segunda-feira, 10 de março de 2014

Fotos da Quarta-feira de Cinzas em Roma

No último dia 05 de março, Sua Santidade o Papa Francisco celebrou a Santa Missa da Quarta-feira de Cinzas segundo a forma das antigas estações quaresmais:

Após a oração inicial na igreja de Santo Anselmo no Aventino, o Papa, os Cardeais, Bispos, religiosos e fieis dirigiram-se em procissão, cantando a Ladainha de todos os Santos, à Basílica de Santa Sabina, onde foi celebrada a Missa.

O Santo Padre foi assistido pelos Monsenhores Guido Marini e Massimiliano Matteo Boiardi. O livreto da celebração pode ser visto aqui.

Oração inicial (Igreja de Sto. Anselmo)
Procissão



Homilia do Papa na Quarta-feira de Cinzas

SANTA MISSA, BÊNÇÃO E IMPOSIÇÃO DAS CINZAS
HOMILIA DO PAPA FRANCISCO
Basílica de Santa Sabina  
Quarta-feira, 3 de Março de 2014

«Dilacerai os vossos corações e não as vossas vestes» (Jl 2, 13).
Com estas palavras penetrantes do profeta Joel, a liturgia introduz-nos hoje na Quaresma, indicando na conversão do coração a característica deste tempo de graça. O apelo profético constitui um desafio para todos nós, sem excluir ninguém, e recorda-nos que a conversão não se reduz a formas externas nem a propósitos indefinidos, mas compromete e transforma a existência inteira a partir do centro da pessoa, da sua consciência. Estamos convidados a empreender um caminho no qual, desafiando a rotina, nos devemos esforçar por abrir os olhos e os ouvidos, mas sobretudo o coração, para irmos além do nosso «pequeno horto».
Abrir-se a Deus e aos irmãos. Sabemos que este mundo cada vez mais artificial nos faz viver numa cultura do «fazer», do «útil», onde sem nos darmos conta excluímos Deus do nosso horizonte. Mas assim excluímos também o próprio horizonte! A Quaresma convida-nos a «despertar», a recordar-nos que somos criaturas, simplesmente que nós não somos Deus. Quando observo, no pequeno ambiente quotidiano, algumas lutas de poder para ocupar espaços, penso comigo mesmo: estas pessoas brincam de Deus Criador. Ainda não compreenderam que elas não são Deus!
E também em relação ao próximo, corremos o risco de nos fecharmos, de o esquecermos. Todavia, somente quando as dificuldades e os sofrimentos dos nossos irmãos nos interpelam, só então podemos encetar o nosso caminho de conversão rumo à Páscoa. Trata-se de um itinerário que abrange a cruz e a renúncia. O Evangelho de hoje indica os elementos deste percurso espiritual: a oração, o jejum e a esmola (cf. Mt 6, 1-6.16-18). Estes três elementos exigem a necessidade de não nos deixarmos dominar pelas aparências: o que conta não é a aparência; o valor da vida não depende da aprovação dos outros nem do sucesso, mas daquilo que temos dentro de nós.
O primeiro elemento é a oração. A oração é a força do cristão e de cada pessoa crente. Na debilidade e fragilidade da nossa vida, podemos dirigir-nos a Deus com confiança filial e entrar em comunhão com Ele. Diante de tantas feridas que nos angustiam e que poderiam tornar o nosso coração insensível, somos chamados a mergulhar no mar da oração, que é o oceano do Amor ilimitado de Deus, para saborear a sua ternura. A Quaresma é tempo de oração, de uma prece mais intensa, mais prolongada, mais assídua e mais capaz de nos tornar responsáveis pelas necessidades dos irmãos; prece de intercessão, a fim de rogar a Deus por tantas situações de pobreza e de sofrimento.
O segundo elemento qualificador do caminho quaresmal é o jejum. Devemos estar atentos a não praticar um jejum formal, ou que na verdade nos «sacia» porque nos faz sentir bons. O jejum só tem sentido se incide deveras sobre a nossa segurança, mas também se beneficiar o nosso próximo, se nos ajudar a cultivar o estilo do bom Samaritano, que se inclina sobre o irmão em dificuldade cuida dele. O jejum comporta a escolha de uma vida sóbria, segundo o seu estilo; uma existência que não desperdiça, uma vida que não «descarta». Jejuar ajuda-nos a treinar o coração para a essencialidade e a partilha. É um sinal de tomada de consciência e de responsabilidade perante as injustiças e os abusos, especialmente em relação aos pobres e aos mais pequeninos; é sinal da confiança que depositamos em Deus e na sua Providência.
Terceiro elemento, a esmola: ela indica a gratuidade, porque na esmola damos a alguém de quem nada esperamos receber em troca. A gratuidade deveria ser uma das características do cristão que, consciente de ter recebido tudo de Deus gratuitamente, ou seja, sem qualquer mérito, aprende também a doar aos outros de modo gratuito. Hoje muitas vezes a gratuidade não faz parte da vida diária, onde tudo se vende e tudo se compra. Tudo é cálculo e medida. A esmola ajuda-nos a viver a gratuidade do dom, que é liberdade da opressão da posse, do medo de perder aquilo que possuímos, da tristeza de quem não quer compartilhar o seu bem-estar com o próximo.

