segunda-feira, 6 de maio de 2013

Fotos do IV Domingo da Páscoa no Vaticano

No último dia 21 de abril, IV Domingo da Páscoa, o Santo Padre o Papa Francisco presidiu a Celebração Eucarística na Basílica de São Pedro, durante a qual conferiu a Ordenação Presbiteral a dez diáconos.

Concelebraram com o Santo Padre o Cardeal Vigário para a Diocese de Roma, Agostino Vallini, os Bispos Auxiliares, os Superiores dos Seminários e os Párocos dos Ordenandos. Assistiram como cerimoniários os Monsenhores Guido Marini e Francesco Camaldo (Itália).

Seguem algumas fotos da celebração, publicadas pela Santa Sé e pela Rádio Vaticano:

Procissão de entrada

Incensação do altar

Oração do dia

Homilia do Papa no IV Domingo da Páscoa

ORDENAÇÕES PRESBITERAIS
HOMILIA DO SANTO PADRE FRANCISCO
Basílica Vaticana
IV Domingo de Páscoa, 21 de Abril de 2013
  
Irmãos e irmãs caríssimos,
Estes nossos irmãos e filhos foram chamados à Ordem dos presbíteros. Ponderemos com atenção o ministério a que são elevados na Igreja. Como bem sabeis, o Senhor Jesus é o único Sumo Sacerdote do Novo Testamento, mas, n’Ele, todo o povo santo de Deus foi constituído também povo sacerdotal. Entretanto o Senhor Jesus, de entre todos os seus discípulos, quer escolher alguns em particular para que, exercendo publicamente na Igreja, em seu nome, o múnus sacerdotal a favor de todos os homens, continuem a sua missão pessoal de Mestre, Sacerdote e Pastor.
Para isto, de facto, fora Jesus enviado pelo Pai, tendo Ele por sua vez enviado igualmente ao mundo primeiro os Apóstolos e depois os Bispos e seus sucessores, aos quais por fim foram dados como colaboradores os presbíteros, que, unidos a eles no ministério sacerdotal, são chamados a servir o Povo de Deus.
Depois de madura reflexão e oração, estamos para elevar à Ordem dos presbíteros estes nossos irmãos, para que, ao serviço de Cristo, Mestre, Sacerdote e Pastor, cooperem na edificação do Corpo de Cristo, que é a Igreja, como Povo de Deus e Templo sagrado do Espírito Santo.
Na verdade, vão ser configurados com Cristo Sumo e Eterno Sacerdote, isto é, consagrados como verdadeiros sacerdotes do Novo Testamento e, por este título que os associa ao seu Bispo no sacerdócio, serão anunciadores do Evangelho, pastores do Povo de Deus e presidirão aos actos de culto, especialmente à celebração do Sacrifício do Senhor.
E vós, irmãos e filhos dilectíssimos, prestes a ser promovidos à Ordem dos presbíteros, considerai que, ao exercerdes o ministério de ensinar a Doutrina sagrada, participais da missão do único Mestre, Cristo. Distribuí a todos a Palavra de Deus que vós mesmos recebestes com alegria. Lembrai-vos das vossas mães, das vossas avós, dos vossos catequistas que vos deram a Palavra de Deus, a fé.... o dom da fé! Transmitiram-vos este dom da fé. Lede e meditai assiduamente a Palavra do Senhor, para poderdes crer o que ledes, ensinar o que credes e viver o que ensinais. Lembrai-vos também de que a Palavra de Deus não é de vossa propriedade: é Palavra de Deus. E a Igreja é a guardiã da Palavra de Deus.
Sirva, portanto, de alimento para o povo de Deus o vosso ensino, seja motivo de alegria e apoio para os fiéis de Cristo o bom odor da vossa vida, a fim de edificardes, pela palavra e pelo exemplo, a casa de Deus, que é a Igreja. Vós ides continuar a obra santificadora de Cristo; pelo vosso ministério, realiza-se plenamente o sacrifício espiritual dos fiéis, unido ao sacrifício de Cristo, que, através de vossas mãos, em nome de toda a Igreja, é oferecido de forma incruenta sobre o altar na celebração dos Santos Mistérios.
Tomai, pois, consciência do que fazeis, imitai o que celebrais, para que, participando no mistério da morte e da ressurreição do Senhor, vos esforceis por fazer morrer em vós todo o mal e por caminhar com Ele na vida nova.
Pelo Baptismo, fareis entrar novos fiéis no Povo de Deus. Através do sacramento da Penitência, perdoareis os pecados em nome de Cristo e da Igreja. E hoje, em nome de Cristo e da Igreja, eu vos peço: por favor, não vos canseis de ser misericordiosos. Com os santos óleos, dareis alívio aos enfermos e também aos idosos: não vos envergonheis de tratar com ternura os idosos. Ao celebrar os ritos sagrados e elevar ao Céu, nas diversas horas do dia, a oração de louvor e de súplica, tornar-vos-eis voz do Povo de Deus e da humanidade inteira.
Conscientes de ter sido assumidos de entre os homens e postos ao seu serviço nas coisas de Deus, cumpri, com alegria e caridade sincera, a obra sacerdotal de Cristo, procurando unicamente agradar a Deus e não a vós mesmos. Sede pastores, e não funcionários; sede mediadores, e não intermediários.
Finalmente, ao participar na missão de Cristo, Cabeça e Pastor, em comunhão filial com o vosso bispo, procurai congregar os fiéis numa só família, para os conduzir a Deus Pai, por Cristo, no Espírito Santo. Trazei sempre diante dos olhos o exemplo do Bom Pastor, que veio, não para ser servido, mas para servir, para buscar e salvar o que estava perdido.


