemos ouvir na íntegra:
Segundo a compreensão cristã da realidade, o destino da criação inteira passa pelo mistério de Cristo, que nela está presente desde a origem: «Todas as coisas foram criadas por Ele e para Ele» (Cl 1,16). O prólogo do Evangelho de João (1, 1-18) mostra a atividade criadora de Cristo como Palavra divina (Logos). Mas o mesmo prólogo surpreende ao afirmar que esta Palavra «Se fez carne» (Jo 1, 14). Uma Pessoa da Santíssima Trindade inseriu-Se no universo criado, partilhando a própria sorte com ele até à cruz. Desde o início do mundo, mas de modo peculiar a partir da encarnação, o mistério de Cristo opera veladamente no conjunto da realidade natural, sem com isso afetar a sua autonomia. (n. 99)
É uma questão de saber qual lugar ocupa a pessoa de Cristo em todo o universo. Hoje, esta é uma tarefa mais urgente do que nunca. Maurice Blondel escrevia para um amigo:
"Em face dos horizontes ampliados da ciência da natureza e da humanidade, não podemos, sem trair o catolicismo, permanecer em explicações medíocres e maneiras limitadas de ver Cristo como um incidente histórico, que o isolam no Cosmos como um episódio pós-fixo, e parecem fazer dele um intruso ou um homem perdido na esmagadora e hostil imensidão do Universo” [2].
Os textos bíblicos que fundamentam nossa fé no papel cósmico de Cristo são aqueles de Paulo e de João citados na encíclica que convém recordar aqui na íntegra. O primeiro (também em ordem cronológica) é Colossenses 1,15-17:
"Ele é a imagem de Deus invisível, o Primogênito de toda a criação. Nele foram criadas todas as coisas nos céus e na terra, as criaturas visíveis e as invisíveis. Tronos, dominações, principados, potestades: tudo foi criado por ele e para ele. Ele existe antes de todas as coisas, e todas as coisas subsistem nele."
O outro texto é de João 1,3.10:
"Tudo foi feito por ele, e sem ele nada foi feito [...]"Estava no mundo e o mundo foi feito por ele, e o mundo não o reconheceu."
Apesar da consonância impressionante desses textos, é possível identificar entre eles uma diferença de acento que terá grande importância no futuro desenvolvimento da teologia. Para João, o elo que une a criação é redenção é o momento em que "o Verbo se fez carne e habitou entre nós”; se tornou carne e habitou entre nós"; Para Paulo, o elo é o momento da cruz. Para o primeiro é a encarnação, para o segundo é o mistério pascoal. O texto de Colossenses continua, de fato, dizendo:
"Porque aprouve a Deus fazer habitar nele toda a plenitude e por seu intermédio reconciliar consigo todas as criaturas, por intermédio daquele que, ao preço do próprio sangue na cruz, restabeleceu a paz a tudo quanto existe na terra e nos céus." (Cl 1,19-20)
A reflexão patrística, sob a pressão das heresias, valorizou quase um único elemento dessas afirmações: o que eles dizem sobre a pessoa de Cristo e da salvação do homem conquistada por ele; pouco ou nada, no entanto, do que dizem do seu significado cósmico, isto é, do significado de Cristo para o resto da criação.
No que diz respeito aos arianos, esses textos serviam para afirmar a divindade e a pré-existência de Cristo. O Filho de Deus não pode ser uma criatura, argumentava Atanásio, já que é o criador de tudo. O significado cósmico do Logos na criação não encontra um correspondente adequado na redenção. O único texto que se prestava a um desenvolvimento neste sentido - o de Romanos 8,19-22 sobre a criação que geme e sofre as dores de um parto - nunca foi, que eu saiba, o ponto de partida de uma reflexão profunda por parte dos Padres da Igreja.
Para a questão do "porquê" da encarnação, de Santo Atanásio (De incarnatione) a Santo Anselmo de Aosta (Cur Deus homo), se responde essencialmente com as palavras do credo: "Propter nos homines et propter nostram salutem descendit de caelis": "Por nós homens e para a nossa salvação, desceu do céu". A perspectiva é a antropológica da relação de Cristo com a humanidade: não abraça, a não ser incidentalmente, a relação de Cristo com o cosmos. Isso aparece só de passagem na polêmica contra os gnósticos e os maniqueus que contrapunham criação e redenção, como obra de dois deus diferentes e consideravam a matéria e o cosmos como intrinsecamente estranhos a Deus e incapazes de salvação.
Em um determinado momento do desenvolvimento da fé, na Idade Média, entra em cena outra resposta à pergunta "Por que Deus se tornou homem". Pode a vinda de Cristo, pergunta-se, que é o primogênito de toda a criação" (Cl 1,15), depender totalmente do pecado do homem, ocorrido logo após a criação?
Nessa linha, o Beato Duns Scoto dá o passo decisivo, retirando a Encarnação do seu vínculo essencial com o pecado. O motivo da encarnação, diz, reside no fato de que Deus quer ter, fora de si, alguém que o ame de uma maneira suprema e digna de si [3]. Cristo é desejado por si mesmo, como o único capaz de amar o Pai - e ser amado por ele - com um amor infinito, digno de Deus. O Verbo teria se encarnado também se Adão não tivesse pecado, porque ele é a própria coroação da criação, a obra suprema de Deus. O pecado do homem determinou o modo da encarnação conferindo-lhe o caráter de redenção do pecado, não o próprio fato da encarnação. Essa tem uma razão transcendente, não ocasional.