Com os seus convites à conversão, providencialmente, a Quaresma desperta-nos, acorda-nos do torpor e do risco de irmos em frente por inércia. A exortação que o Senhor nos dirige através do profeta Joel é vigorosa e clara: «Voltai para mim com todo o vosso coração» (Jl 2, 12). Por que motivo devemos voltar para Deus? Porque algo não funciona em nós, na sociedade e na Igreja, e porque temos necessidade de mudar, de fazer uma transformação. E isto chama-se precisar de conversão! Mais uma vez, a Quaresma vem dirigir-nos o seu apelo profético, para nos recordar que é possível realizar algo de novo em nós mesmos ao nosso redor, simplesmente porque Deus é fiel, sempre fiel, porque não pode renegar-se a si mesmo, continua a ser rico de generosidade e de misericórdia, sempre pronto para perdoar e recomeçar de zero. Ponhamo-nos a caminho com esta confiança filial!


Fonte: Santa Sé

sexta-feira, 7 de março de 2014

As igrejas estacionais romanas

Na postagem anterior tratamos das estações quaresmais romanas. Resta-nos agora analisar o processo de formação do itinerário das igrejas estacionais, compreendido em três fases:

Século IV: As estações mais antigas são as da quarta, sexta e sábado das Têmporas  da Quaresma (I semana), do 3º, 4º e 5º Domingos e do Tríduo Pascal. Eram celebradas nas grandes basílicas: São João do Latrão, São Pedro no Vaticano, São Paulo Extra-Muros, Santa Maria Maior, São Lourenço Extra-Muros e Santa Cruz de Jerusalém.

Século V: Acrescentam-se as estações para todos os dias restantes, exceto as quintas-feiras. Compõem estas estações as igrejas titulares de Roma (tituli), que eram as igrejas paroquiais da época. O grande promotor das estações neste período foi o Papa Hilário (461-468).

Século VIII: Por fim, o Papa Gregório II (715-731) inclui as estações para as quintas-feiras. Como a quinta-feira era dedicada ao deus romano Júpiter, os primeiros cristãos não celebravam a Missa neste dia, para que essa não fosse confundida com os cultos pagãos.

Segue a lista das igrejas estacionais romanas, conforme a lista publicada pela Pontifícia Academia Cultorum Martyrum:

Quarta-feira de Cinzas: Santa Sabina no Aventino
Quinta-feira: São Jorge no Velabro
Sexta-feira: Santos João e Paulo no Célio
Sábado: Santo Agostinho in Campo Marzio

I Domingo da Quaresma: São João do Latrão
Segunda-feira: São Pedro in Vincoli
Terça-feira: Santa Anastácia no Palatino
Quarta-feira: Santa Maria Maior
Quinta-feira: São Lourenço in Panisperna
Sexta-feira: Santos XII Apóstolos no Foro Traiano
Sábado: São Pedro no Vaticano
 
