Pe. Raniero
Cantalamessa, OFMCap
I Pregação de Advento
15/12/2017
"Tudo foi criado por Ele e
para Ele"
Cristo e a criação
As meditações do Advento deste ano (somente duas por razões
de calendário) se propõem recolocar a pessoa divina-humana de Cristo no centro
dos dois grandes componentes que, em conjunto, constituem "o real",
isto é, o cosmos e a história, o espaço e o tempo, a criação e o homem. Na
verdade, devemos reconhecer que, apesar do muito que se fala dele, Cristo, na
nossa cultura, é um marginalizado. Ele está completamente ausente - e por
razões mais do que compreensíveis - nos três diálogos principais em que a fé
está envolvida no mundo contemporâneo: com a ciência, com a filosofia e com as
outras religiões.
O objetivo final não é teórico, mas prático. Trata-se de
colocar Cristo, antes de mais nada, "no centro" de nossa vida pessoal
e de nossa visão de mundo, no centro das três virtudes teologais da fé, da
esperança e da caridade. O Natal é a melhor época para tal reflexão, pois nele
lembramos o momento em que o Verbo se faz carne, entrando, também fisicamente,
na criação e na história, no espaço e no tempo.
1. A terra estava
vazia
Nesta primeira meditação, vamos refletir na primeira parte
do programa anunciado: sobre o relacionamento, isto é, entre Cristo e o cosmos.
"No princípio, Deus criou os céus e a terra. A terra estava informe e
vazia; as trevas cobriam o abismo e o Espírito de Deus pairava sobre as
águas" (Gn 1,1-2). Um autor medieval, o abade inglês Alexander Neckam
(1157-1217), comenta dessa forma, em seu poema, esses versículos iniciais da
Bíblia:
A terra estava vazia porque o Verbo não se tinha feito carne
ainda.
Nossa terra estava vazia porque a plenitude da graça e da
verdade ainda não vivia ali.
Estava vazia porque ainda não era firme e estável pela união
com a divindade.
Nosso lar terreno estava vazio porque a plenitude do tempo
não havia chegado.
"E as trevas cobriam o abismo”. A luz verdadeira ainda
não havia chegado
Que ilumina cada homem que entra neste mundo" [1].
Eu acredito que a relação entre criação e encarnação não
pode ser expressa de uma maneira mais bíblica e sugestiva do que pela leitura
do início do Livro do Gênesis feita pelo início do Evangelho de João, assim
como faz esse autor. A encíclica Laudato si’ dedica a este tema um parágrafo
que, dada a sua brevidade, podemos ouvir na íntegra:
Segundo a compreensão cristã da realidade, o destino da
criação inteira passa pelo mistério de Cristo, que nela está presente desde a
origem: «Todas as coisas foram criadas por Ele e para Ele» (Cl 1,16). O prólogo
do Evangelho de João (1, 1-18) mostra a atividade criadora de Cristo como
Palavra divina (Logos). Mas o mesmo prólogo surpreende ao afirmar que esta
Palavra «Se fez carne» (Jo 1, 14). Uma Pessoa da Santíssima Trindade inseriu-Se
no universo criado, partilhando a própria sorte com ele até à cruz. Desde o
início do mundo, mas de modo peculiar a partir da encarnação, o mistério de
Cristo opera veladamente no conjunto da realidade natural, sem com isso afetar
a sua autonomia. (n. 99)
É uma questão de saber qual lugar ocupa a pessoa de Cristo
em todo o universo. Hoje, esta é uma tarefa mais urgente do que nunca. Maurice
Blondel escrevia para um amigo:
"Em face dos horizontes ampliados da ciência da
natureza e da humanidade, não podemos, sem trair o catolicismo, permanecer em
explicações medíocres e maneiras limitadas de ver Cristo como um incidente
histórico, que o isolam no Cosmos como um episódio pós-fixo, e parecem fazer
dele um intruso ou um homem perdido na esmagadora e hostil imensidão do
Universo” [2].