Fonte: Santa Sé

Catequese do Papa: "Subiu aos céus"

PAPA FRANCISCO
AUDIÊNCIA GERAL
Praça de São Pedro
Quarta-feira, 17 Abril de 2013
Subiu aos Céus, está sentado à direita de Deus Pai

Queridos irmãos e irmãs, bom dia!
No Credo, encontramos a afirmação que Jesus «subiu ao Céu, está sentado à direita do Pai». A vida terrena de Jesus culmina com o evento da Ascensão, ou seja, quando Ele passa deste mundo para o Pai e é elevado à sua direita. Qual é o significado deste acontecimento? Quais são as suas consequências para a nossa vida? O que significa contemplar Jesus sentado à direita do Pai? Nisto, deixemo-nos guiar pelo evangelista Lucas.
Comecemos pelo momento em que Jesus decide empreender a sua última peregrinação a Jerusalém. São Lucas observa: «Aproximando-se o tempo em que Jesus devia ser arrebatado deste mundo, Ele resolveu dirigir-se a Jerusalém» (Lc 9, 51). Enquanto «ascende» à Cidade santa, onde se realizará o seu «êxodo» desta vida, Jesus já vê a meta, o Céu, mas sabe bem que o caminho que o leva à glória do Pai passa pela Cruz, através da obediência ao desígnio divino de amor pela humanidade. O Catecismo da Igreja Católica afirma que «a elevação na cruz significa e anuncia a elevação da ascensão aos céus» (n. 662). Também nós devemos ver claramente na nossa vida cristã, que a entrada na glória de Deus exige a fidelidade diária à sua vontade, mesmo quando requer sacrifício e às vezes exige que mudemos os nossos programas. A Ascensão de Jesus verifica-se concretamente no monte das Oliveiras, perto do lugar para onde se tinha retirado em oração antes da paixão, para permanecer em profunda união com o Pai: mais uma vez, vemos que a oração nos concede a graça de viver fiéis ao desígnio de Deus.
No final do seu Evangelho, são Lucas narra o evento da Ascensão de modo muito sintético. Jesus conduziu os discípulos «para Betânia e, levantando as mãos, abençoou-os. Enquanto os abençoava, separou-se deles e foi arrebatado para o céu. Depois de o terem adorado, voltaram para Jerusalém com grande júbilo. E permaneciam no templo, louvando e bendizendo a Deus» (24, 50-53); assim diz são Lucas. Gostaria de observar dois elementos desta narração. Antes de tudo, durante a Ascensão, Jesus realiza o gesto sacerdotal da bênção e sem dúvida os discípulos manifestam a sua fé com a prostração, ajoelham-se inclinando a cabeça. Este é o primeiro ponto importante: Jesus é o único e eterno Sacerdote que, com a sua paixão, atravessou a morte e o sepulcro, ressuscitou e subiu ao Céu; está sentado à direita de Deus Pai, de onde intercede para sempre a nosso favor (cf. Hb 9, 24). Como afirma são João, na sua primeira Carta, Ele é o nosso advogado: como é bom ouvir isto! Quando alguém é convocado pelo juiz ou tem uma causa, a primeira coisa que faz é procurar um advogado para que o defenda. Nós temos um, que nos defende sempre, defende-nos das insídias do diabo, defende-nos de nós mesmos e dos nossos pecados! Caríssimos irmãos e irmãs, temos este advogado: não tenhamos medo de o procurar para pedir perdão, para pedir a bênção, para pedir misericórdia! Ele perdoa-nos sempre, é o nosso advogado: defende-nos sempre! Não esqueçais isto! Assim, a Ascensão de Jesus ao Céu leva-nos a conhecer esta realidade tão consoladora para o nosso caminho: em Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, a nossa humanidade foi levada para junto de Deus; Ele abriu-nos a passagem; Ele é como um chefe de grupo, quando se escala uma montanha, que chega ao cimo e nos puxa para junto de si, conduzindo-nos para Deus. Se lhe confiarmos a nossa vida, se nos deixarmos guiar por Ele, temos a certeza de estar em mãos seguras, nas mãos do nosso Salvador, do nosso advogado.
Um segundo elemento: são Lucas afirma que os Apóstolos, depois de terem visto Jesus subir ao Céu, voltaram para Jerusalém «com grande júbilo». Isto parece-nos um pouco estranho. Em geral, quando estamos separados dos nossos familiares, dos nossos amigos, devido a uma partida definitiva e sobretudo por causa da morte, apodera-se de nós uma tristeza natural, porque já não veremos o seu rosto, nem ouviremos a sua voz, já não poderemos beneficiar do seu carinho, da sua presença. Ao contrário, o evangelista sublinha a profunda alegria dos Apóstolos. Mas por quê? Precisamente porque, com o olhar da fé, eles compreendem que, não obstante tenha sido subtraído aos seus olhos, Jesus permanece para sempre com eles, não os abandona e, na glória do Pai, sustém-nos, orienta-os e intercede por eles.
São Lucas descreve o acontecimento da Ascensão também no início dos Actos dos Apóstolos, para frisar que tal evento é como o elo que une e liga a vida terrena de Jesus à vida da Igreja. Aqui são Lucas refere-se também à nuvem que subtrai Jesus à vista dos discípulos, os quais permanecem a contemplar Cristo que sobe para junto de Deus (cf. Act 1, 9-10). Então intervêm dois homens em vestes brancas que os convidam a não permanecer imóveis a contemplar o céu, mas a alimentar a sua vida e o seu testemunho com a certeza de que Jesus voltará do mesmo modo como o viram subir ao céu (cf. Act 1, 10-11). É precisamente o convite a começar a partir da contemplação do Senhorio de Cristo, a fim de receber dele a força para anunciar e testemunhar o Evangelho na vida de todos os dias: contemplar e agir, ora et labora, ensina são Bento, são ambos necessários na nossa vida de cristãos.
Caros irmãos e irmãs, a Ascensão não indica a ausência de Jesus, mas diz-nos que Ele está vivo no meio de nós de modo novo; já não se encontra num lugar específico do mundo, como era antes da Ascensão; agora está no Senhorio de Deus, presente em cada espaço e tempo, próximo de cada um de nós. Na nossa vida nunca estamos sozinhos: temos este advogado que nos espera e nos defende. Nunca estamos sozinhos: o Senhor crucificado e ressuscitado orienta-nos; juntamente connosco existem muitos irmãos e irmãs que, no silêncio e no escondimento, na sua vida de família e de trabalho, nos seus problemas e dificuldades, nas suas alegrias e esperanças, vivem todos os dias a fé e, juntamente connosco, anunciam ao mundo o Senhorio do amor de Deus, em Jesus Cristo ressuscitado que subiu ao Céu, nosso advogado. Obrigado!