São Pedro no Vaticano
II Domingo da Quaresma: Santa Maria in Domenica ala Navicella
Segunda-feira: São Clemente no Coliseu
Terça-feira: Santa Balbina no Aventino
Quarta-feira: Santa Cecilia in Trastevere
Quinta-feira: Santa Maria in Trastevere
Sexta-feira: São Vital in Fovea
Sábado: Santos Marcelino e Pedro no Latrão

São João do Latrão
III Domingo da Quaresma: São Lourenço Extra-Muros
Segunda-feira: São Marcos no Campidoglio
Terça-feira: Santa Pudenciana no Vimiale
Quarta-feira: São Sisto
Quinta-feira: Santos Cosme e Damião na Via Sacra
Sexta-feira: São Lourenço in Lucina
Sábado: Santa Susana nas Termas de Diocleciano

São Paulo Extra-Muros
IV Domingo da Quaresma: Santa Cruz de Jerusalém
Segunda-feira: Santos Quatro Coroados no Célio
Terça-feira: São Lourenço in Dâmaso
Quarta-feira: São Paulo Extra-Muros
Quinta-feira: Santos Silvestre e Martinho ao Monti
Sexta-feira: Santo Eusébio no Esquilino
Sábado: São Nicolau in Cárcere

Santa Maria Maior
V Domingo da Quaresma: São Pedro no Vaticano
Segunda-feira: São Crisógono in Trastevere
Terça-feira: São Ciríaco
Quarta-feira: São Marcelo ao Corso
Quinta-feira: Santo Apolinário in Campo Marzio
Sexta-feira: Santo Estevão no Célio
Sábado: São João in Porta Latina

São Lourenço Extra-Muros
Domingo de Ramos: São João do Latrão
Segunda-feira da Semana Santa: Santa Praxedes no Esquilino
Terça-feira da Semana Santa: Santa Prisca no Aventino
Quarta-feira da Semana Santa: Santa Maria Maior
Quinta-feira “in Coena Domini”: São João do Latrão
Sexta-feira da Paixão: Santa Cruz de Jerusalém
Sábado Santo: São João do Latrão

Santa Cruz de Jerusalém
Domingo de Páscoa: Santa Maria Maior
Segunda-feira da Oitava Pascal: São Pedro no Vaticano
Terça-feira: São Paulo Extra-Muros
Quarta-feira: São Lourenço Extra-Muros
Quinta-feira: Santos XII Apóstolos no Foro Traiano
Sexta-feira: Santa Maria ad Martyres in Campo Marzio
Sábado: São João do Latrão
II Domingo da Páscoa: São Pancrácio

As estações quaresmais

O tempo da Quaresma, que tem por finalidade a preparação para a Páscoa, é enriquecido na Liturgia romana pelo ofício das estações quaresmais. A palavra estação (em latim statio), que originalmente significava “posto de guarda”, na Liturgia passou a designar o ofício litúrgico celebrado nos dias em que os cristãos são chamados à “vigilância” através da penitência.

As estações tem sua origem no final do século IV, na igreja de Roma. A statio era o ofício litúrgico presidido pelo Papa nas basílicas romanas e nas principais igrejas da cidade (tituli) nos dias penitenciais da Quaresma (quartas, sextas e sábados). Deste ofício participavam os presbíteros de todas as tituli que, após a estação, voltavam às suas igrejas para celebrar a Missa para suas comunidades.

Arquibasílica do Latrão, principal igreja de Roma
A statio iniciava-se sempre por volta das quinze horas com uma reunião (collecta) do clero e dos fieis em uma igreja próxima à igreja estacional (titulus) do dia, onde o Papa recitava uma oração inicial. Formava-se então uma procissão rumo à titulus, guiada por um acólito com a cruz processional, seguido do Papa a cavalo, do clero e acólitos com os objetos litúrgicos necessários para a Missa e dos fieis.