Ingresso do novo Núncio Apostólico na Terra Santa

No último dia 14 de dezembro o novo Núncio Apostólico na Terra Santa, Dom Leopoldo Girelli, nomeado pelo Papa Francisco em 13 de setembro, tomou posse do seu ofício realizando o ingresso solene em Jerusalém.

O Núncio foi acolhido por representantes das três grandes igrejas cristãs em Jerusalém (Católica Romana, Ortodoxa Bizantina e Ortodoxa Armênia) e participou de uma celebração na Basílica do Santo Sepulcro.

Chegada do Núncio
Saudação aos representantes das igrejas

Procissão até a Basílica do Santo Sepulcro

A importância das duas espécies eucarísticas

Continuamos a publicar os textos divulgados pela Rádio Vaticano - Programa Brasileiro sobre a reforma litúrgica do Concílio Vaticano II:

06/12/2017

A reforma litúrgica trazida pelo Concílio Vaticano II, através da Constituição Sacrosanctum Concilium, provocou mudanças profundas na Liturgia. Temos abordado alguns aspectos neste nosso espaço. No último programa, falamos sobre o uso da língua vernácula, isto é, falada em cada nação, visto que até então, a celebração era toda em latim.
Na edição de hoje, Padre Gerson Schmidt nos traz a primeira parte da reflexão “A importância das duas espécies Eucarísticas”:
“Na reforma litúrgica do Concilio Vaticano II, percebemos 10 aspectos de renovação, a partir da Constituição Sacrosanctum Concilium. Já abordamos o valor da assembleia litúrgica e o uso da língua vernácula, a língua mãe de cada país. Hoje falaremos da importância da utilização dos sinais das duas espécies eucarísticas – o pão e o vinho, transformados em Corpo e Sangue do Senhor (SC 55 – Missal Romano 240, 241, 14, 283).
Jesus, na última ceia, utilizou não simplesmente o pão, mas também o vinho, como sinais de sua presença pela consagração que operou, transformando as matérias de pão e vinho em Corpo e Sangue do Senhor. Ao decorrer do tempo, a Igreja, para ser mais prática e fácil a distribuição do sacramento para grandes públicos, reduziu o sinal tão simplesmente para distribuição da hóstia, que nem mais se parece pão, e também não conseguindo distribuir o Sangue de Cristo, que na última ceia, todos os apóstolos presentes beberam igualmente.
Na renovação da liturgia, o número 55 da Sacrosanctum Concilium aponta para essa reutilização da Comunhão sob as duas espécies. O texto conciliar reza assim: “Recomenda-se muito vivamente aquela mais perfeita participação na Missa, pela qual os fiéis, depois da comunhão do sacerdote, recebem do mesmo sacrifício o Corpo do Senhor. A comunhão sob as duas espécies, firmes os princípios dogmáticos estabelecidos pelo Concílio de Trento, pode ser permitida, quer aos clérigos e religiosos, quer aos leigos, nos casos a serem determinados pela Santa Sé e a critério do Bispo, como aos neo-sacerdotes na missa de sua ordenação, aos professos na missa de sua profissão religiosa, aos neófitos na missa que se segue ao batismo” (SC, 55).
A Introdução Geral do Missal Romano, reformulado a partir do Concilio Vaticano II, apresenta diversos pontos, que aqui nesse espaço queremos destacar, a respeito das espécies eucarísticas. O número 240 da Introdução fala com título em vermelho: “comunhão sob as duas espécies”: “A comunhão realiza mais plenamente o seu aspecto de sinal quando sob as duas espécies. Sob essa forma se manifesta mais perfeitamente o sinal do banquete eucarístico e se exprime de modo mais claro a vontade divina de realizar a nova e eterna Aliança no Sangue do Senhor, assim como a relação entre o banquete eucarístico e o banquete escatológico no reino do Pai”.
A nota ao pé da página do Missal Romano referenda a Instrução Eucharisticum mysterium, de 25 de maio de 1967, documento datado justamente no encerramento do Concílio.