Os textos bíblicos que fundamentam nossa fé no papel cósmico
de Cristo são aqueles de Paulo e de João citados na encíclica que convém
recordar aqui na íntegra. O primeiro (também em ordem cronológica) é
Colossenses 1,15-17:
"Ele é a imagem de Deus invisível, o Primogênito de
toda a criação. Nele foram criadas todas as coisas nos céus e na terra, as
criaturas visíveis e as invisíveis. Tronos, dominações, principados,
potestades: tudo foi criado por ele e para ele. Ele existe antes de todas as
coisas, e todas as coisas subsistem nele."
O outro texto é de João 1,3.10:
"Tudo foi feito por ele, e sem ele nada foi feito
[...]"Estava no mundo e o mundo foi feito por ele, e o mundo não o
reconheceu."
Apesar da consonância impressionante desses textos, é
possível identificar entre eles uma diferença de acento que terá grande
importância no futuro desenvolvimento da teologia. Para João, o elo que une a
criação é redenção é o momento em que "o Verbo se fez carne e habitou
entre nós”; se tornou carne e habitou entre nós"; Para Paulo, o elo é o
momento da cruz. Para o primeiro é a encarnação, para o segundo é o mistério
pascoal. O texto de Colossenses continua, de fato, dizendo:
"Porque aprouve a Deus fazer habitar nele toda a
plenitude e por seu intermédio reconciliar consigo todas as criaturas, por
intermédio daquele que, ao preço do próprio sangue na cruz, restabeleceu a paz
a tudo quanto existe na terra e nos céus." (Cl 1,19-20)
A reflexão patrística, sob a pressão das heresias, valorizou
quase um único elemento dessas afirmações: o que eles dizem sobre a pessoa de
Cristo e da salvação do homem conquistada por ele; pouco ou nada, no entanto,
do que dizem do seu significado cósmico, isto é, do significado de Cristo para
o resto da criação.
No que diz respeito aos arianos, esses textos serviam para
afirmar a divindade e a pré-existência de Cristo. O Filho de Deus não pode ser
uma criatura, argumentava Atanásio, já que é o criador de tudo. O significado
cósmico do Logos na criação não encontra um correspondente adequado na
redenção. O único texto que se prestava a um desenvolvimento neste sentido - o
de Romanos 8,19-22 sobre a criação que geme e sofre as dores de um parto -
nunca foi, que eu saiba, o ponto de partida de uma reflexão profunda por parte
dos Padres da Igreja.
Para a questão do "porquê" da encarnação, de Santo
Atanásio (De incarnatione) a Santo
Anselmo de Aosta (Cur Deus homo), se
responde essencialmente com as palavras do credo: "Propter nos homines et propter nostram salutem descendit de caelis":
"Por nós homens e para a nossa salvação, desceu do céu". A
perspectiva é a antropológica da relação de Cristo com a humanidade: não
abraça, a não ser incidentalmente, a relação de Cristo com o cosmos. Isso
aparece só de passagem na polêmica contra os gnósticos e os maniqueus que
contrapunham criação e redenção, como obra de dois deus diferentes e
consideravam a matéria e o cosmos como intrinsecamente estranhos a Deus e
incapazes de salvação.
Em um determinado momento do desenvolvimento da fé, na Idade
Média, entra em cena outra resposta à pergunta "Por que Deus se tornou
homem". Pode a vinda de Cristo, pergunta-se, que é o primogênito de toda a
criação" (Cl 1,15), depender totalmente do pecado do homem, ocorrido logo
após a criação?
Nessa linha, o Beato Duns Scoto dá o passo decisivo,
retirando a Encarnação do seu vínculo essencial com o pecado. O motivo da
encarnação, diz, reside no fato de que Deus quer ter, fora de si, alguém que o
ame de uma maneira suprema e digna de si [3]. Cristo é desejado por si mesmo,
como o único capaz de amar o Pai - e ser amado por ele - com um amor infinito,
digno de Deus. O Verbo teria se encarnado também se Adão não tivesse pecado,
porque ele é a própria coroação da criação, a obra suprema de Deus. O pecado do
homem determinou o modo da encarnação conferindo-lhe o caráter de redenção do
pecado, não o próprio fato da encarnação. Essa tem uma razão transcendente, não
ocasional.