Durante a procissão se cantava a Ladainha de todos os Santos e alguns salmos penitenciais. Chegando à igreja estacional, omitidos os ritos iniciais, o Papa celebrava a Missa, ao final da qual um diácono anunciava onde seria a próxima statio, com sua respectiva collecta.

Papa Hilário (séc. V), um dos grandes promotores das statio
Uma particularidade ritual expressava a íntima união entre a liturgia estacional e toda a comunidade cristã de Roma. Os presbíteros que participavam da statio recebiam das mãos do Papa o fermentum, fragmento do pão consagrado que levavam reverentemente às suas tituli e só aí comungavam.

Da mesma forma, se o Papa não podia estar presente à statio, um acólito lhe levava as saudações da titulus do dia e um curioso símbolo de comunhão: um pouco de algodão embebido no óleo das lamparinas da igreja estacional.

As estações quaresmais desenvolvem-se gradualmente até o século VIII, quando todos os dias da Quaresma, a Semana Santa e a Oitava da Páscoa recebem uma igreja estacional. Cumpre notar, porém, que o rito acima descrito só era realizado nos dias penitenciais. Nos demais dias, havia tão somente a Missa na igreja estacional.

Papa Gregório II (século VIII), último reformador das statio
O ofício estacional entra em declínio no século XIV, com a sede papal transferida para Avignon (França) e todos os conflitos decorrentes. Assim, sem a presidência do Papa, as estações quaresmais perdem sua solenidade, ainda que não tenham sido de todo abandonadas. Atualmente, o Papa costuma celebrar apenas a primeira estação quaresmal, na Quarta-feira de Cinzas.

Apesar de originalmente as estações quaresmais serem algo próprio da igreja romana, o atual Missal Romano aconselha que se conserve ou se implemente uma forma de rito estacional durante a Quaresma:

“...é muito  recomendável que se conserve ou incremente, ao menos nas maiores cidades e de modo mais conveniente aos lugares, a tradicional forma de reunião das igrejas locais, como nas “estações” romanas. Assim, principalmente sob a presidência do Pastor da diocese, a assembleia dos fieis poderia reunir-se, aos domingos ou nos dias mais oportunos da semana, junto aos túmulos dos santos, ou nas principais igrejas ou santuários da cidade, ou também nos lugares de peregrinação mais frequentados na diocese” (Missal Romano, 2ª Edição,  p. 174).

Papa Bento XVI na procissão estacional da Quarta-feira de Cinzas (2010)
O Cerimonial dos Bispos indica, nos números 260-262, a forma de organizar as estações: com a comunidade reunida em um local fora da igreja (preferencialmente em outra igreja), o sacerdote recita a oração inicial, tomada da Missa votiva da Santa Cruz, da Missa pela remissão dos pecados ou da Missa pela Igreja.

Forma-se em seguida a procissão, durante a qual se entoa a Ladainha de todos os Santos. Chegando à igreja, omitidos os demais ritos iniciais, recita-se a oração do dia e a Missa prossegue como de costume. Se, porém, for mais oportuno, pode-se realizar apenas uma Celebração da Palavra de Deus ou ainda uma Celebração Penitencial (cf. Ritual da Penitência, p. 191-204).

Na próxima postagem, publicaremos a lista das igrejas estacionais romanas e um breve histórico de sua organização.

FONTES:


CERIMONIAL DOS BISPOS. Tradução portuguesa da Edição Típica. São Paulo: Paulus, 2004 (3ª edição).

MISSAL ROMANO. Tradução portuguesa da 2ª Edição Típica para o Brasil. São Paulo: Paulus, 2006 (10ª edição).