O Missal Romano, no número 241, lembra que, mesmo recebendo somente uma espécie, recebemos integralmente o Corpo e o Sangue de Cristo. Diz assim: “Aqueles que recebem uma só espécie, não ficam privados de nenhuma graça necessária à salvação”.

13/12/2017

No programa passado deste nosso espaço, trouxemos a primeira parte da reflexão sobre a importância das duas espécies eucarísticas, onde foi sublinhado que o Missal Romano, no número 240 da Introdução, afirma que “a comunhão realiza mais plenamente o seu aspecto de sinal quando sob as duas espécies”, observando, porém, no número 241, que “mesmo recebendo somente numa espécie, recebemos integralmente o Corpo e o Sangue de Cristo”.
Padre Gerson Schmidt, incardinado na Arquidiocese de Porto Alegre, dá continuidade esta quarta-feira à reflexão sobre o mesmo tema:
"Na oportunidade anterior, falamos da importância da utilização dos sinais das duas espécies eucarísticas - o pão e o vinho, transformados em Corpo e Sangue do Senhor, como uma das orientações da Sacrosanctum Concilium. Apontamos 10 itens da Reforma na Liturgia. Continuamos a aprofundar esse terceiro ponto - as duas espécies eucarísticas.
Comentamos que na introdução do Missal Romano, reformulado a partir do Concilio Vaticano II, apresenta diversos pontos, e o número 240, da introdução, fala com título em vermelho: “Comunhão sob as duas espécies”. Diz assim o texto que “a comunhão realiza mais plenamente o seu aspecto de sinal quando sob as duas espécies. Sob essa forma se manifesta mais perfeitamente o sinal do banquete eucarístico e se exprime de modo mais claro a vontade divina de realizar a nova e eterna Aliança no Sangue do Senhor, assim como a relação entre o banquete eucarístico e o banquete escatológico no reino do Pai”.
Portanto, as novas orientações feitas a partir da Constituição Sacrosanctum Concilium, incentivam a utilização das duas espécies eucarísticas. Há um outro aspecto que gostaríamos de frisar, a respeito da hóstia, como é hoje normalmente confeccionada. O número 283, da introdução do Missal Romano, diz assim: “A verdade do sinal exige que a matéria da Celebração Eucarística pareça realmente um alimento. Convém, portanto, que, embora ázimo e com forma tradicional, seja o pão eucarístico de tal modo preparado que o sacerdote, na Missa com o povo, possa de fato partir a hóstia em diversas partes e distribuí-la ao menos a alguns fiéis”.
Portanto, a matéria a ser consagrada pareça realmente um alimento. A questão é que nem sempre a hóstia parece um pão, e aí se perde o sacramento como um sinal sensível, palpável e que se exprima “de modo mais claro a vontade divina de realizar a nova e eterna Aliança no Sangue do Senhor” (Introdução Geral do Missal Romano, 240).
Por razões pastorais, diz o Missal, se fazem as hóstias pequenas e que, na prática, permitem uma distribuição mais ágil e para assembleias mais numerosas. Porém, sabemos que nada impede que, em assembleias pequenas se possa consagrar o vinho e distribuí-lo a todos e consagrar a matéria do pão em forma de pão ázimo, como foi a primeira Eucaristia realizada na última ceia.
Já existe uma prática comum em muitas de nossas comunidades de distribuir também o Sangue do Senhor por intinção, ou seja, quando se mergulha a hóstia consagrada no cálice, embebendo-a com o Sangue e distribuindo aos fiéis [1]. Porém, se questiona muito essa forma, pois Cristo disse: “Tomai e bebei”. Supõe-se que seja beber do cálice. Não disse: “Tomai e molhai em meu sangue”.
Em todo o caso, essa iniciativa já é uma busca de permitir aos fiéis que tomem também o Sangue de alguma forma. Mas ainda não expressa de forma mais clara e real a ceia, da forma que Cristo fez.