Fonte: Santa Sé

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Catequeses do Papa: São Filipe e São Tiago

No dia 03 de maio, a Liturgia nos propõe a Festa de São Filipe e São Tiago Menor. Seguem as catequeses do Papa Bento XVI sobre estes dois Apóstolos:

Papa Bento XVI
Audiência Geral
Quarta-feira, 6 de Setembro de 2006
Filipe

Queridos irmãos e irmãs!
Prosseguindo no delineamento das fisionomias dos vários Apóstolos, como fazemos há algumas semanas, hoje encontramos Filipe. Nas listas dos Doze, ele é sempre colocado no quinto lugar (assim em Mt 10,3; Mc 3,18; Lc 6,14; At 1,13), portanto substancialmente entre os primeiros.
Apesar de Filipe ter origens hebraicas, o seu nome é grego, como o de André, e isto é um pequeno sinal de abertura cultural que não se deve subestimar. As notícias que temos sobre ele são-nos fornecidas pelo Evangelho de João. Ele provinha do mesmo lugar de origem de Pedro e de André, isto é, de Betsaida (cf. Jo 1,44), uma pequena cidade pertencente à tetrarquia de um dos filhos de Herodes, o Grande, também ele chamado Filipe (cf. Lc 3,1).
O quarto Evangelho narra que, depois de ter sido chamado por Jesus, Filipe encontra Natanael e diz-lhe: "Encontramos aquele sobre quem escreveram Moisés, na Lei, e os Profetas: Jesus, filho de José de Nazaré" (Jo 1,45). Natanael dá uma resposta bastante cética ("De Nazaré pode vir alguma coisa boa?"), perante a qual Filipe não se desencoraja e responde com determinação: "Vem e verás!" (Jo 1,46). Nesta resposta, breve mas clara, Filipe manifesta as características da verdadeira testemunha: não se contenta em propor o anúncio, como uma teoria, mas interpela diretamente o interlocutor sugerindo-lhe que faça ele mesmo uma experiência pessoal do que foi anunciado. Os mesmos dois verbos são usados pelo próprio Jesus quando dois discípulos de João Batista se aproximam dele para lhe perguntar onde mora. Jesus responde: "Vinde ver" (cf. Jo 1,38-39).
Podemos pensar que Filipe se dirija também a nós com aqueles dois verbos que exigem um envolvimento pessoal. Também a nós diz o que dissera a Natanael: "Vem e verás". O Apóstolo convida-nos a conhecer Jesus de perto. De fato, a amizade, o verdadeiro conhecer o outro, precisa da proximidade, aliás, de certa forma vive dela. De resto, não se deve esquecer que, segundo o que escreve Marcos, Jesus escolheu os Doze com a finalidade primária que "andassem com Ele" (Mc 3,14), ou seja, que partilhassem a sua vida e aprendessem diretamente dele não só o estilo do seu comportamento, mas sobretudo quem era Ele realmente. Com efeito, só assim, participando na sua vida, o podiam conhecer e depois anunciar. Mais tarde, na Carta de Paulo aos Efésios, ler-se-á que o importante é "aprender de Cristo" (4,20), portanto, não só e não tanto ouvir os seus ensinamentos, as suas palavras, mas ainda mais conhecê-lo pessoalmente, a sua humanidade e divindade, o seu mistério, a sua beleza. De fato, Ele não é só um Mestre, mas um Amigo, ou melhor, um Irmão. Como poderíamos conhecê-lo profundamente permanecendo distantes? A intimidade, a familiaridade, o habitual fazem-nos descobrir a verdadeira identidade de Jesus Cristo. Portanto: é precisamente isto que nos recorda o apóstolo Filipe. E convida-nos a "vir", a "ver", isto é, a entrar num contato de escuta, de resposta e de comunhão de vida com Jesus dia após dia.
Depois, por ocasião da multiplicação dos pães, ele recebeu de Jesus um pedido específico e surpreendente: onde era possível comprar o pão para saciar a fome de todo o povo que o seguia (cf. Jo 6,5). Então Filipe respondeu com muito realismo: "Duzentos denários de pão não chegam para cada um comer um bocadinho" (Jo 6,7). Veem-se aqui a praticidade e o realismo do Apóstolo, que sabe julgar as reais consequências de uma situação. Depois, como correram as coisas nós sabemo-lo. Sabemos que Jesus tomou os pães e, depois de ter rezado, distribuiu-os.