RIGHETTI, M. Historia de la liturgia. Madrid: Pontificia Universidad de Salamanca, 1955. vol. I, p. 747-752.

quinta-feira, 6 de março de 2014

Catequese do Papa sobre a Quaresma

PAPA FRANCISCO
AUDIÊNCIA GERAL
Praça de São Pedro

Quarta-feira de Cinzas, 5 de Março de 2014


Prezados irmãos e irmãs, bom dia!
Começa hoje, Quarta-feira de Cinzas, o itinerário quaresmal de quarenta dias, que nos conduzirá até ao Tríduo pascal, memória da Paixão, Morte e Ressurreição do Senhor, âmago do mistério da nossa salvação. A Quaresma prepara-nos para este momento tão importante, e é por este motivo que ela constitui um «tempo forte», um ponto de reviravolta que pode favorecer a mudança, a conversão, em cada um de nós. Todos nós temos necessidade de nos aperfeiçoarmos, de melhorar. A Quaresma ajuda-nos e assim abandonamos os hábitos cansados e a dependência indolente do mal que nos ameaça. No tempo quaresmal, a Igreja dirige-nos dois convites importantes: adquirir uma consciência mais profunda da obra redentora de Cristo; e viver o próprio Baptismo com maior comprometimento.
A consciência das grandes obras que o Senhor realizou para a nossa salvação dispõe a nossa mente e o nosso coração para uma atitude de acção de graças a Deus, pelo que Ele nos concedeu, por tudo aquilo que leva a cabo em benefício do seu Povo e da humanidade inteira. É aqui que tem início a nossa conversão: ela é a resposta reconhecida ao mistério maravilhoso do amor de Deus. Quando nos damos conta deste amor que Deus tem por nós, sentimos a vontade de nos aproximarmos dele: é nisto que consiste a conversão.
Viver o Baptismo até ao fundo - eis o segundo convite - significa também não se habituar com as situações de degradação e de miséria que encontramos, quando caminhamos pelas ruas das nossas cidades e dos nossos povoados. Persiste o risco de aceitar passivamente determinados comportamentos, sem nos surpreendermos perante as realidades tristes que nos circundam. Habituamo-nos com a violência, como se ela fosse uma notícia diária normal; acostumamo-nos com os irmãos e as irmãs que dormem ao relento, que não dispõem de um abrigo onde se refugiar. Habituamo-nos com os refugiados em busca de liberdade e de dignidade, que não são acolhidos como deveriam. Acostumamo-nos com uma sociedade que pretende viver sem Deus, na qual os pais já não ensinam aos seus filhos a rezar, e nem sequer a fazer o sinal da cruz. Pergunto-vos: os vossos filhos, as vossas crianças sabem fazer o sinal da cruz? Pensai nisto! Os vossos netos sabem fazer o sinal da cruz? Ensinaste-los a fazer o sinal da cruz? Pensai e respondei dentro do vosso coração. Sabem eles recitar o Pai-Nosso? Sabem rezar a Nossa Senhora com a Ave-Maria? Pensei e respondei a vós mesmos. Esta dependência de comportamentos não cristãos, cómodos, narcotiza o nosso coração!
A Quaresma chega-nos como um tempo providencial para mudar de rota, para recuperar a capacidade de reagir diante da realidade do mal que nos desafia sempre. A Quaresma deve ser vivida como tempo de conversão, de renovação pessoal e comunitária, mediante a aproximação a Deus e a confiante adesão ao Evangelho. Deste modo, ele permite-nos considerar com olhos novos os irmãos e as suas necessidades. Por isso, a Quaresma é um momento favorável para se converter ao amor a Deus e ao próximo; um amor que saiba fazer sua a atitude de gratuidade e de misericórdia do Senhor, que «se fez pobre para nos enriquecer mediante a sua pobreza» (cf. 2 Cor 8, 9). Se meditarmos os mistérios centrais da fé, da paixão, da cruz e da ressurreição de Cristo, dar-nos-emos conta de que a dádiva incomensurável da Redenção nos foi concedida por uma iniciativa gratuita de Deus.
Acção de graças a Deus pelo mistério do seu amor crucificado; fé autêntica, conversão e abertura do coração aos irmãos: eis os elementos essenciais para viver o tempo da Quaresma. Neste caminho, queremos invocar com confiança especial a salvaguarda e o auxílio da Virgem Maria: que Ela, a primeira que acreditou em Cristo, nos acompanhe nos dias de oração intensa e de penitência, para chegarmos a celebrar, purificados e renovados no Espírito, o grande mistério da Páscoa do seu Filho.