[1] A intinção deve sempre ser feita pelo ministro, sacerdote ou ministro extraordinário, e nunca pelo fiel (Instrução Redemptionis Sacramentum, n. 104). Da mesma forma, neste caso o fiel deve receber sempre a Comunhão na boca (ibid.) – Nota do autor deste blog.


terça-feira, 19 de dezembro de 2017

Memória de Santa Luzia em Veneza

No último dia 13 de dezembro o Patriarca de Veneza, Dom Francesco Moraglia celebrou a Santa Missa da memória de Santa Luzia, Virgem e Mártir, na igreja de São Jeremias, onde encontram-se as relíquias da santa, trazidas a Veneza na época das Cruzadas.

Procissão de entrada

Ritos iniciais
Homilia
Oração diante das relíquias de Santa Luzia
Bênção
Imagens: Patriarcato di Venezia - Flickr

IV Catequese do Papa sobre a Missa: Por que ir à Missa aos domingos?

Papa Francisco
Audiência Geral
Quarta-feira, 13 de dezembro de 2017
A Missa (4): Por que ir à Missa aos domingos?

Bom dia, prezados irmãos e irmãs!
Retomando o caminho de catequeses sobre a Missa, hoje perguntemo-nos: por que ir à Missa aos domingos?
A celebração dominical da Eucaristia está no centro da vida da Igreja (cf. Catecismo da Igreja Católica, n. 2177). Nós, cristãos, vamos à Missa aos domingos para encontrar o Senhor Ressuscitado, ou melhor, para nos deixarmos encontrar por Ele, ouvir a sua Palavra, alimentar-nos à sua mesa e assim tornar-nos Igreja, isto é, seu Corpo Místico vivo no mundo.
Compreenderam isto, desde o princípio, os discípulos de Jesus, que celebraram o encontro eucarístico com o Senhor no dia da semana ao qual os judeus chamavam “o primeiro da semana” e os romanos “dia do sol”, porque naquele dia Jesus tinha ressuscitado dos mortos e aparecido aos discípulos, falando com eles, comendo com eles, concedendo-lhes o Espírito Santo, como ouvimos na leitura bíblica (cf. Mt 28,1; Mc 16,9.14; Lc 24,1.13; Jo 20,1.19). Também a grande efusão do Espírito no Pentecostes teve lugar no domingo, cinquenta dias depois da Ressurreição de Jesus. Por estas razões, o domingo é um dia santo para nós, santificado pela celebração eucarística, presença viva do Senhor entre nós e para nós. Portanto, é a Missa que faz o domingo cristão! O domingo cristão gira em volta da Missa. Que domingo é, para o cristão, aquele no qual falta o encontro com o Senhor?
Existem comunidades cristãs que, infelizmente, não podem beneficiar-se da Missa todos os domingos; no entanto, também elas, neste dia santo, são chamadas a recolher-se em oração em nome do Senhor, ouvindo a Palavra de Deus e mantendo vivo o desejo da Eucaristia.