Assim realizou-se a multiplicação dos pães. Mas é interessante que Jesus se tenha dirigido precisamente a Filipe para obter uma primeira indicação sobre o modo de resolver o problema: sinal evidente de que ele fazia parte do grupo limitado que o circundava. Noutro momento, muito importante para a história futura, antes da Paixão, alguns gregos que se encontravam em Jerusalém para a Páscoa "foram ter com Filipe... e pediram-lhe: 'Senhor, nós queremos ver Jesus!'. Filipe foi dizer isto a André; André e Filipe foram dizê-lo a Jesus" (Jo 12,20-22). Mais uma vez, temos a indicação de um seu prestígio especial no âmbito do colégio apostólico. Sobretudo, neste caso, ele serve de intermediário entre o pedido de alguns gregos - provavelmente falava o grego e pôde disponibilizar-se como intérprete - e Jesus; Mesmo se ele se une a André, o outro Apóstolo com um nome grego, é contudo a ele que aquelas pessoas desconhecidas se dirigem. Isto ensina-nos a estar também nós sempre prontos, tanto a ouvir pedidos e invocações, de onde quer que venham, como a orientá-los para o Senhor, o único que os pode satisfazer plenamente. Com efeito, é importante saber que nós não somos os destinatários últimos das orações de quem nos aproxima, mas é o Senhor: para ele devemos orientar todo aquele que se encontre em necessidade. Então: cada um de nós deve ser um caminho aberto para ele!
Há depois outra ocasião completamente particular, na qual Filipe entra em cena. Durante a Última Ceia, tendo Jesus afirmado que conhecê-lo significa também conhecer o Pai (cf. Jo 14,7), Filipe pede quase ingenuamente: "Senhor, mostra-nos o Pai, e isso nos basta!" (Jo 14,8). Jesus responde-lhe com um tom de indulgente reprovação: "Há tanto tempo que estou convosco, e não me ficaste a conhecer, Filipe? Quem me vê, vê o Pai. Como é que me dizes, então, 'mostra-nos o Pai'? Não crês que Eu estou no Pai e o Pai está em Mim?... Crede-me: Eu estou no Pai e o Pai está em Mim" (Jo 14,9-11). Estas palavras são as mais nobres do Evangelho de João. Elas contêm uma profunda revelação. No final do Prólogo do seu Evangelho, João afirma: "A Deus jamais alguém o viu. O Filho Unigênito, que é Deus e está no seio do Pai, foi Ele quem o deu a conhecer" (Jo 1,18). Pois bem, aquela afirmação, que é do evangelista, é retomada e confirmada pelo próprio Jesus. Mas com uma nova característica. De fato, enquanto o Prólogo de João fala de uma intervenção esclarecedora de Jesus mediante as palavras do seu ensinamento, na resposta a Filipe Jesus faz referência à própria pessoa como tal, dando a entender que é possível compreendê-lo não só mediante o que diz, mas ainda mais mediante o que ele simplesmente é.
Para nos expressarmos segundo o paradoxo da Encarnação, podemos dizer que Deus se conferiu um rosto humano, o de Jesus, e por conseguinte de agora em diante, se verdadeiramente queremos conhecer o rosto de Deus, devemos contemplar o rosto de Jesus! No seu semblante vemos realmente quem é e como é Deus!
O evangelista não nos diz se Filipe compreendeu plenamente a frase de Jesus. Sem dúvida, ele dedicou-lhe totalmente a própria vida. Segundo algumas narrações posteriores (Atos de Filipe e outros), o nosso Apóstolo teria evangelizado primeiro na Grécia e depois na Frígia onde enfrentou a morte, em Hierápolis, com um suplício descrito diversamente como crucifixão ou lapidação.
Desejamos concluir a nossa reflexão recordando a finalidade para a qual deve tender a nossa vida: encontrar Jesus como o encontrou Filipe, procurando ver nele o próprio Deus, o Pai celeste. Se este compromisso viesse a faltar, seríamos remetidos sempre e só para nós como num espelho, e estaríamos cada vez mais sós! Ao contrário, Filipe ensina-nos a deixar-nos conquistar por Jesus, a estar com Ele e a convidar também outros a partilhar esta companhia indispensável. E vendo-o, encontrando Deus, encontrar a verdadeira vida.