Fonte: Santa Sé 

Dom Loris Capovilla recebe o barrete cardinalício

No último dia 01 de março, Sua Eminência Cardeal Angelo Sodano, Decano do Colégio Cardinalício ,presidiu na igreja paroquial de Sotto il Monte (Itália) a entrega das insígnias cardinalícias ao Cardeal Loris Francesco Capovilla, Prelado Emérito de Loreto e Secretário do Bv. Papa João XXIII.

Dom Capovilla fora criado Cardeal pelo Papa Francisco no Consistório do último dia 22 de fevereiro. Porém, devido a sua saúde debilitada, o neo-cardeal não pode estar presente, sendo as insígnias de sua ordem (barrete, anel e bula de nomeação) entregues pelo Legado Pontifício para a ocasião, Cardeal Sodano.

O Cardeal Capovilla é o mais idoso membro do Colégio Cardinalício e o mais idoso cardeal já criado, com 98 anos. O Santo Padre concedeu-lhe o título presbiteral de Santa Maria in Trastevere.

Cardeal Capovilla
Imposição do barrete
O neo-Cardeal contempla o anel

Gesto de humildade: o Cardeal Capovilla oscula o anel do Cardeal Sodano

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Mensagem do Papa para a Quaresma

MENSAGEM DO SANTO PADRE FRANCISCO
 PARA A QUARESMA DE 2014
Fez-Se pobre, para nos enriquecer com a sua pobreza (cf. 2 Cor 8, 9)

Queridos irmãos e irmãs!
Por ocasião da Quaresma, ofereço-vos algumas reflexões com a esperança de que possam servir para o caminho pessoal e comunitário de conversão. Como motivo inspirador tomei a seguinte frase de São Paulo: «Conheceis bem a bondade de Nosso Senhor Jesus Cristo, que, sendo rico, Se fez pobre por vós, para vos enriquecer com a sua pobreza» (2 Cor 8, 9). O Apóstolo escreve aos cristãos de Corinto encorajando-os a serem generosos na ajuda aos fiéis de Jerusalém que passam necessidade. A nós, cristãos de hoje, que nos dizem estas palavras de São Paulo? Que nos diz, hoje, a nós, o convite à pobreza, a uma vida pobre em sentido evangélico?