Algumas sociedades secularizadas perderam o sentido cristão do domingo iluminado pela Eucaristia. Isto é pecado! Em tais contextos é preciso reavivar esta consciência, para recuperar o significado da festa, o significado da alegria, da comunidade paroquial, da solidariedade e do descanso que revigora a alma e o corpo (cf. Catecismo da Igreja Católica, nn. 2177-2188). De todos estes valores a Eucaristia é a nossa mestra, domingo após domingo. Por isso, o Concílio Vaticano II quis reiterar que «o domingo é, pois, o principal dia de festa a propor e inculcar no espírito dos fiéis; seja também o dia da alegria e do repouso, da abstenção do trabalho» (Const. Sacrosanctum concilium, 106).
A abstenção dominical do trabalho não existia nos primeiros séculos: é uma contribuição específica do cristianismo. Por tradição bíblica, os judeus descansam no sábado, enquanto na sociedade romana não estava previsto um dia semanal de abstenção dos trabalhos servis. Foi o sentido cristão do viver como filhos e não como escravos, animado pela Eucaristia, que fez do domingo - quase universalmente - o dia do descanso.
Sem Cristo estamos condenados a ser dominados pelo cansaço do dia a dia, com as suas preocupações, e pelo medo do amanhã. O encontro dominical com o Senhor dá-nos a força para viver o presente com confiança e coragem, e para progredir com esperança. Por isso nós, cristãos, vamos encontrar-nos com o Senhor aos domingos, na Celebração Eucarística.
A Comunhão Eucarística com Jesus, Ressuscitado e Vivo eternamente, antecipa o Domingo sem ocaso, quando já não haverá cansaço nem dor, nem luto, nem lágrimas, mas só a alegria de viver plenamente e para sempre com o Senhor. Inclusive sobre este abençoado descanso nos fala a Missa dominical, ensinando-nos, no decorrer da semana, a confiar-nos nas mãos do Pai que está no Céu.
Como podemos responder a quem diz que não é preciso ir à Missa, nem sequer aos domingos, porque o importante é viver bem, amar o próximo? É verdade que a qualidade da vida cristã se mede pela capacidade de amar, como disse Jesus: «Disto todos saberão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros» (Jo 13,35); mas como podemos praticar o Evangelho sem haurir a energia necessária para o fazer, um domingo após o outro, na fonte inesgotável da Eucaristia? Não vamos à Missa para oferecer algo a Deus, mas para receber dele aquilo de que verdadeiramente temos necessidade. Recorda-o a oração da Igreja, que assim se dirige a Deus: «Tu não precisas do nosso louvor, mas por um dom do teu amor chamas-nos a dar-te graças; os nossos hinos de bênção não aumentam a tua grandeza, mas obtém para nós a graça que nos salva» (Missal Romano, Prefácio comum IV).
Em síntese, por que ir à Missa aos domingos? Não é suficiente responder que é um preceito da Igreja; isto ajuda a preservar o seu valor, mas sozinho não basta. Nós, cristãos, temos necessidade de participar na Missa dominical, porque só com a graça de Jesus, com a sua presença viva em nós e entre nós, podemos pôr em prática o seu mandamento, e assim ser suas testemunhas credíveis.


Fonte: Santa Sé