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Papa Bento XVI
Audiência Geral
Quarta-feira, 28 de Junho de 2006
Tiago, o Menor

Queridos irmãos e irmãs!
Ao lado da figura de Tiago "o Maior", filho de Zebedeu, do qual falamos na quarta-feira passada, nos Evangelhos aparece outro Tiago, que é chamado "o Menor". Também ele faz parte das listas dos doze Apóstolos escolhidos pessoalmente por Jesus, e é sempre especificado como "filho de Alfeu" (cf. Mt 10,3; Mc 3,18; Lc 5; At 1,13). Com frequência ele foi identificado com outro Tiago, chamado "o Menor" (cf. Mc 15,40), filho de uma Maria (cf. ibid.) que poderia ser a "Maria de Cléofas" presente, segundo o quarto Evangelho, aos pés da Cruz juntamente com a Mãe de Jesus (cf. Jo 19,25). Também ele era originário de Nazaré e provavelmente parente de Jesus (cf. Mt 13,55; Mc 6,3), do qual à maneira semítica é considerado "irmão" (cf. Mc 6,3; Gl 1,19).
Deste último Tiago, o livro dos Atos ressalta o papel preeminente desempenhado na Igreja de Jerusalém. No Concílio apostólico ali celebrado depois da morte de Tiago, o Maior, afirmou juntamente com os outros que os pagãos podiam ser acolhidos na Igreja sem antes terem que se submeter à circuncisão (cf. At 15,13). São Paulo, que lhe atribui uma aparição específica do Ressuscitado (cf. 1Cor 15,7), na ocasião da sua ida a Jerusalém nomeia-o inclusivamente antes de Cefas-Pedro, qualificando-o "coluna" daquela Igreja como ele (cf. Gl 2,9). Em seguida, os judeus-cristãos consideram-no o seu principal ponto de referência. A ele é também atribuída a Carta que tem o nome de Tiago e que está incluída no cânon neotestamentário. Ele não se apresenta nela como "irmão do Senhor", mas como "servo de Deus e do Senhor Jesus Cristo" (Tg 1,1).
Entre os estudiosos debate-se a questão da identificação destas duas personagens com o mesmo nome, Tiago filho de Alfeu e Tiago "irmão do Senhor". As tradições evangélicas não nos conservaram narração alguma sobre um nem sobre outro em referência ao período da vida terrena de Jesus. Os Atos dos Apóstolos, ao contrário, mostram-nos que um "Tiago" desempenhou um papel importante, como já mencionamos, depois da ressurreição de Jesus, na Igreja primitiva (cf. At 12,17; 15,13-21; 21,18).
O ato mais relevante por ele realizado foi a intervenção na questão do relacionamento difícil entre os cristãos de origem judaica e os de origem pagã: nisto ele contribuiu juntamente com Pedro para superar, ou melhor, para integrar a dimensão originária judaica do cristianismo com a exigência de não impor aos pagãos convertidos a obrigação de se submeterem a todas as normas da lei de Moisés. O livro dos Atos preservou-nos a solução de compromisso, proposta precisamente por Tiago e aceite por todos os Apóstolos presentes, segundo o qual aos pagãos que acreditassem em Jesus Cristo se devia pedir apenas que se abstivessem do uso idolátrico de comer carne dos animais oferecidos em sacrifício aos deuses, e da "impudicícia", palavra que provavelmente se referia às uniões matrimoniais não consentidas. Na prática, tratava-se de aderir só a poucas proibições, consideradas bastante importantes, da legislação mosaica.
Deste modo, obtiveram-se dois resultados significativos e complementares, ambos ainda hoje válidos: por um lado, reconheceu-se a relação inseparável que une o cristianismo à religião hebraica como a sua marca perenemente viva e válida; por outro, foi concedido que os cristãos de origem pagã conservassem a própria identidade sociológica, que teriam perdido se tivessem sido obrigados a observar os chamados "preceitos cerimoniais" mosaicos: eles já não deviam ser considerados obrigatórios para os pagãos convertidos. Em suma, era iniciada uma prática de estima e respeito recíprocos que, não obstante lamentáveis incompreensões posteriores, tinha por sua natureza a salvaguarda de tudo o que caracterizava cada uma das duas partes.
A informação mais antiga sobre a morte deste Tiago é-nos oferecida pelo historiador judeu Flávio José. Nas suas Antiguidades Judaicas (20,201s), redigidas em Roma por volta do século I, ele narra que o fim de Tiago foi decidido por uma iniciativa ilegítima do Sumo Sacerdote Anano, filho de Anás, afirmado nos Evangelhos, o qual aproveitou do intervalo entre a deposição de um Procurador romano (Festo) e a chegada do sucessor (Albino) para decretar a sua lapidação no ano 62.
Em nome deste Tiago, além do apócrifo Protoevangelho de Tiago, que exalta a santidade e a virgindade de Maria, Mãe de Jesus, está particularmente relacionada com a Carta que tem o seu nome. No cânon do Novo Testamento ela ocupa o primeiro lugar entre as chamadas "Cartas católicas", isto é, destinadas não a uma só Igreja particular - como Roma, Éfeso, etc. - mas a muitas Igrejas. Trata-se de um escrito bastante importante, que insiste muito sobre a necessidade de não reduzir a própria fé a uma mera declaração verbal ou abstrata, mas de expressá-la concretamente em obras de bem. Entre outras coisas, ele convida-nos à constância nas provas alegremente aceites e à oração confiante para obter de Deus o dom da sabedoria, graças à qual chegamos à compreensão de que os verdadeiros valores da vida não consistem nas riquezas transitórias, mas antes em saber compartilhar as próprias substâncias com os pobres e com os necessitados (cf. Tg 1,27).
Assim a carta de São Tiago mostra-nos um cristianismo muito concreto e prático. A fé deve realizar-se na vida, sobretudo no amor ao próximo e particularmente no compromisso pelos pobres. É com esta base que deve ser lida também a famosa frase: "Assim como o corpo sem alma está morto, assim também a fé sem obras está morta" (Tg 2,26). Por vezes esta declaração de Tiago foi contraposta às afirmações de Paulo, segundo o qual nós somos tornados por Deus justos não em virtude das nossas obras, mas graças à nossa fé (cf. Gl 2,16; Rm 3,28). Contudo, as duas frases, aparentemente contraditórias com as suas perspectivas diversas, na realidade, se forem bem interpretadas, completam-se. São Paulo opõe-se ao orgulho do homem que pensa que não precisa do amor de Deus que nos antecipa, opõe-se ao orgulho da auto-justificação sem a graça simplesmente doada e não merecida. Ao contrário, São Tiago fala das obras como fruto normal da fé: "a árvore boa dá bons frutos", diz o Senhor (Mt 7,17). E São Tiago repete e transmite-nos este conceito.
Por fim, a carta de Tiago exorta-nos a abandonarmo-nos nas mãos de Deus em tudo o que fazemos, pronunciando sempre as palavras: "Se o Senhor quiser" (Tg 4,15). Assim, ele ensina-nos a não presumir que planificamos a nossa vida de modo autônomo e interessado, mas a dar espaço à vontade imperscrutável de Deus, que conhece o verdadeiro bem para nós. Desta forma São Tiago permanece um mestre de vida sempre atual para cada um de nós.