A graça de Cristo
Tais palavras dizem-nos, antes de mais nada, qual é o estilo de Deus. Deus não Se revela através dos meios do poder e da riqueza do mundo, mas com os da fragilidade e da pobreza: «sendo rico, Se fez pobre por vós». Cristo, o Filho eterno de Deus, igual ao Pai em poder e glória, fez-Se pobre; desceu ao nosso meio, aproximou-Se de cada um de nós; despojou-Se, «esvaziou-Se», para Se tornar em tudo semelhante a nós (cf. Fil 2, 7; Heb 4, 15). A encarnação de Deus é um grande mistério. Mas, a razão de tudo isso é o amor divino: um amor que é graça, generosidade, desejo de proximidade, não hesitando em doar-Se e sacrificar-Se pelas suas amadas criaturas. A caridade, o amor é partilhar, em tudo, a sorte do amado. O amor torna semelhante, cria igualdade, abate os muros e as distâncias. Foi o que Deus fez connosco. Na realidade, Jesus «trabalhou com mãos humanas, pensou com uma inteligência humana, agiu com uma vontade humana, amou com um coração humano. Nascido da Virgem Maria, tornou-Se verdadeiramente um de nós, semelhante a nós em tudo, excepto no pecado» (Conc. Ecum. Vat. II, Const. past. Gaudium et spes, 22).
A finalidade de Jesus Se fazer pobre não foi a pobreza em si mesma, mas – como diz São Paulo – «para vos enriquecer com a sua pobreza». Não se trata dum jogo de palavras, duma frase sensacional. Pelo contrário, é uma síntese da lógica de Deus: a lógica do amor, a lógica da Encarnação e da Cruz. Deus não fez cair do alto a salvação sobre nós, como a esmola de quem dá parte do próprio supérfluo com piedade filantrópica. Não é assim o amor de Cristo! Quando Jesus desce às águas do Jordão e pede a João Baptista para O baptizar, não o faz porque tem necessidade de penitência, de conversão; mas fá-lo para se colocar no meio do povo necessitado de perdão, no meio de nós pecadores, e carregar sobre Si o peso dos nossos pecados. Este foi o caminho que Ele escolheu para nos consolar, salvar, libertar da nossa miséria. Faz impressão ouvir o Apóstolo dizer que fomos libertados, não por meio da riqueza de Cristo, mas por meio da sua pobreza. E todavia São Paulo conhece bem a «insondável riqueza de Cristo» (Ef 3, 8), «herdeiro de todas as coisas» (Heb 1, 2).
Em que consiste então esta pobreza com a qual Jesus nos liberta e torna ricos? É precisamente o seu modo de nos amar, o seu aproximar-Se de nós como fez o Bom Samaritano com o homem abandonado meio morto na berma da estrada (cf. Lc 10, 25-37). Aquilo que nos dá verdadeira liberdade, verdadeira salvação e verdadeira felicidade é o seu amor de compaixão, de ternura e de partilha. A pobreza de Cristo, que nos enriquece, é Ele fazer-Se carne, tomar sobre Si as nossas fraquezas, os nossos pecados, comunicando-nos a misericórdia infinita de Deus. A pobreza de Cristo é a maior riqueza: Jesus é rico de confiança ilimitada em Deus Pai, confiando-Se a Ele em todo o momento, procurando sempre e apenas a sua vontade e a sua glória. É rico como o é uma criança que se sente amada e ama os seus pais, não duvidando um momento sequer do seu amor e da sua ternura. A riqueza de Jesus é Ele ser o Filho: a sua relação única com o Pai é a prerrogativa soberana deste Messias pobre. Quando Jesus nos convida a tomar sobre nós o seu «jugo suave» (cf. Mt 11, 30), convida-nos a enriquecer-nos com esta sua «rica pobreza» e «pobre riqueza», a partilhar com Ele o seu Espírito filial e fraterno, a tornar-nos filhos no Filho, irmãos no Irmão Primogénito (cf.Rm 8, 29).
Foi dito que a única verdadeira tristeza é não ser santos (Léon Bloy); poder-se-ia dizer também que só há uma verdadeira miséria: é não viver como filhos de Deus e irmãos de Cristo.