Fonte: Santa Sé

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Fotos do III Domingo da Páscoa em Roma

No último dia 14 de abril, III Domingo da Páscoa, o Santo Padre o Papa Francisco presidiu a Celebração Eucarística pela primeira vez na Basílica de São Paulo Extramuros.

Concelebraram com o Santo Padre o Arcipreste da Basílica, Cardeal James Michael Harvey, os Arciprestes Eméritos, Cardeais Montezemolo e Monterisi,  além do Abade Beneditino D. Edmund Power. Assistiram como cerimoniários os Monsenhores Guido Marini e Vincenzo Peroni (Itália).

Seguem algumas fotos da celebração, publicadas pela Santa Sé e pela Rádio Vaticano:

Procissão de entrada

Incensação das relíquias de São Paulo
Incensação do altar
Saudação do Cardeal Harvey

Homilia do Papa no III Domingo da Páscoa

CELEBRAÇÃO EUCARÍSTICA
HOMILIA DO SANTO PADRE FRANCISCO
Basílica de São Paulo Extramuros
III Domingo de Páscoa, 14 de Abril de 2013

Amados irmãos e irmãs!
É uma alegria para mim celebrar a Eucaristia convosco nesta Basílica. Saúdo o Arcipreste, Cardeal James Harvey, e agradeço-lhe as palavras que me dirigiu; juntamente com ele, saúdo e agradeço às várias Instituições, que fazem parte desta Basílica, e a todos vós. Encontramo-nos sobre o túmulo de São Paulo, um Apóstolo humilde e grande do Senhor, que O anunciou com a palavra, testemunhou com o martírio e adorou com todo o coração. É precisamente sobre estes três verbos que queria reflectir à luz da Palavra de Deus que escutámos: anunciar, testemunhar, adorar.
1. Na primeira Leitura, impressiona a força de Pedro e dos outros Apóstolos. À ordem de não falar nem ensinar no nome de Jesus, de não anunciar mais a sua Mensagem, respondem com clareza: «Importa mais obedecer a Deus do que aos homens». E nem o facto de serem flagelados, ultrajados, encarcerados os deteve. Pedro e os Apóstolos anunciam, com coragem e desassombro, aquilo que receberam: o Evangelho de Jesus. E nós? Somos nós capazes de levar a Palavra de Deus aos nossos ambientes de vida? Sabemos falar de Cristo, do que Ele significa para nós, em família, com as pessoas que fazem parte da nossa vida diária? A fé nasce da escuta, e fortalece-se no anúncio.
2. Mas, façamos mais um passo: o anúncio de Pedro e dos Apóstolos não é feito apenas com palavras, mas a fidelidade a Cristo toca a sua vida, que se modifica, recebe uma nova direcção, e é precisamente com a sua vida que dão testemunho da fé e anunciam Cristo. No Evangelho, Jesus pede por três vezes a Pedro que apascente o seu rebanho, e o faça com todo o seu amor, profetizando-lhe: «Quando fores velho, estenderás as mãos e outro te há-de atar o cinto e levará para onde não queres» (Jo 21, 18). Trata-se de uma palavra dirigida primariamente a nós, Pastores: não se pode apascentar o rebanho de Deus, se não se aceita ser conduzido pela vontade de Deus mesmo para onde não queremos, se não estamos prontos a testemunhar Cristo com o dom de nós mesmos, sem reservas nem cálculos, por vezes à custa da nossa própria vida. Mas isto vale para todos: tem-se de anunciar e testemunhar o Evangelho. Cada um deveria interrogar-se: Como testemunho Cristo com a minha fé? Tenho a coragem de Pedro e dos outros Apóstolos para pensar, decidir e viver como cristão, obedecendo a Deus? É certo que o testemunho da fé se reveste de muitas formas, como sucede num grande afresco que apresenta uma grande variedade de cores e tonalidades; todas, porém, são importantes, mesmo aquelas que não sobressaem. No grande desígnio de Deus, cada detalhe é importante, incluindo o teu, o meu pequeno e humilde testemunho, mesmo o testemunho oculto de quem vive a sua fé, com simplicidade, nas suas relações diárias de família, de trabalho, de amizade. Existem os santos de todos os dias, os santos «escondidos», uma espécie de «classe média da santidade» – como dizia um escritor francês –, aquela «classe média da santidade» da qual todos podemos fazer parte. Mas há também, em diversas partes do