O nosso testemunho
Poderíamos pensar que este «caminho» da pobreza fora o de Jesus, mas não o nosso: nós, que viemos depois d'Ele, podemos salvar o mundo com meios humanos adequados. Isto não é verdade. Em cada época e lugar, Deus continua a salvar os homens e o mundo por meio da pobreza de Cristo, que Se faz pobre nos Sacramentos, na Palavra e na sua Igreja, que é um povo de pobres. A riqueza de Deus não pode passar através da nossa riqueza, mas sempre e apenas através da nossa pobreza, pessoal e comunitária, animada pelo Espírito de Cristo.
À imitação do nosso Mestre, nós, cristãos, somos chamados a ver as misérias dos irmãos, a tocá-las, a ocupar-nos delas e a trabalhar concretamente para as aliviar. A miséria não coincide com a pobreza; a miséria é a pobreza sem confiança, sem solidariedade, sem esperança. Podemos distinguir três tipos de miséria: a miséria material, a miséria moral e a miséria espiritual. A miséria material é a que habitualmente designamos por pobreza e atinge todos aqueles que vivem numa condição indigna da pessoa humana: privados dos direitos fundamentais e dos bens de primeira necessidade como o alimento, a água, as condições higiénicas, o trabalho, a possibilidade de progresso e de crescimento cultural. Perante esta miséria, a Igreja oferece o seu serviço, a sua diakonia, para ir ao encontro das necessidades e curar estas chagas que deturpam o rosto da humanidade. Nos pobres e nos últimos, vemos o rosto de Cristo; amando e ajudando os pobres, amamos e servimos Cristo. O nosso compromisso orienta-se também para fazer com que cessem no mundo as violações da dignidade humana, as discriminações e os abusos, que, em muitos casos, estão na origem da miséria. Quando o poder, o luxo e o dinheiro se tornam ídolos, acabam por se antepor à exigência duma distribuição equitativa das riquezas. Portanto, é necessário que as consciências se convertam à justiça, à igualdade, à sobriedade e à partilha.
Não menos preocupante é a miséria moral, que consiste em tornar-se escravo do vício e do pecado. Quantas famílias vivem na angústia, porque algum dos seus membros – frequentemente jovem – se deixou subjugar pelo álcool, pela droga, pelo jogo, pela pornografia! Quantas pessoas perderam o sentido da vida; sem perspectivas de futuro, perderam a esperança! E quantas pessoas se vêem constrangidas a tal miséria por condições sociais injustas, por falta de trabalho que as priva da dignidade de poderem trazer o pão para casa, por falta de igualdade nos direitos à educação e à saúde. Nestes casos, a miséria moral pode-se justamente chamar um suicídio incipiente. Esta forma de miséria, que é causa também de ruína económica, anda sempre associada com a miséria espiritual, que nos atinge quando nos afastamos de Deus e recusamos o seu amor. Se julgamos não ter necessidade de Deus, que em Cristo nos dá a mão, porque nos consideramos auto-suficientes, vamos a caminho da falência. O único que verdadeiramente salva e liberta é Deus.
O Evangelho é o verdadeiro antídoto contra a miséria espiritual: o cristão é chamado a levar a todo o ambiente o anúncio libertador de que existe o perdão do mal cometido, de que Deus é maior que o nosso pecado e nos ama gratuitamente e sempre, e de que estamos feitos para a comunhão e a vida eterna. O Senhor convida-nos a sermos jubilosos anunciadores desta mensagem de misericórdia e esperança. É bom experimentar a alegria de difundir esta boa nova, partilhar o tesouro que nos foi confiado para consolar os corações dilacerados e dar esperança a tantos irmãos e irmãs imersos na escuridão. Trata-se de seguir e imitar Jesus, que foi ao encontro dos pobres e dos pecadores como o pastor à procura da ovelha perdida, e fê-lo cheio de amor. Unidos a Ele, podemos corajosamente abrir novas vias de evangelização e promoção humana.
Queridos irmãos e irmãs, possa este tempo de Quaresma encontrar a Igreja inteira pronta e solícita para testemunhar, a quantos vivem na miséria material, moral e espiritual, a mensagem evangélica, que se resume no anúncio do amor do Pai misericordioso, pronto a abraçar em Cristo toda a pessoa. E poderemos fazê-lo na medida em que estivermos configurados com Cristo, que Se fez pobre e nos enriqueceu com a sua pobreza. A Quaresma é um tempo propício para o despojamento; e far-nos-á bem questionar-nos acerca do que nos podemos privar a fim de ajudar e enriquecer a outros com a nossa pobreza. Não esqueçamos que a verdadeira pobreza dói: não seria válido um despojamento sem esta dimensão penitencial. Desconfio da esmola que não custa nem dói.
Pedimos a graça do Espírito Santo que nos permita ser «tidos por pobres, nós que enriquecemos a muitos; por nada tendo e, no entanto, tudo possuindo» (2 Cor 6, 10). Que Ele sustente estes nossos propósitos e reforce em nós a atenção e solicitude pela miséria humana, para nos tornarmos misericordiosos e agentes de misericórdia. Com estes votos, asseguro a minha oração para que cada crente e cada comunidade eclesial percorra frutuosamente o itinerário quaresmal, e peço-vos que rezeis por mim. Que o Senhor vos abençoe e Nossa Senhora vos guarde!
Vaticano, 26 de Dezembro de 2013 - Festa de Santo Estêvão, diácono e protomártir

FRANCISCO


Fonte: Santa Sé