mundo, quem sofra – como Pedro e os Apóstolos – por causa do Evangelho; há quem dê a própria vida para permanecer fiel a Cristo, com um testemunho que lhe custa o preço do sangue. Recordemo-lo bem todos nós: não se pode anunciar o Evangelho de Jesus sem o testemunho concreto da vida. Quem nos ouve e vê, deve poder ler nas nossas acções aquilo que ouve da nossa boca, e dar glória a Deus! Isto traz-me à mente um conselho que São Francisco de Assis dava aos seus irmãos: Pregai o Evangelho; caso seja necessário, mesmo com as palavras. Pregar com a vida: o testemunho. A incoerência dos fiéis e dos Pastores entre aquilo que dizem e o que fazem, entre a palavra e a maneira de viver mina a credibilidade da Igreja.
3. Mas tudo isto só é possível, se reconhecermos Jesus Cristo; pois foi Ele que nos chamou, nos convidou a seguir o seu caminho, nos escolheu. Só é possível anunciar e dar testemunho, se estivermos unidos a Ele, precisamente como, no texto do Evangelho de hoje, estão ao redor de Jesus ressuscitado Pedro, João e os outros discípulos; vivem uma intimidade diária com Ele, pelo que sabem bem quem é, conhecem-No. O Evangelista sublinha que «nenhum dos discípulos se atrevia a perguntar-Lhe: “Quem és tu?”, porque bem sabiam que era o Senhor» (Jo 21, 12). Está aqui um dado importante para nós: temos de viver num relacionamento intenso com Jesus, numa intimidade tal, feita de diálogo e de vida, que O reconheçamos como «o Senhor». Adorá-Lo! A passagem que ouvimos do Apocalipse, fala-nos da adoração: as miríades de anjos, todas as criaturas, os seres vivos, os anciãos prostram-se em adoração diante do trono de Deus e do Cordeiro imolado, que é Cristo e para quem é dirigido o louvor, a honra e a glória (cf. Ap 5, 11-14). Gostaria que todos se interrogassem: Tu, eu, adoramos o Senhor? Vamos ter com Deus só para pedir, para agradecer, ou vamos até Ele também para O adorar? Mas então que significa adorar a Deus? Significa aprender a estar com Ele, demorar-se em diálogo com Ele, sentindo a sua presença como a mais verdadeira, a melhor, a mais importante de todas. Cada um de nós possui na própria vida, de forma mais ou menos consciente, uma ordem bem definida das coisas que são consideradas mais ou menos importantes. Adorar o Senhor quer dizer dar-Lhe o lugar que Ele deve ter; adorar o Senhor significa afirmar, crer – e não apenas por palavras – que Ele é o único que guia verdadeiramente a nossa vida; adorar o Senhor quer dizer que vivemos na sua presença convencidos de que é o único Deus, o Deus da nossa vida, o Deus da nossa história.
Daqui deriva uma consequência para a nossa vida: despojar-nos dos numerosos ídolos, pequenos ou grandes, que temos e nos quais nos refugiamos, nos quais buscamos e muitas vezes depomos a nossa segurança. São ídolos que frequentemente conservamos bem escondidos; podem ser a ambição, o carreirismo, o gosto do sucesso, o sobressair, a tendência a prevalecer sobre os outros, a pretensão de ser os únicos senhores da nossa vida, qualquer pecado ao qual estamos presos, e muitos outros. Há uma pergunta que eu queria que ressoasse, esta tarde, no coração de cada um de nós e que lhe respondêssemos com sinceridade: Já pensei qual possa ser o ídolo escondido na minha vida que me impede de adorar o Senhor? Adorar é despojarmo-nos dos nossos ídolos, mesmo os mais escondidos, e escolher o Senhor como centro, como via mestra da nossa vida.
Amados irmãos e irmãs, todos os dias o Senhor nos chama a segui-Lo corajosa e fielmente; fez-nos o grande dom de nos escolher como seus discípulos; convida-nos a anunciá-Lo jubilosamente como o Ressuscitado, mas pede-nos para o fazermos, no dia a dia, com a palavra e o testemunho da nossa vida. O Senhor é o único, o único Deus da nossa vida e convida-nos a despojar-nos dos numerosos ídolos e a adorar só a Ele. Anunciar, testemunhar, adorar. Que a bem-aventurada Virgem Maria e o apóstolo Paulo nos ajudem neste caminho e intercedam por nós. Assim seja.


Fonte: Santa Sé

Catequese do Papa: A Ressurreição de Cristo

PAPA FRANCISCO
AUDIÊNCIA GERAL
Praça de São Pedro
Quarta-feira, 10 de Abril de 2013

Estimados irmãos e irmãs
Bom dia!
Na Catequese passada reflectimos sobre o acontecimento da Ressurreição de Jesus, no qual as mulheres desempenharam um papel singular. Hoje, gostaria de meditar acerca do seu alcance salvífico. Que significa a Ressurreição para a nossa vida? E por que motivo, sem ela, a nossa fé é vã? A nossa fé baseia-se na Morte e Ressurreição de Cristo, precisamente como uma casa se apoia sobre os fundamentos: se eles cederem, desaba a casa inteira. Na Cruz, Jesus ofereceu-se a si mesmo carregando sobre si os nossos pecados e descendo até ao abismo da morte, e na Ressurreição derrota-os, elimina-os e abre-nos o caminho a fim de renascermos para uma vida nova. São Pedro expressa-o de maneira sintética no início da sua primeira Carta, como ouvimos: «Bendito seja Deus, Pai de nosso Senhor Jesus Cristo! Na sua grande misericórdia Ele fez-nos renascer pela Ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos, para uma esperança viva, para uma herança incorruptível, incontaminável e imarcescível» (1, 3-4).
O Apóstolo diz-nos que mediante a Ressurreição de Jesus acontece algo absolutamente novo: somos libertados da escravidão do pecado e tornamo-nos filhos de Deus; ou seja, somos gerados para uma vida nova. Quando se realiza isto para nós? No Sacramento do Baptismo. Antigamente, ele era recebido em geral por imersão. Aquele que devia ser baptizado entrava na grande pia do Baptistério, despojando-se das suas roupas, e o Bispo ou o Presbítero derramava três vezes a água sobre a sua cabeça, baptizando-o em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Depois, o baptizado saía da pia revestindo-se com a nova roupa, que era branca: isto é, nascia para uma vida nova, mergulhando na Morte e Ressurreição de Cristo. Tornava-se filho de Deus. Na Carta aos Romanos, São Paulo escreve: vós «recebestes o espírito de adopção, pelo qual clamamos: “Aba! Pai!”» (Rm 8, 15). É precisamente o Espírito recebido no Baptismo que nos ensina e nos impele a dizer a Deus: «Pai!», ou melhor, «Aba!», que significa «papá». O nosso Deus é assim, é um papá para nós. O Espírito Santo realiza em nós esta nova condição de filhos de Deus. E este é o maior dom que recebemos do Mistério pascal de Jesus. E Deus trata-nos como filhos, compreende-nos, perdoa-nos, abraça-nos e ama-nos até quando erramos. Já no Antigo Testamento, o profeta Isaías afirmava que mesmo que uma mãe se esquecesse do filho, Deus nunca se esqueceria de nós, em momento algum (cf. 49, 15). E isto é bonito!
Todavia, esta relação filial com Deus não é como um tesouro que conservamos num canto da nossa vida, mas deve crescer, deve ser alimentada cada dia com a escuta da Palavra de Deus, a oração, a participação nos Sacramentos, especialmente da Penitência e da Eucaristia e com a caridade. Nós podemos viver como filhos! E esta é a nossa dignidade — temos a dignidade de filhos. Devemos comportar-nos como filhos autênticos! Isto quer dizer que cada dia devemos deixar que Cristo nos transforme e nos torne como Ele; significa que devemos procurar viver como cristãos, procurar segui-lo, embora vejamos os nossos limites e as nossas debilidades. A tentação de pôr Deus de lado, para nos colocarmos nós mesmos no centro está sempre à espreita, e a experiência do pecado fere a nossa vida cristã, o nosso ser filhos de Deus. Por isso, devemos ter a coragem da fé, sem nos deixarmos conduzir pela mentalidade que nos diz: «Deus não é útil, não é importante para ti», e assim por diante. É precisamente o contrário: só se nos comportarmos como filhos de Deus, sem nos desencorajarmos por causa das nossas quedas e dos nossos pecados, sentindo-nos amados por Ele, a nossa vida será nova, animada pela serenidade e pela alegria. Deus é a nossa força! Deus é a nossa esperança!
Caros irmãos e irmãs, nós somos os primeiros que devemos ter bem firme em nós esta esperança e dela devemos ser um sinal visível, claro e luminoso para todos. O Senhor ressuscitado é a esperança que nunca esmorece, que não engana (cf. Rm 5, 5). A esperança do Senhor não engana! Quantas vezes na nossa vida as esperanças esmorecem, quantas vezes as expectativas que temos no coração não se realizam! A nossa esperança de cristãos é forte, certa e sólida nesta terra, onde Deus nos chamou a caminhar, e está aberta à eternidade porque se funda em Deus, que é sempre fiel. Não devemos esquecer: Deus é sempre fiel; Deus é sempre fiel para connosco. Ressuscitar com Cristo mediante o Baptismo, com o dom da fé, para uma herança que não se corrompe, nos leve a procurar em maior medida as realidades de Deus, a pensar mais n’Ele, a rezar mais a Ele. Ser cristão não se reduz a seguir mandamentos, mas significa permanecer em Cristo, pensar como Ele, agir como Ele, amar como Ele; significa deixar que Ele tome posse da nossa vida e que a mude, transforme e liberte das trevas do mal e do pecado.
Prezados irmãos e irmãs, a quantos nos perguntarem a razão da nossa esperança (cf. 1 Pd 3, 15), indiquemos Cristo ressuscitado. Indiquemo-lo com o anúncio da Palavra, mas sobretudo com a nossa vida de ressuscitados. Manifestemos a alegria de ser filhos de Deus, a liberdade que nos permite viver em Cristo, que é a verdadeira liberdade, aquela que nos salva da escravidão do mal, do pecado e da morte! Contemplemos a Pátria celeste, e teremos uma luz e força renovadas também no nosso compromisso e nas nossas labutas diárias. É um serviço precioso, o qual devemos prestar a este nosso mundo, que muitas vezes já não consegue elevar o olhar, já não consegue olhar para Deus.


Fonte: Santa Sé